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Dinheiro

Brasil, março de 92, o país enfrenta uma grave crise financeira. Hoje minha cunhada telefonou expondo uma série de problemas financeiros. Muitos amigos desfilam queixas: dinheiro curto, recessão, inflação, insolvência...

O desequilíbrio financeiro traz grande sofrimento.

O dinheiro é muito importante na nossa vida. Jesus afirmou "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus", relacionando o paralelismo entre nossos deveres materiais e nossos deveres espirituais. Se não atendemos às nossas obrigações materiais, estamos falhando espiritualmente, de outro lado, se não nos ligamos à espiritualidade superior, nossas atividades materiais não serão uma contribuição positiva à edificação dos recursos materiais de nossa sociedade.

Mas Jesus também afirmou: "Não podeis servir a Deus e Mamom" (Mamom, palavra grega, derivada do aramaico mamon, mamona, riquezas), estabelecendo que "dar a César o que lhe é devido" deverá ser sempre um caminho para servir a Deus, e nunca uma via para nossa escravização. Parafraseando Jesus: "O dinheiro foi feito para o homem e não o homem para o dinheiro".

Para tratarmos com proveito as dores relacionadas ao dinheiro há que compreendê-las

A compreensão auxiliará nosso raciocínio, nossas emoções e nossa individualidade moral no relacionamento com esses sofrimentos, sejam nossos ou de nosso próximo.

Compreendendo-os, teremos melhores condições de avaliar em que medida os problemas financeiros devem ser enfrentados, seja num clima de luta para diminuí-los, ou seja num impulso de resignação para suportá-los.

Para compreender as causas dos sofrimentos relacionados ao dinheiro há que separa-las. Vamos dividi-las em 8 grupos:

  1. A real falta de recursos. A falta do alimento, do agasalho, do teto, do remédio. A esse sofrimento chamaremos miséria.

  2. A imaginada falta de recursos. O nível de vida oferecido pelos rendimentos é considerado mau. Se nos interrogamos, respondemos: Como mal, moro mal, visto-me mal. A esse sofrimento chamaremos insatisfação.

  3. O desejo de realizar alguma coisa que exija um dinheiro que não temos. O auxílio a um parente, a edificação de uma obra de caridade ou artística, uma viagem... A esse sofrimento chamaremos sonhos financeiros.

  4. Não poder pagar débitos que consideramos legítimos. A esse sofrimento chamaremos falência.

  5. Não receber aquilo a que julgamos ter direito. A esse sofrimento chamaremos prejuízo.

  6. O reconhecimento de ter agido mal em nossos negócios. Vendemos mal, compramos mal, fomos imprevidentes ou imprudentes no trato das questões financeiras. A esse sofrimento chamaremos remorso.

  7. A necessidade de fazermos algo que não gostamos por necessidade financeira. A insatisfação profissional, o desfazer-se de um bem que estimamos, pequenas ou grandes humilhações por falta de dinheiro. A esse sofrimento chamaremos constrangimento.

  8. A angústia de não sabermos como ficará a nossa situação financeira. Esse sofrimento frequentemente acompanha os anteriores, mas por uma questão de método vamos tratá-lo de forma isolada chamando-o de preocupação.

  9. Feita esta divisão, vamos tratar individualmente cada uma dessas dores.

Miséria

A real falta de recursos. A falta do alimento, do agasalho, do teto, do remédio.

Este é um sofrimento verdadeiro.

Ah! que o bom Deus que fez com que seu Filho Bem Amado, Jesus, pleno de virtude e perfeição, nascesse tão pobrezinho, que teve por berço uma manjedoura, e por enxoval alguns paninhos, encha meu coração, para que minha palavra possa ser pão, (nem só de pão vive o homem mas de toda a palavra que nasce da boca de Deus), e minha palavra seja agasalho e seja teto.

Primeiramente uma palavra a você que procura nesse livrinho elementos de consolação. Se você tem algum recurso, vá ao miserável, antes de falar, alimenta, agasalha, protege. Depois abre sua boca, seus braços, e seu coração, e fale:

Fale de um reino maravilhoso que aguarda os resignados após a morte; fale da esperança de uma notícia maravilhosa, de uma boa notícia que ecoou na Galileia há dois mil anos, e que até agora nos sustenta; fale do Filho do Homem que não tinha uma pedra onde repousar a cabeça.

Por mais que você fale, entretanto, a dor de ver os próprios filhos sentirem o rigor do frio, estarem magros e pequenos por falta de alimento, continuará doendo. Mas se você tiver doado o possível antes de falar , mesmo que seu possível seja pouco, suas palavras aliviarão. Ao você vestir os nus, com farrapos embora, alimentar os famintos, com migalhas embora, você representará a providência divina, e suas palavras terão um som que vem de Deus.

Mas, com muito tato, fale também do trabalho, da humildade, do equilíbrio, que, muitas vezes, a miséria não é uma purificação que vem do céu, mas consequência de nosso desatino aqui na terra mesmo. E suas palavras de orientação, a movimentação de suas relações, poderão trazer um alívio real ao eliminar a miséria.

Elza, ao visitar Alcina, senhora em grande penúria, teve uma feliz inspiração: Falou à Alcina da existência de m quinas de fazer tricô, do tricô que poderia ser aprendido nas escolas de tricô. Tudo isso precisou falar, pois Alcina vinha de uma região de clima tórrido, onde roupas de lã não faziam sentido.

E as palavras de Elza ecoaram na inteligência de Alcina em penúria. Elza matriculou a Alcina na escola de tricô, e a Alcina, com grande esforço frequentou a escola de tricô, pois aos muito pobres tudo é muito difícil, e Elza também com esforço comprou uma máquina de tricô para Alcina.

Um dia fui visitar Alcina em companhia de Elza. Alcina estava bem, na casa pobre, mas confortável. Tive a alegria de ouvir da boca da ex-necessitada, o seguinte: estava dando a uma outra amiga pobrezinha a m quina que ganhara, pois tinha adquirido outras duas, e queria por sua vez agradecer a Deus, beneficiando na mesma medida que fora beneficiada.

Ora a miséria material vem acompanhada da miséria moral, ora a miséria material vem acompanhada da grandeza moral.

Soube de um homem que trabalhava num albergue onde acolhia mendigos. Líder de instituição assistencial era muito considerado na sua cidade. Após a morte surpreendeu-se ao encontrar muitos mendigos de rua, que a provação da miséria havia purificado e agora no plano espiritual eram benfeitores iluminados, aos quais devia por sua vez pedir auxílio.

Conheci duas mães que esmolavam para sustento de seus filhos. Quando por alguma razão uma não podia ir, a outra levava os filhos da ausente para ajudar a pedir. Dividiam fraternalmente o produto da coleta. Ouvi dizer que há mães que alugam seus filhos. Entre as mendigas que conheci, havia muita solidariedade, na miséria as pessoas tornam-se solidárias, nunca conheci uma mãe que alugasse seus filhos.

Nas favelas conheci a grandeza da mulher. Perdoando a má palavra, o macho afrouxa logo, caí na bebida, deserta, são raros os que continuam lutando. Mas a mãe, ah, que bênção! Quanta coragem eu vi, nas catadoras de papelão, nas mendigas, nas faxineiras, nas catadoras de lixo, quanta fibra que tudo vence e que tudo dobra. A miséria é reveladora. Deus dá essa prova para que seus heróis e suas heroínas brilhem, nos testemunhos de fé, nos testemunhos do trabalho, nos testemunhos do amor materno, e não para que nos alquebremos na revolta inerme.

E para encerrar esse item sobre a miséria, transcrevo um poema de Guerra Junqueiro, poeta de caráter feito de diamantes. O poema foi composto em Portugal, no fim do século dezenove.

OS POBREZINHOS

Pobres de pobres são pobrezinhos,

Almas sem lares, aves sem ninhos...


Passam em bandos, alcateias,

Pelas herdades, pelas aldeias.


É em novembro, rugem procelas1...

Deus nos acuda, nos livre delas!


Vêm por desertos, por estevais2

Mantas aos ombros, grandes bornais3,

Como farrapos, coisas sombrias,

Trapos levados nas ventanias...


Filhos de Cristo, filhos d'Adão

Buscam no mundo côdeas de pão!


Há-os ceguinhos, em treva densa,

D'olhos fechados desde nascença.


Há os com feridas esburacadas,

Roxas de lírios, já gangrenadas.


Uns de voz rouca, grandes bordões,

Quem sabe lá se serão ladrões!...


Outros humildes, riso magoado,

Lembram Jesus que ande disfarçado...


Enjeitadinhos, rotos, sem pão,

Tremem maleitas d'olhos no chão...


Campos e vinhas!... hortas com flores!...

Ai, que ditosos os lavradores!


Olha, fumegam tectos e lares...

Fumo tão lindo!... branco nos ares!


Batem as portas, erguem-se as mães

Choram meninos, ladram os cães...


Rezam e cantam, levam a esmola,

Vinho no bucho, pão na sacola.


Fruta da horta, caldo ou toucinho,

Dão sempre os pobres a um pobrezinho.


Um que tem chagas, velho, coitado,

Quer ligaduras ou mel rosado.


Outro, promessa feita a Maria,

Deitam-lhe azeite na almotolia4.


Pelos alpendres, pelos currais,

Dormem deitados como animais.


Em caravanas, em alcateias,

Vão por herdades, vão por aldeias...


Sabem cantigas, oraçõezinhas,

Contos destrelas, reis e rainhas...


Choram cantando, penam rezando,

Ai, só a morte sabe até quando!


Mas no outro mundo Deus lhes prepara

Leito o mais alvo, ceia a mais rara...


Os pés doridos lhos lavarão

Santos e santas com devoção!


Para lavá-los, perfumaria

Em gomil5 d'ouro, d'ouro a bacia.


E embalsamados, transfigurados,

Túnicas brancas, como em noivados,


Viverão sempre na eterna luz,

Pobres benditos, amém, Jesus!...


Moral da História.

  • Quem dá aos pobres empresta a Deus. (Rei Salomão 800 AC)

  • Aos pobres é anunciado o evangelho. (Jesus, ao se identificar como o Cristo)

Insatisfação

A imaginada falta de recursos. O nível de vida oferecido pelos rendimentos é considerado mau. Se nos interrogamos, respondemos: Como mal, moro mal, visto-me mal.

Há a boa insatisfação e a má insatisfação.

A boa insatisfação é aquela que é estímulo, mola do progresso. A boa insatisfação não se queixa, não culpa, crê no futuro, trabalha sem desequilíbrio mas com muita constância e perseverança.

A má insatisfação tem um cheiro ruim de desânimo, a todos culpa, mas não se responsabiliza. É plena de direitos e vazia de deveres.

A boa insatisfação não é interesseira e atinge o seu maior nível quando é dedicada aos legítimos interesses dos que amamos.

Sempre me comoveram os pais de família, que lutam pela manutenção da própria prole, procurando propiciar aos seus filhos saúde e educação.

Valdomiro era manobrista de estrada de ferro, nos idos de 1929. Tendo um filhinho a caminho, trabalhou 72 horas consecutivas para comprar o enxovalzinho do bebê.

Buscou o dinheiro extra, insatisfeito por não poder receber condignamente a sua primogênita. Ficou tão cansado que ao chegar à porta de sua casa modesta desmaiou. Levado a cama, Valdomiro fez as suas necessidades fisiológicas dormindo.

Valdomiro recebeu o pagamento, comprou algum tecido, e alguma lã, para sua esposa, gr vida de 8 meses, confeccionar as roupinhas para o anjinho que estava a caminho. Essa foi uma insatisfação legítima, que Deus abençoou, que não nasceu do supérfluo, nem do interesse próprio.

Porém, para seu aprendizado, a filhinha de Valdomiro morreria ao nascer. Usou uma única muda das roupinhas, envolvendo seu cadáver, conduzido num caixão de terceira ao cemitério.

Mas o esforço, as vibrações de amor paterno, tiveram um papel preponderante no equilíbrio daquele espírito, no caso um suicida que necessitava dessa gestação para re-equilibrar seu corpo espiritual, lesado na encarnação anterior. Se não lhe serviram as roupas materiais, todo o jogo de vibrações que envolveu a preparação do enxoval, aqueceu seu coração, libertando-o do frio da indiferença.

Nelson era um professor, que aguardava a morte, desencadeada por um tumor maligno no cérebro. Enquanto esperávamos que transcorressem as semanas que faltavam para o desfecho final, conversávamos e instruíamo-nos. Eu lhe falava de algumas leituras que fizera sobre a morte. ele me instruía fazendo um balanço final de sua encarnação.

Nélson, por 20 anos fora professor de matemática de uma escola técnica na  área de mecânica, dessas que ensinam desenho técnico, projeto mecânico, e formam também torneiros e frezadores.

Seus alunos eram operários que, insatisfeitos com seus cargos, procuravam acrescentar conhecimento teórico à pratica calosa de suas mãos. Mais que alunos eram amigos. O salário modesto de professor dava para manter um padrão de vida digno em casa. O nível de realização profissional era elevado. No lar, procurava ser um educador, na escola, um pai.

Mas, a insatisfação com o nível de renda, foi crescendo, crescendo, e Nelson deixou a matemática, seus alunos operários, e foi ser vendedor. Venda de persuasão, tinha tudo para dar certo. Nelson possuía bom controle verbal, desinibição e seu coração transbordava ambição, valorização do ganho.

Mas, a coisa não deu certo. Aquelas vibrações baixas de cupidez o desmontaram, abrindo brechas importantes na sua alma, por onde entraram as sombras. Era um vendedor dentro e fora de casa, seguindo sua tendência inata de não separar lar e emprego. Perdeu o controle da família. Sua filha mais velha se desencaminhou pela estrada da promiscuidade e trouxe ainda mais perturbações ao lar. Com todo esse desequilíbrio, o próprio ganho começou a diminuir. As provações se tornaram extremamente agudas com a chegada do câncer no cérebro. Nelson se arrependia amargamente de ter deixado a sua atividade de professor por uma insatisfação ilegítima, nascida da cupidez e do amor-próprio.

Quanto a você, pesa na balança da consciência sua insatisfação em questões de dinheiro.

Se for a boa insatisfação, tem nela o estímulo precioso do progresso, da mudança para melhor.

Se for a má insatisfação, re-equilibre-se e expulsa da sua alma a cupidez, que tanta vezes vem disfarçada com as fantasias sutis do bem estar familiar, da segurança, da possibilidade de realização de boas obras.

Moral da História:

  • A insatisfação pode ser doença ou estímulo.

  • Rico é aquele que está contente (do livro do Tao, escrito por Lao Tse no século 7 antes de Cristo).

Sonhos financeiros

O desejo de realizar alguma coisa que exija um dinheiro que não temos. O auxílio a um parente, a edificação de uma obra de caridade ou artística, uma viagem...

O sonho é sempre fuga, e a fuga não é sempre o pior.

Todo desejo é prece. Toda a prece sobe até Deus. Deus responde a todas as preces. Mas as respostas de Deus nem sempre são a realização de nossos sonhos porque quase sempre a realização do sonho não é o melhor.

Por vezes, há sonhos que têm um gosto de café : misturam com leveza a amargura de não serem realidade, que comparamos ao café, com a possibilidade advinda da esperança, que comparamos ao açúcar. E esses sonhos, a semelhança do café, são estimulantes e socializantes.

Waldomiro, que já mencionei outras vezes nesse livro, trabalhava como manobrista numa estrada de ferro na década de 1920. Naquela época, o engate dos vagões não era automático, e havia necessidade de um funcionário que ficasse correndo entre os trilhos, e quando a locomotiva lançasse um vagão contra o outro, ele pusesse a trava que prendia efetivamente um vagão no outro. Era um serviço bruto, sem especialização alguma, muito mal remunerado e arriscado, pois se o manobrista errasse ao jogar a trava, corria o risco de perder a mão.

Waldomiro, no meio da chuva, via passar os vagões tipo "pullman", que eram montados como pequenas salas de estar, fretados pelos fazendeiros de café, a elite econômica da época. O manobrista dizia de si para consigo: "Ainda terei uma fazenda de café e viajarei nesses vagões "pullman". Um sonho um tanto louco de alguém que, não fora a condição de viajar de graça, penaria para pagar uma passagem de terceira classe.

20 anos seriam necessários para transformar o manobrista em fazendeiro. Ele não andaria de "pullman", porque este tipo de vagão cairia em desuso, e sua fazenda não ficava próxima de nenhuma estrada de ferro, mas o longo sonho foi realizado.

Durante vinte anos misturou esperança e impossibilidade, na irrealidade do sonho. Mas o sonho também era desejo, e o desejo era acalentado por uma forte, efetiva e real força de vontade. A força de vontade recebeu o consentimento da vontade de Deus e o sonho se realizou.

Que direi eu para consolá-lo nesta dor suave e doce de seus sonhos?

Direi que a própria doçura do sonho já é consolo.

Direi que a fantasia há que ter medida, para que não venha a ser causa de desequilíbrio.

Direi que desde que haja equilíbrio, quem sou eu para desvanecer seus sonhos?

Moral da História:

  • As nuvens do céu, tão diáfanas6, serão apenas sombra? ou serão chuva? Só Deus o sabe.

  • Sonho bom é aquele que nos estimula à boa luta.

Falência

Não poder pagar débitos que consideramos legítimos.

É um duro sofrimento dever e não ter com que pagar. Por vezes essa dor vem do nosso senso de dever, por outras vezes vem do orgulho ferido.

Há muitos casos, noticiados pela imprensa, inclusive, de pessoas que faliram financeiramente e, não suportando o fato, acabaram por precipitar-se no suicídio.

Embora as insinceras cartas de despedidas de suicidas, plenas de inverdades douradas, grafadas com emoção, creio que o móvel desses trânsfugas, tenha sido essencialmente o orgulho ferido e o medo do recomeço. O empresário bem sucedido que se vê repentinamente conduzido à posição de funcionário modesto, envolvido nos percalços do recomeço, não suporta o que considera humilhação, racionaliza alguns argumentos e, envolvido pelas sombras, deserta da vida.

Antônio Carlos tinha um grande entusiasmo pela medicina. Formou-se com brilhantismo, pois era muito inteligente. A paixão pelo dinheiro e pelo jogo dos negócios foi maior que o entusiasmo juvenil. Guardou carinhosamente o diploma de médico e atirou-se aos negócios. Fazendeiro e empresário na  rea de materiais para construção, foi muito bem sucedido (era realmente inteligente), amealhou considerável patrimônio. Alguns negócios mal sucedidos bastaram para que fossem por água abaixo suas empresas. Mas, como tinha muito, ainda sobrou bastante. Parentes o atraíram para uma fábrica de chocolate, marca muito conhecida na época. Pôs nela o que havia sobrado. era uma armadilha. Faliu. Conseguiu esconder um caminhão de chocolate numa garagem de um amigo, foi a única coisa que sobrou. Envergonhadamente viveu uns dois anos, pegando chocolate na garagem e vendendo em mercearias e bares da periferia.

Tentou voltar a medicina, mas 40 anos haviam passado da formatura brilhante, e 40 anos são muito tempo. O diploma lá estava, mas a memória havia deixado que os conhecimentos todos fossem levados pelo rio do tempo. Para complicar, grave problema cardíaco havia-se instalado.

Porém a vida continua, e foi conseguindo alguns bicos, baseados em algumas relações que sobraram. A medicina teria dado mais dinheiro e dignidade. O arrependimento também ensina, e o conhecimento é de valor inestimável, porém é triste saber que só poderemos aplicar na próxima encarnação o que o arrependimento nos ensinou.

Se a dor nasce do orgulho, há um consolo, todos somos imperfeitos, e existe uma medida efetiva para eliminá-la: eliminar o orgulho.

Mas nem toda dor nasce do orgulho. Há aquela que nasce efetivamente do senso de honestidade, de mesmo contra a nossa vontade, prejudicar financeiramente o outro.

Essa é uma dor boa, uma dor sentinela, uma dor que indica saúde moral. Dor que nos dá alegria, por sabermos que ainda há homens que ficam com as faces vermelhas de vergonha.

Uma coisa que precisa ser considerada é que toda operação financeira envolve riscos.

Riscos que nenhum dos participantes da negociação ignoravam. Quem comprava poderia perder, quem vendia poderia perder. Aconteceu o pior, os dois perderam, os dois foram culpados por não avaliar corretamente o risco. Em que porcentagem deve ser distribuída a culpa? Creio que nessas situações a análise profunda das culpas é o que menos importa.

Importa mais continuar trabalhando com humildade e fé, sabendo que se a justiça de Deus decidiu pela nossa perda e a perda do outro, a mesma justiça nesta vida, ou em outra nos dará a oportunidade, ou o constrangimento de restituir.

Moral da História.

  • Pagarás até o último centavo. (Jesus)

  • Deus dá, Deus tira, Deus torna a dar. Louvado seja Deus.

Prejuízos

Não receber aquilo a que julgamos ter direito. Perder o que julgamos nosso.

Muitas vezes tratamos os negócios como um jogo. O risco, inerente às atividades econômicas, pode ser exaltado de tal forma que consideramos os agentes econômicos como parceiros num jogo de baralho.

O jogo cativa, eu creio, por alguma relação obscura que mantém com o orgulho. Qual seria outra explicação para tanta emoção em vencer ou ser derrotado, mesmo quando essa vitória ou derrota nada acarreta?

Já  me angustiei por ter, numa compra ou venda, perdido algum dinheiro. O que me angustiava não era ter comprado um tanto mais caro, ou vendido um tanto mais barato, o que me humilhava era não ter tido a habilidade suficiente para vencer o vendedor ou o comprador, o que me fazia sofrer era ter perdido no jogo psicológico da compra ou venda.

Esse não é um sofrimento que vem de Deus. O prejuízo, no caso, é apenas pretexto para dar mais emoção ao vício do jogo.

Esse é um sofrimento evitável. Lutemos contra essa tendência de viver nossos negócios como se fossem uma loteria, ou um cassino. Apeguemo-nos mais ao trabalho, ao componente produtivo de nossas atividades econômicas.

Nem sempre o prejuízo será simplesmente perder a partida no jogo econômico:

Ainda o nosso querido Waldomiro.

Waldomiro abriu no fim da década de 40 uma fazenda de café. Na época o Norte do Paraná era sertão. Cinco anos de trabalho duro. Os pezinhos de café crescendo, encorpando. Ele acariciava os pés de café como se fossem bichinhos de pelúcia.

Ele havia feito um exame cuidadoso da mata, antes da derrubada, para verificar a presença de espécies sensíveis ao frio. E as encontrou. Se havia, isto significava que na região não ocorria o fenômeno da geada, terrível para o café. O que ele não previu, foi que o extenso desmatamento da região introduziria profundas alterações climáticas.

E numa manhã de julho, tudo amanheceu branquinho de gelo. Waldomiro chegou em casa com um raminho de café, o gelo foi derretendo, e as folhas foram amarronzando, caíam as gotinhas d'água enquanto as folhas morriam. O seu rosto moreno, tostado de sol, também foi sendo coberto de lágrimas, que saiam de seus olhos verde-azeitona que, ao contrário das folhas, foram ficando mais brilhantes.

Cinco anos de trabalho, cinco anos distante da família, cinco anos de sacrifícios sem conta, cinco anos arriscando a vida na brutalidade da disputa de terras. Cinco anos estavam indo embora. Estava secando a planta da casa nova, partia a galope o repouso para o homem que chegava aos 50 anos, enrolava-se em correntes de financiamento a sonhada liberdade econômica. Tornava-se  áspero o conforto que pretendia estender aos colonos, que mais que empregados eram amigos. Tudo isso decretava aquela fina camada de gelo, no raminho de café, tudo isso compreendia aquele rosto moreno coberto de lágrimas.

Lembremos o livro de Jó: Deus deu, Deus tirou, louvado seja Deus. Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei ao meu Pai Celestial.

No mundo, nada nos pertence. Consequentemente, se nada temos, nada podemos perder. Tudo nos é cedido como empréstimo, como o operário que pela manhã vai ao almoxarifado e pega as ferramentas de trabalho e, à tarde, concluída a tarefa, as devolve ao almoxarifado.

Vamos, conscientize-se! qualquer posse é quimera. Nem teu corpo te pertence. Devido ao nosso apego às coisas materiais, Deus nos relembra isso, por vezes de maneira contundente.

Assim trabalhe sempre, mas sempre com humildade, sabendo que acima de nossa vontade há outra infinitamente mais poderosa, mais sábia.

Todas aquelas dificuldades econômicas das geadas não previstas, que se repetiriam a cada dois anos, postergariam indefinidamente os sonhos de realização econômica de Waldomiro. De outro lado, essas mesmas dificuldades o uniram, mais e mais, aos seus empregados. E Waldomiro passou na dura prova de empregador. Ao invés de algumas centenas de milhares de pés de café, levou ao morrer algumas centenas de amigos. Deus sabe o que é melhor.

Moral da História.

  • 1 - Atividade econômica é trabalho, não loteria.

  • 2 - Todo mal vem para o bem.

Remorso

O reconhecimento de ter agido mal em nossos negócios. Vendemos mal, compramos mal, fomos imprevidentes ou imprudentes no trato das questões financeiras.

Ah! por que vendi..., para que fui comprar..., se soubesse não tinha mudado de emprego.

A morsa é uma ferramenta que serve para manter unidas e imóveis uma ou mais peças. O remorso que nos mantém imóveis e unidos a nossa falha, não é uma ferramenta útil. É um instrumento de tortura.

Se o "soubesse" andasse a frente de nossos atos, tudo seria diferente. Mas isso é impossível. Não adianta amarrá-lo ao rabo de nossas ações, como latas ao rabo do cachorro, que nem por isso elas ficarão melhores, ficarão apenas mais barulhentas e atormentadas.

Podemos fazer alguma coisa para consertar o estrago? Sim? Ponhamo-nos a campo com humildade e diligência. Não? A negociação é irretratável? A mercadoria não pode ser devolvida? O cargo não pode ser retomado? Disciplinadamente, contabilizemos rapidamente o prejuízo e não permitamos que ele se alastre, acrescentando à perda financeira, outras perdas tais sejam: a perda de tempo, a perda da calma, a perda de energias, a perda da auto estima e estejamos certos de que todas essas perdas redundarão em novas perdas financeiras. Nesses casos esquecer é difícil, mas é o caminho seguro para delimitar o dano.

Girar com perseverança o braço da morsa, para desligar-se do mau negócio, lançá-lo com humildade entre os inservíveis e prosseguir trabalhando. De tudo fica uma lição. Há lições muito caras do ponto de vista financeiro, mas não há lições que custem mais do que valem do ponto de vista espiritual.

Moral da História

  • Águas passadas não movem moinhos.

  • Humilde é quem reconhece os próprios erros. Contumaz é quem se agarra a eles.

Constrangimento

A necessidade de fazermos algo que não gostamos por necessidade financeira. A insatisfação profissional, o desfazer-se de um bem que estimamos, pequenas ou grandes humilhações por falta de dinheiro.

Inicialmente temos que examinar se somos obrigados a fazer o que não gostamos.

Será que há uma necessidade financeira real? será que não há outra alternativa para resolvê-la? será que não estamos sendo movidos pela cobiça? pelo comodismo?

Muita coisa destrambelhada que fazemos, ocultamos sob o véu da necessidade financeira. Pais que não suportamos o lar e desertamos para a atividade profissional, justificamo-nos dizendo: são as futuras necessidades financeiras de nossos filhos que me obrigam a passar tanto tempo no trabalho... Outras vezes é a inveja: preciso ter um carro de ano mais recente que o vizinho, custe o que custar...

Evidentemente esses constrangimentos são falsos, e o melhor é deixarmos de nos enganar. Se nós mesmos atamos vendas as nossos olhos certamente acabaremos caindo e levando outros também a caírem.

Mas, existe o constrangimento real.

Neusa era uma faxineira que possuía 2 empregos, dormia 4 horas por dia, tudo isso para alimentar 4 filhos, depois que o marido a abandonara. O dinheiro vinha curto, sofrido, amargo. Ela não tinha, porém, outro caminho que fosse digno.

Trago agora essa heroína, em pensamento, a minha frente. Agora que seus filhos são maiores e enfrenta uma situação econômica tranquila.

E olho nos seus olhos, vivos e apertados na face magra, precocemente envelhecida, e digo-lhe:

Neusa, irmã!

Se o dinheiro foi curto, como é longa e calma essa sensação de dever cumprido após a batalha.

Se o dinheiro foi amargo, como é doce a dignidade de tê-lo ganho honestamente

Se o dinheiro foi sofrido, como é prazeroso, passados esses anos, ter a consciência de ter amado seus filhos, não como a si mesma, mas mais do que a si mesma!

Benditos sejam os constrangimentos que nos elevam para o bem.

Benditos esses constrangimentos que são como o peso que o corredor põe nas costas, para fortalecer seu corpo e dar-lhe músculos mais poderosos, para que no dia da corrida, livre dos aparelhos do treinamento, brilhe leve e veloz.

Moral da História:

  • Necessidade financeira jamais deve ser desculpa.

  • Se o querer diverge do dever, atende o dever.

Preocupação

A angústia de não sabermos como ficará a nossa situação financeira.

Preocupar-se, como está explicito na própria palavra, é ocupar-se antecipadamente.

E nas nossas preocupações, quanta angústia, quantas energias, quanta mente cansada, parafusando e parafusando o que irá acontecer. E na maioria das vezes tudo isso desperdiçado, porque os fatos tomaram outros rumos e nada do que prevíamos aconteceu.

É premissa básica das finanças a previsão, ou seja, a identificação dos fatos econômicos que estão por vir, receitas, despesas, variações patrimoniais e conjunturais. É também premissa básica a provisão, isso é a reserva para suportar os dispêndios futuros.

É difícil falar em dinheiro, seja numa grande corporação privada, seja na administração pública, seja na economia doméstica, sem falarmos em planejamento e orçamento.

Fincado no presente o homem realista faz seus cálculos tentando penetrar no futuro para dar segurança ao presente e tranquilidade ao futuro.

Mas todas essas providências nada têm a ver com a angústia daquele que espera o pior do amanhã. Daquele que se castiga, cheio de medo, do problema que vir , insolúvel.

Não há problemas insolúveis. Há soluções dolorosas, soluções simples, soluções complexas, situações constrangedoras, mas o tempo, que é um bem que vem de Deus, tudo equaciona na Sua Justiça Perfeita.

Essa preocupação exagerada com o porvir econômico é uma verdadeira auto-punição. Creio que essa auto-punição deriva de sentimentos de culpa. A alma sente-se inconscientemente culpada, e fantasia sofrimentos futuros, crendo com isso passar de ré a vítima, tanto perante a própria consciência, quanto perante aqueles que a cercam.

Claro está que a auto-punição não resolverá os problemas advindos de nossos deslizes, mas inconscientemente aplicamos a nós mesmos os conceitos da justiça humana de multa e fiança.

Ah, como seria cômodo, se pudéssemos resgatar nossos débitos morais com preocupações...

Não! Pensando melhor, acho que seria muito atormentado, muito angustiante.

Se nos sentimos devedores, não será melhor prevermos em nossos orçamentos, alguma verba por pequena que seja, para o auxílio ao nosso próximo? Aprovisionarmos este dinheiro e empregá-lo na conta da caridade, que remunera a 100 por 1? Não é uma forma muito mais inteligente de usar os conceitos financeiros para resgatar as nossas dívidas?

Lembremo-nos, sempre que o futuro econômico nos angustiar, que o pior que pode acontecer é a prova da miséria, vivida por milhões de irmãos nossos, e que, muitas vezes nos seus barracos e baixos de viaduto, são mais felizes que outros que vivem em palácios.

Fixemos os ensinamentos que Jesus nos ofereceu no sermão da montanha e que foram anotados por Mateus no capítulo 6 do seu evangelho:

Não estejam ansiosos quanto a sua vida, pelo que haverão de comer, ou beber, nem pelo corpo pelo que haverão de vestir.
Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário?
Olhem para as aves do céu, que não semeiam, não ceifam, nem ajuntam em celeiros. E o Pai Celestial as alimenta. Vocês não valem muito mais do que elas?
Ora, qual de vocês por mais ansioso que esteja, pode acrescentar meio metro a própria estatura?
E por que vocês estão ansiosos pelo que vestirão? Olhem para os lírios do campo, como crescem: não trabalham, nem preparam fios. Contudo eu digo a vocês, nem Salomão em toda a sua glória, vestiu-se como um deles.
Pois se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vocês, homens de pequena fé ?
Portanto, não se inquietem, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que havemos de nos vestir? Porque o seu Pai Celestial sabe que vocês precisam de tudo isso.
Mas procurem primeiro o Seu Reino e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.
Não se inquietem portanto pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Bastam a cada dia suas dores.

Moral da História.

  • Os sofrimentos advindos de preocupações de natureza financeira devem ser evitados.

  • O planejamento econômico deve levar em conta a caridade cristã.



1Procelas = tempestades

2Estevais = campo coberto de estevas, arbusto aromático

3Bornais = sacola de pano

4Almotolia = vasilha para azeite

5Gomil = jarro

6Diáfanas = translúcidas

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