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Consoladores Universais

Qualquer que seja a dor, há algumas fontes de consolo que são universais.

Elementos da natureza, faculdades do próprio homem, inventos...

Por vezes esses consoladores universais, são válvulas por onde a alma consegue derramar o seu amor. E o amor é o lenitivo primeiro da dor. A mãe parindo o seu filhinho tem suas dores amenizadas porque o amor ao filhinho as suaviza.

E onde achar essa válvula que destampe o nosso amor e traga um bálsamo às nossas dores?

Há que procurar, confiantes nas palavras de Jesus: "Quem procura acha"

Há que procurar em clima de prece: "Tudo o que vocês pedirem, em meu nome, ao Meu Pai que está no Céu será dado a vocês".

Há que procurar humildemente: "Deus sabe o que vocês necessitam, antes que Lhe digam".

A válvula do amor poderá ser uma pessoa: uma criança, um velho, um necessitado, uma esposa, um marido. No auge da dor, no monte do calvário, pregado na cruz, vendo Jesus a dor imensa de sua mãe, Maria, e de seu discípulo amado, João, disse: "Mãe, eis aí teu filho, filho eis aí tua mãe". Jesus dava a Maria uma válvula ao seu amor maternal na figura de João. Jesus dava a João uma válvula ao seu amor filial na pessoa de sua Santa Mãe. Extravasando o amor puro, ambos sentiram grande alívio na suas dores.

A válvula do amor poderá ser uma criatura do reino animal: um cão, um gato, um beija-flor que todos os dias venha visitar o nosso jardim.

As válvulas poderão ser criaturas do reino vegetal: Waldomiro colecionava roseiras. As roseiras davam-lhe rosas. Waldomiro dava-lhes amor. Ao podá-las, adubá-las, regá-las, suas dores eram aliviadas pelo amor que sentia pelas belas plantas.

As válvulas poderão ser criaturas do reino mineral: Victor Hugo, no seu sofrido exílio da França, construiu sua casa em frente ao mar. O mar é uma das criaturas mais majestosas e belas do reino mineral. Victor, um homem forte, de senso estético apurado, encontrou no mar uma válvula para expansão do seu amor, pleno de majestade, de variedade, de movimento. Pedro II, ao ser exilado do Brasil que tanto amava, levou um saquinho de terra do Brasil. Aquele punhado de terra auxiliava o seu coração a relacionar-se com o imenso território e povo que deixava para traz.

Essas válvulas de amor variam ao infinito, mas o nosso coração vai tratar especialmente de quatro:

  • O Livro.

  • O Canto

  • O Céu

  • A Prece

Moral da História:

  • A válvula do amor é o principal lenitivo da dor.

  • Todos temos uma imensa capacidade de amar.

O livro

O sofrimento por um fato acontecido, principalmente em coisas do coração, fica maior quando aprisiona a alma naquele momento, naquele fato.

Bezerra de Menezes, vulto ilustre da política e da medicina no século passado, aqui no Brasil, foi surpreendido dolorosamente pelo falecimento da esposa.

Em virtude do muito afeto, sua dor foi enorme. Não conseguia, pelo muito sofrimento, pensar em nada. E assim, inerme, não clinicava, não participava da vida pública.

Foi quando um amigo, penalizado pela sua situação, lhe sugeriu a leitura da bíblia. O conselho foi válido. Bezerra, enquanto lia a bíblia, não pensava na esposa morta e conseguia algum descanso para seu coração atormentado. O equilíbrio foi voltando, pouco a pouco foi retomando as suas atividades, e com o tempo novo matrimônio surgiria, entrando sua vida novamente em plena normalidade.

A bíblia o projetara para fora daquela situação, Ao lê-la sua alma ganhou impulso movida pelas asas da imaginação e libertou-se daquele preciso momento em que a esposa falecera.

Imaginação?!

Imaginação, sim. Embora o autor nos dê algumas linhas gerais, o grosso do que apreendemos num livro vem da própria imaginação do leitor. Ler é imaginar. Imaginar é co-criar, é descobrir o novo, é ter consciência de nossa imensa capacidade de renovação, de reconstrução. E esse novo imenso, coloca na sua justa medida o fato passado.

Nunca é demais lembrar que existem livros de luz e livros de sombra, livros que levantam e livros que arrasam.

Claro está que o que sofre deverá buscar consolo nos livros da luz.

Quando pois, o pranto enevoar teus olhos, procura fazê-los descansar, correndo-os sobre as pequenas letras alinhadas do livro. Do livro bom, do livro que dá a fé, que aviva o amor, que exalta a beleza, que demonstra a verdade. E teus olhos alimentarão mais uma vez tua alma para que fortalecida ela supere a dor.

Moral da História

  • Não só de pão vive o homem mas de toda palavra que vem da boca de Deus. (Jesus)

  • O livro não apenas esclarece, emociona, instrui... Consola também.

O Canto

Hoje assisti ao filme "Amadeus" de Milos Formam, creio que foi lançado em 84/85. Gira em torno de Mozart. Peter Shaffer ambienta o roteiro num hipotético contraste entre Salieri e Mozart. Salieri tem os favores do rei, mas não tem talento, e inveja Mozart, que considera vil, mas que detém o favor divino. O personagem Salieri afirma que é o próprio Deus que se manifesta através do músico talentoso.

O músico que traz a boa música é um instrumento de Deus. A boa música através de suas vibrações tem o dom de afastar as sombras, e na dor, as sombras que envolvem o coração pesam mais que os próprios fatos que fazem sofrer.

O canto é uma coisa inata no homem. Aquele que não canta é porque tem alguma disfunção. Deve procurar um professor de música e vencer sua inibição, fazendo como alguém que teve algum impedimento muscular e procura um fisioterapeuta.

A bíblia está plena de música, no velho testamento encontramos no Rei Davi um compositor a serviço do bem. Com seus salmos trazia fé, coragem e afastava os maus espíritos que atormentavam o rei Saul.

A música está presente no Evangelho de Jesus, como fator consolador. Na paixão, antes de dirigir-se ao Monte das Oliveiras, Jesus cantou com os apóstolos, como lemos em Mateus, versículo 26, capitulo 30: "E tendo cantado um hino, saíram para o Monte das Oliveiras"

O apóstolo Paulo, inteligência fulgurante, esclarece na sua Primeira Carta aos Coríntios: “cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento”. Creio que o apóstolo referia-se a necessidade de unir, no canto, razão e sentimento para fazer vibrar a nossa alma por inteiro, já que o canto é o feliz casamento entre a poesia e a música.

Humberto de Campos, nas suas anotações, no livro "Boa Nova" narra emocionado, um dos pontos centrais de ligação entre o sofrimento e a música. Ele nos conta que logo após o desencarne, nossa Mãe Santíssima, Maria, Mãe de Jesus, dirigiu-se a Roma para levar seu carinho aos cristãos que estavam sendo perseguidos.

Penetrou nos sombrios cárceres do Esquilino, onde estavam presos os cristãos, aguardando a morte, e espargiu ali a claridade misericordiosa do seu espírito. Ao partir considerou consigo mesma...

Mas ouçamos o próprio Humberto:

Que possuía Maria para lhes dar? Deveria suplicar a Deus a liberdade?! Mas, Jesus ensinava que com ele todo jugo é suave, e todo fardo seria leve, parecendo-lhe melhor a escravidão com Deus do que a falsa liberdade nos desvãos do mundo. Recordou que seu filho deixara a força da oração como um poder incontrastável entre os discípulos amados. Então, rogou ao Céu lhe desse a possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força da alegria. Foi quando aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto descarnado e macilento lhe disse ao ouvido: "Canta minha filha! Tenhamos bom ânimo!... Convertamos as nossas dores da Terra em alegrias para o Céu!...
A triste prisioneira nunca saberia compreender o porque da emotividade que lhe fez vibrar subitamente o coração. De olhos estáticos, contemplando o firmamento luminoso, através das grades poderosas, ignorando a razão de sua alegria, cantou um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia a sua gratidão pelas dores que lhe eram enviadas, transformando todas as suas amarguras em consoladoras rimas de júbilo e esperança. Daí a instantes, seu canto melodioso era acompanhado pelas centenas de vozes que choravam no cárcere, aguardando o glorioso testemunho.
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Por essa razão, irmãos meus, quando ouvirdes o cântico nos templos das diversas famílias religiosas do cristianismo, não vos esqueçais de fazer no coração um brando silêncio, para que a Rosa Mística de Nazaré, espalhe aí seu perfume1



Moral da História:

  • Quem canta seus males espanta.

  • Sofrer cantando, é embelezar a dor.

O grande quadro consolador

Há um quadro, sobretudo, que tem muita força na dor. Varia todos os dias e todas as noites, e todos temos esse quadro dado por Deus, para haurirmos nele as forças precisas para enfrentarmos as mais rudes provas, as mais duras expiações.

Apresentemos esse quadro sublime, através das palavras da alma delicada e sensível do poeta Casemiro de Abreu:

Bálsamo

Eu vi-a lacrimosa sobre as pedras

Rojar-se essa mulher que a dor ferira!

A morte lhe roubara dum só golpe

Marido e filho, encaneceu-lhe a fronte,

E deixou-a sozinha e desgrenhada

- Estátua da aflição aos pés dum túmulo! -

O esquálido coveiro p'ra dois corpos

Ergueu a mesma enxada, e nessa noite

A mesma cova os teve!

E a mãe chorava,

E mais alto que o choro erguia as vozes!


No entanto o sacerdote - fronte branca

Pelo gelo dos anos - a seu lado

Tentava consola-la.

A mãe aflita

Sublime desse belo desespero

As vozes não lhe ouvia; a dor suprema

Toldava-lhe a razão no duro transe

"Oh! Padre! - disse a pobre s'estorcendo

Co'a voz cortada dos soluços d'alma -

"Onde o bálsamo, as falas d'esperança,

"O alívio à minha dor?!"

Grave e solene,

O padre não falou - mostrou-lhe o céu!

Rio, 1858


Não sei que magia tem o Céu, mas minha experiência pessoal, confirma essa afirmativa de poetas e santos. Olhar o céu traz um grande alívio a alma, como registrou Casemiro, e é efetivamente um bálsamo.

Meus maiores sofrimentos nesta encarnação advém das minhas quedas morais. Felizmente construí nas estrelas do céu algumas mensagens, providência que recomendo.

Na constelação de Órion (aquela que tem as três marias no centro e parece uma enorme borboleta) vejo sempre uma grande asa protetora, posta por Deus lá em cima, pura e luminosa a proteger-nos aqui na terra.

O Sol, a estrela que nos ilumina, pertence a constelação do Centauro. As duas estrelas principais da constelação do Centauro, Alfa e Beta parecem uma seta e apontam para a constelação da Cruz, o nosso querido Cruzeiro do Sul. E eu digo no meu coração: "Alfa e Beta de Centauro ainda apontam para Crucis". E essas palavras e aquelas estrelas me significam, que tudo, que todos, num sentido muito grande, caminhamos para Jesus, caminhamos para o equilíbrio, e isso me consola da minha abjeção.

Todos os dias o Céu nos dá uma lição de otimismo e alegria através da alvorada incentivando-nos a começar bem o dia, a seguir vai evoluindo pela manhã, a manifestação de força do meio dia nos enche de energia, os cambiantes da tarde culminam com a grande mensagem de calma do crepúsculo, finalmente a noite nos descerra o infinito, pelo exemplo de sua profundidade sem termo.

A chuva é voz de aconchego e de fertilidade, o céu limpo dissipa a tristeza e nos dá bom ânimo.

Jesus dizia que o seu reino era o reino do céu. E ao expressar a perfeição de Deus, disse: "Sede perfeitos como o vosso Pai que está no Céu é perfeito e faz nascer o sol sobre justos e injustos e cair a chuva sobre bons e maus."

Vejam: o sol e a chuva como exemplos da bondade de Deus!

Enfatizamos tanto aqui a bênção do quadro abstrato do Céu, que o bom Deus nos oferece diariamente, porque, efetivamente, essa pintura tão luminosa é um bálsamo para todas as dores.

Um último exemplo para encerrar:

Marília enfrentava duro problema sentimental. Após um dia de angústia e pranto, sentou-se à noite frente à janela, e viu uma estrela. Por feliz inspiração sentiu-se atraída por aquela estrela e passou a olhá-la fixamente desabafando suas mágoas. No outro dia despertou refeita, a angústia se desvanecera, dormira a noite toda.

Teria sido algum espírito amigo que utilizara a estrela simplesmente como um ponto de concentração para a hipnose terapêutica? seria o magnetismo da própria estrela que a fizera adormecer e descansar? ou seriam as duas coisas? A noite tem encanto e encantamentos.

Moral da Historia:

  • A terra está no céu.

  • Olhar o céu é povoar de estrelas e azul nosso pranto.

A prece

Falar com Deus.

Depositar na Sua mão, nossos problemas, nossas angústias.

Dirigir-se a algum herói da fé, da virtude, aos chamados Santos, que embora mortos para a carne, estão vivos para o espírito.

Sentir as mãos de Jesus nas nossas cabeças, ou o afago carinhoso de nossa Mãe Santíssima.

Tudo isso é prece, tudo isso é fonte de alívio e de alegria para quem sofre.

Não devemos restringir a prece a palavras, as palavras são apenas sons, é o coração que dá força à prece, transformando as palavras em requerimentos legítimos dirigidos ao plano superior.

Muitas vezes a nossa dor, ou a de nossos entes queridos, é irreversível. O pensamento de que nada podemos fazer nos acabrunha, a sensação de impotência nos abate, a própria imobilidade nos desorienta. Neste momento, lembrarmo-nos de que podemos fazer algo, e que esse algo pode significar muito, nos tira dessa apatia. Orar é uma coisa que sempre poderemos fazer, e coisa importante e eficaz.

Só o fato de pensarmos em alguma coisa superior já colabora para afastar fluidos pesados e pensamentos sombrios, nos quais nos enovelamos quando sofremos.

A prece diminui o sofrimento ao aumentar as nossas forças espirituais, pois, se muitas vezes a provação é necessária, conforme a justiça divina, a misericórdia de Deus sempre se fará presente, melhorando as nossas condições interiores, dando-nos a coragem, a paciência, a resignação.

Esta boa influência não é ostensiva, mas discreta, de sorte a não tolher nossos movimentos. A respeito Allan Kardec propõe a seguinte ilustração:

Um homem está perdido num deserto e sofre sede horrível: sente-se desfalecer e se deixa cair no chão. Roga, então a Deus para o assistir e espera; mas nenhum anjo vem lhe trazer o que beber. Entretanto, um bom espírito lhe sugere o pensamento de se levantar, seguir uma das veredas que se apresentam à sua frente; então, por um movimento maquinal, reúne suas forças, levanta-se caminha ao acaso. Chega diante de uma elevação e descobre, ao longe, um riacho; diante disso, encoraja-se. Se tem fé, exclamará: "Obrigado, meu Deus, pelo pensamento que me haveis inspirado, e pela força que me haveis dado". Se Não tem fé, dirá: "Que pensamento bom eu tive! Que sorte eu tive tomando a vereda da direita, ao invés da esquerda; o acaso, algumas vezes, nos serve verdadeiramente bem! Quanto me felicito pela minha coragem e por não ter me deixado abater!"
Mas, dir-se-á, por que o bom Espírito não lhe disse claramente: "Segue esta vereda e ao fim dela encontrar s o de que necessitas?" Por que não se mostrou a ele para o guiar e sustentar no seu desfalecimento? Dessa maneira, ficaria convencido da intervenção da Providência. Foi, primeiro, para lhe ensinar que é preciso ajudar a si mesmo e fazer uso das suas próprias forças. Além disso, pela incerteza, Deus coloca à prova sua confiança e submissão a sua vontade. Esse homem estava na situação de uma criança que cai e que, percebendo alguém, grita e espera que a venha levantar; se não vê ninguém, esforça-se e levanta por si mesma
Moral da História
  • Quem ora diminui seus sofrimentos.

  • Orar no sofrimento é divinizar a dor.

1Boa Nova – FEB – Francisco Cândido Xavier / Humberto de Campos

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