Telma

Telma corria pela avenida, o vestido rodado balançando ao vento, a bolsa de encontro ao peito, os sapatos de salto forçando-a a utilizar-se apenas das pontas do pés.

Telma era uma mulher bonita e elegante nos seus 34 anos; o vestido branco estampado de preto, bolsas e sapatos combinando, cabelos castanhos bem penteados, maquiagem suave e algumas joias que diziam de sua condição financeira confortável.

Enquanto corria, as lágrimas desciam de seus olhos indecisos entre o verde e o castanho.

O sol havia se posto na cidade do Rio de Janeiro; uma penumbra se espalhava na terra; o cinza chumbo ia ficando mais escuro nas nuvens do céu.

Ao dobrar uma esquina, Telma parou, bruscamente; ofegante encostou-se na parede revestida de granito quase preto de um prédio.

Enquanto procurava retomar o fôlego e organizar pensamentos e emoções, sentiu, naquele granito negro, algo de fúnebre e um arrepio percorreu o seu corpo.

Embora a rua fosse central, haviam poucas pessoas, pois os estabelecimentos, escritórios em sua maioria, já haviam fechado as portas.

Um rosto de homem desenhou-se na sua mente: Bruno, três bem clara, cabelos negros, fartos e luzidios com a brilhantina que valorizava seu aspecto sedoso; barbeado de forma impecável, como eram impecáveis a camisa, ternos, sapatos, abotoaduras e o prendedor de gravata, ambos de ouro.

Telma se apaixonara por Bruno há dois anos; ela casada, mãe de duas crianças com 7 e 10 anos; ele solteirão, advogado muito bem sucedido, filho de família de classe média.

Ângelo, marido de Telma, era um moço bom, se aproximando dos quarenta, nascido em berço de ouro, filho de comerciantes de tecidos, aprendera o negócio dos pais e continuava ganhando dinheiro: seu pequeno império comercial contava com cinco lojas, uma tecelagem e uma estamparia. Não era brilhante, não era culto, não era ousado; não fora pelo impulso inicial do pai e certamente seria apenas um balconista de loja de tecidos, que chegaria a gerente depois de muitos anos de profissão.

Telma uniu-se a Ângelo porque foi um dos primeiros que apareceu; mesmo bonita e educada, bem vestida e honesta, Telma tinha um quê de frio, de duro, uma ausência de tempero que a tornava pouco atraente; sua beleza chamava a atenção, mas nela não havia esse calor interior, essa energia afetiva que atrai as pessoas; semelhava essas lindas estátuas que ornam os museus, que atraem os olhos do visitante, porém são frias, sem alma, e o visitante logo se dirige a outra peça que tem mais encanto.

Mas o que havia levado Telma ao pranto e a corrida? O que ela temia? Do que ela fugira?

De uma cena simples: Bruno, ao lado de uma jovem bonita, de uns 19 anos talvez, conversava, animado, numa confeitaria; frequentemente segurava, terno, a mão da moça.

Nos três ou cinco minutos em que observou o casal, Telma viu um Bruno que não conhecia: aquela intimidade de alma para alma, aquela expressão alegre e descontraída, aquela ternura sincera e espontânea ele nunca tivera com ela. Embora a sensualidade, a elegância, a conversa inteligente e culta, o clamor do sexo, o sabor de aventura do jogo da traição, que mantinham nos encontros, Telma percebeu ali, naquele instante, que Bruno não a amava, não confiava nela, não sentia ternura por ela. Bruno oferecia a jovem da leiteria, ele mesmo; a ela, Telma, Bruno dava somente uma máscara, que lhe permitia obter satisfação sexual e aventura.

Naqueles minutos, na calçada, enquanto observava o casal sentiu o amargo vazio de sua vida; sentiu-se oca por dentro; não amava o marido; e não era amada por ele; não amava o amante e também não era amada por ele; no fundo era indiferente para com os filhos; seu lar era oco, sua vida inteira era apenas uma casca pintada e sem conteúdo. Uma fêmea na floresta tinha mais sentido do que ela; pelo menos a fêmea tinha funções: reproduzir, defender a prole, sobreviver. Ela, Telma, não tinha função alguma.

Havia corrido para fugir desse vazio onipresente; quando parou, descobriu que o vazio estava dentro dela e para onde fosse, ela o levaria; sua vida era sem gosto, sem sal nem açúcar; ela era fria, não uma frigidez física biológica, mas uma frigidez sentimental; não conseguia amar a nada nem a ninguém, não possuía afetos nem ideais.

Talvez a morte fosse uma solução; alias sentia-se morta; a morte física seria apenas a cerimônia que confirmaria a sua morte sentimental, que era como um deserto, que fosse crescendo, crescendo, e tragando tudo.

Repentinamente um carro soou a buzina e aquele ruído estridente a desviou do rumo estranho que seus pensamentos assumiam.

Uma série de problemas práticos assomaram a sua mente; coisas corriqueiras como pegar um táxi, ir para casa; não havia comprado as roupas para as crianças, o que a trouxera ao centro da cidade; chegaria em casa depois do marido, o que sempre causava algum constrangimento; a lavadeira estava descurando das roupas; seria melhor tentar pô-la nos trilhos com uma advertência mais dura, ou procurar outra lavadeira?

Essa multidão de banalidades, trazia-lhe um grande alívio; era um curioso vinho que a fazia esquecer das dores que iam por dentro; do ponto de vista psicológico era muito mais fácil considerar o problema da lavadeira, relembrar os colarinhos mal lavados e forçar sua inteligência, montando mentalmente um verdadeiro processo judicial em torno da qualidade dos serviços de Isabel (era esse o nome da lavadeira), considerando os diversos aspectos econômicos, sociais e éticos, do que refletir sobre o adultério que cometia com metódica frequência, e principalmente entrar nas razões que a levavam a fazer isso.

Acenou para um táxi que que passava, acomodou-se no assento espaçoso, deu o endereço de sua casa ao motorista.

O automóvel rodava lento e confortável na noite amena; repentinamente, Telma sentiu a garganta seca; passaram por uma esquina onde pobres prostitutas vestidas com espalhafato mercadejavam afeto.

Depois da secura na garganta e na boca uma ideia começou a martelar sua cabeça repetidas vezes: ela era mais desprezível do que aquelas prostitutas; elas talvez fossem motivadas pela miséria, falta de emprego, ou talvez por um romance frustrado que lhes tirando a virgindade, as precipitou naquela vida que era a saída para um casamento impossível segundo os preconceitos da época1; mas ela, Telma, o que poderia alegar a seu favor? O que podia justificar o seu comportamento? Dinheiro? Tinha de sobra; uma paixão avassaladora? Não, Bruno era um homem bonito e nada mais; um desequilíbrio grave, ninfomania, por exemplo? Não, era uma mulher normal, algo contida até; por que então? Porque ela era uma besta, respondeu mentalmente, quase sem querer; porque sua vida não tinha sentido; assim como a fêmea animal era dirigida pelo instinto, ela era desgovernada pela falta de razão na sua vida; assim como aquele táxi, caso quebrasse o volante, iria numa direção qualquer, assim ela também ia ao sabor das circunstâncias, batendo nos carros estacionados a beira da rua; Bruno era simplesmente um carro em que ela batera por andar sem ter um rumo.

Essa sequencia de raciocínios voltava sem parar; esses pensamentos curiosamente lhe davam algum alívio; pensar que ela não valia nada, que não tinha responsabilidade, que não tinha vergonha, que não tinha razão, trazia-lhe uma sensação agradável e mórbida; era bom agredir-se.

Gostaria de chegar em casa e levar uma surra do marido na frente dos filhos; que ele batesse bastante nela; que lhe desse cintadas e enchesse seu corpo de vergões.

Uma placa de rua a tirou dos seus devaneios; estava na rua onde morava, mais alguns momentos e estaria chegando; abriu a bolsa, pegou o dinheiro, e indicou o sobrado onde morava.

Sua casa era bonita, quase um palacete; ao entrar viu os filhos na sala lendo livros infantis (a televisão não havia chegado ainda ao Brasil) e o marido folheando o jornal.

As crianças a cumprimentaram com um “olá mamãe”; deu um beijo igualmente formal no marido e acrescentou:

— Não tive sorte, fui em várias lojas e não encontrei o que procurava; por último encontrei uma velha colega de curso primário, curso primário, imaginem, que quis contar o que lhe aconteceu nesses mais de vinte anos em que não nos vimos; foi narrando tudo, ano a ano, minto, mês a mês, tudo o que lhe aconteceu; foi extenuante e enfadonho, acabou com meu humor... irei ver como está o jantar...

Ninguém, nem os filhos, nem o marido, fez qualquer comentário e Telma dirigiu-se para a cozinha.

O jantar transcorreu em silêncio, foram dormir cedo, como de hábito.

Telma não telefonou para Bruno na manhã seguinte, não sabia o que dizer-lhe e concluiu que não tinha nada a expor, nem a perguntar; a vida dele não lhe dizia respeito e era melhor parar por ali.

Independentemente disso, um forte desejo a assaltou e ela não sabia o que fazer com aquela situação.

Pensou em procurar outro homem, mas considerou que necessitava dar a si mesma algum tempo.

Veio-lhe inexplicavelmente a ideia do suicídio, a morte, tida por ela como a negação absoluta, devia ser um sono sem sonhos; mas para chegar a ela era preciso quebrar o mecanismo do corpo, fosse através de um revolver, de uma queda ou de uma substância tóxica; agredir o próprio corpo, destruí-lo, comprometer órgãos, lhe causava pavor e não conseguiu mais pensar na hipótese da morte.

Os dias se passaram tediosos; procurou encher a vida de banalidades para o tempo passar mais rápido; a costureira, o cabeleireiro, o decorador, o jardineiro, as empregadas domésticas eram os soldados que a auxiliariam na luta contra o vazio. No passado fizeram muito por ela e agora era hora de convocá-los para manter-se equilibrada e viva.

Tudo podia ser modificado e trocado: do corte de cabelo aos móveis da sala; da roupa das crianças às plantas do jardim; mergulhou fundo no encantamento dos pequenos problemas, mas o deserto crescia, sentia-se cada vez mais seca, mais insípida; imaginou que quando ficasse velha, tornar-se-ia igualmente intratável, sistemática e formal.

Sentia-se exausta, queixava-se constantemente das fadigas domésticas; pensou em viajar, mas ir sozinha, nem pensar; ir com o marido, inviável; nem ela, nem ele, suportariam conviver 24 horas por dia, juntos; descartou a ideia.

O Importuno

Três meses depois do episódio da separação de Bruno, sentia-se muito cansada. Deitada na sua cama grande, no quarto espaçoso, contemplava as rendas da cortina na janela; as venezianas fechadas deixavam coar uma luminosidade suave na tarde carioca, ensolarada e quente.

Repentinamente percebeu um homem, de pé, atrás dela; um arrepio percorreu todo o seu corpo; ela começou a vê-lo, embora ele estivesse fora do seu campo de visão; sujo, maltrapilho, com os dentes estragados e com grossas placas amarelas, como se não os escovasse há anos.

Uma sensação de terror, dominou todo o seu ser; ela não entendia o que se passava e não tinha condições de pensar, de refletir; nesse instante o homem falou, sua voz era grossa e arrastada:

— Está me vendo agora, sua cadela; vou ter o seu corpo e também a sua alma; você vai ser minha e vai sentir a minha sujeira e o meu mau cheiro.

Nisso um terrível mau cheiro inundou as suas narinas, numa sensação tão forte que seu estômago se embrulhou e não conseguiu evitar o vômito.

Deitada de costas como estava o impulso do vômito fez com que Telma como que movida por uma mola ficasse sentada; sujou todo o o seu vestido e não viu mais o homem; ficou ainda por longos minutos, ali na cama, atarantada, suja, as lágrimas correndo pela face, sem saber o que fazer; a custo levantou-se apavorada; foi até o banheiro, tirou a roupa e conseguiu tomar um banho; pôs uma roupa de dormir, com um “pegnoir”; precisava muito ver alguém.

Desceu as escadas de mármore branco, disse a empregada:

— Prepare-me um chá bem leve, tive uma indisposição digestiva, peça a Rosa que vá ao meu quarto, retire a roupa suja, limpe e troque a roupa de cama.

Sentada à mesa da cozinha, enquanto aguardava o chá, pensava na falta de lógica de tudo o que acontecera.

Como podia ter pressentido ou visto o homem fora do seu campo de visão? Como ele entrara e saíra sem abrir ou fechar a porta? Como ter por ela um ódio tão grande se nunca o vira antes? Somente uma explicação havia: tudo aquilo não passara de um sonho; mas não, não podia ser! Ela estava acordada! Tudo apontava numa única direção: ela estava ficando louca! De outro lado talvez perder a razão fosse bom, fosse o mesmo que morrer; não teria mais preocupações com a vida, mas a visão que tivera fora muito desagradável: seria um tipo de loucura povoada de de alucinações que mais pareciam pesadelos?

O chá estava pronto, e a a empregada a serviu numa fina xícara de porcelana chinesa; Telma bebeu o chá lentamente; não queria voltar para o quarto e foi para a sala, deitou-se no sofá, mas logo resolveu sentar-se, tinha medo de dormir e sonhar com o homem sujo.

Resolveu ler alguma coisa, apanhou o jornal do dia e foi lendo desatenta aquela multidão de notícias.

O mal estar prosseguia, os filhos ainda não haviam chegado da escola, calafrios percorriam seu corpo, decidiu chamar o médico da família, Dr. Leite.

Um tanto surpreso, Dr Leite a cumprimentou e dirigiram-se para o quarto de hóspedes para os exames de praxe. Telma pediu que a criada os acompanhasse, pois era muito zelosa da sua reputação, parecer pudica e recatada lhe fazia bem; jamais usara um decote exagerado, roupas muito curtas, ou sentara-se de forma inconveniente. Enquanto se dirigiam ao quarto, pensou: “Posso ser sem vergonha, mas jamais deixarei de ser moralista”

O médico mediu a pressão, temperatura, frequência cardíaca, auscultou o coração e os pulmões, apalpou demoradamente o abdômen e concluiu:

— Tudo leva a crer que a Senhora teve uma crise nervosa que foi a causa dessa indisposição; gostaria de conversar em particular?

Telma demorou um pouco a responder; não poderia fazer do Dr. Leite um confidente. Era muito próximo do marido; preferiu desconversar:

— Não vejo necessidade, o senhor enganou-se; era uma da tarde, estava na cama, repousando um pouco, quando acometeu-me a crise digestiva; confesso que fiquei nervosa com toda aquela sujeira e também por não saber o que ocorria, portanto a crise nervosa foi consequência e não causa da indisposição; na minha opinião tudo isso foi causado por algum alimento estragado que comi no almoço e aposto que fui “premiada” com uma das sardinhas...

Uma raiva surda, uma aversão inexplicável, pelo médico tomou conta de Telma; mentalmente vieram a sua mente palavras muito agressivas, como por exemplo: “quem é esse palhaço, para querer conversas particulares comigo”, “quem ele pensa que é com esse ar paternal?”, “está aqui atrás de dinheiro, e quer esticar a coisa para ver se depois arranca mais algum”, etc. No entanto controlou-se, exibiu um sorriso frio, mantendo-se num silêncio desagradável.

O Dr. Leite, gentil, não polemizou, apenas apanhou o bloco de receitas, prescreveu um calmante e um remédio para o estômago; avisou-lhe que o calmante lhe daria sono, recebeu o cheque dos honorários e despediu-se com poucas palavras.

Pouco depois a empregada chegava com os medicamentos; Telma os tomou e foi para o seu quarto, já limpo. Sentia-se melhor.

O marido chegou com os filhos que apanhara a saída da escola.

Nenhum dos familiares impressionou-se com os problemas de saúde de Telma, como de hábito foram dormir cedo.

Eram, talvez, duas da manhã quando Telma acordou, o quarto estava frouxamente iluminado pela luz amarelada de um abajur. Repentinamente um calafrio percorreu o seu corpo, mesmo fechando os olhos percebeu que o homem estava no quarto; o marido dormia profundamente, ela estava transida de pavor; via nitidamente o homem sujo sentado na poltrona que havia no quarto. Ele ria quando falou:

— Então, sua ratazana de esgoto, não suportou o meu cheiro; saiba que foi você que me jogou no esgoto, desde aquele dia que tenho esse cheiro. Agora vou dar-lhe um abraço, para que você sinta melhor o meu cheiro.

O homem levantou-se com um ar debochado e foi se aproximando dela, ela estava estática, muda não sabia o que fazer até que sentiu novamente o cheiro horrível; quis gritar mas o grito de pavor foi sufocado pelo vômito; Telma engasgou violentamente, e vômito misturou-se a um terrível acesso de tosse; não mais viu nem ouviu o homem sujo.

O marido, obviamente, acordou assustado; a cama novamente suja, a fina camisola de linho bordada, com as manchas do resto do jantar e Telma muito vermelha com o acesso de tosse.

A sequencia da tarde repetiu-se; o banho, o chá, o calmante o remédio para o estômago. Ângelo sugeriu:

— Creio que não devemos chamar agora o Dr. Leite, mas as seis telefono para ele e peço para ele dar uma passada aqui antes de ir para o hospital...

— Nem me fale naquele incompetente, não posso sequer ouvir o nome “Leite” que a crise piora...

Ângelo não insistiu

E assim começou a “via crucis” de Telma; gastroenterologistas, exames, chapas, medicamentos, diagnósticos desencontrados e as crises prosseguindo quase diariamente.

Em três semanas o viço e a beleza de Telma haviam desaparecido; olheiras profundas, aparência neurastênica e desleixada, olhar turvo; todavia mantinha em segredo a presença do homem que a perseguia, que estava sempre a espreita; bastava ela ter um momento de relaxamento para ele atacá-la; insistente, não lhe dava trégua, cada vez mais ferino e provocando as crises com mais facilidade.

Telma temia ser internada num hospício caso revelasse o que se passava; considerava que ainda que sua vida se tivesse transformado num inferno, tinha empregadas, morava numa casa confortável, podia olhar pela janela e usufruir do contato do marido e dos filhos; internada num manicômio o que seria dela? Com o tempo certamente se transformaria num vegetal, que todos esqueceriam.

A dor foi amolecendo o coração de Telma; passou a apegar-se ao marido e aos filhos; solicitava-os constantemente. Que desafogo sentia quando chegavam a tarde! Mesmo no seu desequilíbrio passou a tratar melhor as empregadas.

O estranho maltrapilho, que Telma achava ser um produto de sua mente destrambelhada, no entanto, era cada vez mais presente e mais contundente e ela percebia que ia sucumbindo sob aquela pressão; não raciocinava com a mesma lógica e clareza de antes; ocorriam lapsos de memória frequentes, esquecia números de telefones e nomes de pessoas com as quais convivia habitualmente; e o cansaço aumentava dia a dia.

Sua lucidez era um círculo luminoso que se ia fechando e a escuridão das coisas sem senso ia avolumando-se, como essas tempestades, cujas nuvens vão se tornando cada vez mais escuras e ameaçadoras; o medo avançava mais e mais na mente de Telma e a possibilidade que via de enlouquecer era cada vez mais próxima.

O controle que tinha sobre si mesma, para manter seu segredo, ia se enfraquecendo.

Loucura?

Um dia, estando reunidos na sala, ela, o marido, os filhos e a empregada, o homem apareceu-lhe, aterrada percebeu que ele não estava só, ao seu lado via três vultos com feições animalescas. Logo a seguir “o homem sujo” disse :

— Agora eu vou tê-la, você vai pertencer-me e vou mostrar a todos quem você é...

Telma empalideceu de pavor; o homem a abraçou e começou a falar pela sua boca, ela não conseguia se conter, e ouvia sua palavras que explodiam aos gritos em sua mente e escorriam pela sua boca:

— Ela não presta... ela é uma fêmea que não vale nada... ela está louca e não quer admitir... eu estou aqui para fazer ela falar pra todos vocês, seus idiotas, quem ela é...

E em meio a acessos de tosse, vômito e gargalhadas Telma caiu no chão se contorcendo e dizendo palavras de baixo calão.

Ninguém sabia o que fazer, Ângelo correu ao telefone, atarantado, e chamou o Dr. Leite.

Telma continuava dizendo coisas desconexas, ora gritava:

— Levem-no daqui... tirem esse homem asqueroso de cima de mim ... não se aproximem, mato a todos, como também vou matá-la, verme em forma de mulher... socorro, por favor... tenham piedade... cale-se sua vagabunda...

Ângelo tentou segurá-la, mas não adiantava ela se debatia e escorregava de seus braços; as crianças choravam, a empregada a um canto rezava uma série de “Padre Nossos” e “Ave-Marias”.

Telma por vezes dirigia-se a empregada:

— Não adianta rezar, sua besta de carga, eu sou mais que Deus... Socorro... Ele é imundo... Vinte anos preparando a vingança... esta desgraçada vai me pagar...

Passado um interminável quarto de hora, chegou o Dr. Leite; subiu a escada da varanda esbaforido, entrou pela porta da sala que Ângelo deixara entreaberta; aproximou-se de Telma, que aparentemente despudorada, levantava o vestido e dizia palavras obscenas para o velhinho..

Dr. Leite ficou em silêncio, pôs a mão sobre a cabeça da pobre mulher, suja e desgrenhada e começou a falar em voz baixa e tranquilizante; os circunstantes apenas percebiam alguns trechos em virtude dos gritos de Telma:

Jesus, Jesus... meu irmão, meu irmão... porque o caminho do mal e da vingança com essa pobre mulher...

Enquanto isso Telma continuava aos berros:

Por que você está me acorrentando, velho matreiro? Não sabe que daqui a pouco arrebento com tudo isso e vou matá-lo?

Não sou eu que o retém, mas é ainda alguma dignidade e bondade que existe em você...

E continuou como quem faz uma prece:

Piedade Jesus para essa pobre dupla acorrentada pelos enganos da obsessão... Suplico, Senhor, pela mãe de família que os filhos precisam ver re erguida, pelo marido que necessita do arrimo da esposa e por esse espírito que aqui se encontra enceguecido pela dor e pela vingança. Piedade, Senhor, para todos nós...

E repetia baixinho, várias vezes:

Jesus, Jesus...

Telma redarguiu:

Eu voltarei, voltarei...

Ainda falou algumas palavras desconexas e desmaiou, ficando caída no tapete.

Dr. Leite acalmou a todos e, pedindo o auxílio de Ângelo, a levaram para o quarto; Ângelo e a empregada trocaram a roupa de Telma, ainda meio adormecida, e a deitaram na cama.

Telma acabou de despertar e foi acometida por uma crise de choro:

Não me abandone Ângelo; eu não quero ir para um hospício, eu não aguento mais...

Abraçava-se ao marido, indiferente a presença do Dr. Leite; Ângelo não sabia o que dizer e falava repetidamente:

Acalme-se, acalme-se...

Mas era evidente o seu desconforto e o sentimento de quase repulsa pela esposa que estampava no rosto, enquanto procurava delicadamente desvencilhar-se do abraço de Telma. Sentia uma vontade imensa de ir embora dali e livrar-se daquele pesadelo no qual a sua tranquila vida familiar se transformara.

Embora o autocontrole de Ângelo, Telma percebeu a sua repulsa e um choro convulsivo explodiu, lavando em lágrimas o seu rosto, enquanto, com profunda tristeza, retirava os braços do pescoço do marido.

Dr. Leite preparou um calmante para Telma, que logo após adormecia, chamou Ângelo para uma conversa em particular e foi direto ao ponto:

— Ângelo eu o conheço desde que nasceu, fui médico dos seus pais e agora atendo a você e a sua família, portanto procurarei ser prático e objetivo. Deixando de lado polêmicas religiosas, o que eu diagnostico, neste caso, é que sua esposa passa por um grave processo obsessivo, ou seja, ela está ligada a um espírito em sofrimento e dementado que provoca nela distúrbios físicos e mentais; creio que essa ligação é antiga, relacionada com encarnações passadas; pelo visto minhas palavras são estranhas para você, Ângelo...

— É, bem... na verdade não me meto nesses assuntos; o que eu esperava do senhor, é, digamos, alguma coisa mais científica... tudo isso me parece meio irreal, no entanto, não posso deixar de reconhecer que com suas estranhas palavras a crise foi interrompida, ela desmaiou, e quando recobrou os sentidos estava quase normal... mas usando as suas próprias palavras, o que o senhor propõe de concreto, de objetivo, para curá-la?

— Temos um problema que terá, provavelmente, um longo processo de cura; não serão injeções, cirurgias ou comprimidos que trarão a saúde a sua esposa; é necessário um tratamento espiritual e principalmente o desejo de curar-se, que, acredito, ela terá, motivado pelo sofrimento que é grande. Nesse processo será de inestimável valor o apoio de um grupo espírita sério; aqui no Rio temos vários, eu pessoalmente frequento o Grupo Espírita Ismael, e posso apresentá-los a dirigente Cacilda2. Você como marido deverá instruir-se também, já que terá que conviver com esse problema por largo tempo; sugiro que passem amanhã, em casa, às dezenove horas para irmos juntos.

Ângelo não sabia o que dizer e preferiu ficar num lacônico:

Está bem, amanhã 19 estarei na sua casa, deixe-me fazer o cheque para pagá-lo...

Este tipo de assistência eu não cobro, não me deve nada...

Ângelo ainda fez uma tentativa, mas o médico segurou-lhe a mão com delicadeza e disse apenas:

Não faça isso...

Logo após o médico saia.

Ângelo foi procurar as crianças, que estavam muito assustadas; Ângelo pediu que ficassem quietas e explicou:

Sua mãe está doente física e mentalmente, mas havemos de curá-la e ela vai ficar boa.

O senhor está dizendo que a mamãe está louca?

Não, meu filho, na verdade não entendi direito o que o Dr. Leite disse, mas para tudo há um jeito, e vamos encontrá-lo. Deus os abençoe e agora durmam.

Beijou e abraçou os filhos com infinita ternura, ele amava aqueles dois meninos, sempre se emocionava ao dar-lhes boa noite, ao entregá-los na escola, e era com grande alegria que ia apanhá-los a saída. Os três (ele e os dois filhos) formavam um forte circulo afetivo do qual era comumente excluída a mãe.

Deitou-se ao lado de Telma, com cuidado para não acordá-la, e os seus pensamentos começaram a divagar: a atitude de Telma, com seu comportamento obsceno junto ao Dr. Leite o envergonhava muito, ainda bem que o médico mostrara-se discreto; faria uma tentativa com o Dr. Leite e o tal grupo espírita, mas daria um prazo: dois meses, se não houvesse melhora internaria Telma num sanatório e refaria a sua vida; era jovem ainda, se fosse o caso, mudaria do Rio e se livraria de todo aquele pesadelo; novamente sentiu-se envergonhado; e se situação fosse inversa, se ele tivesse perdido a lucidez e fosse atirado num hospício em meio a maus tratos, choques elétricos e o penoso convívio com outros doentes? Afinal era a mãe de seus filhos, e ele amava os filhos. Lembrou-se do seu caso com Adélia; há duas semanas não a via, envolvido nos problemas de saúde de Telma; pensou que fizera bem, já estava com problemas demais, resolveu aproveitar o ensejo e dar um fim àquele romance que já se alongava. Só faltava nesse momento arrumar um filho fora do casamento para desmoronar de vez. Casa, doença e trabalho deveriam ser as suas únicas ocupações até resolver o problema da esposa.

Olhou-a, o seu sono era por vezes agitado, sentiu pena da mulher, sempre arrumada e zelosa da aparência e da higiene pessoal, ver-se naquele estado deplorável; tantos anos juntos: o namoro, o sonho do casamento, choraram de emoção os dois na igreja; onde tinham chegado? Apenas a educada indiferença e convenções os uniam; e o que o futuro reservava para a sua vida? Sentia-se como descendo um rio num barco a deriva, ouvindo ao longe o ruido cada vez mais forte de uma cachoeira que se aproximava, incapaz de ter alguma ideia que pudesse salvá-lo; nisso viu na margem o Dr. Leite atirando-lhe uma corda com um pacote de livros amarrados na ponta...

Nessa altura Ângelo não estava mais refletindo e sim sonhando, imperceptivelmente passara da vigília ao sono, o que era audível em virtude do seu ressonar forte; conquanto adormecido , sua expressão era tensa e seu corpo penosamente retesado.

Embora com um sono agitado, Telma dormiu a noite toda.

Pela manhã Ângelo comunicou-lhe o diagnóstico do Dr. Leite:

―Dr. Leite explicou-me que no entender dele o seu problema é espiritual; alguma coisa como um espírito que a perturba e que lhe provoca problemas físicos e essas alterações de comportamento...

Que alterações de comportamento? Telma falou com um princípio de irritação.

Ângelo percebeu a irritação da esposa, respirou fundo e explicou:

Ontem a noite estávamos na sala e você, junto com as suas habituais crises de vômito começou a dizer coisas desconexas, inclusive obscenas, e se atirou no chão; chamei o Dr. Leite que fez uma espécie de oração e você desmaiou; levamos você ao quarto, você me abraçou dizendo ter medo de ficar louca, a seguir teve uma crise de choro; o Dr. Leite lhe deu um calmante e você dormiu; não se lembra de nada disso?

Telma ficou muito vermelha e disse gaguejando:

Estou muito confusa, tive muitos pesadelos e achei que o que você está falando foi um pesadelo que tive... não consigo pensar direito... acho que você está mentindo... isso não pode ter acontecido...

Mas aconteceu, atalhou Ângelo com voz forte, e me comprometi com o Dr. Leite de levá-la a um grupo espírita, conforme orientação dele. Não entendo dessas coisas, mas ele é uma pessoa sensata, e acho que devo tentar, levei você a tantos médicos e o que tive até agora? Nada!

Eu não quero ir nessas baboseiras! Esse médico é um idiota senil...

O que passei ontem aqui junto com as crianças foi horrível, não quero que meus filhos presenciem uma cena como essa outra vez, o que você prefere, internar-se num hospital psiquiátrico?

Telma empalideceu, veio-lhe a mente uma clínica que visitara no Caju, onde estava internada uma tia esclerosada, que não falava coisa com coisa; cabelos desgrenhados, uma camisolona branca, no meio das outras doentes apalermadas, conduzidas como gado por enfermeiras grosseiras... havia tido uma experiência terrível. Telma silenciou angustiada.

Virei mais cedo do trabalho para apanhá-la...

Condoído Ângelo beijou-lhe a testa, abraçou os filhos e saiu.

Ficou preocupado, pensou “meus filhos naquela casa com aquela louca...”, “tudo pode acontecer”, mas depois, refletindo melhor, considerou que haviam as empregadas; quando chegasse ao escritório telefonaria e pediria a elas para ficarem vigilantes; de outro lado, logo após o almoço iriam elas iriam para escola e lá estariam em segurança.

Dirigia o carro por uma rua sinuosa com um barranco a sua esquerda; imaginou uma derrapada e o carro capotando pelo barranco; a doença de Telma era a derrapada, conseguiria ele conduzir o automóvel da sua própria vida e recolocá-lo na via pública, ou, inábil, rolaria pela ribanceira arrebentando-se, ele e os filhos... Quais seriam as chances de resolver aquela situação num centro espírita? Telma era praticamente ateia... Iriam provavelmente tentar tirar-lhe dinheiro... Religião e pedidos sempre andam juntos... Mas, o Dr. Leite era pessoa séria, lembrou-se do médico recusando-se a receber o pagamento da visita, sentiu firmeza na atitude dele... o jeito era esperar ...

Voltou-se para o Céu, que via através do para-brisa, resolveu arriar a capota do automóvel conversível; acionou o mecanismo e foi rodando bem devagar para que a força do vento fosse jogando a capota para trás. Estacionou, arrumou a capota no compartimento próprio.

Retomou o caminho em direção a tecelagem, o vento sacudia e despenteava os seus cabelos, o céu azul, o mar, sentiu-se acariciado pela natureza, não seria fácil deixar aquela “cidade maravilhosa”. Lembrou-se dos pais falecidos, ele criança, rezando antes de dormir, ajoelhado ao lado da cama e depois pedindo a benção do pai e da mãe; acariciou uma medalhinha de ouro de Nossa Senhora que tinha no pescoço e que havia ganho ainda quando era criança. Sentiu uma doce emoção, rezou um pai-nosso e uma ave-maria, mentalmente beijou as mãos fortes e peludas do pai, e as delicadas e pequenas da mãe; raramente visitava o cemitério, a última vez que tinha ido lá foi a uns cinco anos, deu-lhe vontade de ir até o cemitério, visitar o túmulo dos pais; mas não seria possível, o dia estava congestionado, precisava chegar ao escritório para telefonar; mandaria um empregado levar flores ao túmulo dos pais, sua mãe gostava de rosas e o pai usava sempre um cravo na lapela; mandaria algumas dúzias de rosas e de cravos; lembrou-se do pai com seu terno de casimira inglesa cinza e com “riscas de giz”; pareceu-lhe vê-lo sorrir, levantando a lapela do paletó e aspirando o perfume do cravo, gesto comum quando estava contente.

Recordou-se a seguir que o gerente de uma das lojas era espírita; achou válido conversar com ele; depois do almoço, na sua curta tarde, iria inspecionar a loja e aproveitaria para colher mais algumas informações; um pouco de esperança o animou, ligou o rádio do carro e prosseguiu menos amargurado, enquanto um plácido sorriso desenhava-se na sua expressão

***

Em casa Telma teve uma manhã relativamente tranquila, passou a maior parte da manhã ouvindo rádio e lendo revistas; no almoço comeu bem pouquinho com medo dos vômitos.

A tarde, seu estômago começou a embrulhar e ela passou a sentir a presença do “homem sujo”. Sentiu-se atemorizada, pediu para a empregada ficar ao seu lado, estava ansiosa para que o marido chegasse logo.

A empregada sugeriu rezassem um terço, Telma acedeu. Começaram a repetir em voz alta os Padre Nossos e as Ave-Marias; embora a repetição das orações, a presença do “homem sujo” ia ficando cada vez mais forte e Telma cada vez mais nervosa.

Em certa altura a ânsia de vômito era insuportável; a empregada a auxiliou a ir até o banheiro e por para fora o almoço; como acontecia com frequência os espasmos do vômito diminuíam a sensação da presença do “homem sujo”. No entanto dez ou quinze minutos depois a presença dele era quase “palpável” para Telma; ela trancava os dentes para não gritar os piores palavrões e tentar expulsá-lo de sua casa; e no meio daquele esforço de auto controle ela parecia vê-lo rindo dela, mostrando seus dentes podres e sujos, mas conseguiu conter-se.

Finalmente Ângelo chegou com as crianças:

Como está você?

Não estou bem, Adélia me faz companhia e reza, mas não está adiantando...

Anime-se; hoje estive com Geraldo, o gerente da loja que fica no Flamengo, ele é espírita e disse-me que conhece vários casos semelhantes ao seu e que foram curados; ele até sorriu, quando narrei algumas peripécias; me deixou muito esperançoso...

Telma sentiu uma raiva quase incontrolável do gerente, que havia visto algumas vezes, pois era comum nas festas de aniversário Ângelo convidar os funcionários mais graduados das suas empresas; não conseguia explicar a sua raiva por aquele homem que vira tão pouco, pensou consigo mesma, “acho que isso tudo faz parte da loucura”, mas acabou deixando escapar:

Ele me pareceu sempre um tolo; mas diria qualquer coisa que deixasse você contente; faz parte da arte da bajulação...

E concluiu a frase com um sorriso e um olhar estranhos, que provocaram uma sensação de medo em Ângelo, que desviou os olhos e perdeu o bom humor com que havia chegado; pela primeira vez em todos aqueles anos de relacionamento, namoro, noivado e casamento, nunca sentira medo de Telma; naquele momento todavia pensou que ela poderia ser perigosa; sua mente dirigiu-se imediatamente aos filhos, se ela na sua loucura fizesse alguma coisa com as crianças, ele jamais perdoaria; cortou a conversa secamente:

Vou comer alguma coisa, sairemos em seguida para cuidar dos “seus” problemas...

Telma sentiu a alfinetada e a raiva foi substituída por uma tristeza e um desânimo imensos; repentinamente sentiu-se sem forças, como um naufrago cansado de nadar num oceano sem terra a vista...

Ângelo decidiu levar a empregada junto, poderia acontecer alguma coisa no trajeto e não queria estar só com Telma; a presença dela o incomodava, era com grande esforço que continha a repulsa quando em alguma curva mais acentuada ela se encostava nele; pensava consigo mesmo: “quantas voltas a vida dá; desejara aquela mulher quase com loucura, como ansiara pela noite de núpcias; como se sentira feliz quando terminada a viagem de lua de mel refletira que doravante pelo resto dos seus dias teria aquela mulher a seu lado todas as noites; como se emocionara quando nasceram os seus filhos; com que gratidão imensa beijara o seu ventre inúmeras vezes dizendo:

Desta barriga saiu a razão da minha vida; como estou feliz em ser pai...

E passados todos aqueles anos o toque daquele corpo outrora tão desejado era quase asqueroso; respirou fundo, ah como desejaria abraçar o pai naquela hora, sentar-se no colo dele e vê-lo aspirar o cravo e receber dele todo aquele encanto pela vida; a seguir imitá-lo, como fazia quando criança, aspirando igualmente a flor e fazendo a mesma expressão de satisfação do pai, que se divertia a ponto de não conter a gargalhada, enquanto a mãe o olhava com ternura, por cima dos óculos que usava no onipresente crochê e sorria também. Haveria de superar tudo aquilo e dar aos filhos todo o amor que recebera dos pais. Acelerou o carro, concentrou-se na direção e procurou não pensar mais em Telma.

Apanharam no caminho o Dr. Leite, que estava esperando na varanda e dirigiram-se ao grupo espírita.

"Grupo Espírita Ismael"

O grupo espírita funcionava num galpão nos fundos da chácara de Cacilda; Cacilda era bem clara, gordinha (mais alguns quilos e seria obesa), ar sorridente, cabelos brancos, devia andar pelos 60, espalhava uma sensação de paz e serenidade; semelhava ter em volta de si uma esfera invisível, ao aproximar-se dela, a hipotética esfera filtraria nossa mente, deixando os problemas do lado de fora.

Chegaram cedo; havia uma meia dúzia de pessoas no galpão; Cacilda conversava com uma senhora a um canto; fez leve aceno de cabeça e indicou ao Dr. Leite que logo mais os cumprimentaria.

Passados uns cinco minutos, despediu-se da senhora com quem conversava com afetuoso aperto de mão e dirigiu-se ao pequeno grupo que aguardava em silêncio; Dr. Leite fez as apresentações; quando chegou a vez de Telma, disse:

Essa é Telma esposa de Alfredo; atravessa um processo obsessivo que esperamos será resolvido com a terapêutica espírita.

Ao que Cacilda respondeu:

Você procurando a cura, Telma, certamente a conseguirá; lembremo-nos das palavras de Jesus: "aquele que procura acha"; eu também fui trazida a esta casa por um processo obsessivo grave e com a ajuda de Deus e dos benfeitores espirituais, consegui reequilibrar-me. Vamos trocar nossas experiências. E tomando Telma pela mão conduziu-a para um canto da sala.

Telma deixou-se conduzir como um autômato; seu raciocínio, habitualmente vivo, parecia amortecido, tinha a sensação de estar assistindo e não vivendo aquela cena.

Sentadas a um canto, Cacilda prosseguiu:

Estou vendo um homem ao seu lado, ele está muito sofrido e revoltado e acredito que sua influência é que traz essas perturbações à você. Essa aproximação está se dando de forma tão sofrida para despertá-la para os valores maiores da vida, que você abandonou, correndo atrás de quimeras, fugindo aos seus deveres de esposa e mãe. Com o seu esforço perseverante no bem você conseguirá superar essa fase difícil e iniciar uma nova etapa na sua vida bem mais produtiva e feliz.

Telma sentia emoções as mais contraditórias ouvindo Cacilda, tinha vontade de abraçá-la e refugiar-se no seu carinho materno, ao mesmo tempo vinha a vontade de fugir dali; sentia-se presa àquela mulher ao mesmo tempo em que queria sair correndo; via o homem sujo, sentia a sua raiva e a sua carência afetiva como se fosse uma criança maltrapilha buscando a mãe por uma rua miserável; tudo era confuso; começou a chorar a murmurou entre soluços:

Estou com medo... sofrendo... estou ficando louca... preciso de ajuda...

Cacilda a abraçou ternamente; Telma correspondeu ao abraço apertando fortemente a mão de Cacilda.

Pouco depois Cacilda conduziu Telma para sentar-se ao lado do marido na primeira fila das cadeiras que formavam a "assistência"; Haviam umas vinte pessoas na sala; algumas acomodaram-se em volta da mesa e iniciou-se a reunião.

Um senhor, Fernando, baixinho e completamente calvo, tomou um livro que estava sobre a mesa abriu-o de olhos fechados e leu o seguinte:

"O Evangelho Segundo o Espiritismo"; capítulo 11, item sete: Esta sentença: "Dai a César o que é de César", não deve, entretanto, ser entendida de modo restritivo e absoluto. Como em todos os ensinos de Jesus, há nela um princípio geral, resumido sob forma prática e usual e deduzido de uma circunstância particular. Esse princípio é consequente daquele segundo o qual devemos proceder para com os outros como queiramos que os outros procedam para conosco. Ele condena todo prejuízo material e moral que se possa causar a outrem, toda postergação de seus interesses. Prescreve o respeito aos direitos de cada um, como cada um deseja que se respeitem os seus. Estende-se mesmo aos deveres contraídos para com a família, a sociedade, a autoridade, tanto quanto para com os indivíduos em geral.

Fechou o livro e continuou:

Caros irmãos, aprendamos a cumprir nossos deveres em todas as circunstâncias em que nos acharmos inseridos: na família dignifiquemos o posto de cônjuges, de filhos, de pais e irmãos, entendendo que acima de eventuais divergências pairam nossas obrigações com aqueles com quem convivemos no ambiente doméstico; Da mesma sorte lembremos sempre dos nossos deveres com o país que nos acolhe e seu povo; com as autoridades que nos governam e que necessitam muito mais do nosso apoio e de nossa prece do que de nossas críticas; Cumprir os deveres com Deus e o próximo não é coisa amarga ou dolorosa, é penhor de paz e satisfação interior.

Quase todas as lâmpadas foram apagadas e o recinto mergulhou na penumbra iluminado apenas por fracas lâmpadas. E Fernando, prosseguiu, falando com emoção:

Jesus, mestre amado, envia-nos seus mensageiros, ajuda-nos a cumprirmos nossos deveres de solidariedade com os espíritos que sofrem; que possamos ver em cada um deles um irmão que o passado devolve ao nosso carinho e compreensão.

A seguir uma senhora e um senhor passaram a andar em volta da mesa estendendo as mãos sobre as cabeças daqueles que estavam sentados.

Uma das pessoas sentadas a mesa as começou a falar dizendo da necessidade do apoio de todos pois havia muito trabalho a realizar, e que o sucesso da reunião dependia dos bons sentimentos, da prece e da disciplina mental dos presentes.

Telma não conseguia entender com clareza o que se passava; sensações contraditórias a envolviam continuamente: repentinamente sentiu-se puxada para o alto da sala e via as pessoas em baixo como se estivesse pendurada no teto feito um lustre, olhando para baixo; em seguida sentiu-se novamente na cadeira; passou a enxergar vários vultos andando pela sala, inclusive homens carregando doentes em macas; logo após ela se viu vestida a moda antiga, com um vestido de veludo bordado com fios com fios de prata determinando a morte de um homem ajoelhado que chorava a seus pés suplicando piedade; quando olhou melhor o rosto do homem, ele se transformou no "homem sujo" e ao invés de chorar passou a gargalhar enlouquecido; essas cenas aparentemente desconexas sucediam-se com estranha rapidez.

Telma começou a sentir alívio e olhar tudo aquilo com certa naturalidade, sentiu-se melhor; imediatamente sua atenção se voltou para Cacilda, que estava sentada a mesa, e que passou a gargalhar de forma contida; ocorreu então o seguinte diálogo entre Cacilda e Fernando, o senhor calvo que havia dado início à reunião:

Cacilda:

Me amarraram aqui, mas não poderão fazer isso para sempre... vou enlouquecê-la e depois levá-la ao suicídio... o prazer da vingança, após tantos anos, é um vinho delicioso que me embriaga e me deixa eufórico... através da saborosa taça da vingança esqueço tudo: toda dor, toda humilhação, toda degradação, tudo isso desaparece: "in vino veritas" e o vinho da vingança traz a verdade...

Fernando:

  • Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o seu nome, venha a nós o seu reino, seja feita a sua vontade aqui na Terra como no Céu; o pão nosso de cada dia dê-nos hoje; perdoa as nossa dívidas assim como nós perdoamos nossos devedores; não nos deixe cair em tentação e livra-nos de todo mal...

Cacilda:

Não adianta vir com esta atitude de velha rezadeira; eu tenho poder; eu tenho comparsas; o crime é o meu negócio e você é um fraco...

Fernando:

Jesus... Jesus... abre o coração desse nosso irmão... fortalece os sentimentos bons que tem e que estão adormecidos; que o seu amor possa iluminar essa alma...

Cacilda:

Tirem esta luz de cima de mim, quem é esse velho que se aproxima, o que vocês querem? Cegar-me? Mostrar meus trapos, minha boca apodrecida, meus cabelos cheios de piolhos? ...

Fernando:

Queremos auxiliá-lo, oferecer-lhe tratamento, ajudá-lo a recuperar sua aparência normal, libertar-se dessas mágoas e dessa dor gigante que o oprime; queremos que você abra os olhos para a bondade de Deus e as oportunidades que ele nos oferece todos os dias

Cacilda:

Estou ficando tonto, acho que vou desmaiar, estou morrendo, estou morrendo... e a voz foi se calando num murmúrio incompreensível.

Fernando:

Muito agradecemos ao senhor a oportunidade de servir, que o nosso irmão que aqui esteve possa ser socorrido e seguir um caminho melhor e mais feliz.

E a reunião prosseguiu, com outros estranhos diálogos; Telma ainda tinha a mente atravessada por pensamentos desconexos, por vezes sentia o estômago embrulhado, mas sentia-se muito melhor; na sua mente veio a imagem de uma roseira de seu jardim, que as formigas haviam devorado as folhas e ficou parecendo um esqueleto, mas depois de algumas semanas foram voltando as folhas e a roseira deu belas rosas. Agarrou-se a aquela lembrança com todas as forças do pensamento; e repetiu baixinho varias vezes para si mesma enquanto as lágrimas caiam pelo seu rosto:

Preciso ter esperança, a esperança será a minha salvação, o meu remédio... esperança... esperança... você é a força que vai me salvar e me tirar desse inferno... esperança... esperança...

Às nove horas a reunião se encerrou, alguns se abraçaram, outros despediram-se friamente.

A atração que Cacilda despertava em Telma tornou-se mais forte, Telma aproximou-se dela; um pequeno círculo a rodeava; Telma esperou pacientemente que o circulo fosse se desfazendo; contrariando seu modo frio e distante sentiu vontade de abraçá-la também, uma sensação de calma a invadia.

Cacilda respondeu efusivamente ao seu abraço e disse-lhe de forma brincalhona:

Tenho uma lição de casa para você mocinha...

Conduziu-a até um armário e deu-lhe dois livros para ler, "O Evangelho segundo o Espiritismo" e o "Livro dos Médiuns" e comentou:

Leia com atenção e vagar pensando nas coisas que aconteceram, na sua própria vida e experiências; Comece o "Evangelho" pelo fim lendo o último capítulo "Coletânea de Preces Espíritas"; na próxima semana chegue mais cedo para conversarmos mais.

E dirigindo-se ao marido:

Calma e paciência Alfredo; sua esposa precisa de você, especialmente do seu amor; seu pai está ao seu lado, auxiliando-o e está oferecendo-lhe um cravo vermelho e diz que o aspire e sinta novamente a energia da vida.

Alfredo emocionou-se com aquelas palavras; e disse com voz algo embargada:

Eu o tenho sentido constantemente ao meu lado esta semana... Diga a ele que eu sempre o amarei e respeitarei...

Ao que Cacilda respondeu com vivacidade

Não é preciso eu dizer a "ele"; "ele" está ouvindo; seu pai pede que você respeite a si mesmo...

E concluiu estendendo os braços e tocando o ombro do casal

Vão agora para casa e tenham bons sonhos, esta casa lhes pertence; não deixem de tomar um copinho de água fluidificada; O caro Dr. Leite os levará até ela.

Tomaram a água e voltaram para casa; Telma sentiu um sono intenso e poucos minutos após o carro por-se em marcha dormia profundamente.

Alfredo pensava naquelas palavras "respeite a si mesmo"; seu pai falaria assim, desaconselharia certamente as suas aventuras e reprovaria a fuga com os filhos deixando a esposa entregue a um hospício. Contemplando o rosto da esposa adormecida sentiu que a aversão diminuíra, embora suas olheiras e a expressão abatida não o estimulassem. Descendo os olhos observou os joelhos da esposa, que dormindo ficara numa posição menos elegante e mais relaxada; considerou duas coisas: a primeira era que a estátua de mármore, fria, dura e perfeita, estava se quebrando a semelhança de um ovo que deixa entrever a avezinha; a segunda era que os joelhos de Telma ainda tinham seu encanto.

O mundo espiritual

A a partir daquela reunião iniciou-se para Telma uma estranha viagem: ficando a maior parte do tempo em casa e indo semanalmente ao grupo espírita, lendo os livros que ia recebendo de Cacilda e refletindo sobre as próprias experiências, passou a penetrar num mundo vasto que estendia-se no tempo e no espaço: sua vida multiplicava-se em inúmeras vidas através do conceito da reincarnação. Igualmente se multiplicavam os personagens de sua vida familiar, e ela ia viajando por esse tempo espaço, ora através dos livros, ora pelas suas impressões, ora por intermédio das cenas que via com maior ou menor precisão, pois repentinamente sua visão se abria e observava cenas atuais e também cenas perdidas num passado remoto.

A questão moral também passou a ser mais clara, compreendendo os processos que a justiça divina se vale para equilibrar os fatos do mundo moral, reeducando o faltoso e estimulando os acertos.

Quanto a religião, descobriu Deus e Jesus. Superou também o desprezo pelas manifestações religiosas, ao compreender que embora tendo não tendo toda a verdade as religiões no geral auxiliam os homens que nelas procurem o bem.

Quanto aos filhos e o marido entendeu o quanto fora irresponsável e identificou um sério problema: como seu coração era pequeno, para ela o centro da vida, que é o amor, estava distante; o deserto em que se sentia era o solo do seu coração, empedrado e seco, onde custava a nascer uma ternura, um afeto, um sentimento de compaixão, e onde, por qualquer motivo aquela coisa boa, que sentia, definhava e com frequência morria; porém se era difícil sentir, não era tão complicado fazer: procurava tratá-los bem, zelar pelas suas necessidades.

Não conseguiria oferecer ao marido uma mulher apaixonada, nem mesmo uma esposa amorosa, mas podia oferecer-lhe uma pessoa amiga e um corpo saudável que fosse apenas dele.

A sua transformação melhorou o relacionamento com todos.

Algo que aconteceu e que lhe deu muita satisfação foi a diminuição do orgulho; convencera-se da reincarnação e sabia que nesta vida tinha uma vida confortável, dinheiro e empregados, mas na próxima, poderia ter o ofício de lavadeira e morar num barraco.

O grupo Ismael passou a ocupar um lugar especial na sua vida e ser para Telma uma razão de vida importante; lá os horizontes se alargavam; nas reuniões semanais incorporava principalmente espíritos em sofrimento, mas via também entidades ligadas ao trabalho no bem e cruzava a história, e os continentes graças às suas possibilidades mediúnicas; aos domingos, valendo-se da sua condição financeira, visitava os morros, levando gêneros e roupas com outros companheiros de ideal e ficava amiga de pessoas pobres com as quais nunca pensara um dia conversar.

Ficou sabendo que o "homem sujo" fora um amante que tivera na França e do qual tirara tudo, dinheiro, família e honra e que depois denunciara por um crime que ele não havia praticado; foragido foi obrigado a esconder-se nos esgotos de Paris, de onde saia a noite para roubar o que comer; ele sobrevivera ainda cinco anos nesse tipo de vida até que agonizante e imóvel fora atacado ainda em vida por ratazanas, que lhe devoraram parte dos membros.

Desde então ele a perseguira tanto no espaço quanto nas encarnações que tivera, levando-a inclusive numa delas ao suicídio.

As reuniões com doutrinações frequentes como aquela que presenciara, quando da primeira vez que estivera no Grupo Ismael, prosseguiram por quase dois anos, até que ele foi encaminhado ao plano espiritual.

Quatro anos passados dos acontecimentos aqui descritos, teve uma nova gestação e mais um menino saudável; seu último filho, José Antônio, nasceu três anos depois, porém com problemas de saúde; era surdo-mudo; trouxe a ela, a Alfredo e aos irmãos muito sofrimento; porém morreu aos cinco anos; quando ele desencarnou, Telma tinha 47 anos.

Despedidas

Nesta época tive de deixá-la; uma nova encarnação me aguardava, depois de 30 anos de convívio quase contínuo. Estava consciente que sentiria uma enorme saudade dela; pois durante os próximos 41 anos não nos veríamos; eu encarnaria em outra cidade e não estava em meu programa de vida revê-la.

Despedi-me numa manhã enquanto ela cuidava do jardim; eu a beijei paternalmente, ela pressentiu a minha presença, sorriu e logo depois ficou emocionada, derramou inclusive algumas lágrimas.

Pela ultima vez naquela encarnação eu leria seus pensamentos com a facilidade e a familiaridade de tantos anos de convívio, Telma refletia: "não tive notícias de meu pai em todos esses anos de prática mediúnica, morreu quando eu tinha quinze anos, onde estará ele nesse momento? Terá reincarnado? O que estará fazendo no plano espiritual? Tenho tão poucas informações a seu respeito... conviveu tão pouco comigo... sempre viajando... morreu no Paraná...

Na sua tela mental desenhou-se uma velha fotografia onde eu aparecia ao lado de sua mãe, e ela continuou: "é estranha essa saudade dele, será que ele está perto de mim? ..."

Eu a olhei com uma ternura infinita e me dirigi para o centro preparatório da minha próxima encarnação, de onde apenas me afastaria para voltar a Terra.

Pode parecer estranho, que amando-a como pai, pedindo eu ao plano maior a permissão para cuidar dela, em reparação a minha ausência como pai carnal e movido também por um grande afeto, eu permitisse a aproximação de um inimigo espiritual tão violento.

Quando ele apareceu na adolescência de Telma, fiquei muito angustiado com aquela sombra sinistra que o passado devolvia; procurando meus orientadores, eles explicaram-me que aquele que eu considerava um terrível problema, seria na verdade abençoada solução, permitida por Deus.

E assim foi; a contundência do inimigo espiritual finalmente quebrou a casaca de indiferença e dureza de coração que aprisionava a minha filhinha.

É evidente que sempre foi um tratamento controlado, semelhante a radioterapia a destruir tumores cancerosos, mas trazendo desagradáveis efeitos colaterais ao paciente. Sempre estive próximo, vigilante; mas procurando intervir o mínimo, como naquela oportunidade em que surgindo o primeiro ataque inspirei ao Dr. Leite oferecer-lhe ajuda; que aliás ela recusou e eu sugeri ao médico, mentalmente, que não insistisse.

A minha nova encarnação, embora acertos e desacertos, foi breve; desencarnei relativamente jovem com cerca de quarenta anos, ela morreu, com 86 anos bem vividos, apenas dois anos antes de mim; foi a primeira pessoa que eu vi após o desencarne, estamos novamente juntos; mas essa é outra história que, quem sabe, a gente possa contar em outras noites de folga...

1Esta história se passa por volta de 1930 / 1940. (nota do médium)

2 Os nomes dos personagens bem como das instituições são fictícios. (nota do autor espiritual)

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