Adriana

Todos têm uma história para contar: a própria história.

A minha história, por ser real poderá ajudar alguém a trilhar o caminho do bem, a ser mais feliz. É por considerá-la útil que eu a narro, sem veleidades literárias, sem pruridos de orgulho.

Nasci numa família de classe média, meu pai era dentista e a minha mãe possuía uma loja de roupas finas, tendo como clientes pessoas da alta sociedade.

Tinha um irmão, eu era a caçula.

Sempre bem arrumadinha, ensinada desde cedo a ter modos impecáveis, era uma menina decorativa, no sentido em que enfeitava qualquer ambiente.

O clima em nossa casa era fútil. As conversas giravam em torno da moda, atividade de minha mãe, ou da estética bucal e seus custos, assunto predileto de meu pai. Grandes acontecimentos na nossa vida familiar eram: o 'novo' automóvel, o 'novo' sofá da sala, a roupa 'nova', enfim, alguma coisa 'nova' que quebrasse a monotonia.

Éramos católicos, íamos à missa para exibirmos nossos trajes, meu irmão mais velho para ver as moças bonitas e também para exteriorizarmos alguma devoção.

Nós nos considerávamos uma família impecável: pagávamos nossas contas no vencimento, não cometíamos gafes, não andávamos fora da moda em nenhum aspecto: da roupa à decoração, do automóvel ao assunto da conversa, em tudo acompanhávamos a 'última'.

Contribuíamos com as iniciativas da Igreja na medida certa: nem pouco para não passarmos por sovinas, nem muito para não dar a impressão de esbanjadores ou exibicionistas.

Meu irmão casou-se com uma boa moça, e meus pais enfrentaram o ônus de uma festa de casamento à altura: nenhum dos clientes de meu pai ou de minha mãe foi esquecido.

Assim os anos se passaram no mar azul de nossa vida fácil.

A mocidade

Terminando o segundo grau (normal), fiz um curso de decoração, integrada que estava ao ambiente em que a beleza, o bom gosto e a comodidade eram os valores fundamentais.

Era apenas uma jovem bonita, não causava sensação, mas, meus modos impecáveis, o bom gosto no vestir, na maquilagem e no cabelo, davam-me algum destaque no meio social.

Apareceram alguns pretendentes, entre eles, um moço pobre e sonhador, dedicadíssimo ao trabalho. Bancário, ia subindo penosamente os degraus profissionais, entrara no banco como 'office boy' e chegara à caixa.

Mas haviam muitos 'porém': era pobre; fazia qualquer trabalho extra que aparecesse nas horas vagas para reforçar a renda familiar: de jardinagem à faxina. Morava na periferia, na sua casa não havia empregada, a mãe fazia pessoalmente os serviços domésticos. Não sabia o paradeiro do pai e, finalmente, o que era pior, por ser absolutamente irremediável, a sua pele morena evidenciava sangue negro em abundância.

Embora essas características que eu achava horríveis, Luiz falou alto ao meu coração. Em contra partida haviam vários outros pretendentes muito mais adequados à condição social e econômica de nossa família.

Resolvi mandar meu coração 'calar a boca', pus a razão à frente dos sentimentos e resolvi tirá-lo de minha vida de forma rápida e objetiva.

Lembro-me de quando respirando firme e sufocando tudo de bom que sentia por aquele homem de bem, expus-lhe a sua pobreza, a falta de classe de sua família, o sangue negro, e portanto, em razão dessas diferenças o nosso relacionamento deveria terminar naquele momento.

Procurasse, ele, uma moça de seu meio que certamente o compreenderia mais do que eu, e que teria melhores condições de fazê-lo feliz.

Ouviu-me calado, com um expressão amarga, e me parecia que cada argumento meu, era para ele uma punhalada penetrando o seu corpo, refletindo-se num movimento inconsciente de dor em boca contraída.

Quando terminei, ele não disse uma palavra, abriu o portão de nossa casa e foi tomar o primeiro dos dois ônibus que o levariam a sua casa.

Pensei comigo na ocasião:

Como poderia um dia me casar e ser obrigada a ir para uma casa na periferia 'de ônibus'?

Confesso que tive dificuldade para dormir uns quinze dias, mas as atividades escolares, os telefonemas de rapazes interessados, fizeram-me esquecer o incidente.

Alguns desses jovens estimulavam minha sensibilidade, a outros achava bonitos e sentia-me envaidecida por tê-los ao meu lado e poder exibi-los para as amigas. Havia ainda, aqueles que prometendo um sólido futuro financeiro, acenavam-me com segurança e conforto.

Mas se me cortejavam, davam a entender que não almejavam nada mais duradouro. Eu era, para quase todos, um brinquedo bonito, divertido por algumas semanas, mas tedioso após alguns poucos meses.

Terminei o curso, solteira aos 24 anos.

Crise

Nessa época o casamento do meu irmão naufragou. Sua esposa apaixonou-se por outro homem e foi embora da cidade, construir novo lar, levando meus sobrinhos.

Meu irmão ficou completamente desarvorado, entregou-se a uma vida dissoluta e à bebida.

O resto da família, eu e meus pais, de início fizemos o que sabíamos: ficamos envergonhadíssimos com tudo aquilo. Mudávamos educadamente de assunto quando éramos questionados por algum conhecido. Numa segunda etapa, a saudade das crianças foi crescendo e passou a doer bastante, principalmente para meu pai que percebeu o quanto era afeiçoado aos netos.

Com o correr do tempo a situação psicológica do meu irmão foi se agravando, passou a recorrer a drogas mais pesadas e finalmente morreu por overdose.

Aquele fato foi como um vaso de fina porcelana caindo da mesa e se espatifando no chão. O vaso de porcelana era a nossa vida fútil, o tampo da mesa, as aparências onde nós nos apoiávamos e o chão duro, a realidade da vida, da qual mantivéramos uma prudente distância.

Dois ou três dias após o falecimento de meu irmão, uma tia afastada, com a qual não mantínhamos relações por ser pessoa de mau gosto, sempre mal vestida e com conversas um tanto malucas, telefonou-me: era espírita e queria ajudar-nos, através das consolações e esclarecimentos que a crença numa vida além da morte proporcionam. Falou-me, inclusive, sobre reincarnação, perdão e prece.

No começo a ouvi educadamente, tratando-a com bons modos, mas a uma dada altura, quando me convidou a visitar a casa espírita que frequentava, tive um pequeno descontrole e disse-lhe com franqueza:

A senhora age de forma insana. Está se aproveitando do nosso momento de dor e luto para tentar vender suas ideias malucas, e essas instituições que só sabem enganar pessoas ignorantes.

Ela silenciou do outro lado da linha e depois murmurou:

Desculpe-me. Boa tarde. E desligou o telefone.

Comentei o fato com minha mãe, que me achou muito branda, pois se fosse ela teria sido muito mais contundente, e rapidamente esqueci o episódio.

Refeitos do primeiro choque, buscamos a culpada, naturalmente, a minha ex-cunhada, mas não havia como atingi-la segundo a lei humana e descarregar a nossa revolta.

Nós não sabíamos lidar com coisas como dor, revolta, mágoa, dificuldades, humilhações. A nossa fé era aparente, nossos valores bolhas de sabão que estouravam ao menor toque.

A partir desse fato – a morte de meu irmão – a nossa vida seguiu como um automóvel, que descendo uma serra em noite de chuva, perde o freio e segue desgovernado, estrada abaixo, cada vez mais rápido.

Nesse conjunto de desequilíbrios, meu pai, sempre amigo da boa mesa, em virtude do estresse e do desequilíbrio emocional, teve seu primeiro infarto, que consumiu nossas economias e alguns imóveis (valemo-nos exclusivamente de médicos e hospitais particulares), e derrubou a renda de meu pai a zero, fechando o consultório por quase um ano, pois naquele tempo as técnicas de cirurgia cardíaca eram ainda embrionárias.

Quando voltou a sua atividade de dentista, a maioria da clientela havia debandado. Recusando-nos a diminuir o padrão de vida, entramos fundo no caixa da loja, que não suportou a evasão de recursos, e aproximou-se perigosamente da falência. Não conseguindo renovar coleções, nem pagar fornecedores e funcionários, a loja precipitou-se em franca decadência. A clientela da minha mãe também foi embora, em sua maior parte.

A situação financeira ficou ainda mais difícil. Os velhos hábitos de conforto tornaram-se impossíveis.

A nossa vida mudava demasiado rápida, e nós não conseguíamos adaptar-nos às mudanças na velocidade em que elas ocorriam. Era como se estivéssemos atravessando um terremoto interminável, onde tudo o que fora nosso apoio ruísse fragorosamente.

Nessa confusão, vendemos os nossos automóveis, e o dinheiro curto me impedia de andar de táxi e acabei andando frequentemente de ônibus.

Um Homem Bom

Aceitei um abençoado estágio como design num fábrica de móveis, que poderia, ao se transformar em emprego, ser a única fonte de renda estável que vislumbrava.

O contato com os operários e gerentes, no início, foi penoso, mas fui descobrindo o gosto pelo trabalho e aprendendo coisas importantes com aquela gente simples, como por exemplo: solidariedade, humildade, coragem face à vida.

Um dia ao voltar para casa, eis que surpresa, observei Luiz, o antigo 'flerte', entrar no ônibus em que estava.

Ele me olhou, me reconheceu, mas ficou aguardando uma reação minha.

Inicialmente fingi não vê-lo, mas repentinamente uma emoção estranha tomou conta de mim, e me vi, dirigindo-me até ele, como se eu fosse outra pessoa e dizendo-lhe:

Que bom vê-lo.

Segurei no seu braço e as lágrimas começaram a correr pelo meu rosto.

Ele me abraçou suavemente e disse-me:

Vamos descer e conversar.

Andamos um pouco, paramos numa pequena praça e ali, num banco de jardim, consegui ser eu mesma, contando e chorando.

Ouviu-me terno, atento e silencioso. Ao fim começou a falar:

Vivemos muitas vidas...

E falou-me longamente da imortalidade, do amor de Deus, da reincarnação As ideias que ia desfilando, ora pareciam incompreensíveis, ora estranhas, algumas eram como breves clarões iluminando a noite da minha vida confusa e desnorteada. No entanto, sua voz era reconfortante, como uma sopa grossa e quente para um faminto, e após tantos meses de instabilidade, eu tinha agora, alguma coisa sólida na qual me segurar.

Ficamos umas duas horas naquela praça, depois tomamos o ônibus novamente e fui para casa. Uma esperança brilhava na noite escura.

Dias depois, encontramo-nos novamente e ele me conduziu para um pequenino núcleo espírita onde participei de uma reunião. Ele adquiriu o "Evangelho Segundo O Espiritismo" e me presenteou, recomendando-me que o lesse todos os dias.

Conversei com meus pais, explicando a necessidade de ter alguém ao nosso lado que tivesse experiência das lutas da vida. Não concordaram muito com meus argumentos, mas o aceitaram e ele passou a vir assiduamente a nossa casa.

Foi um encontro providencial, pois, após três meses, meu pai sucumbiria a um segundo infarto. Graças às conversas com Luiz, partiu, não ignorando de todo as realidades além da vida, e minha mãe certamente teria enlouquecido com mais esse golpe, se não fosse o conhecimento que adquirira, ainda que rudimentar, da doutrina espírita.

***

Luiz era muito sensato em questões de dinheiro, no banco já tinha ascendido a tesoureiro da agência. Graças a seus prudentes conselhos conseguimos pagar os credores e salvar a nossa casa, que alugada, garantiria alguma renda a minha mãe até o fim de seus dias.

Dois anos depois, casávamos.

Fomos morar numa casa da periferia, e eu todas as tardes saía do trabalho e voltava alegre, de ônibus, para a nossa casinha, encontrar-me com o meu marido e nossos filhinhos que iam chegando e se transformando na maior motivação da minha vida, eram minha alegria, mas parei no terceiro.

Luiz foi subindo no banco, compramos o nosso primeiro carrinho, e eu acabei deixando o trabalho para cuidar das crianças, visto que não tive o mesmo sucesso profissional que ele.

Foram quinze anos, de muita luta e de muito trabalho: trabalho profissional, doméstico e espiritual. Semanalmente comparecíamos ao núcleo espírita, onde eu dava passes e Luiz cuidava de atividades de assistência e participava também do plantão de orientações. E no meio de tudo isso as gestações, dinheiro curto, e os filhos nascendo.

A volta ao mundo espiritual

Um câncer de estômago foi minha passagem de volta. Morri cercada pelos meus, num ambiente de muito amor e não me lembro de ninguém tendo mágoas a meu respeito. Minha tia espírita, que ficou muito minha amiga, deu todo apoio durante a enfermidade. Morri tendo-a a meu lado, aplicando-me passes e orando junto ao meu marido e aos meus filhos, para que eu tivesse um desligamento mais fácil e pudesse enfrentar a nova vida com bom ânimo.

Embora meus deslizes da mocidade, não foi necessário passar pelo umbral, despertei no hospital 'Jesus - Médico Divino', próximo à crosta. Alguns dias após, fui apresentada ao diretor: doutor João Fernandes.

Luiz casou-se novamente e é feliz no segundo casamento. Sua esposa trata os meus filhos como se fossem dela, sou-lhe muito grata e creio que meus familiares guardam boas recordações a meu respeito.

Tenho bastante atividade aqui no mundo espiritual, sou uma das mais de 300 atendentes de enfermagem da equipe do doutor João Fernandes. Embora fixada nos quadros do hospital, atuo em várias casas espíritas, fazendo o atendimento a um dado enfermo desde os primeiros socorros até à convalescença; pois consideramos mais eficiente, ir trocando de posto, sempre junto ao mesmo enfermo, do que o doente espiritual, ao se deslocar pelos diversos serviços do hospital ir trocando de enfermeiros.

Trabalho bastante, amo o meu serviço, e tenho feito muitos amigos, tanto entre os companheiros da equipe, quanto entre os doentes.

Terminado o tratamento é comum misturar a alegria da cura, à gratidão a Deus e também à choradeira pela separação, pois o contato será menor, tendo que cada um dedicar-se aos seus compromissos. Mas esse lado do adeus é amenizado pela frequência com que recebo visitas de ex-pacientes, e também pelo prazer de visitá-los.

***

Hoje, foi sugerido que contasse a minha história, e deixo aqui meu testemunho com grande alegria.

Tenho o prazer de conhecer a maioria dos encarnados que participam do Lar de Maria e Jeremias. Já atendi vários com meus modestos serviços, sob as ordens dos médicos da casa e com o amparo de Jesus e de Maria.

Não menciono nomes, pois não me perdoaria a indelicadeza de deixar alguém esquecido.

Desejo a todos do Lar de Maria e Jeremias muita felicidade, muito empenho nas suas tarefas, muitas bênçãos do céus, reafirmando que é muito gratificante trabalhar às sextas nessa casa espírita, e que gosto de todos que aqui vêm.

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