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A Morte

Muitos consideram a morte como o sofrimento máximo. Há mortes plenas de dores, verdadeiros suplícios morais. Mas há também mortes calmas e pacíficas, como o apagar de uma vela que fosse soprada por Deus.

O pranto sempre foi associado à morte. A maioria dos prantos derramados nos velórios não é pelo morto que deixa o mundo material. Sentimentos de culpa com relação ao morto, que a hipocrisia não permite revelar; medo da própria morte, que nos esforçamos por esquecer, mas que a morte de conhecidos teima em relembrar; medo do que poderá acontecer, notadamente quando há forte dependência econômica do morto; de outras vezes o pranto é mascara para ocultar a alegria do descanso da parentela após a agonia prolongada, ou mesmo a expectativa de alguma herança. Essas verdades são duras mas não há como ignorá-las. Se no íntimo de nós mesmos nos propomos encará-las francamente, eliminando qualquer tipo de hipocrisia e disfarce, será bem mais fácil lidar com elas. Desmascarar os nossos irmãos também não será o melhor caminho, deixemos esse trabalho para a própria vida que no momento oportuno o fará.

Mas, a par dessas lágrimas falsamente atribuídas à morte, há dores reais, simplesmente porque há afetos reais. É a estes que, mais especialmente, queremos nos dirigir neste capítulo.

A morte pertence à natureza dos corpos (nascer, crescer, morrer). É preciso que aprendamos a conviver com a natureza, entendendo-a e amando-a. Mesmo porque nós, as almas, somos imortais por natureza, e contemplaremos muitas mortes de corpos. O argumento básico para consolo, na morte, é que a vida continua e o amor continua.

Moral da História:

  • A vida é um rio. A morte é uma cachoeira. O rio continua a correr mais em baixo. (Explicação de um índio)

  • Na morte vejo que nem todo choro é sincero, mas há ainda muito amor verdadeiro.

A Morte em si

Há alguns meses atrás, vi um motoqueiro, desses que fazem pequenas entregas, que havia sido atropelado, por um ônibus, creio. O asfalto encheu-se de sangue. Uma viatura da polícia civil procurava dar atendimento à ocorrência. Eu olhei aquele cadáver mal vestido, imaginei seus esforços correndo para vencer o trânsito da cidade, correndo atrás do magro salário, correndo riscos sem conta, até alcançar o ponto de chegada, num cruzamento da Av. Duque de Caxias.

Fiz uma prece por ele. Mas doeu em mim, aquela morte.

A morte tem má aparência. Seja violenta ou suave, na via pública, no lar, ou no ambiente antisséptico de um hospital, há sempre a destruição do corpo físico, interna ou externa, que nos choca.

Os ritos fúnebres também são tristonhos. O sepultamento ou a cremação não deixam de soar como uma violência.

Mas, se a morte é feia na sua feição exterior, material, ela é bela no seu aspecto interior, espiritual.

Devemos portanto sempre olhar a morte com os olhos do espírito.

Olhando a morte com os olhos do espírito:

  • Não veremos o cadáver, e sim a alma.

  • Não veremos a sepultura, e sim a libertação.

  • Não veremos o corpo que a doença desorganiza, e sim a nova etapa de vida que se inicia.

Morrer é deixar este mundo material, e viver plenamente o mundo espiritual.

A morte me lembra o maracujá

É uma fruta, de certa forma feia, os melhores são aqueles que estão com a casca toda enrugada, encarquilhada. Cortamos a fruta, retiramos o seu interior, jogamos a casca fora, batemos a polpa com água e gelo no liquidificador, e que saboroso suco obtemos.

Vista pelo seu aspecto exterior, a morte é feia, encarquilhada, mas se nos aprofundamos no que acontece no cerne do fenômeno, no sentido das leis de Deus que estabeleceram a fatalidade da morte do corpo e da imortalidade da alma, jogamos fora a casca das aparências, ficamos com a polpa do fruto, se pusermos tudo isso a misturar-se com a  água viva do evangelho do Senhor, e com o gelo refrescante do mais puro raciocínio, que belo suco de ideias obteremos, refrescante para a nossa alma, que se enche de gratidão junto ao Bom Deus, por suas disposições de bondade e misericórdia.



Moral da História:

  • Aos olhos do espírito, morrer é renascer para a vida eterna.

  • Quem olha a morte em profundidade vê a verdadeira vida.

PS.: Outro dia, vi o motoqueiro no além. Agora é mensageiro de espíritos elevados. Cruza os espaços, sem os impedimentos da matéria, sem os engarrafamentos do trânsito, sem a poluição sonora e ambiental da motoca. Ao invés de levar documentos comerciais, leva mensagens de orientação, alento e consolo. Sua família aqui na terra ainda o preocupa (benditas preocupações), continua fazendo o possível por ela. Ele frequentemente agradece a Deus, porque o seu novo possível, como espírito liberto, é muito mais amplo que o antigo possível do pobre motoqueiro.

A compreensão da morte

Subordinada às leis que presidem a nossa evolução, está a lei de ação e reação, ou a lei do carma, que ao devolver-nos de forma invertida, os atos que praticamos, nos auxilia a subir a escada do progresso.

Uma outra maneira de vermos a dita lei de ação e reação é vê-la como um espelho retrovisor, vivo e dinâmico que inserisse à nossa frente fatos do passado, com o objetivo de retificá-los, misturando à estrada que está a nossa frente, cenas da estrada que está as nossas costas, pela qual já passamos.

Um espírito amigo, chamado José, numa noite de preces, no pequeno e querido "Lar de Maria", descreveu-me com as cores vivas de sua visão psicológica, a morte de uma criança nos seguintes termos:

Corria a bola...

Corria a criança...

Corria o caminhão...

Tríplice encontro marcado num ponto preciso, num instante preciso...

Convergiam para um ponto focal de seus destinos...

Benfeitores espirituais solícitos sabiam daquele segundo assinalado pelas leis divinas e tomavam providências.

Aquela cena seria o reflexo de outra cena. Espelho da vida refletindo no futuro eventos do passado.

A criança de hoje fora no passado velhinho que desperdiçara seus últimos momentos em suicídio inconsciente, através do apego incontrolável ao  álcool.

Motorista de hoje, filho mais velho nos caminhos de ontem, irresponsável, omisso.

Mãe, hoje amorosa, atenta, porém distraída por alguns segundos com a limpeza da casa. Ontem a esposa indiferente, agravando os problemas sentimentais do marido.

Pai de hoje, filho mais novo de ontem, ingrato, causa de inúmeros dissabores.

A cena foi rápida. Surpresa, angústia, consternação face a morte violenta do lindo menino de seis anos.

O esforço do motorista para salvar a criança, arriscando a própria vida e destruindo completamente o caminhão, foi inútil.

A angústia da mãe em transbordamento de carinho a todos comoveu, o sentimento de culpa pela sua indiferença foi incompreensível para todos que sempre a acharam extremosa, e como culpar-se por uma distração de alguns segundos?

O pai transtornado, com seus sonhos despedaçados, orava, orava...

E a bola?

A bola colorida da criança de hoje, lançada a um canto da calçada, lembrava-me o vício que havia precipitado o homem de ontem nos bares, consumido suas melhores energias, ligando-o às piores companhias: o jogo de bilhar.

Espelhos da vida, como são precisas as suas imagens invertidas.

Esta pequena história é uma mensagem de esperança na medida em que reencontramos os mesmos personagens com papéis trocados, mas muito mais conscientes, amorosos e bons.

Havia débitos com faltas passadas, que exigiam o respectivo resgate, que foi feito com muitas lágrimas, mas sem revolta, em clima de prece, e como a vida continua, de futuro os nossos personagens se encontrarão novamente, numa situação melhor, mais livres, para se aproximarem mais da verdadeira felicidade que está em Deus.

Moral da História:

  • Todas as circunstâncias, mesmo as menores, têm sua razão de ser.

  • Há uma justiça divina que ao longo do tempo tudo harmoniza.

A separação afetiva pela morte

No impacto da morte em si, nosso coração ainda não a registra. Há apenas o trauma da morte, a mistura involuntária e inconsciente do cadáver e do ente querido, Mas o tempo vai passando, as imagens da morte vão se enevoando e aí ela surge cada vez mais forte: a saudade

Qual das afirmações será válida: "longe dos olhos, longe do coração", ou será "longe dos olhos, perto do coração"?

Se o afeto é superficial, a falta de contato visual rapidamente provoca o esquecimento; mas se o afeto é profundo, podar a copa dá mais força à planta afetiva, que lança suas raízes vigorosas la dentro de nosso coração.

Quando há uma separação em vida, motivada pelo desentendimento, pelo desinteresse, ou por circunstâncias que não quisemos superar, a própria separação já é um balde de  água fria no afeto, mesmo que essa separação seja unilateral.

Mas, se existe um afeto profundo, e a morte separa, o afeto fica inalterado, gerando saudade e mais saudade.

Separação! essa é a palavra chave que os pares afetivos devem meditar com relação à morte.

A morte é separação?

Sim e não!

Sim! quanto ao contato visual, sim quanto a disposições materiais. O sócio não assinará mais ao nosso lado. O esposo não mais repartirá conosco as atividades domésticas. Não mais compraremos material escolar para o filho querido.

Não! quanto à vida do espírito. O esposo nos envolverá com seu afeto. O filho beijará nossas mãos em manifestações de carinho e gratidão. O sócio nos fortalecerá nos momentos difíceis que atravessemos na condução de nossos negócios.

O interesse é arrasado pela morte. O amor puro, a lealdade, a amizade são fortalecidos pela morte.

A morte projetará o afeto, o relacionamento, em outro plano.

Míriam é um exemplo raro de casamento feliz. Mulher bonita e afetiva, seu marido é sua realização como mulher. Ele morreu. Conversávamos. Ela me instruía:

- Ontem aguava o jardim de nossa casa de praia. Conversei tanto com o meu marido enquanto regava as plantas. Continuo viúva, porque dentro do meu coração permaneço casada. Passo com o meu companheiro mais horas até do que quando ele estava encarnado.

A morte matou o corpo do marido de Miriam. As qualidades morais do esposo permitiram que o afeto real, profundo, descobrisse as vias para matar a saudade, e tudo ficou melhor ainda.

Esses afetos grandes parecem a  água de um pequeno riacho, que vai achando vales, encontrando rios maiores até que enfim se lança no mar.

"Viver na lembrança" tem um duplo sentido.

Se "viver na lembrança" é estar mergulhado no passado, misturando-o ao presente; se "viver na lembrança" é negar a mudança a que todos devemos buscar, então, devemos nos recusar taxativamente a "viver na lembrança", pois esse "viver na lembrança" é uma prisão.

Se "viver na lembrança" é lembrar constantemente o ente querido, compartilhando nossas duas vidas; se "viver na lembrança" é usar o passado como trampolim para nos projetarmos em direção ao futuro grandioso onde nosso afeto será ainda maior, então devemos "viver na lembrança", tendo esse "viver na lembrança" como alavanca de libertação espiritual.

A maneira pela qual nos lembramos daquele que partiu pode ser causa de grande alegria ou sofrimento para o desencarnado.

O desencarnado é muito sensível. Se o desligamento do corpo se dá em algumas dezenas de horas, o mesmo não se dá com relação a toda vida material: objetos pessoais, a casa, locais que frequentava, o jornal diário que estava habituado a ler, tudo isso demandará tempo, para que o desencarnado se desabitue.

Se nas nossas lembranças, atentamos muito para essa parte material, se nossas lembranças estão cheias de dor e revolta, nossas lembranças atingirão o nosso ente querido como verdadeiras flechas envenenadas, e abrirão as portas da obsessão. Que coisa triste: um afeto com grandes possibilidades de espiritualização ser transformado por nossa imprudência nessa enfermidade pesada e penosa da obsessão.

De outro lado, se nossas lembranças forem doces, harmoniosas, verdadeiras lembranças em Deus, plenas de esperança e fé, elas serão como flores, luzes, envolvendo nosso ente querido, e serão mais calorosas que o aperto de mão franco e leal, do que o abraço apertado, do que o beijo pleno de carinho.

Você que tem uma criatura amada: filho, pai, mãe, amigo, amiga, esposo, esposa do outro lado da vida.

Não procure esquecê-los. O esquecimento é frio, dói mais do que a morte.

Cultive os seus afetos desencarnados. Mas cultive-os com alegria, uma alegria doce, que poderá ter até uma pitadinha de tristeza.

Dê-lhes no silêncio de seu coração, um pouco do seu tempo, rogue a Deus por eles.

Faça alguma boa ação em nome deles.

Um dia também você atravessará as portas da morte. E queira Deus que sua morte tenha muito mais de re-encontro do que de despedida.

Moral da História:

  • Lembrar pode ser morrer ou viver.

  • A morte valoriza o afeto sincero.

O Luto

Formas de expressão, como o beijo, o aperto de mão, o abraço, a interjeição de alegria, os diversos gestos, o vestuário, a festa, vem enriquecendo a cultura humana ao longo dos séculos e tem inestimável valor.

A demonstração e a afirmação de sentimentos, se não tem por base sentimentos sinceros resvala, para a hipocrisia, e a hipocrisia é pior que a morte.

O luto está relacionado com a demonstração e a afirmação dos sentimentos que temos face à morte.

Mais uma vez temos que separar o elemento vivo, sentimental, social que existe no luto, de seu elemento formal, de aparência, de superfície.

Que devemos expressar no luto?

Devemos expressar o que sentimos. Mas o que convém sentir?

Tristeza, desespero, descrença?

Não! Nem ter, nem expressar maus sentimentos. Não nos esqueçamos que o recém desencarnado é muito sensível, à semelhança dos bebes da carne.

O que devemos expressar no luto?

Devemos expressar essencialmente o amor. O amor sincero, que garanta ao desencarnado que o fenômeno da morte não rompeu os laços afetivos profundos e que o unem aos encarnados que ficaram.

O preto é a ausência de luz; o branco é o produto da mistura de todas as cores.

No ocidente os ritos relacionados aos mortos usam o negro, como sinal de tristeza. Usar a ausência da luz para identificar a morte, é atitude desesperada. Haverá o impulso inconsciente de identificar a morte com o nada? Ou será que, carregado de sentimentos de culpa, o homem desejaria que assim fosse para não prestar contas a Deus?

Câmara Cascudo, estudioso do folclore, afirmava que para muito povos africanos, a cor para identificar a morte era o branco. Isso me parece muito mais coerente, porque para o espírito a morte é libertação e luz. Mesmo para os pecadores, que todos somos, tenhamos sempre presente que a misericórdia de Deus é maior que as nossas faltas.

Certa feita, tendo morrido um membro da Sociedade Espírita de Paris, alguns sócios tomaram a iniciativa de arrecadar fundos, para que fosse levantado um busto do extinto, que o homenageasse e estimulasse a sua lembrança.

Allan Kardec, presidente da sociedade, observou: - É melhor dar pão aos pobres do que pedras aos mortos.

É tocante, para os vivos, e também para os mortos, verem num túmulo, uma rosa que o amor lançou.

Todavia, entre a arte e os ritos funerários de um lado, e a caridade de outro, não há o que pensar.

Atender aos afetos que o morto deixou; fazer obras de caridade em seu nome; orar por ele para tudo corra bem na vida espiritual que se inicia; manter a concórdia, mesmo quando deixou alguns bens, que o interesse sugere disputar; perdoá-lo de alguma falta; lembrá-lo sem mágoa nem desrespeito valem muito mais que o mais pomposo dos enterros ou o mais suntuoso dos túmulos.

Moral da História:

  • O luto deve expressar amor ao morto.

  • A vida continua tanto para o morto quanto para nós.

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