Giovana

O relevo é algo íngreme, porém as altitudes moderadas não favorecem o gelo nem a neve, geograficamente a região se encontra na península Itálica meridional a menos de 200 milhas do calcanhar da “bota”.

Março chega ao fim naquele ano de 1718, flores azuis e brancas povoam o campo.

Giovanna caminhava pela estrada estreita em direção a pequena aldeia que se acomoda no vale, próxima ao rio que corre encachoeirado na região serrana.

Giovanna é uma camponesa, sua família habita alguns acres de terra onde plantam cereais e parreiras; criam vacas, galinhas e porcos; fabricam queijo, linguiça, salame e um pouco de vinho.

Toda quarta-feira Giovanna e seus dois irmãos montam pequena tenda na aldeia para venda dos produtos da família; na semana anterior, Fausto aparecera para comprar um queijo, dera um jeito de ser atendido por ela, e dissera-lhe um tanto constrangido:

Encontre-me na saída da missa no próximo domingo...

A higiene é escassa na família, mas Giovanna pôs sua melhor roupa após o banho, calçou seu par de tamancos para passeio, perfumou-se com essências de ervas que ela mesma preparou.

Se Giovanna não é linda, é pelo menos uma bonita e saudável camponesa, no viço dos seus 23 anos, com o corpo bem formado e torneado pelos exercícios que os trabalhos árduos do campo exigem; uma sensualidade leve e discreta a torna mais atraente.

Caminha rápida, quase correndo, pois calcula pela altura do Sol e pelo tempo transcorrido desde o último toque do sino, que chegará a igreja em cima da hora; suas maçãs do rosto estão rosadas e seus cabelos castanhos claros presos numa touca de cores estampadas e vivas dão-lhe um toque de energia e alegria.

Giovanna não sabe ler, escrever ou calcular, porém é inteligente e ajuda bastante na venda dos produtos, tem facilidade para regatear com os fregueses e conseguir um preço melhor; sabe fazer bons queijos; domina todo o processo de fabricação da linguiça, desde escolher e matar o porco, preparar a carne ate encher as tripas e defumar.

Está satisfeita consigo mesma; no ambiente em que vive considera-se bem situada na sua classe social; o que lhe falta é um homem, que lhe proporcione uma casinha, alguns acres de terra, animais domésticos e filhos para cuidar; seguir o caminho trilhado pela mãe e pela avó é o que mais almeja.

Quem sabe Fausto não será a resposta para tudo que deseja? É um homem, embora já próximo dos 40, está forte e disponível; foi casado, teve dois filhos, mas a mulher morreu no parto junto com o segundo filho; o pobrezinho do irmão mais velho, sem mãe que zelasse por ele, foi levado pela morte depois de uma tosse persistente; na aldeia comentavam que o menino morreu de tristeza.

Fausto dispõe de alguns acres de terra, uma casinha, plantações e algumas cabeças de gado.

Embora a conversa rápida, na compra do queijo, Giovanna percebeu os seus olhares e imaginou a sua avaliação: “uma mulher jovem, forte para o trabalho, bonita o suficiente para fazê-lo esquecer, nas noites quentes ou frias, as amarguras da vida; mas não tão bonita que atice a cobiça dos vizinhos; capaz de lhe dar filhos que o ajudem na velhice; uma aparência honesta que inspira confiança”.

Chegando a Igreja quase no início da missa, ficou no fundo, de cabeça baixa, que cobriu com um pano branco rendado, como é decente para uma moça pobre, junto com as demais mulheres; os homens ficavam do outro lado, separados.

As pessoas ricas se misturavam, homens lado a lado com mulheres; mulheres casadas trocando olhares, com homens casados que não eram seus maridos, de maneira displicente; mas os ricos podiam agir assim, afinal não precisavam prestar contas a ninguém, nem a Deus; podiam comprar indulgências plenas e mandar celebrar centenas de missas quando morriam, o que certamente os livraria do inferno; mas os pobres para serem decentes tinham que “se por no seu lugar”; um pobre valia bem pouco, se fosse mulher menos ainda, se, além disso, fosse desavergonhada não valeria absolutamente nada.

Giovanna viu Fausto do outro lado que retribuiu seu olhar com um sorriso de satisfação; sentiu um calor no peito que subiu para o rosto e tornou suas faces mais rosadas, o que a deixou encabulada.

Durante a missa nada entendeu pois era falada em latim, mas as estátuas e as pinturas com cenas de santos em sofrimento e de Jesus vertendo sangue numa cruz trouxe-lhe um sentimento de devoção, eles eram pobres e sofriam como os pobres, não olhavam para a terra e sim para o céu. Deus e Nossa Senhora não lhe inspiravam simpatia; Deus, “O Padre Eterno”, por ser um velho sentado num trono, com uma expressão assustadora, dando ordens, a semelhança dos bispos, que eram homens impiedosos; Nossa Senhora por estar vestida ricamente; como aquela mulher rica poderia estar serena, sem nada fazer, com seu filho ali a dois passos pregado numa cruz?

Terminada a missa, saiu para a pequena praça:

Fausto aproximou-se:

Bom dia! Como vai?

Bem e o senhor?

Como Deus quer...

Depois de alguns segundos algo constrangedores, Fausto tomou a novamente a iniciativa:

O queijo embora caro estava muito saboroso...

Fui eu que o fiz...

A expressão afirmativa e algo vaidosa de Giovanna, se traduziu na mente de Fausto como uma estrada aberta, ele aprovava, ela aprovava, estava no caminho certo, o momento exigia decisão:

Vamos para sua casa, quero falar com seu pai, disse-lhe que iria vê-lo qualquer dia...

Giovanna com um gesto de cabeça concordou, ou melhor, obedeceu; “uma mulher decente será sempre submissa e obedecerá ao homem”; era uma boa filha, obedecia ao pai e não respondia aos seus insultos de mau humor, nem mesmo às suas grosserias quando tomava vinho a mais; queria ser uma esposa decente obedecendo ao marido e também não lhe responderia, mesmo quando a insultasse.

Giovanna percebeu que passara nos testes, sabia fazer queijos saborosos e vendê-los a bom preço, conversava de forma afirmativa sem ser oferecida, estava bem vestida, perfumada e era submissa; que mais um homem poderia desejar?

Dirigiam-se pela estradinha que serpenteava ao lado das colinas; trocaram poucas e banais palavras.

Giovanna mostrava-se muito cautelosa; mantinham-se lado a lado mas na distância máxima que a largura da estrada permitia; Giovanna refletia: “o que uma mulher pobre tem a oferecer a um homem além do seu corpo virgem? De si mesma era a única coisa que podia dar; perdida a virgindade, lhe restaria apenas a solidão e o futuro incerto e de sofrimento, oferecendo-se em tabernas a homens embriagados e todos virando-lhe o rosto quando passasse pelas ruas. Com as mulheres ricas era diferente, tinham dotes vultuosos e eram disputadas por inúmeros pretendentes; quem se importaria se eram bonitas ou feias, virgens ou não, se tinham tanto a oferecer?”

Fausto por seu lado, via aquele encontro como um negócio importante: seu raciocínio trabalhava da mesma forma que quando comprava uma vaca: examinar bem o animal, verificar o custo e compará-lo com o resultado da produção leiteira e da venda dos futuros bezerros; reforçar a sua reputação de homem honesto para que o vendedor não aumentasse o preço para compensar o risco de um recebimento duvidoso.

O sol mostrava-se forte, a paisagem bela; o corpo jovem e saudável estimulado pelo andar rápido, em largas passadas, a tornava levemente ofegante; o esforço físico reforçava uma sensação de bem estar; tudo isso transformou-se num riso, que cresceu pelo acanhamento de ir para casa ao lado de um homem.

Chegaram a casinha onde morava a família de Giovanna; o pai, Giovanno (o nome da filha tinha sido uma homenagem ao pai) estava sentado num banco, do lado de fora, abrigado do sol sob o beiral que formava uma pequena varanda.

Fausto separou-se de Giovanna que entrou e dirigiu-se ao pai cumprimentando:

Bom dia Giovanno, disse que viria qualquer dia e vim; como está?

Bem, e veio acompanhado...

É verdade; mas prefiro falar-lhe em particular...

Vamos até aquela árvore e tomemos um caneca de vinho... Giovanno entrou na casa, pegou uma garrafa, duas canecas e saiu.

Sentaram-se num tronco caído embaixo da árvore frutífera, Fausto tomou a iniciativa:

Quero casar-me com sua filha e desejo saber o que você pode me oferecer, já que pretendo tirar de suas costas parte dos seus encargos de família.

Giovanna me serve bem; a terra é pequena mas o trabalho é muito; cuida dos animais, cozinha como ninguém e é uma boa vendedora no mercado; se eu cedê-la a você, não sei o que vou fazer para substituir seu trabalho; o casamento de Giovanna me trará muito prejuízo. A riqueza de um homem são seus filhos e Giovanna vale mais que um filho homem.

Fausto percebeu que Giovanno havia invertido a situação, e iria querer vender a filha, que considerava muito melhor negócio que comprar um genro. Mas não podia entregar assim os pontos, devia lutar até o fim, para preservar sua imagem de homem inteligente.

Eu sei que você gosta dela; basta ver como está bem tratada; eu continuarei tratando bem dela; alimentado, vestindo, de vez em quando comprando um mimo, e depois cuidando dos seus netos; tudo isso custa; custa para você e custará para mim.

No caso de Giovanna, não. Ela não dá despesa, ela dá lucro; o dinheiro que você ganhará com o trabalho dela é mais do que você vai gastar, tratando dela; eu gosto muito de crianças, mas, veja bem, antes de serem meu netos, serão seus filhos; onde na aldeia você achará uma mulher formosa como ela?– disse com um sorriso maroto e prosseguiu – sou eu que tenho de ganhar um dote por lhe dar uma moça decente, religiosa, com saúde e trabalhadora; Giovanna fará qualquer homem feliz: feliz na cama, feliz na mesa, feliz no bolso.

Fausto percebeu que não tiraria nada do velho, que aquela conversa estava quebrando seu entusiasmo, e sentiu que estava fazendo alguma coisa errada, como quando deixava seu filho pequeno na casa sem cuidados; uma expressão de angustia e contrariedade passou rapidamente pelo seu semblante e resolveu encerrar a questão.

Pois seja, quero ser amigo do meu sogro, dou-lhe o meu novilho de dois anos, será um excelente boi para puxar um arado e é manso como um cachorro; além disso não vou; para casar e ficar na miséria, prefiro ficar viúvo.

Eh, homem não precisa fazer essa cara, como se estivesse sendo esfolado; a mãe do bezerro seria bem melhor, porque o que você está me dando é um bezerro, não um novilho; mas não sou um homem mesquinho e o que mais quero é que a minha filha seja feliz e tenha um bom marido; pode marcar o casamento; o padre, as comidas e bebidas você paga; a casa eu cedo, e meu filho Giuseppe anima a festa cantando e tocando guitarra; pode convidar quem você quiser, da minha parte só convidarei meu irmão Antônio. Agora tome mais um gole de vinho e me dê um abraço já que seremos parentes.

Abraçaram-se e foram para casa, para uma pequena refeição.

Giovanna que espiava pela fresta da porta, entendeu que chegaram a um acordo e disse a mãe baixinho:

Vou me casar...

Giovanno entrou na casa falando alto:

Nossa Giovanna, nossa filha vai sair dessa casa; perdemos uma filha no entanto ganhos um filho, e dirigindo-se aos outros filhos:

Esse é Fausto, seu novo irmão.

Recém Casados

Giovanna ficou grávida logo após o casamento, sua barriga vai crescendo, mora com Fausto; aparentemente pouca coisa mudou: o mesmo trabalho pesado, a mesma vida pobre, porém Fausto se afeiçoou a ela; se não é um marido apaixonado, pelo menos a trata bem, gritos e insultos são muito raros, Fausto não bebe e trabalha bastante, com novo entusiasmo.

O preço do arrendamento é alto, as terras são pobres, mais da metade do que conseguem vai para o bispado que é o dono de quase todas as terras que cercam a aldeia.

A gravidez mexeu muito com a sensibilidade de Giovanna, chora à-toa e sem motivo; está cheia de esperança com a futura criança, sonha com uma menina, e sonha não apenas acordada mas sonha também dormindo, uma menina boa e inteligente que gostará dela e do pai.

As vezes quando acaricia o próprio ventre uma ternura imensa a invade e seu coração parece que vai explodir; a criança nascerá no inverno, na casinha há uma pequena roca de fiar; pediu e Fausto lhe deu um saco de lã, que vai se transformando em novelos, que se transformam em sapatinhos e casacos; enquanto fia ou tece, cantarola; Fausto gosta de ouvi-la cantar enquanto ele fuma o seu cachimbo; quando ela para, ele pede:

Cante mais!

Há algumas semanas atrás pediu que Giuseppe viesse até sua casa, passar alguns dias com ela e lhe ensinasse algumas canções; temia que seu pequeno repertório acabasse por entediar o marido; Fausto sentiu-se sobremodo envaidecido pela iniciativa da esposa em agradá-lo e isso foi um elo a mais entre os dois; confessou, inclusive, quando ela lhe disse o motivo do convite ao irmão:

Você foi a única pessoa depois da minha falecida mãe que demonstrou amor por mim. Ninguém neste mundo, fora você, se importa se estou vivo ou morto, triste ou alegre; Você vale cem vezes mais que o novilho que dei a seu pai.

Ela simplesmente olhou para ele, levantou-se da roca, ajeitou o fogo onde preparava um chá, e cantou com a alma exposta, uma canção que aprendera e que Fausto ainda não conhecia.

Quando acabou a canção, Fausto a tomou pela mão e dirigiu-se a cama com um lacônico:

Venha!

Falavam pouco, tinham uma vida dura, mas estavam contentes com a nova vida de casados que lhes parecia bem melhor que a de solteiros.

Os meses se passaram...

Noite alta Giovanna acordou com a cama molhada, de início pensou que havia urinado, mas logo começaram as contrações; Fausto dormia como uma pedra; Giovanna precisou chocalhá-lo várias vezes para acordá-lo:

Desperta, acho que vai nascer!

Vou procurar auxílio, procurar dona Paola, em uma hora ela estará aqui...

Não, fique comigo, não quero ficar sozinha, pelo que aprendi estará nascendo antes disso...

Que faço?

É a mesma coisa de quando nasce um bezerro...

Mas as vacas fazem tudo sozinhas, e se morre uma vaca, o prejuízo e grande, mas a gente sobrevive; você é uma mulher, as mulheres precisam de uma parteira, e se você morrer estou perdido...

Você será o parteiro, não há mais tempo, pelo amor de Deus fique comigo, disse Giovanna chorando...

A Parteira

Giovanna deitada de costas esforçava-se premida pelo instinto natural em dar à luz seu filho; Giovanna que acompanhara a mãe no nascimento de seus irmão mais novos, orientou o marido:

Quando surgir a cabeça puxe com cuidado que o resto vem junto.

Fausto replicou:

Por Deus, o que está saindo é sangue, sangue vivo e quente!

Imediatamente veio-lhe a cabeça seu primeiro casamento e a morte da esposa na segunda gestação, junto com o bebê; um frio terrível começou a assolá-lo, concentrando-se no seu estômago.

Repentinamente apareceu no quarto uma senhora, de cabelos grisalhos, vestida com simplicidade:

Ah, esses homens... Vamos mexa-se, esquente um pouco d'água para depois lavarmos mais esta pobrezinha que vem ao mundo...

Quem é a senhora? Perguntou Fausto surpreendido

Meu nome é Madalena, sou parteira e aqui estou para trazer uma criança ao mundo...

Mas eu não a conheço, observou Giovanna.

Mas eu a conheço, vendendo seus queijos no mercado... Mas não estou aqui para tagarelar, que você faz aí sentado, Fausto, ande homem, Quanto a você Giovanna, vamos ver como anda isso...

Acomodou melhor Giovanna na cama, apoiando-lhe firmemente os pés na madeira que ficava aos pés da cama; curiosamente começou a massagear delicadamente a barriga com a mão direita enquanto punha a esquerda sobre a testa da parturiente.

Pensa em Jesus, minha filha e reze um pai nosso... não, não pense na imagem daquele velho que você vê na igreja da aldeia e que lhe provoca medo, pense nos campos floridos, no sol e na chuva que Ele criou; pense nas animaizinhos do campo que sobrevivem, nos pássaros silvestres a quem Ele dá o alimento; esse Deus cuja vontade tudo movimenta e que um dia estabelecerá o seu reino na Terra, onde todos serão irmãos, cada um querendo o bem dos demais. Esse Deus que tem dado a você o pão, todos os dias, e que hoje lhe dá uma filha. Esse Deus que a perdoa, mas que quer que você perdoe por sua vez a todos; esse Deus que livra você do mal, ajudando-a a não fazer coisas erradas...

Após esses movimentos a criança começou a nascer conduzida pelas mãos de Madalena; amarrado o cordão umbilical, separada a placenta, a estranha parteira lavou a menininha com a água que já estava morna. A seguir disse-lhes:

Cuidem bem dessa menina que Deus lhes deu, sejam bons pais, deem-lhe amor e bons exemplos.

E saiu rapidamente pela porta.

Fausto recobrou-se da surpresa daquela despedida rápida e correu até a porta da casinha, gritando:

Senhora, senhora, espere! Quanto lhe devo?

Mas Madalena havia desaparecido na noite. Fausto assustou-se:

Ela desapareceu na escuridão, não lembro de ter deixado a porta aberta; como ela entrou? De onde veio?

Giovanna falou emocionada, derramando lágrimas pela face:

Só pode ser uma santa, deve ser Santa Madalena, que cuidava dos doentes pobres e saiu do céu para vir até a nossa casinha nos ajudar, somos pobres e eu não estava bem, antes dela chegar, saindo aquele sangue grosso, eu achei que ia morrer.

Você não está percebendo como o ar da nossa casinha está diferente, perfumado até?

Você tem razão, ela era uma santa, mas não vamos abrir a boca...

Vamos por na criança o nome de Madalena...

E eu vou comprar um oratório e uma imagem de Santa Madalena e pendurar no canto da casa.

Cuidado, ninguém deve saber disso, se chegar no Bispo, estamos fritos, diga que sua devoção vem do seu bisavô, que já morreu há mais de 20 anos e de quem ninguém se lembra mais...

Conversaram mais um pouco, Giovanna estendeu o seio a pequenina, que absorveu o colostro.

Depois dormiram; contrariando todos os seus hábitos no dia seguinte acordaram tarde...

O que importa?

Contei essa história que se passou comigo, eu era o Fausto, há tanto anos, porque as vezes a gente se questiona: o que uma encarnação como essa proporciona? Não houveram lances mais relevantes no campo da fé, das artes, uma vida anônima sem nada de marcante, dissolvida na multidão dos obscuros, a exceção do curioso fenômeno de agênere1, descrito por Kardec no livro dos médiuns, corrido no nascimento de Madalena, porque foi uma coisa boa e interessante que nos aconteceu, reafirmando a fé num ambiente de sentimentos religiosos tão engessados pela ignorância e pelo preconceito; o progresso intelectual foi mínimo, obras beneméritas ausentes, resgates importantes também não houveram.

Mas para mim e para a minha querida Giovanna esta encarnação foi muito importante, pois nela se consolidou o vínculo do amor na esfera conjugal; como nesta vida onde convivemos cerca de quarenta e cinco anos, vivendo numa árida pobreza, sem expectativas de nenhuma ordem, aprendemos a valorizar um ao outro, que era a única coisa que tínhamos.

O foco da encarnação se fechou sobre nós dois, era o que havia para sentir e pensar e por todos esses anos mergulhamos um no outro; deixamos de ser cada um, para aprendermos a ser um par.

E esse profundo amor que nasceu entre nós é um patrimônio que nos tem sido muito valioso; dado muitos frutos nas nossa experiências; evitado fracassos nas duras provações que temos enfrentado no setor da "ingratidão dos filhos e os laços de família".

A bondade de Deus permitiu que tivéssemos novas encarnações como marido e mulher, nas mais diversas circunstâncias.

Como estamos sentindo a vantagem dessas experiências, submetemos à misericórdia divina o pedido de que possamos estar juntos por mais mil anos, no papel de cônjuges e, eventualmente de irmãos, para pormos limites a atração sexual, porém sem nos relacionarmos sexualmente com outros parceiros.

Fica aqui o meu testemunho da riqueza de oportunidades de progresso que enseja o vínculo conjugal e a minha prece para que nos esforcemos na busca da felicidade através do amor em todas as oportunidades que a vida nos oferece.

1Livro dos médiuns – Cap. VII – Item 125 — Resta-nos falar do singular fenômeno dos agêneres que, por muito extraordinário que pareça à primeira vista, não é mais sobrenatural do que os outros. Porém, como o explicamos na Revue Spirite (fevereiro de 1859), julgamos inútil tratar dele aqui pormenorizadamente. Diremos tão-somente que é uma variedade da aparição tangível. E o estado de certos Espíritos que podem revestir momentaneamente as formas de uma pessoa viva, ao ponto de causar completa ilusão. (Do grego a privativo, e geine, geinomaï, gerar: que não foi gerado.)

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