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Afeto

Alguns benfeitores espirituais informam que num único ano da década de 60 os sofrimentos ligados a afeto e sexo superaram todos os sofrimentos da guerra 39/45.

Quanto horror na segunda guerra, dezenas de milhões de mortes, fornos crematórios, bombardeios sem fim, ...

No entanto num só ano, as lágrimas derramadas, por amores não correspondidos, triângulos amorosos, convivências de prova, prostituição, separações afetivas, foram mais numerosas...

Assim é o afeto, assim é o sexo: fontes máximas de prazer e alegria imediatas. Prefácios aos amores eternos. E pelo seu alto poder de mexer com as almas, igualmente fontes de discórdia, de sofrimentos, de disputas, dado o estágio de desequilíbrio em que ainda nos encontramos.

Todos nós, seres humanos, estamos ligados por um fio inquebrável que nos "costura" um nos outros. Fio eterno, puríssimo, infinito. Esse fio é o amor de Deus. Todos fomos criados por Ele. E Ele a todos ama.

Esse ponto em comum que todos nós temos, Deus, não é um ponto, é o infinito, e é a base primeira e última das ligações humanas.

Jesus, interpelado pelos fariseus, sobre qual seria o maior mandamento da lei, respondeu:

Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento; é o maior e o primeiro mandamento. E eis o segundo que é semelhante ao primeiro. Amar s o teu próximo como a ti mesmo.

Creio que Jesus relacionou o amor a Deus em primeiro lugar e disse que amar ao próximo é semelhante a amar a Deus, porque o amor de Deus é base do amor ao próximo.

Toda vez que amamos o próximo sem Deus, esse amor é desequilibrado, sem base.

Cumpre mais uma vez notar que não falo aqui de um Deus verbal, da boca para fora, não falo aqui de um Deus racionalizado, falo do Deus força, agindo nas profundezas inconscientes de nossa mente. Do Deus, que mesmo os que se dizem ateus possuem, do Deus invisível e impessoal. Do Deus de Amor, conforme a conceituação de João Evangelista.

Posto que todos estamos unidos por Deus, separações, uniões impossíveis, convívios de sofrimento, tudo isso será temporário, relativo ao estágio que atravessamos, pois ao longo da evolução, ao longo da eternidade, todo relacionamento será equacionado.

Seja qual for o ser humano que possamos ter em mente, há uma semente de amor imortal nos unindo, e essa semente vigorosa, que é a vontade do Deus que nos criou, fatalmente se desenvolver , e o ódio, a antipatia, a impossibilidade serão um dia vencidos, e um relacionamento saudável, vigoroso, esclarecido, profundo, será fonte de felicidade para o par de almas.

Deus

Feliz o que tem Deus nessa batalha

Da miséria terrena, que estraçalha

Todo anseio de amor ou de bonança

Cruz e Souza



Alma querida, se tens Deus,

no sacrário de teu coração,

na hora da dor do sentimento

lembra-te desse tesouro.


Deus é balsamo

que alivia a dor.

Deus é luz

que afasta a sombria tristeza.


Quando o teu sentimento,

doer pelas feridas

aumentadas

guarda o pensamento,

em Quem te criou,

em Quem te ama,

e reflete:


Se Ele o Senhor,

amarras corta,

é que te importa,

te fazeres ao mar,

navegar

no amor universal,

eterno, imortal.


Se Ele, o Senhor,

afasta quem amas

é que por outras vias,

mais espirituais,

deves te aproximar.


Se Ele, o Criador,

te aproxima de quem,

por excesso de afeto

e falta de condições,

te sinaliza quedas

e embaraços,

é que quer

exercitar tua prudência

e desapego,

que a paixão também passa.


E ao invés de deixar,

pela muita dor,

a alma em dores

se esvaindo,

a bracejar enfraquecida,

parecendo criancinha

perdida da mãe.

Para!

ao invés de agitar

os braços em vão,

põe as mãos postas

em prece de paz.


E com lágrimas em luz,

busca Deus,

com todas as forças

do teu frágil coração,

pois, sentindo a presença de Deus,

saberás,

que nenhum sofrimento

é vão,

e que acima das tuas

pequenas dores,

de afetos partidos,

paira a alegria perfeita

do amor de Deus.


Graças te damos, ó Deus eterno, fonte de todas as leis, por nos teres dado como lei maior, a lei do amor.

Devemos sempre unir esperança e realidade, para que a esperança nos ajude a transformar em realidade o que esperamos.

A esperança nos oferece a fatalidade do amor. A realidade nos mostra caminhos pedregosos, portas estreitas e cruzes. Vamos trilhar esses caminhos corajosamente, abrir essas portas, carregar essas cruzes, porque o amor vale esse preço e muito mais. E a nossa decisão expressando nossa fé tornará suaves esses constrangimentos e leves esses pesos.

Moral da História:

  • Amor e dor é uma rima muito comum.

  • O amor é uma lei de Deus.

Desamor

O amor é o alimento das almas.

Há almas, quer por um temperamento próprio, quer por disposições da lei do carma (ou ação e reação, como a denominam outros), são desnutridas de amor.

Seus familiares, ou não as amam, ou já partiram para o mundo maior. A vida não favoreceu que encontrassem pessoas afins, que lhes facilitassem o surgimento de afetos.

Ao deixarem suas atividades rotineiras, seja o trabalho profissional, sejam atividades caritativas ou de aprendizado, não há ninguém esperando por elas.

Meu irmão, ao ir ao enterro de uma vizinha, foi surpreendido por ser o único acompanhante.

Nos fins do século passado, o nosso país foi agraciado com a presença de Francisca Clotilde. Uma palavra define essa alma de escol: educadora.

No plano espiritual, Francisca Clotilde estuda aqueles casos muito especiais, em que Jesus vem pessoalmente receber o recém-desencarnado no plano espiritual. Dois desses casos chegaram ao nosso conhecimento, através de livros psicografados pelo médium Chico Xavier.

O primeiro caso é de uma mulher da roça, Sabina, que vem para a cidade grande, envelhece, fica enferma e solitária, e é constrangida à mendicância. Em um de seus versos Clotilde explicita:

Sabina não tinha ninguém, ninguém...

Do ponto de vista material, morre solitária, numa calçada, doente, com frio, com fome... Do ponto de vista espiritual, desencarna numa festa de luz, recebida por Jesus, trazendo-lhe de presente seu filho que morrera quando criança, e levando-a pessoalmente para o seu reino.

O segundo caso é de Tintino, um palhaço por profissão, que também morre aos noventa e dois anos, ao relento, absolutamente só e abandonado, mas que tem a glória de ser recebido por Jesus, do outro lado da vida, como mérito pela sua vitória na carne, onde espalhara muita alegria, fazendo muito mais do que os deveres profissionais lhe exigiam.

Trago esses exemplos à mente, e se você, embora suas atividades, padece da desnutrição afetiva, aceite meu abraço em Jesus e permita dizer-lhe que sou seu irmão. Se você puder, apareça na nossa pequena casa espírita, que procuraremos dar-lhe um afeto puro e sincero. Se não puder ir pessoalmente escreva-nos ou telefone.

Permita dizer-lhe também que há uma Mãe no Céu, que a todos estende seu amor infinito. Que essa Mãe está ao seu alcance imediato, através de um "telefone que se chama prece", como diria Ceres Prado.

E há Jesus, e há um anjo da guarda, posto por Deus para conduzi-lo, e haverão espíritos familiares de outras encarnações, e muitos mais.

E há o grande anônimo, Deus, o seu mais íntimo companheiro, o grande onipresente, que está também no mais profundo de você mesmo, e sempre.

Se de um lado dói não ter ninguém na carne, entenda esse jejum afetivo como a necessária preparação para o grande banquete que o aguarda.



Moral da História.

  • Todos nós somos muito amados no Reino dos Céus.

  • Jejuns carnais são preparativos para banquetes espirituais.

Convívio expiatório

As leis que regem a simpatia e a antipatia são variadas e complexas.

A base de todas essas leis é a seguinte lei: "o semelhante atrai o semelhante".

Como somos seres complexos, podemos ser olhados segundo muitos aspectos, tendo pontos de afinidade num aspecto e divergências num outro aspecto.

Um advogado terá afinidades com um professor por serem ambos operários da palavra. Mas poderá haver grandes divergências de temperamento, ou de moralidade. Daí nascerão tensões, pois se de um lado há atração, de outro há repulsa.

Se atendermos ao fator atração, unindo-nos, o fator repulsa provocará choques. Se atendermos ao fator repulsa, afastando-nos, o fator atração provocará carências. Duros dilemas.

Essas atrações e repulsas terão vários níveis de intensidade e também de profundidade na alma.

Há atrações e repulsas superficiais, derivadas principalmente de circunstâncias. Por trabalharmos numa mesma organização, sentimo-nos atraídos pelos nossos colegas de trabalho. Por vezes achamos até que poderosos laços de amizade nos unem. Mas, tão logo mudamos de emprego, os laços se desfazem.

Há atrações e repulsas extremamente profundas, forjadas ao longo dos séculos, no curso das re-encarnações, difíceis de serem resolvidas.

É da lei de Deus que todo relacionamento humano seja equacionado no amor.

A família é um instrumento de Deus para o crescimento do amor. É na família que surgirão estes mecanismos de atração e repulsão com mais intensidade.

Jesus, na última ceia, questionado por João sobre quem o trairia, disse a João, referindo-se a Judas: "O que come comigo no mesmo prato, este é o que me trairá."

Uma lição que tiramos dessas palavras de Jesus é que serão os nossos mais íntimos que nos trarão as maiores aflições.

Há vínculos indissolúveis durante a encarnação, tais sejam os vínculos carnais. Por mais que racionalizemos, continuaremos filhos de nossos pais, irmãos de nossos irmãos, pais de nossos filhos, netos de nossos avós.

O único vínculo, em termos familiares, que pode ser dissolvido é o vínculo conjugal. Mesmo assim, com alto custo.

Benfeitores espirituais orientam que não há vínculo conjugal sem fundamento divino, ou seja, que ocorrido o casamento, formal ou não, ligações espirituais se estabelecem entre marido e mulher, que deveriam em tese durar por toda a vida.

O vínculo carnal atrai, são filhos, por exemplo, mas o temperamento repele: são ambos "pavios curtíssimos".

O passado atrai mas presente repele: há lembranças doces, mas os caminhos da vida os levaram a posições muito distantes. Em outros casos o presente atrai mas é o passado que repele: hoje nada os separa, mas não conseguem superar as lembranças de mágoa e desafeto.

O sentimento atraí, o sexo repele: entendem-se bem nas finanças domésticas, na educação dos filhos, nos momentos de lazer, porém na cama não conseguem nenhuma harmonia. Ou vice-versa: possuem uma atração física intensa, mas não sentem nada um pelo outro a nível de pessoa.

Os filhos forçam um relacionamento. Os ideais de vida forçam um afastamento.

E o espírito, sente-se como que amarrado a cauda de dois potros bravios, cada um puxando para um lado, para ser esquartejado afetivamente.

Dez auto-questionamentos para aliviar o sofrimento de um convívio difícil:

  1. E se fosse eu que estivesse no lugar dele?

  2. Como eu posso aumentar a plataforma de simpatia que existe no nosso relacionamento?

  3. Como eu posso reduzir as  áreas de atrito que existem entre nós?

  4. Quais são os pontos na vida dele que podem me inspirar compaixão? (A compaixão é a mais fácil forma de amor)

  5. Como posso eliminar meus sentimentos de culpa? (sentimentos de culpa não pagam dívidas)

  6. Como posso trabalhar interiormente e exteriormente com resignação para pagar essa dívida?

  7. Tenho-me lembrado sempre que deixar falar um mais tolo é uma forma de caridade?

  8. Como e com que objetivo deverei orar, para vencer as conflitos morais e psicológicos que nos desgastam?

  9. Tenho procurado ter sempre presente o fato de que eu e ele somos ambos filhos de Deus?

  10. Por que Deus, na sua suprema justiça, bondade e sabedoria terá nos reunido?

Você, em cujo semblante o convívio difícil projeta sombras e lágrimas, levanta os olhos ao céu, põe a esperança no coração e prossegue com fé no Ser Maior, no Criador do Universo, que definiu a repulsão e atração para todos os seres e, baseando-se nessas duas forças opostas, constrói continuamente a harmonia entre todos os seres.

O progresso de cada espírito, no correr das vidas, é fatal, é certo. E com o correr dos séculos, com a evolução, todos seremos uma presença agradável.

Moral da História

  • Há amores eternos. Todo desafeto é passageiro.

  • Não existem vínculos fortuitos, todo vínculo tem um propósito.

Solidão

Há ingredientes da vida que são necessários para promover o equilíbrio, para servir como fatores de moderação.

Um primeiro exemplo é a treva. A treva é o fator moderador da luz. Se em alguns pontos não houvesse o escuro, a luz perderia seu contorno, ficaria difusa, informe. A treva (ausência de luz) serve para dar contorno à luz. De outro lado, se a luz viesse em toda sua intensidade, ela, pela sua própria força, seria agressiva, feriria nossos olhos e as plantas que se alimentam de luz.

Pensar que existam seres que se alimentam de luz, as nossas irmãs plantas, tão floridas, tão amigas, é um pensamento consolador.

Mas, voltando ao ponto, medita nesta analogia: assim como a luz necessita da treva, para amortecer-se e se tornar agradável, assim também o convívio necessita da solidão para ter os seus contornos definidos, para se tornar agradável.

Se o convívio fosse absoluto e perene, seria um motivo de cansaço e não, de satisfação.

Quando o convívio se intensifica, ganha o nome de intimidade. A intimidade é o convívio aprofundado.

Assim como a luz ao ter sua frequência aumentada, depois de passar pelo ultra-violeta, entra no campo dos raios X, vencendo as barreiras da matéria, retratando imagens interiores, da mesma forma o convívio, intensificando seus componentes psicológicos e espirituais, passa ao interior das pessoas.

É interessante considerarmos que somos espelhos, e que refletimos no convívio a imagem, uns dos outros. Quem convive assimila gestos, maneira de pensar, de dizer. Casais que convivem longo tempo tornam-se parecidos até fisicamente. Camões, o grande poeta da língua portuguesa expõe isso num poema:

Transforma-se o amador na cousa amada,

Por virtude do muito imaginar;

Não tenho logo mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada.


Se nela está, minha alma transformada,

Que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

Pois consigo tal alma está liada,


Mas esta linda e pura semideia,

Que como o acidente em seu sujeito,

Assim como a alma minha se conforma,


Está no pensamento como ideia;

(E) o vivo e puro amor de que sou feito,

Como a matéria simples busca a forma.


Fiz esta pequena digressão em torno da tese "a intimidade arrefece a individualidade" para tornar mais clara a necessidades de alguma solidão, para salvaguardarmos nossa individualidade.

A vida se desenvolve em múltiplos cenários. Operários invisíveis, causas desconhecidas, estão sempre modificando o palco, onde representamos os papéis que Deus nos confiou. Ora é a câmara conjugal, onde vivemos o papel de amantes, muito ou pouco realizados; em seguida a via pública, na condição de motoristas ou de pedestres, com a infinita variedade de ruas avenidas e praças; o trabalho, o escritório, a fábrica, o gabinete, o hospital, a escola ...; e tantos outros cenários, variando da várzea de futebol de campo ao clube noturno sofisticado, do templo da periferia à escola profissionalizante, da casa do amigo estimado ao diretório partidário...

Em cada um desses cenários, podemos sentir o mel da intimidade, como também a amargura da solidão.

Assim como a intimidade não é uma só, havendo a intimidade conjugal, profissional, religiosa, política... Assim também a solidão tem múltiplas faces.

O paralelo entre luz e convívio, também aqui se aplica. Há muitos mecanismos para diminuir a luz: venezianas para suavizar a luz dos dormitórios, persianas e cortinas para dar um toque de doçura e privacidade a outros cômodos da casa, vidros leitosos em lâmpadas e lustres, o tecido fino da cúpula do abajur, ou o botão de controle da luz do painel dos automóveis. Assim, também, há muitos mecanismos para diminuir o convívio nos seus inumeráveis cenários: convenções sociais que nos impedem de abordar indiscriminadamente estranhos, diferenças de posição, paredes, salas e ante-salas, vestimentas, distâncias...

Mas, o que muitas vezes faz você sentir-se triste é não ter a intimidade que quer, e ter a solidão que não deseja. É como não ter luz quando dela necessita para caminhar, e tê-la abundante quando deseja a penumbra para dormir.

A resposta a essas dificuldades que amargam o coração, é expressa por duas sílabas: lute!

Medite comigo:

Quanta luta, quanto trabalho, ao longo dos séculos em busca da luz. Desde o fogo, nas cavernas, até os modernos edifícios iluminados graças a distantes usinas de geração de energia elétrica. Na vida diária, o pagamento da conta de energia elétrica, a troca de lâmpadas, o esforço muscular de abrir ou fechar as janelas de sua casa... Há um tributo permanente sendo pago para que a luz se faça na medida certa. E a coisa iria muito mais longe, se fôssemos pelo caminho das luzes espirituais, das luzes do saber...

Transporte essa analogia para o campo do convívio, e você verá que o quadro não é diverso. Do ponto de vista histórico, quanta luta, quanto trabalho para equacionar o convívio humano, desde as tradições incorporadas século a século e que permitiam alguma harmonia na tribo pré-histórica, até os códigos legais modernos, regulando desde o regime de governo até o estacionamento numa rua de bairro; a evolução da linguagem falada e escrita; o estabelecimento da moeda, ... E na vida diária: os cumprimentos, e todos os gestos a traduzirem aproximação e repulsa, os elos estabelecidos pelas relações familiares, a extrema intimidade na gestação e amamentação entre mãe e filho, ...

Você deseja que uma mão amiga se apoie sobre a sua, que um beijo toque a sua face, que um olhar se fixe no seu, e esse desejo insatisfeito enche de sombras o seu semblante. Mas você fica imóvel na sua dor, não se levanta para abrir uma janela, descerrando à sua própria alma um novo horizonte social, ou nem sequer aperta um botão acendendo a lâmpada da beneficência, que estabelecerá a intimidade com os sofredores, que os há em toda latitude.

Lute, lute, lute, diariamente, mensalmente, anualmente para construir intimidades saudáveis, para eliminar outras que sejam motivo de perturbação. Deus vê o nosso esforço. E Aquele que estabeleceu para o Universo a lei máxima do amor, certamente terá como vontade que haja o convívio e a intimidade, que são alicerces para o amor. Deus que o ama multiplicará o seu esforço de aprimoramento do convívio.

Você não deseja excesso de solidão? Convívio de qualidade, na quantidade certa, conquistado pela perseverança, constância, entendimento, perdão, paciência, é a resposta.

A humanidade é uma humanidade em construção. Andaimes por toda a parte sustentando paredes e lajes não terminadas, trechos mal feitos sendo demolidos para serem reconstruídos, estruturas imponentes necessitando acabamento, pisos respingados de massa...

O convívio exige duas premissas: Somos seres inacabados, caminhando em direção à perfeição; os outros também são seres imperfeitos caminhando em direção à perfeição. Quem exigir perfeição em si, nos outros, ou nas relações humanas, para conviver, amargará uma solidão vazia.

De outro lado, quem entender a si e aos outros como seres em construção, fará das mesmas dificuldades da construção um elo que aproxima e une.

Eu viajava de ônibus, em direção a uma cidade próxima. Ia ter uma conversa difícil. Nuvens sombrias toldavam o céu de minha alma. Um vento úmido de indiferença, de descrença, me dava um frio interior.

Dormi um pouco. Acordei. O ônibus estava vazio. Comecei a ler um romance do filósofo chinês Lin Yu Tang, sobre filosofia do afeto, chamado "A Peônia Rubra".

Em alguns trechos Lin Yu Tang, através de seus personagens citava Kong Fon Tse, Confúcio, na maneira aportuguesada de falar.

Olhei pela janela, um canavial se estendia verdinho por muitos alqueires. Vendo aquela plantação, formulei espontaneamente uma prece:

- Mestre, como foi longe tua plantação.

Essa prece nascia do fato de que vinte e cinco séculos após, e a vinte mil quilômetros de distância, as boas ideias que o mestre da filosofia chinesa havia semeado estavam vivas, auxiliando-me.

Essa prece elevada a Confúcio me emocionou muito. Algumas lágrimas me molharam a face. Em resposta veio a ideia:

-Teus Mestres estão vivos.

Sim, Salomão, Confúcio, Sócrates, Agostinho, Paulo, Francisco, e tantos outros mestres da humanidade estão vivos. E eu, embora mau discípulo, tenho certeza de que se procurá-los, serei atendido, pois um imortal amor liga o mestre ao discípulo. E se meus mestres estão vivos, pleno de vida está o mestre dos mestres que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Se assim é, não estou só, tenho para onde voltar, tenho amigos poderosos a quem recorrer. Essa linha de ideias me trouxe grande conforto e energias novas.

Lembrei-me da pequenina banca de livros usados, estendida na calçada na Av. Paulista, onde havia ganho "A Peônia Rubra", que me foi dada pelo jovem ambulante a título de troco, face a outros livros que eu havia comprado. O ambulante, desconsiderando o interesse comercial, havia sido muito gentil comigo. Trabalhava de parceria com um paraplégico que propunha uma terapia alternativa baseada em pedras.

Misteriosos elos da vida, que me ligaram a dois ambulantes, a um filósofo chinês, aos grandes mestres da humanidade, e a Jesus.

Vislumbro a grande razão que norteia a vida, mas não consigo compreender suas engrenagens.

Assim também você não está só. Parentes, amigos, benfeitores espirituais, a cercam por toda parte.

Vá até eles, exponha aos invisíveis seus problemas, usufrua de profundas intimidades mentais e sentimentais.

Eleve seu pensamento numa prece. O céu está bem próximo. E o grande Pai que está nos céus, está também dentro de nós.

Moral da História:

  • A solidão numa certa medida é necessária.

  • Devemos lutar para ter nossos momentos de convívio intimo e saudável, que sejam as luzes de nossos afetos.

Amores impossíveis

Existirão amores impossíveis? Estarei eu impedido de amar a estrela que está a milhões de anos luz de distância? De achá-la bonita? De mostrá-la a um amigo?

Estarei impossibilitado de amar o santo ou herói, que o séculos não conseguiram ocultar no esquecimento?

É evidente que não! O amor é sempre possível!

O que muitas vezes é impossível é o convívio, a intimidade em determinados moldes.

O que ama anseia tocar o ser amado com suas mãos, ouvi-lo, senti-lo contra o peito, e quando é impossível satisfazer estes desejos, dizemos que o amor é impossível. O que é uma flagrante contradição, já que toda essa dor advém, não de que o amor seja impossível, mas de que ele está presente e patente.

Há uma distância, e nós não queremos distância, queremos proximidade; eis o conflito resumido em duas palavras: distância indesejada.

Por vezes, forçamos situações; há um exemplo bíblico que muito me enternece:

O rei Davi, de Israel, apaixonou-se por Betsabá. Betsabá, mulher muito bonita, era casada com Urias, oficial do exército de Davi. O romance prosseguiu e Betsabá ficou grávida. Dentro dos costumes da época, nem pensar em separação e segundo casamento.

Atormentado pela paixão, pelo constrangimento social, que seria a gravidez de Betsabá, o Rei Davi teve a infeliz ideia de assassinar Urias, tornando Betsabá viúva e viabilizando o casamento. Pôs em prática o plano, e fez com que Urias, num ataque aos filisteus, ficasse isolado do resto da tropa e fosse morto pelo inimigo. O assassinato muito bem planejado e realizado, ficou oculto, e o rei Davi pode casar-se tranquilamente com Betsabá.

A criança veio ao mundo normalmente e era muito querida do rei Davi.

Passado algum tempo, o profeta Natan procurou Davi e apresentou-lhe a seguinte queixa:

- Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico tinha muitas ovelhas e vacas, o pobre não tinha coisa alguma, exceto uma ovelhinha, que comprara e criara. Essa ovelhinha havia crescido com o pobre, comia no seu prato, bebia no seu copo, deitava-se no seu leito. Tendo de hospedar um viajante, o rico deixou de lado suas vacas e ovelhas, tomou a ovelhinha do pobre e fez um guisado com ela para receber seu hóspede...

Neste momento o rei Davi se enfureceu, e disse que o homem rico devia ser condenado à morte, após restituir ao pobre quatro vezes o que lhe tirara, e que a falta de compaixão do rico muito agravava sua falta.

Então, Natan explicou ao rei Davi que ele, Davi, era o homem rico e que Urias era o homem pobre, e a ovelhinha era Betsabá. Que Davi poderia ter quantas mulheres quisesse, mas Urias tinha apenas a Betsabá. Que a justiça de Deus se abateria sobre ele, Davi, que enfrentaria grandes violências na sua vida, e sofreria a humilhação de ser traído por suas mulheres, as claras, finalmente que a criança morreria poucos dias após o nascimento. E acrescentou: todas essas penas eram proporcionais à responsabilidade que Davi tinha como rei, de dar os melhores exemplos ao seu povo.

Logo após a partida de Natan, o filho de Davi e Betsabá adoeceu gravemente. E Davi buscou recursos em Deus, e prostrado em terra, orou com todas as suas forças, pedindo pela vida de seu filho. Os anciãos da corte quiseram tirá-lo desse estado, mas não o conseguiram, e Davi jejuou e orou por sete dias, implorando a Deus pela vida da criança, mas no sétimo dia a criança morreu.

Os anciãos temiam dar a notícia ao rei, tal a comoção que demonstrara. Mas quando Davi, pelas conversas em voz baixa, percebeu que a criança havia morrido, levantou-se do solo, lavou-se, ungiu-se, vestiu-se, foi até o templo, adorou a Deus, e alimentou-se.

Os anciãos estranharam aquele tão pronto restabelecimento do rei, após uma tão grande dor. Porém Davi os esclareceu:

- Estando viva a criança, jejuei e chorei, pensando: quem sabe o Senhor se compadecerá de mim, e a criança viver ? Mas agora que ela morreu, por que eu jejuaria? Poderia fazê-la voltar? Eu irei até ela mas ela não voltará para mim. A seguir, Davi foi consolar sua mulher, Betsabá.

Mas como Deus não é apenas justiça, mas também misericórdia, eis que Betsabá teve um segundo filho, Salomão, que seria o maior rei de Israel, muito amado por Deus e que daria grandes alegrias a Davi e a Israel.

Na minha vida afetiva, quando sinto a força e a perfeição da justiça de Deus, digo a mim mesmo: "o filho da que foi adúltera foi o maior Rei de Israel", com isso me consolo, pois nessas palavras me vem que a misericórdia de Deus, segue sempre a Sua justiça.

A distância afetiva pode sempre ser superada através da sublimação. A distância será sempre uma coisa material. À medida que desmaterializamos o amor, a distância perde o sentido. Não é simples desmaterializar o amor, tornar dispensável o toque, viver com alegria sem todo o envolvimento fisiológico e psicológico que acompanha o relacionamento sexual. Mas todo esforço é válido.

Muitos de nós se angustiam em admitir que têm necessidades fisiológicas, inclusive, de intimidade. Que o sexo é uma necessidade quase tão patente quanto o sono. Achado um parceiro que nos satisfaça, e isso é bom, tentamos atribuir a esse parceiro um sentido de encontro de almas e de união de corações que, por vezes, não existe.

Creio que procedemos assim, inicialmente pelo medo da busca afetiva, pois procurar parceiros afetivos é muito dolorido: achamos um que aparentemente nos fará felizes, há um halo de simpatia, mas ele prefere outro; alguém nos acha, oferece o que tem de melhor, mas não nos inspira maiores sentimentos, e temos o desagradável dever de tornar isso claro, e se agimos de forma estabanada, nos enchemos de culpas; e vai por aí além, até que achamos um, que é quase viável; não temos ânimo de continuar procurando a pessoa certa. Porém, o quase viável é ainda impossível e não nos satisfaz. Vivemos por algum tempo uma situação falsa, que irá se tornando mais e mais patente, sofreremos as dores do desligamento. A vida nos forçará a continuar na busca até acharmos o parceiro adequado. Imperfeito ainda, mas um terreno sólido, onde poderemos edificar nosso ninho afetivo.

Peça a Deus que lhe dê a clareza de visão necessária nas suas buscas afetivas.

É comum nestes entrechoques afetivos, ficarmos pensando a todo o vapor, buscando uma solução para o problema. Isso é muito desgastante, por que o problema não é de natureza intelectual e sim emocional. Por mais que raciocinemos, as nossas emoções e as do outro permanecerão as mesmas. A paixão é mãe de muitos sofismas, como diz o cancioneiro popular: "as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam". O momento é de conseguir alicerces sólidos, ou seja, premissas corretas, para definirmos nossas atitudes, e não ficar em mil círculos viciosos de raciocínios, baseados no que desejaríamos que fosse, e, não no que realmente é.

Uma questão importante, nesta questão de distâncias, é saber quando devemos superá-la.

Laura era uma mulher de trinta anos, explosiva, sentimental, as carnes em equilíbrio com a ossatura grande, clara e sardenta, mas ainda bonita. Trazia na alma toda a impulsividade dos seus ancestrais russos.

Trabalhava como voluntária num albergue da prefeitura destinado a indigentes, na sua maioria alcoólatras. Um dia atendeu um mendigo, sujo, desfigurado, bêbado: Antônio.

Laura atirou-se com perseverança e coragem ao trabalho de apoio na recuperação. Lavado, vestido e sóbrio, Antônio tinha boa aparência. Localizou-lhe a família, tivera até um bom berço. Deu-lhe seu amor quente e terno, talvez mais que terno, materno. Auxiliou-o a reconstruir sua vida profissional, inicialmente como modesto pintor de paredes.

Um dia, casaram-se, fui até sua casinha, ele na época estava trabalhando em campanhas anti-fumo numa instituição da prefeitura. Eram felizes.

Me emociona lembrar isso, passados já vinte anos. Me emociona lembrar aquela mulher forte de corpo e alma, que não se acovardou face as distâncias econômicas, sociais, e perdoem a clareza, até de higiene. A todas foi superando com seu amor quente e doce. E teve seu homem, pariu e criou seus filhos, afirmando a fé na vida. Sem um discurso, apenas com a força do seu coração, esfacelou a todos os preconceitos. Uma verdadeira revolucionária.

Que posso eu dizer a você: não destrua lares, não destrua seu lar, não se auto-destrua. A impossibilidade do convívio justifica apenas a destruição da nossa materialidade, do nosso egoísmo.

Mas, em clima de prece, verifique se a impossibilidade está em razões do coração, em razões de uma moralidade adulta e apoiada em Deus. Se assim for, respeita a vontade de Deus e prossegue, não se cansando de buscar, seus complementos afetivos.

Se a impossibilidade for de interesses materiais, financeiros, sociais, afirma a primazia das razões do coração e vence a distância.

Se já achou o seu homem ou a sua mulher, busca aperfeiçoar o relacionamento, que muito há para ser feito.

Se ainda não encontrou, continua procurando. Não busque aparências, frivolidades, busque a essência e busque com Deus.

Um último lembrete: põe amor na busca do amor, se não, não encontrará o amor.

Moral da História:

  • Não há pé, por mais torto, que não encontre seu chinelo velho.

  • Há um impossível que nasce da virtude e um impossível que nasce do preconceito.

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