Lúcia

Volutas de fumaça branca evolavam-se da indústria em chamas.

Augusto Silva, principal sócio, observava o incêndio na calçada oposta.

O suor de trinta anos de trabalho, transformava-se, literalmente, em fumaça.

Os bombeiros trabalhavam para que o incêndio não se propagasse aos prédios vizinhos, já que face à Gráfica Silva, não havia mais nada a fazer.

No último ano, os negócios da Gráfica Silva não foram bem. Os prejuízos e os atrasos a fornecedores tornaram o crédito escasso, mas Augusto tinha conseguido contornar a crise, trabalhando em dobro, mostrando determinação e coragem, pulando de banco em banco, vez por outra recorrendo a algum agiota.

Lembrava-se, claramente, de quando o encarregado do contas a pagar lhe apresentara a relação de pagamentos da semana passada para que ele decidisse o que pagar e o que atrasar. Visto o dinheiro curto, e a improbabilidade de um incêndio, anotara com sua letra firme à frente do pagamento da apólice de seguro: “+ 20 dias”.

O incêndio, portanto, era o golpe de misericórdia na empresa já combalida. Nada mais havia a fazer, estava definitivamente arruinado. Além da gráfica, possuía a residência confortável, uma casa de praia e alguns terrenos, todos dados em garantia de empréstimos bancários; dois automóveis financiados via "leasing" que estava começando a pagar. Não sobrara nada.

Achou melhor ir para casa. Solicitou ao gerente, Macedo, que acompanhasse o trabalho dos bombeiros e partiu.

Como sempre, ao perceber o barulho do portão a esposa, fiel companheira, correu à abraçá-lo:

–O que aconteceu? Você tão cedo de volta... O telefone da gráfica não atende...

Olhou-a com imensa ternura, pensou no amor que a esposa devotava a casa, tudo sempre tão limpo, tão arrumadinho, os seus cuidados com a decoração.

Repentinamente tudo escureceu, não conseguiu segurar o choro convulso.

Abraçou-a e deixou as lágrimas correrem, desanuviando o coração, à semelhança de um céu escuro que se derramasse em chuvarada.

Ali, unido à mulher foi recapitulando a sua vida: começara a trabalhar na gráfica de um amigo de seu pai aos doze anos, sempre deu duro; sempre economizando, vestindo-se mal, evitando qualquer despesa desnecessária, não se permitindo sequer um cinema no fim de semana, fazendo todas as horas extras possíveis. Aos 23 anos, montava seu próprio negócio, máquinas usadas compradas a prazo; a luta continuou, os primeiros funcionários, máquinas mais modernas, a compra do terreno, a inauguração da sede própria. Aos 28 casara-se com Lúcia, antiga colega de escola primária, que o amara, apesar de seu temperamento fechado, de seu jeito grosseiro às vezes. Mulher pequena, frágil de corpo, mas muito ativa, dera-lhe dois filhos, a menina, já mocinha com 16 e o menino com 13.

Passada a crise de choro, contou à mulher o que havia acontecido. Teve de repetir a história três vezes para que ela finalmente entendesse.

O caminho da fuga?

A seguir, pediu-lhe encarecidamente que o deixasse só, precisava pensar, alegou.

Entrou no quarto, fechou a porta, abriu a gaveta do guarda roupa, pegou o revólver.

Uma bala, alguns segundos e tudo estaria acabado.

Nisso, a esposa começou a bater violentamente na porta, com seus braços frágeis, gritando e chorando:

–Não, não isso não. Posso perder tudo, mas não posso perder você, não posso perder o pai dos meus filhos. Pelo amor de Deus, eu te imploro, não me deixe sozinha. Abra, abra a porta...

Ele pegou o revolver, dirigiu contra a cabeça, não queria ouvir a mulher.

Mas ela gritava com todas as sua forças, chorava, pedia auxílio a Deus, a Jesus, aos espíritos, aos vizinhos, e continuava esmurrando a porta com seus braços frágeis.

A mão direita de Augusto começou a amolecer, a seguir, uma dormência foi-se espalhando pelo braço, lentamente, abaixou a arma, pôs o revolver na cama e cabisbaixo abriu silenciosamente a porta.

Lúcia entrou no quarto transtornada, viu a arma sobre a cama, apanhou-a como se fosse um réptil venenoso e saiu correndo do quarto.

Alguns instantes depois voltava, com uma vizinha.

Depois de todas aquelas explosões emocionais, Augusto sentiu um grande cansaço e apatia. Lúcia fê-lo deitar-se, tirou-lhe os sapatos, fechou a veneziana do quarto e foi preparar um chá calmante.

Nisso, o telefone começou a tocar seguidamente. O incêndio foi noticiado por uma rádio, e inúmeros conhecidos, clientes e fornecedores que tinham o telefone de Augusto telefonavam para saber “se era verdade”.

Lúcia desligou o telefone.

Passado algum tempo, nova crise nervosa acometeu Augusto, que passou a tremer intensamente. Lúcia ficou a seu lado e ele foi novamente se acalmando.

Na hora do almoço chegaram os filhos. A mãe pacientemente explicou o acontecido, adolescentes ainda, não conseguiram apreender a gravidade da situação. Era apenas um problema de negócios que dizia respeito aos pais e que os pais resolveriam; quanto a eles, continuariam a sua vida como sempre fora. E para dizer a verdade, a mocinha estava mais preocupada com um telefonema que um possível futuro namorado ficou de dar-lhe, do que com o pai e sua gráfica queimada.

Problemas e soluções

À tarde, Macedo, o sócio minoritário apareceu. No princípio, Augusto não quis recebê-lo, mas depois cedeu à insistência.

Macedo foi direto ao ponto:

–E agora o que vamos fazer?

–Nada, respondeu Augusto.

–Como nada?

–Acabou, quebramos, estamos absolutamente falidos. Temos alguns poucos títulos a receber, já que a maioria foi descontada, um terreno e um passivo cinco vezes maior. Por tudo que entendo a concordata é inviável. Ou requeremos a própria falência ou esperamos que alguém o faça. É só isso, e no fim tudo dará no mesmo.

–Você foi um louco, não pagando o seguro!

–Não me aborreça!

Macedo se descontrolou e soltou um soco que acertou Augusto no estômago, fazendo-o cair na cama, contorcendo-se de dor.

Lúcia que assistia à cena correu para socorrer o marido.

–Vagabunda! Gritou Macedo empurrando-a em direção à cama, onde caiu por cima de Augusto. A seguir saiu, vociferando palavrões.

O soco aliado à tensão nervosa provocou uma crise de vômito em Augusto.

Lúcia auxiliou o marido na crise digestiva e depois limpou pacientemente o chão.

Os filhos assustaram-se com os gritos de Macedo e ficaram meio atordoados.

–Que vexame, mamãe. O que ele queria?

–Por que você não reagiu, papai?

Lúcia interviu secamente:

–Saiam. Deixem-me cuidar de seu pai.

Esse início, foi uma introdução ao inferno dos três meses seguintes: humilhações, agressões de credores, funcionários e clientes, a falência, perda da casa, dos automóveis.

Lúcia negociara na escola, conseguindo que o diretor compadecido permitisse que os adolescentes concluíssem os três meses faltantes do ano letivo sem pagamento.

Lúcia convencera a irmã a abrigá-los numa pequena edícula nos fundos da casa do cunhado Juvenal.

Lúcia vendera joias e eletrodomésticos conseguindo algum dinheiro, que permitiu a mudança e garantiu pelo menos a alimentação.

Ela exercera intensa vigilância sobre o marido, preocupada que o gosto de Augusto pelo uísque, na situação desfavorável, se transformasse em alcoolismo.

Lúcia foi firme com os filhos, e conseguiu que finalmente aceitassem a situação e colaborassem, assumindo os deveres domésticos e adotando uma postura responsável.

Lúcia durante todo o tempo levantava cedo e dormia tarde, quando dormia. O seu abatimento era visível, mas os olhos castanhos adquiriram um novo brilho e à fisionomia, aliava ao cansaço a luz da coragem e da resignação.

Apegada ao seu “Evangelho Segundo o Espiritismo” orava todas as noites. As páginas que continham as mensagens sobre o desprendimento dos bens terrenos estavam engruvinhadas devido ao banho diário das lágrimas.

Noite de natal

A família toda apertadinha na sala quarto da edícula nos fundos da casa. Juvenal havia viajado aproveitando as férias de fim de ano.

Lucinha, a filha mais velha havia feito um bolo, Guto o mais novo fora ao supermercado e comprara algumas frutas.

Lúcia abriu o seu velho “Evangelho”, fez uma prece agradecendo a Deus. Augusto que antes tinha uma postura de condescendência com o lado religioso da esposa, que titulava de crendice, agora a ouvia com certa emoção. Após a prece Lúcia falou:

–O incêndio, foi como um naufrágio que nos atirasse de um navio confortável num mar agitado sob a escuridão da noite. Sofremos bastante, nos ferimos, mas agora amanhece e chegamos a uma praia, estamos em segurança e todos vivos. Agora precisamos cuidar da nossa sobrevivência, necessitamos de uma casa, não podemos ficar indefinidamente como hóspedes de minha irmã, e o dinheiro da venda de alguns poucos bens está acabando. A solução que eu vejo é o trabalho. Você Lucinha, pode trabalhar em alguma loja, você Augusto, precisa encontrar trabalho em alguma gráfica, e eu já consegui emprego de professora numa escola particular. Hoje comemoramos o nascimento de Jesus, e nossa família também está nascendo outra vez, mais forte, mais unida, mais próxima de Deus.

Augusto a um canto, ouvindo-a, refletia: “Tudo ruiu: amigos, empresa, situação social, eu mesmo, os filhos, mas Lúcia, com seu um metro e sessenta ficou de pé, à semelhança de uma torre, que permaneceu firme, mesmo com a queda de toda a fortaleza, e acabou salvando a todos”.

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