Cida

A menininha negra, com uns 4 ou 6 meses ardia em febre no berço de segunda ou terceira mão, evidenciado pelos riscos profundos e pela cor rosa empalidecida.

O pai e mãe esforçavam-se para manter a boa aparência, embora as roupas baratas, o tênis e a sandália velha, a camiseta de propaganda, a despensa quase vazia, dissessem:

–Dinheiro curto!

Os dois, de mãos dadas, olhavam à criança com grande ternura. No semblante, os campos da juventude já estavam vincados pelos traços do sofrimento, e seus rostos se envolviam numa tristeza profunda e resignada.

Ele desempregado já há quatro meses, ela, heroica e determinada, conseguindo aqui e ali serviços de faxineira.

Contrastando com o ambiente material, no plano espiritual, doce claridade iluminava o cômodo, luzes róseas e douradas uniam o casal à menininha. Resumindo o contraste: olhando por um lado: uma família pequena e pobre num “cômodo e cozinha” da periferia; vendo por outro ângulo: três espíritos reunidos e iluminados pelos tesouros do amor.

Jovens, Cida, 23 e Émerson, 22, ela um pouco mais velha que ele, aquela união tinha a benção de Deus. E a filha, fruto daquele amor sensato e temperado na luta, completava o quadro de segurança e estabilidade, reforçando seus ideais de vida.

Uma velhinha desencarnada se encontrava a um canto do quarto, e pela semelhança com a jovem mulata, seria facilmente identificada como sua avó, Antônia, falecida há 15 anos.

Antônia que havia acolhido a mãe de Cida quando grávida, e que enchia o coração de ternura ao ver a barriga da filha, abandonada logo após uma paixão fugaz, velara por ela e pela neta, durante seis anos, enquanto na carne.

Falecida de pneumonia, passados dois anos de readaptação no plano espiritual, voltara à terra como protetora da família. Com a fronte levantada e os olhos fechados, orava pedindo auxílio para a bisneta.

Repentinamente, a luz espiritual começou a aumentar no quarto, como nessas madrugadas de abril, quando o céu está limpo. Um benfeitor espiritual, no esplendor de seu extenso currículo no bem, através das atividades médicas, se tornou presente naquele lar, secundado por dois assistentes.

Antônia levantou-se, beijou discretamente as mãos do médico, abraçou os dois assistentes, e formulou um pensamento que espoucou no pequeno quarto como um flash de luz e que continuou brilhando como uma luz tênue por mais de uma hora. O pensamento traduzido em palavras daria origem à seguinte frase:

–Louvada seja minha Mãe Santíssima!

O médico e os assistentes puseram-se imediatamente a trabalhar no organismo da mãe: dirigiram sua atenção aos seios, estimulando as glândulas mamárias. Ao leite que foi se formando acrescentaram diversos medicamentos trazidos do plano espiritual e potencializados pelo amor materno.

A seguir provocaram um chorinho na criança. A avó inspirou Cida a oferecer o seio a filhinha.

A menininha sugou o leite com vontade por alguns minutos.

Para nós que assistíamos à cena, a menininha não bebia apenas o leite que quase desaparecia no meio de uma substância luminosa, irradiando sua luz rósea e transparente.

O casal depois de amamentada a criança, dirigiu-se ao leito, orou um pai nosso e uma ave Maria.

Todos nós, espíritos, ali presentes choramos de emoção.

Um dos assistentes ficou ali de plantão com a avó.

Passes balsâmicos foram dados no jovem casal que adormecera de mãos dadas, completamente vestidos, mas com uma expressão de paz.

O dia seguinte

Bem cedinho acordaram.

Levantaram-se, foram ver a menina.

A febre havia passado e ela dormia placidamente.

Novamente, aquele intenso círculo luminoso cor de rosa envolveu os pais agradecidos e a menina no leito. A avozinha desencarnada abraçou e beijou os três.

O assistente que havia ficado de plantão, aproveitou o ensejo para despedir-se da avó e fazer algumas recomendações. Passaria por ali à tarde para ver como estava a paciente.

Nós também consideramos que era hora de partir. Procuramos firmar na memória todas os detalhes das cenas da noite no setor das boas lembranças.

Fica a sugestão: reflitamos sobre a vida, sobre a esperança, sobre a fé e principalmente sobre o amor.

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