Palavras Amigas‎ > ‎Bem sofrer‎ > ‎

Dores Morais

A dor da consciência ferida pela prática do mal, nossa ou dos nossos entes queridos, a noite insone, a vergonha, o medo de enfrentar os próprios erros, eis um sofrimento real que acompanha o espírito imperfeito.

A consciência é provavelmente a mais alta faculdade do espírito humano.

É nela que podemos ouvir a voz de Deus, nos orientando, segundo Sua santa vontade.

A todo momento ela nos adverte, mas nem sempre queremos ouvi-la. Mesmo assim, ela prossegue, perfeito guardião de nossa probidade interior, velando pela nossa dignidade moral.

Jesus disse: "até os fios de cabelo de vossa cabeça estão contados", significando com isso que a apuração de nossos débitos e créditos pela contabilidade divina é exata e perfeita. Disse mais, Jesus: "pagarás até o último ceitil", significando que a essa contabilidade perfeita segue uma justiça igualmente perfeita.

Dentro desse quadro de contabilidade de justiça sempre haverá modos de pacificar a consciência. Não através do esquecimento, mas através da boa ação e da expiação.

Perdoando, seremos perdoados. Na medida em que medirmos os outros seremos igualmente medidos. O metro da tolerância e da indulgência está a nossa disposição, na avaliação de nossos irmãos. E a fé nos garante que, usando-o com nossos irmãos, ele também será usado para medir as nossas ações.

Evitemos os sofrimentos morais sendo fieis aos nossos deveres, que o dever é a súmula de todas as especulações morais.

Vivamos o Evangelho de Jesus, que a lei do amor a Deus e ao próximo é o resumo de todas as leis morais.

Tenhamos confiança em Deus, que nos criou para sermos homens e mulheres de bem, e vivermos a alegria da nossa dignidade.



Moral da História

  • Seguir a voz da consciência é estar em paz.

  • A vontade de Deus é o melhor para nós.

Queda moral

O cristianismo através de sua moral profunda estabelece com grande clareza a noção de certo e errado, o que leva a reconhecermo-nos em muitas situações como pecadores, é também o mesmo cristianismo que oferece solução ao pecado.

O pecado no nosso estágio evolutivo é quase uma fatalidade. Poucos escapam dele. Essa fatalidade: "‚ necessário que haja o escândalo", nas palavras de Jesus, se contrapõe às dores e à repulsa que causa o crime: "mas ai daquele por quem o escândalo vem", ainda palavras de Jesus. Usamos a palavra escândalo não no sentido de estardalhaço, mas no sentido de todas as consequências do mal moral.

Pecado em sua acepção primitiva, etimológica, significa queda. Estamos a caminho, no caminho do aperfeiçoamento, no caminho que conduz a felicidade, no caminho que conduz a Deus. Não sabemos ainda andar direito, pois será o proprio caminho que nos ensinará a andar. Nesse caminho espiritual caímos, sofremos a dor da queda, interrompemos a marcha por algumas horas ou por alguns séculos: eis o pecado, ou queda moral: uma interrupção na nossa evolução espiritual.

Dura contradição da natureza humana, que sabe o melhor, deseja o melhor, mas repentinamente se desestrutura e faz o pior.

Usa-se também a palavra "falta", para descrever nossas quedas morais, a mim parece uma palavra muito adequada. Pecamos porque nos falta alguma coisa: nos falta humildade, desprendimento, coragem, etc..

Por que Deus na sua sabedoria permitiu as quedas morais, o pecado?

Ouçamos ainda São Francisco de Sales:

O orgulho é um mal tão comum entre os homens, que nunca se pode pregar e inculcar bastante, a necessidade que tem de perseverar na prática da santa e amabilíssima virtude da humildade. Ora, a humildade é o verdadeiro conhecimento da nossa abjeção. Este conhecimento do nosso nada, não nos deve perturbar, mas suavizar, humilhar e rebaixar.
...
É o amor próprio que faz com que nos impacientemos e sejamos tão vis e abjetos.
Mas eu sou tão miserável, tão cheio de imperfeições!
- Conheces isto bem? Louve a Deus por te ter dado este conhecimento, e não te lamentes tanto. És bem feliz por conhecer que não és senão a própria miséria.
É preciso confessar a verdade; somos pobres criaturas que nenhum bem podemos fazer. Digo que serás fiel se fores humilde - Mas serei humilde? Sim, se quiseres - Mas eu quero. - Portanto és - Mas sinto que não sou. - Tanto melhor pois isto é mais uma garantia, e é sinal de que és.
...
As nossas imperfeições, ao tratar dos assuntos tanto interiores quanto exteriores, são uma grande causa de humildade, e a humildade produz e nutre a generosidade.
...
Nosso Senhor permite que não possamos vencer algumas pequenas dificuldades, a fim de que nos humilhemos e saibamos que, se vencemos grandes tentações, não é por nossa força, mas pela assistência de sua divina bondade.
Tenha paciência! Se Deus te deixa escorregar, é para te fazer conhecer que se Ele não te sustentasse, cairias completamente
Salomão diz que a criada que se torna senhora é um animal insolente.
Da mesma forma, a alma dominada sempre pelas paixões, e que se visse rapidamente livre delas e sua dominadora, tonar-se-ia orgulhosa e vã em um momento.
Fica em paz e suporta com paciência tuas pequenas misérias. Pertences a Deus, e ele te conduzir . Se não te livra imediatamente das imperfeições, é para te livrar com mais utilidade, e te exercitar mais longamente na humildade, para que tu sejas firme nesta cara virtude.
...
Sabes, conforme já te disse muitas vezes que deves ser afeiçoado igualmente à prática da fidelidade para com Deus, e à humildade: da fidelidade para que renoves as resoluções de servir a Sua divina bondade, tantas vezes quantas caístes, ficando atento de cumpri-las sempre; à humildade quando te suceder violar a fidelidade, para reconheceres tua fraqueza e tua abjeção. Os que aspiram ao puro amor de Deus não tem necessidade de tanta paciência com os outros, quanto tem consigo mesmos.
É preciso sofrer a nossa imperfeição para chegarmos a perfeição.
Digo sofrer com paciência, e não amar ou acariciar. A humildade alimenta-se com esse sofrimento. Somos todos capazes de cair nas mesmas faltas, todos temos defeitos e não havemos de maneira alguma nos admirarmos de encontrá-las, pois se ficarmos algum tempo sem cair em falta alguma, virá tempo em que cairemos a cada passo em imensas imperfeições, das quais poderemos tirar proveito para a nossa humilhação.
A alma que sobe do pecado a devoção, é comparada a aurora, que ao nascer, não afugenta as trevas de repente, mas pouco a pouco. A cura, diz o aforismo, que faz-se devagar, é sempre a mais certa e sólida. As moléstias do coração como as do corpo, vem depressa, a cavalo e de carro, mas retiram-se a pé e a passo, vagarosamente.
Devemos pois ter paciência, e não pensarmos curar em um dia tantos maus hábitos que contraímos, pelo pouco cuidado que temos de nossa saúde espiritual; se a força da tempestade, nos abala algumas vezes, e nos faz tontear, não nos espantemos, mas, logo que pudermos, retomemos a coragem, e animemo-nos a prosseguir no bem.
Eleva teu coração quando caires, docemente, humilhando-te muito diante de Deus, pelo conhecimento da tua miséria, sem absolutamente te admirares da queda, porque não é de admirar que a enfermidade seja doença, a fraqueza seja fraca, e a miséria, vil. Deteste no entanto, com todas as tuas forças, a ofensa que Deus recebeu de ti, e com uma grande coragem e confiança na Sua misericórdia, continue na prática das virtudes que tinhas abandonado.
Devemos nos entristecer pelas faltas cometidas, com um arrependimento forte, constante, tranquilo, mas não turbulento, nem inquieto, e desanimador.
Nada, a não ser o pecado, nos deve entristecer e afligir; e mesmo esta aflição pelas faltas cometidas, deve unir-se a alegria e a consolação santa na misericórdia divina.
Tem grande cuidado em não desanimar quando tiveres caído em alguma falta, mas humilha-te prontamente diante de Deus com uma humildade branda e amorosa, que te leve a confiança de recorrer prontamente à Sua bondade, tendo certeza que te ajudará a emendar-se.
Quando te suceda cair em alguma falta qualquer que seja, pede perdão humildemente a Nosso Senhor, dizendo-lhe que estás bem certo de que Ele te ama, e te perdoará. E isto sempre com doçura.
...
A desconfiança que tens de ti mesmo é boa, porque servirá de fundamento a confiança que tu deves ter em Deus; mas se alguma vez te levar ao desânimo, perturbação, pesar e melancolia, peço-te que a rejeites como a maior das tentações, e que nunca permitas que teu espírito discuta ou replique em favor da perturbação ou do abatimento, pelo qual te sintas inclinado, embora seja com o pretexto da humildade.
...
Crede-me, as repreensões de um pai, feitas com doçura e cordialidade, têm mais poder sobre um filho para corrigi-lo, do que feitas com maus modos e cólera.; da mesma forma, quando reconhecemos em nosso coração alguma falta, e o repreendemos com advertências carinhosas e tranquilas, tendo com ele mais compaixão que ira, exortando-o a corrigir-se, o arrependimento que tiver será muito mais profundo, do que se o repreendêssemos com despeito ira e aspereza.
Quanto a mim, se tivesse, por exemplo: grande cuidado em não cair no vício da vaidade, mas se tal acontecesse, não repreenderia meu coração com palavras semelhantes a estas:
"És tão miserável e abominável que, depois de tantas resoluções, te deixastes seduzir pela vaidade! Morre de vergonha! não levantes mais os olhos para o céu, cego e imprudente, traidor e desleal para com o teu Deus!" ou coisas semelhantes.
Corrigi-lo-ia razoável e moderadamente dizendo:
"Ora, meu pobre coração, eis-nos caídos no lodo de que tanto prometemos fugir. Ah! levantemo-nos e abandonemo-lo para sempre; imploremos a misericórdia de Deus, e esperemos o seu auxílio, para que de ora em diante sejamos mais fortes e entremos no caminho da humildade. Coragem, tenhamos de ora em diante, mais cautela, Deus nos ajudará e nos tronará fortes"
...
Nosso Senhor nos ordenou dizer diariamente, estas palavras do "Pai Nosso": "perdoai-nos as nossas dívidas assim como perdoamos nossos devedores" e não há exceções neste mandamento, porque todos temos necessidade de cumpri-lo.

Duas palavras a você que achou um tanto duras, descaridosas, palavras como "vis e abjetos", "não ‚s senão a própria miséria" do texto de São Francisco de Sales, transcrito acima: O orgulho é realmente um vício tenaz, que necessita ser tratado com energia. É triste ver aquele irmão, que após milênios de crimes e faltas, por ter conseguido passar alguns anos sem praticar um determinado tipo de falta, trata com desprezo seus irmãos que erram. O orgulho da virtude nascente matou os seus benefícios.

"Vis", "abjetos", "insignificantes", é para tornar bem claro que não há em nós nenhum motivo para sentir orgulho.

Há em nós algum valor? Sim, fomos criados por Deus, somos amados por Deus.

Por termos galgado um degrau de evolução valemos mais que o nosso irmão que está embaixo? Não, a ação boa vale infinitamente mais que a má, mas o justo não vale mais que o criminoso, pois ambos são filhos de Deus, e o justo de hoje terá sido o criminoso de ontem, e o criminoso de hoje será o justo de amanhã.

O justo é mais feliz que o criminoso? Sim, pois goza da paz da consciência, da alegria do dever cumprido. É muito melhor ser virtuoso do que pecador, mas se o virtuoso se sente superior ao pecador já não é mais virtuoso.

Se você se considera com algum poder e algum valor que nasce de você mesmo, cuidado o abismo do orgulho está a seus pés!

Se você considera a sua desvalia e impotência e a infinita valia e a onipotência de Deus, e pensa que, se somar a sua pequenez com a grandeza infinita de Deus, você será de muita valia para seus irmãos, tendo grande poder para fazer o bem, então você está num caminho bom.

Algo que, absolutamente, não ajuda nas quedas morais é o sentimento de culpa.

Derramamos o leite sobre a mesa, a toalha vai sendo molhada, o líquido vai correndo sobre as cadeiras, precipitando-se sobre o tapete. Qual a atitude correta: ficar a um canto chorando e se culpando do leite derramado, ou movimentar-se rapidamente, localizar um pano de pratos, endireitar a leiteira, enxugar a mesa, trocar o toalha e ir à padaria comprar um outro litro de leite.

Por vezes dizemos: o meu crime não tem perdão. Esta é uma afirmação de orgulho. Por mais que tenhamos procurado fazer o mal, não devemos esquecer que a misericórdia de Deus é infinitamente maior. Somos tão pequenos que nem crimes grandes temos condições de cometer.

Aliás, da mesma forma que Deus não permite que sejamos carregados com cruzes maiores que nossas forças, não permite também que contraiamos débitos morais superiores à nossa capacidade de pagamento.

Reconhecer a culpa, para responsabilizar-se moralmente, sim! Ficar sentindo e "curtindo" a culpa, entravando a reparação, não!

Aqueles que aceitam as re-encarnações sucessivas, têm motivos de grandes consolações, quando por ocasião das quedas morais.

Diz Jesus "pagarás até o último ceitil", ou seja, Deus é justo. Mas a misericórdia de Deus não contraria a sua justiça, complementa: mas Eu te darei condições para pagar.

Na lei das encarnações sucessivas o homicídio é equacionado frequentemente da seguinte forma. Matar é destruir o corpo de um espírito. A reparação será devolver este corpo. Como? Através dos recursos da paternidade e da maternidade poderemos dar a nossa vítima um novo corpo. Claro está que na maioria das vezes a vítima de outras épocas será, nesta encarnação reparadora, um inimigo, que teremos no próprio lar, o que nos trará vários inconvenientes, mas teremos a oportunidade de refazer em novas bases o nosso relacionamento e quitar os nossos débitos com as leis divinas.

O pecado é um aspecto da nossa carência de evolução que num dado instante se torna manifesto.

Seja como exemplo um homicídio. num dado instante nossa mão acionou um gatilho e alguns instantes depois a nossa vítima estava morta.

Do ponto de vista policial, o crime terá ocorrido num horário preciso, num local preciso.

Do ponto de vista espiritual, no entanto, a nossa agressividade nunca foi bem controlada, egoísmo, orgulho, problemas ainda não superados. Naquele instante, houve apenas o extravasamento de problemas que tinham milênios, como se nosso organismo espiritual, tivesse longa enfermidade que repentinamente explodisse numa crise sintomática.

Desse ponto de vista, pode haver surpresa, com relação às nossas faltas, ou daqueles com quem convivemos, mas a surpresa deve ter sua causa no nosso desconhecimento, de nós próprios, ou de nosso próximo, porque aqueles males já estavam presentes desde há muito.

Assim, o crime deve ser entendido como um alerta. É uma sirene humilhante e dolorosa, mas uma sirene ainda, que nos convoca ao trabalho de reforma interior ou de ajuda, com coragem e devotamento.

A você que está no chão, lamentando suas quedas morais, nós lhe lembramos Jesus, questionado pelos fariseus, porque convivia com pecadores:

Então ele lhes propôs esta parábola:
Qual de vós é o homem que possuindo 100 ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa as 99 no deserto, e não vai após a perdida até que a encontre? E achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo; e chegando a casa, reúne os amigos e vizinhos e lhes diz: alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se havia perdido.
Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu por uma pecador que se arrepende, do que por 99 justos que não necessitam de arrependimento.
Ou, qual é a mulher que, tendo 10 dracmas1 e perdido 1 dracma, não acende a candeia2, e não varre a casa, buscando com diligência até encontrá-la? E achando-a, reúne as amigas e vizinhas, dizendo: alegrai-vos comigo, porque achei a dracma que havia perdido.
Digo-vos que assim há alegria na presença dos anjos de Deus por um só pecador que se arrepende.
Disse-lhes mais:
Certo homem tinha dois filhos.
O mais moço deles disse ao pai:
- Pai dá-me a parte dos meus bens que me toca.
O (pai) repartiu-lhes pois seus haveres.
Poucos dias depois, o filho mais moço, ajuntando tudo, partiu para um pais distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.
Havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades. Então foi encostar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a pascentar porcos. Desejava encher o estômago com as frutas de alfarroba3 que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada.
Caindo porém em si, disse:
- Quantos empregados do meu pai tem abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: "Pai pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.
Levantou-se pois, e foi para o seu pai. Estando ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. Disse-lhe o filho:
- Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
Mas o pai disse aos seus servos:
- Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também o bezerro cevado, e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.
E começaram a regozijar-se. Ora, seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças; e chamando um dos servos, perguntou-lhe o que era aquilo. Respondeu-lhe o servo:
- Chegou a teu irmão, e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.
Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele. Ele porém respondeu ao pai:
- Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com meus amigos, vindo porém este teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.
Replicou-lhe o pai:
- Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu; era necessário, porém , regozijarmo-nos e alegrarmo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.

Levante-se pois, alma caída, busca teu Pai Celestial, que terá para você, juntamente com seus santos anjos, sempre os braços abertos para recebê-lo, e pede a você unicamente humildade e reconhecimento de suas faltas.

Lembre-se, que o Deus único, criador do céu e da terra, não é o Deus da condenação, e sim, o Deus da justiça, do amor e da misericórdia. Não acalente pois suas misérias, corre para ele, e retome a alegria de viver e a dignidade de reconstruir.

Moral da História.

  • Quem está de pé, pode talvez cair. Quem caiu, certamente tem que se levantar.

  • A queda moral ao humilhar-nos, auxilia-nos a vencer o orgulho.

Calúnia

A calúnia é como se alguém tomasse um travesseiro de penas e o rasgasse ao vento forte, e as penas se espalhassem. Em algum minutos as penas foram levadas pelo vento. Se aquele que as espalhou tentasse recolhê-las arrependido, veria que nem com alguns anos de trabalho conseguiria desfazer, o que fez em alguns minutos.

Mas vamos, mais uma vez dar o braço a São Francisco de Sales, e ouvi-lo a respeito da calúnia:

Dizem que os que têm o preservativo, conhecido pelo nome de óleo de São Paulo, não incham quando mordidos por víboras, contanto que o óleo seja fino; da mesma forma, quando a humildade e a doçura são boas e verdadeiras, nos protegem da inchações e ardor que as injustiças e injúrias costumam provocar em nossos corações. Se sendo picados e mordidos pelos caluniadores e inimigos, nos tornamos orgulhosos, inchados e despeitados, é sinal que as nossa humilhações e doçuras não são verdadeiras e leais, mas fingidas e aparentes.
...
Se o mundo nos despreza, alegremo-nos; pois tem razão, somos os primeiros a reconhecermos que somos desprezíveis. Se nos estima, desprezemos a sua estima e o seu juízo; porque ele é cego.
Ocupai-vos pouco do que pensa o mundo, não vos importeis com isso, desprezai o seu louvor e o seu desprezo, e deixai que diga bem ou mal. Em resumo, desprezai igualmente a opinião que o mundo de vós fizer e não lhe ligueis importância. Dizermos que não somos o que o mundo pensa quando nos louva, é bom; pois o mundo é charlatão, fala sempre demais, seja bem ou mal.
...
Meu Deus, de que vale esta reputação, que encontra tantos que por ela se sacrificam? Na verdade não passa de um sonho, um sombra, uma opinião, uma fumaça, uma lisonja, um louvor onde a memória morre com o som, uma estima que é muitas vezes tão falsa, que muitos se admiram que lhe louvem as virtudes, quando sabem conter justamente os vícios opostos, e que lhe censuram os vícios de que estão isentos.
...
Os que se queixam da maledicência são muito sensíveis; é uma pequena cruz de palavras que o vento carrega. Esta frase: "ele feriu-me", significando "ele me fez uma injúria" me desagrada; porque existe grande diferença entre o zunir de uma abelha e sua picada; é preciso ter o ouvido e a pele muito delicados, para não suportar o ruido de uma mosca e ofender-se com seu cantar.
...
Nunca deixarei de pensar, se Deus me ajudar, nesta máxima: "que não se deve viver segundo a prudência humana mas, segundo a lei do Evangelho, porque esta prudencia humana é uma verdadeira tolice. Oh! Deus! Que Nosso Senhor nos defenda sempre, e nos faça viver continuamente segundo o espírito do Evangelho, que é suave, simples, amável, dando sempre o bem pelo mal.
Estavam bem conformes a prudência humana, os que inventaram este provérbio: "vale mais a boa reputação que a riqueza", preferindo a honra às riquezas, isto é, a vaidade a avareza. Oh! Deus! como isto está longe do espírito da fé ! Há porventura reputação manchada como a de Jesus Cristo? Com que injúrias foi atacado? De quantas calúnias foi vitima? Entretanto o eterno Pai, deu-lhe um nome superior a todos os nomes, e exaltou-o quanto ele se tinha humilhado.
...
Se a graça de Deus se justificasse em mim, desejaria que no dia do juízo, quando se manifestassem os segredos dos corações, que só Deus soubesse a minha justiça, e que as minhas injustiças fossem conhecidas de todas as criaturas! Em que queremos, vos pergunto, testemunhar nosso amor para com Aquele que tanto sofreu por nós, a não ser pelas contrariedades, repugnâncias e aversões? Ah! deixemos que o nosso coração seja transpassado com a lança da contradição; alimentemo-nos com o absinto e bebamos o fel e o vinagre das amarguras temporais, visto ser esta a vontade de nosso doce Salvador. Deus, eis o espelho de nossa alma, e o polo imóvel sobre o qual giram os nossos desejos, e todos os nossos movimentos. Depois disto, arme-se o céu, amotinem-se a terra e os elementos, guerreiem-se todas as criaturas; confio em Deus, e me basta estar com Ele, e que Ele esteja comigo, para estar em paz
Tenhamos sempre fixos os olhos em Jesus-Cristo crucificado, caminhemos em seu serviço com confiança e simplicidade, mas prudente e discretamente; Ele será o protetor de nossa reputação, e se permitir que no-la roubem, será para nos dar melhor, ou para nos fazer aproveitar da santa humildade, uma onça4 da qual vale mais que mil libras5 de honra.
Se nos caluniarem injustamente, oponhamos com paciência a verdade à calúnia; se perseverarem, perseveremos na humildade; entregando assim nossa reputação e nossa alma nas mãos de Deus, não a poderemos guardar melhor.
Sirvamos a Deus, com boa ou má reputação.
Amai muito a Jesus, quando vosso coração estiver orvalhado, pela santa consolação, mas amai-O sobretudo, quando estiverdes mergulhados na dor, na tribulação e aridez, porque assim vos amou Ele no paraíso, e vos testemunhou ainda maior amor, entre os açoites, cravos, espinhos e trevas do Calvário.

O Santo Bispo de Genebra (Francisco de Sales) consolou os caluniados. Agora, uma palavra aos caluniadores, aos que têm a consciência dolorida por terem, através da mentira, leviana ou nascida da má fé, espalhado a um véu de sombra em torno do seu próximo a quem deviam amar e respeitar.

O vento levou as penas do travesseiro. Não é mais possível reuni-las. Passando de bocas a ouvidos se multiplicaram por todo o tecido social, à semelhança de uma infecção atingindo um organismo.

A esses, algumas recomendações evangélicas:

Reconcilia-te com teu adversário enquanto estás a caminho. Façamos o possível por propagar e restaurar a verdade, se conseguirmos humilhar-nos retratando-nos, isso será uma grande vitória aos olhos de Deus.

Vai e não peques mais. Mas é possível que a coisa tenha ido longe e tenha gerado situações irreversíveis. O sentimento de culpa não pode paralisar a vida. Por todos os meios possíveis, delimitemos a fofoca, a maledicência, a calúnia. Sejamos cuidadosos até em comentários sobre figuras públicas, tão sujeitas a mexericos.

Aquele que não nascer de novo, não entrará no Reino dos Céus. Confiemos na perfeita justiça de Deus, que nesta ou numa nova encarnação nos auxiliará a expiarmos os nossos delitos, e trabalharmos pela valorização da palavra aqui na terra.

Moral da História:

  • A consciência tranquila vale mais que a reputação.

  • Na dúvida, cala-te.

Vícios

O homem busca a felicidade. Essa busca foi plantada nele por Deus, ele poderá tentar ignorá-la, paralisa-la, procurar a felicidade onde ela absolutamente não está. O que o homem não conseguirá fazer será extirpar do mais fundo de si a procura do melhor, a procura da verdade, a procura do bem, a procura do amor, resumindo: a procura da felicidade.

Para que o homem saia de si, procurando a felicidade, Deus lhe deu a alegria, que nada mais é que o esquecimento de si mesmo. Toda vez que conseguimos tirar o foco de nossa atenção de nós mesmos, é como se uma grande carga fosse tirada de nossos ombros e pudéssemos respirar aliviados.

Eu imagino que as coisas se passam mais ou menos assim. Imaginemos uma pessoa que tivesse os olhos virados para a parte interna da orbita ocular. Ela não veria nada, e sentiria uma grande angústia. De repente seus olhos viram-se para as pálpebras, as pálpebras se abrem, a pupila se ajusta para a quantidade certa de luz, os pequenos músculos do cristalino focam as imagens, e eis que ela percebe o mundo em toda a sua variedade de formas e cores. Ocasionalmente poderá contemplar sua própria imagem num espelho, mas que diferença da visão anterior, quando ela via apenas o fundo das próprias órbitas.

Assim somos nós: Voltados para nós mesmos, cegos pelo egoísmo nada vemos, ao pretendermos ver apenas a nós mesmos. Mas pela misericórdia de Deus, nosso interesse é deslocado, em busca do outro. As pálpebras da renovação se abrem. A pupila da sensatez equilibra as emoções. Os músculos da percepção passam a nos fornecer imagens nítidas, focadas pela cristalina compreensão. E nossos irmãos em humanidade, com toda sua diversidade de caracteres, com toda sua riqueza de contrastes surgem a nossa frente. Ocasionalmente, nos examinamos refletidos nos nossos próprios atos, mas que diferença da sombria postura anterior.

Esquecer a si mesmo é bom. Mas há duas maneiras de esquecer a si mesmo: o caminho da virtude e o caminho do vício.

Na verdade, da mesma forma que se bebe para esquecer, se joga para esquecer, se usam drogas para esquecer, até o vício do fumo, mais leve, tem um forte componente de auto-esquecimento. E o vício traz alguma momentânea alegria.

A beneficência é a virtude que mostra com mais clareza a alegria do auto-esquecimento. Aquele que se esquece no atendimento ao necessitado sente de imediato uma profunda e duradoura alegria.

E as alegrias do amor, em todas as suas feições, do amor filial ao conjugal, do maternal ao fraternal, como é agradável pensar no outro, sentir o outro, completamente esquecidos de nós mesmos...

Eis as duas diferenças fundamentais entre a alegria proporcionada pela virtude e a alegria proporcionada pelo vício: a alegria da virtude é duradoura e profunda, a alegria do vício é passageira e superficial. Uma alimenta e delicia a alma, a outra apenas delicia de forma limitada.

Façamos uma analogia entre alimentação e alegria. O corpo tem fome, necessita de alimento, a ausência do alimento traz graves transtornos e finalmente a morte. Deus nos deu o paladar, porque é Bom, e que quer que atendamos a essa necessidade básica com prazer. Da mesma forma a alma tem a necessidade de esquecer-se para ligar-se aos outros, e Deus como é bom fez disso uma coisa agradável. Se alguém apenas comesse para satisfazer o paladar, com alimentos sem nenhum valor nutritivo, ou até prejudiciais, embora tivesse o prazer de saboreá-los, dentro em pouco estaria enfrentando todas as dores da desnutrição. Assim é aquele que busca esquecer-se através do vício, delicia de forma duvidosa a alma, não a nutre, a intoxica; dentro em breve estará doente.

Uma das dificuldades do vício, é que depois de passado o auto-esquecimento, ele exigirá uma dose maior para um novo esquecimento, pois há que vencer também novos sentimentos de culpa, e assim sucessivamente.

Ao que tem vícios, o que eu sugiro com veemência, é que procure combater o vício pela prática da virtude, especialmente a beneficência.

Cada coração será mais sensível a um ângulo dos sofrimentos e necessidades humanos: Este ao velhinhos desamparados, aquele às crianças órfãs, outro à família que enfrenta a miséria, um outro ainda aos doentes, ... Ache o seu lado mais sensível, aquele mais capaz de sofrer com os que sofrem, chorar com os que choram, e por esse caminho procure o esquecimento de si mesmo.

Numa atividade perseverante você irá encontrando mais forças para vencer as suas tentações. Lembre: "ajude-se e o céu o ajudará"

Em todo vício há um componente obsessivo. Referimo-nos aqui a delicada questão, de que mentes desencarnadas, já libertas do corpo físico, mas aprisionadas ainda em apetites carnais, ou movidas por desejos de vingança, se conjugam, para de todas as formas impedir que suas vítimas se libertem dos seus vícios.

Sabendo disso, à terapêutica da virtude, acrescenta a terapêutica clássica contra a obsessão: prece sinceras, reforma íntima, limpeza de pensamentos e hábitos, e o apoio de uma instituição religiosa séria.

Vitor Hugo, o grande literato francês, escreveu um longo poema "O Fim de Satã".

O poema principia com a queda de Lúcifer, o mais belo dos anjos que se rebelara contra Deus: Abandonando o nome de Lúcifer que significa luminoso adota o nome de Satã. Escuro, lamacento, blasfemo, infeliz, sombrio, colérico, Lúcifer se precipita num abismo sem fim, renegando a Deus e ao bem, símbolo de todos os vícios.

Segue-se a história da humanidade, com seu rosário de dor. Satã vai se enfastiando do mal.

Aparece no cenário humano Jesus, com sua mensagem de amor e perdão. Satã vai se convertendo.

Novas dores, e Satã vai se sublimando, até que redimido e purificado, Satã adota novamente o nome de Lúcifer. Volta-se para Deus, para ser seu mensageiro de amor e paz.

Deus não criou nenhum ser voltado eternamente para o mal. Isso seria contradizer-se. Criar alguém para o mal não poderá ser jamais entendido como um gesto de amor.

Os homens chafurdam no mal, talvez demorem milênios nesta situação, mas, pela própria força das coisas, acabam por se arrepender, purificar sua imundície interior, e voltarem-se para o amor a Deus e ao próximo.

A você que luta contra os próprios vícios, uma mensagem de esperança: Se até os maiores criminosos, no correr das vidas sucessivas acabam por emendar-se, porque você que não conseguirá a sua própria redenção?

Orgulho: É o principal dos vícios. Lamentavelmente quase todos o temos. Consiste em se achar mais importante que os demais. A busca da própria importância consome largas porções de energia e leva ao esquecimento dos próprios problemas.

Em oposição ao orgulho está a santa humildade, que nos liberta através das asas do amor e da sabedoria, rumo ao céu. Oh, como é enfadonho ficarmos constantemente nos comparando, nos medindo, procurando argumentos que nos convençam de que somos superiores aos nossos irmãos, quando é tão aconchegante nos sentirmos todos igualmente filhos de Deus.

O orgulho é um vício que exige uma luta tenaz para ser extirpado. As humilhações que Deus nos envia são um precioso auxiliar no combate do vício do orgulho.

Vigie seus pensamentos, e procure agir com sensata humildade, que não é nem servidão nem servilismo, saboreia a liberdade interior, que as conquistas no campo da humildade vão te trazendo. A sensação de liberdade interior proporcionada pela humildade é um grande incentivo na luta contra o orgulho.

São João da Cruz, santo e poeta da Espanha do século 17, amigo de Santa Teresa d'Ávila, entre seus muitos poemas de orientação cristã, compôs este, que traduz com perfeição a liberdade interior, adquirida, pelo desprendimento, pela humildade e pela modéstia:

Para vir a gostar de tudo,

Não queiras ter gosto em nada

Para vir a saber tudo,

Não queiras saber algo em nada.


Para vir a possuir tudo,

Não queiras possuir algo em nada

Para vir ao que não gostas,

Hás-de ir por onde não gostas.


Para vir ao que não sabes,

Has-de ir por onde não sabes.

Para vir a possuir o que não possuis,

Hás-de ir por onde não possuis.


Para vir ao que não és,

Has-de ir por onde não és.

Quando reparas em algo,

Deixas de arrojar-te ao todo.


Para vir de tudo ao todo,

Hás de deixar-te de todo em tudo.

E quando o venhas de todo a ter,

Hás-de tê-lo sem nada querer.


Nesta desnudez acha o espírito seu descanso

Porque não cobiçando nada,

Nada o afadiga para cima e nada o oprime para baixo

porque está no centro da sua humildade.

Avareza: O apego excessivo ao dinheiro. O amor que deveria ser direcionado a Deus e ao próximo, é endereçado ao dinheiro. O avarento se esquece no amor ao dinheiro.

Dante, na "Divina Comédia" descreve que em certo lugar do inferno haviam dois bandos que ficavam separados por algum tempo, depois se arremetiam um em direção aos outro, se engalfinhavam, se mordiam com grande alarido. Passado algum tempo nessa luta corporal, separavam-se cada grupo tomando sua direção, para depois voltarem novamente a estranha luta. Intrigado o poeta se aproxima para ouvir. Os grupos se engalfinham e gritam respectivamente duas perguntas: "Por que gastar?" e "Por que guardar?", a angústia da falta de resposta os exaspera, e por isso se agridem. Eram os grupos dos avarentos e dos pródigos.

Eis dois vícios paralelos, a avareza e a prodigalidade.

A avareza é o apego ao dinheiro para guardá-lo, a prodigalidade é também apego ao dinheiro, mas para gastá-lo. Eis a resposta a ambas as perguntas: a Caridade. Devemos gastar, quando pelo dispêndio poderemos expressar nosso amor ao nosso próximo e a Deus, seja diretamente, seja através de causas nobres, tais a verdade ou a beleza. Devemos poupar, pois o dinheiro, como todos os recursos que Deus nos deu, merece respeito e apreço pelas possibilidades de realização no amor que oferece, e que não devem ser desperdiçadas.

Por vezes você guarda em excesso, de outras gasta tolamente? Você se desequilibra por dinheiro? Se acha pobre? (isso é indicativo de avareza ou prodigalidade). Medite sobre a viúva que deu duas moedinhas no templo de Jerusalém, e não perca tempo, saí fazendo a sua pequenina sementeira de alegrias, planeje seus trocados, examine seu guarda roupa, seus móveis, seus utensílios e livros, ... Há algo que será útil a alguém? Ponha-se a campo, doe.

Marília havia tido um contato mais profundo com a doutrina cristã. Houve por bem iniciar a prática da doação. Foi ao seu guarda-roupa onde havia três compartimentos ideais, como na maioria dos guarda roupas: o trapo, praticamente inservível; as roupas velhas para usar em casa; as roupas do dia a dia para o trabalho; e finalmente, as roupas domingueiras, de festa. Iniciou dando os trapos, sentiu alguma resistência interior, ainda poderiam ser úteis, em alguma faxina em casa, poderia se valer deles, venceu essas dúvidas e deu. O tempo foi passando, Marília foi se conscientizando, vencendo suas resistências, e foi avançando no guarda roupa: roupas de casa, roupas de trabalhar. Até que um dia resolveu dar uma roupa domingueira. Passou a noite em claro, tão bonito o vestido, tinha comprado com tanto gosto, angustiada embora, venceu todo sentimento de posse e deu. Venceu a si mesma e prosseguiu. Anos a fio doaria o 13ª salário para instituições de caridade. Casada reservava 1/3 do orçamento doméstico para a beneficência. Todas essas doações a fizeram mais feliz que o mais belo dos vestidos e a mais fina das joias.

Não dê esmola. A esmola fere, humilha. Presenteie. Presenteie quem você nunca viu. Presenteie o mendigo que pede a você uma esmola. Isso mesmo, ele pediu uma esmola, você deu muito mais, deu um presente envolto em alegria e calor humano, na forma de dinheiro talvez, mas foi um presente, a seu irmão.

Inveja: Esquecer os nossos próprios desejos, passando a desejar o que o nosso próximo tem.

A inveja poderá ser material: invejamos a casa, o automóvel.

A inveja poderá ser de talento: invejamos a inteligência, a criatividade, o dom musical.

A inveja poderá ser afetiva: invejamos o marido, a esposa, a mãe.

A inveja se expressa nos verbos auxiliares: Quero ter o que o outro tem, ser o que o outro é, estar onde o outro está.

Devemos opor à inveja, a sublime virtude da benevolência, ou seja, desejar o bem dos outros.

Que tal nos voltarmos, com sinceridade, para dentro de nós mesmos num primeiro passo, e irmos descobrindo quais são os nossos próprios desejos e ideais? Não mais como ladrões dos objetivos e realizações dos outros, mas na posição de autores do próprio destino, criando para nós mesmos, nossos planos, com independência?

E num segundo passo, que tal esquecer um pouco o que o nosso próximo é tem ou está, e procurarmos descobrir o que ele necessita, onde podemos auxiliá-lo, o que temos de bom para repartir?

Vaidade: É o vício do aplauso. O aplauso embriaga como um vinho tinto, sobe a cabeça, deixa-nos corados e bamboleantes, e cremos que pelo aplauso conseguiremos nos esquecer. É evidente que não estamos identificando vaidade com boa aparência. Alguém pode estar vestido dignamente e ser um exemplo de modéstia, e outro aos farrapos ser um exemplo de vaidade.

Nós, os vaidosos, buscamos o aplauso a qualquer preço, em todo tipo de gestos, sejam palmas, cumprimentos, elogios, ou simples olhares de admiração.

Na busca do aplauso, por vezes enfrentamos as situações mais ridículas. Um de nossos erros, de nós os vaidosos, é fingirmos ignorar que aqueles que nos cercam sabem que somos vaidosos. Quanto sorriso irônico pelas nossas costas, depois dos elogios falsos.

Procuremos em tudo a modéstia. Só nos desgastemos com a evidência, quando absolutamente necessário. O anonimato é repousante, traz energias novas para o espírito e no mais das vezes cria as condições ideais para as boas ações. Evitemos portanto o destaque.

Lembremo-nos, quando a vaidade nos assalte, de Deus. Ele o criador máximo, é o grande anônimo, invisível, discreto, dando infinitas oportunidades a suas criaturas.

Estimule e não envaideça: se teu irmão está num caminho bom diga a ele: "vá em frente", "não desista". Mas não há nenhuma necessidade de dizer: "você é o melhor", "como são grandes as suas qualidades". Estímulo, sim! Elogios despropositados, não! O estímulo leva ao bem, o aplauso ao egoismo, à vaidade.

A competição, qualquer que seja: profissional, comercial, afetiva é um grande incentivo a vaidade. Nós que temos problemas com a vaidade, tracemos a nós mesmos uma regra: "evitar competições", e se porventura formos forçados a isto, fazer de tudo para que eventuais vitórias não nos subam à cabeça.

Busca a aprovação de Deus com sinceridade. Comparada à paz de consciência, o aplauso humano será como uma n‚voa desfeita ao sol da manhã

Preguiça: É esquecer-se no ócio. É dormir acordado. Algumas vezes é dormir mesmo. A preguiça tem muitas faces:

  • preguiça moral: fugir ao esforço de adquirir virtudes, perder vícios, auto aprimorar-se.

  • preguiça intelectual: fugir ao esforço de aprender,

  • preguiça profissional: fugir ao trabalho

  • preguiça afetiva: fugir da busca afetiva, e do aprofundamento dos afetos existentes.

  • preguiça doméstica; fugir aos deveres e afazeres da casa.

  • ...


Repetimos propositalmente a palavra "fugir". Nós os preguiçosos, estamos em fuga. Atemoriza-nos o esforço.

Alegamos cansaço, falta de energias, mas no fundo a preguiça está intimamente ligada a covardia, ao medo. Medo do risco, medo do desconhecido, medo da responsabilidade.

Seja qual seja o setor em que a preguiça nos aprisionou, é preciso fugir. Isso mesmo fugir, usemos nossa habilidade em fugir do esforço, para fugir da preguiça.

Para bolar o nosso plano de fuga, apoiemo-nos da prece. Benfeitores espirituais nos ajudarão bondosamente nesta fuga. Sejamos sorrateiros, iniciemos por pequenas tarefas: ler um livro, visitar um amigo, arrumar uma cozinha. Oh, agradável surpresa! Ao tentarmos fazer pequenas tarefas, descobriremos que não são tão difíceis assim, e a nossa insegurança começa a se desfazer. Mas prossigamos com perseverança, até escaparmos definitivamente das cadeias da preguiça.

Luxúria: O auto esquecimento pela pratica exagerada dos prazeres do sexo.

Sexo: eis um ponto delicado em todo ser humano. Nesta força básica se apoia o equilíbrio psicológico, e se enraíza o amor.

Na cama, o prazer que o outro nos proporciona, faz-nos esquecer de nós mesmos. Isso é bom, e Deus dispôs as coisas exatamente dessa maneira.

Na luxúria, entretanto, esquecemos a nós e ao outro e mergulhamos numa espécie de masturbação a dois.

O sexo é o alicerce, a intimidade afetiva é a residência confortável agasalhando o lar. O sexo é a tubulação, a afinidade é água cristalina, dessedentando as almas. O sexo é o recurso, o meio, o amor é o objetivo.

Os desequilíbrios do sexo estão tão ligados aos desequilíbrios da alma, que alguns, inadvertidamente, chegaram ao exagero de afirmar que todos os desequilíbrios da alma têm componentes sexuais.

O que devemos almejar, nós que nos desequilibramos no sexo, é a santa virtude da castidade. A castidade não é abstinência, é equilíbrio. A corrente d' gua correndo sem freio leva tudo na enxurrada, represada, estagna, apodrece. Como é agradável ver o regato correndo calmo, no meio de um campo florido.

Nós, os espíritos encarnados e desencarnados na Terra, somos seres sexuados. Homens e mulheres, masculinos e femininos. Havendo apenas a diferença que quando encarnados as atividades sexuais podem gerar novos corpos físicos e também as obras mais diversas, pois homem e mulher formam uma parceria de grandes possibilidades. Desencarnados não temos esta faculdade de geração de corpos físicos, mas apenas de obras espirituais.

Deverei sentir toda mulher, como mulher, ou seja como um ser feminino, com todos os atributos da mulher, da sensibilidade à menstruação, da delicadeza de sentimentos à gestação. Amar implica em compreender o outro com todos os seus atributos. Amar cristãmente as mulheres, não é supô-las assexuadas, é compreender e aceitar todos os atributos, problemas e necessidades impostos pela feminilidade. Amar as mulheres, conscientes de sua condição feminina, não significa desejá-las. O desejo sexual deve ser exclusivo, ser dirigido a uma única mulher. O homem é no fundo de sua alma monogâmico.

Ser um homem casto, não é ignorar a sexualidade da metade do contingente humano, é, sim, estabelecer vínculos com as mulheres que Deus nos permitiu conhecer, nas intimidades tão doces de irmã, de filha, da mãe, elegendo, se Deus permitir, uma única mulher com a qual estabeleçamos vínculos de esposa.

As mesmas colocações expostas acima valem para a mulher casta.

A castidade não é conquista fácil. No plano espiritual, toda ligação poligâmica é incestuosa, porém vagamos no mar humano, muitas vezes à deriva, sem um leme afetivo que nos dirija convenientemente e, com muita frequência, trocamos papeis.

Jesus foi claro: toda vez que você desejar em pensamento uma mulher que não a sua, você praticou o adultério. E nosso pensamento desarvorado muitas vezes constrói as mais tresloucadas hipóteses.

Mas não devemos desanimar. Meditemos continuamente na dignidade do sexo oposto. Aprofundemos os nossos relacionamentos com pessoas do sexo oposto, com as quais estejamos seguros de não cair em deslizes sexuais.

Cultivemos o casamento. Concentremos toda a nossa capacidade erótica no nosso cônjuge. Elevemos o sexo pela troca do sentimento, da solidariedade, do respeito mútuo. Evitemos a infidelidade por todos os meios, seja fugindo de ocasiões evitáveis, seja resistindo em encontros inevitáveis. Apliquemo-nos a considerar na pessoa de sexo oposto, qual o papel mais adequado para ela: irmã, mãe, filha, irmão, pai, filho. Oremos a Maria, mãe de Jesus e nossa Mãe Santíssima, que ela nos auxiliará na evolução em direção à castidade.

Uma palavra de incentivo: todo sonho dourado, todo anseio romântico, todo ideal de vida a dois, encontrarão sua resposta nesta palavra: castidade.

Gula e fumo: São vícios menores. Enquanto como ou fumo, esqueço.

Embora vícios menores, pois sua ação se restringe ao viciado, podem ter uma consequência funesta: o suicídio involuntário. O suicídio é um crime grave. Há no entanto duas situações diversas: o suicídio doloso, onde o infeliz tem a intenção de pôr termo a própria vida, e o culposo, onde, por irresponsabilidade, abreviamos nossos dias.

A nós, gulosos, é difícil resistir a toda sorte de guloseimas e quitutes, que nos perturbam a digestão, debilitam o nosso corpo e arrefecem nossas energias.

A nós, fumantes, depois daquele café bem saboroso e quente, é quase impossível resistir a uma tragada onde devaneamos, tal qual nossa cabeça fosse um círculo de fumaça levado pela brisa.

Um conhecimento útil: em nível sutil, em nível de corpo espiritual, a alimentação corpórea está ligada a alimentação afetiva. A respiração está ligada a expressão.

Brincando um pouco: minha sobrinha arrumou um namorado, abriu o coração, fechou a boca, e perdeu vinte quilos.

Sendo a gula e o fumo vícios menores, superficiais, o apoio psicológico, as várias terapias, o desembaraçamento afetivo e de expressão, muito nos ajudarão a superá-los

Cólera: É o auto esquecimento pela violência. É sairmos de nós buscando o outro, para destruí-lo, e nesse jogo de destruição esquecemos os nossos próprios problemas. Pelo menos é neste sentido em que tomamos aqui a palavra.

O mundo está intoxicado de cólera. Milhões de toneladas de papel são utilizados, para levar aos leitores as emoções da agressão ao próximo. O cinema, a televisão também exploram o vício das almas que se embriagam com a agressão.

Os espetáculos e livros de violência, também a justificam pela vingança, que é associada a justiça.

Inicialmente é proposto um vilão: Qualquer ser, dos reinos mineral, vegetal, ou animal, ou hominal, real ou imaginário, pode ser rapidamente transformado em vilão: animais, que irão desde a útil abelha, até as inocentes e dizimadas baleias; povos, como nações indígenas (muito usadas nos primeiros 70 anos deste século), adversários de sistemas econômicos (capitalistas para os comunistas e comunistas para os capitalistas), seres do mundo espiritual, qualquer coisa enfim, vira um vilão; na mente doentia desses autores, até uma colorida bolha de sabão se transforma num monstro.

Em complemento é criado um herói, que após ter sofrido alguma injustiça por parte do vilão, parte para a vingança, distribuindo socos e pontapés, espetadadelas de arma branca e tiros, quebrando tudo o que encontra pelo caminho, de automóveis a palácios, de ossos a reputações...

Após ter reduzido o vilão a pedaços, há alguns minutos de relativa tranquilidade no espetáculo, que se encerra.

Toda vingança é injusta. Toda vingança é falta de fé e falta de amor. A vingança pressupõe a ausência de Deus. E Deus sendo onipresente, sua ausência é uma acabada mentira.

Mas, Deus nos pôs no mundo para que lutemos dentro de nós e fora de nós. A palavra mundo é antônima de imundo. Mundo significa portanto puro, mais propriamente: purificação.

A vontade de Deus é que sejamos brandos e pacíficos. Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se arrependa e viva. Deus quer nos perdoar, mas exige que perdoemos.

Há muita coisa para ser destruída na terra: ignorância, miséria, preconceito, hipocrisia. A isso devem ser dirigidas nossas melhores possibilidades de luta.

Esfacelar corpos, torturar moralmente, destruir edificações e objetos ainda úteis, agredir animais e fenômenos atmosféricos, mesmo que seja, apenas na imaginação, auxiliada pelo filme tolo, só fará agravar problemas e testemunhar inércia e acomodação.

Ainda aqui a prece. Um recurso que uso e que pode ser útil a quem me lê, é o seguinte: quando sinto a cólera chegando e um véu vermelho descendo sobre meus olhos, procuro um copo d' gua, faço uma prece, e peço o socorro da misericórdia divina. Tenho sido atendido. Aquele copinho de  água, tão humilde e casta, como diria São Francisco de Assis, enriquecido pelos fluidos do céu, amortece meu lado ainda animalesco e consigo comportar-me como um ser humano.

A cólera é dita um vício secundário, porque nasce ou do orgulho ferido, ou da vaidade não atendida, ou da inveja sufocada, ou seja é um vício que é consequência de outro. Mas a cólera renega sua origem e rapidamente põe o manto da justiça, deixando para fora as mãos de lama. Ser capaz de tirar rapidamente o manto da hipocrisia quando sinto a cólera e admitir com sinceridade, que no caso o que foi ferido foi meu orgulho ou minha vaidade, tem me ajudado a vencer ataques de cólera.

Evidentemente, espíritos trôpegos que somos, devemos fugir de situações provocativas.

Ainda aqui, o re-equilíbrio afetivo pode ser um precioso auxiliar na eliminação da cólera.

Alcoolismo e Toxicomania: É o auto-esquecimento através de substâncias que afetam o sistema nervoso.

Aqui, como em nenhum outro vício, ficam evidenciadas as ligações entre doença e vício moral.

Muito importante o apoio médico. Muito importante o apoio moral. Indispensável a vontade do paciente.

Conheci alguns alcoólatras que se recuperaram.

Lembro-me de um primo, mostrando a parede suja de sangue. Era seu próprio sangue. Numa alucinação alcoólica, ele acreditava esmurrar um inimigo, enquanto esmurrava o próprio rosto. Muitos problemas afetivos. Apaixonara-se por uma artista circense, um filho indesejado estava a caminho, uma rota de fuga rápida para aquela situação foi o  álcool. Ele fugia da situação, mas a situação se apegava cada vez mais a ele. A criança morreu, o choque fê-lo voltar a realidade. O corpo, o bolso, o coração e a consciência estavam cheios de problemas. Mas resolvendo um a um conforme o possível, resignando-se face ao irremediável, re-equilibrou-se. Nunca mais bebeu.

Se quiser você vencerá, mas não poupe recursos nessa guerra, pois é uma guerra cara. Se você conseguir admitir o vício, a primeira metade do caminho foi percorrida.

Ter consciência de que sua vida, sua encarnação presente e sua próxima estada no plano espiritual estão em risco, o auxiliarão a jogar tudo nesta batalha. Isto é mais um terço.

O restante é o apoio médico, espiritual e afetivo que você conseguir. E esta ultima parte é a mais fácil, O apoio ao alcoólatra ou toxicômano que deseja recuperar-se é um dos pontos onde hoje se patenteia a compaixão humana em todas as latitudes.

Jogo: É conseguir o auto esquecimento através da emoção do risco. É talvez o vício mais difundido. Além dos jogos de azar, que são em menor número, há outros tipos de jogos bem mais numerosos: o jogo afetivo, o jogo do poder, o jogo financeiro.

Naturalmente, a busca do afeto e do pão envolvem riscos. O comportamento vicioso aparece quando o mais importante não é mais encontrar o afeto, ganhar o pão, e sim, sentir a emoção do risco de perdê-los ou ganhá-los.

Percebemos que o jogo aparece no afeto, quando mesmo encontrando o parceiro correto, logo nos enfastiamos e vamos em busca da aventura de localizar outro. Muitos adultérios também podem ser entendidos como jogo. Neste caso, o jogo é enganar o parceiro, conseguir traí-lo sem que ele perceba. Toda a emoção e o medo de ser descoberto, a elaboração intelectual de situações que permitam o encontro secreto, tudo isso frequentemente pesa muito mais que algum afeto porventura existente entre os amantes.

Nos negócios, existe uma relação entre lucro e risco. O bom negociante procura um ponto ótimo que lhe favoreça o maior lucro com o menor risco. Se nos negócios, começamos a procurar altas taxas de risco, sem o lucro correspondente, é evidente que estamos jogando e não, negociando.

Se o jogador perde, isso o ajuda a prosseguir no vício, pois a perda alivia os seus sentimentos de culpa, se o jogador ganha isso o leva a prosseguir também, pois a vitória enche a sua cabeça de fantasias.

Jogar, em outra acepção, é lançar fora. Quando jogamos, fazemos isso: jogamos fora tempo, oportunidades, dinheiro, afeto, talvez a própria vida.

Dominar o colega, ganhar uma disputa com um vizinho, tudo isso poderá se transformar em jogo. Conheci um jogador, que por vezes, estando com seus companheiros de vício e não tendo cartas de baralho, apostavam sobre tudo: em qual dos açucareiros uma mosca sentaria primeiro, se a placa do próximo carro a virar a esquina seria par ou ímpar, etc..

Inicialmente, a vigilância para percebermos quando a emoção do risco está se sobrepondo aos objetivos reais. Detectado o problema, mudança imediata de atitude.

Uma segunda linha de combate ao vício do jogo, mais sutil: diminuir em nós a emoção do risco. Se não mais sentirmos emoção no risco o jogo será tão enfadonho, que instintivamente nos afastaremos dele. Mas, como diminuir a emoção causada pelo risco?

  1. Exercermos atividades lúdicas, no sentido que alguns filósofos cristãos atribuem à palavra. Aquelas atividades que fazemos tendo como objetivo elas mesmas. Por exemplo, visitarei minha mãe, apenas pelo prazer de visitá-la, e não porque há algum constrangimento social ou moral, ou algum outro interesse. Se você trabalha pelo prazer de trabalhar, o trabalho será uma atividade lúdica. Na medida em que o trabalho é feito não por prazer, mas por necessidade financeira, o trabalho vai deixando de ser lúdico. As atividades lúdicas alimentam nossa alma de paz, não deixando espaço para a inquietação, matéria prima do vício do jogo.

  2. Centrar nossos interesses no presente, cuidando do dia de hoje, entregando o dia de amanhã a Deus, aliviando expectativas face ao amanhã. Pensa: se Deus veste a um lírio do campo, ou cuida de um pardal, por que devemos ter tanta inquietação?

  3. A doutrina Zen, com a sua afirmação peremptória do presente, pode ser de grande valia àqueles que têm o vício do jogo.

Um item escrito para você, mãe insone, esperando o marido alcoólatra, que chegará fazendo estardalhaço e atormentando seus filhinhos pequenos, que pouco a pouco estão passando a ver o seu marido, não como pai, mas como um estranho atormentado...

Para você que sente um frio na alma, quando se lembra que sua filha vem tomando drogas em festas de embalo...

Para você, homem maduro, que se entristece com o amor sucessivamente maior que seu pai demonstra pelo dinheiro, e cujas justificativas, de deixar bem a família não convencem mais...

A todos vocês que amam o viciado, desejam sua libertação, mas sentem-se impotentes, pois os seus entes queridos não abrem sequer o diálogo, se fecham feito uma ostra quando se toca no assunto, mas por mil indícios, vocês estão percebendo que o plano por onde descem se inclina mais e mais.

Há uma linha de liberdade no ser humano que não pode ser rompida. Cada um é senhor da própria vida e do próprio destino.

Todavia, no universo há um ser que é criador, mantenedor, e senhor de todas as vidas e de todos os destinos. Este ser, que é Deus, estabeleceu a lei do progresso espiritual, do aperfeiçoamento moral e da felicidade para todas as suas criaturas.

Recorram a Ele, que nenhuma prece Ele deixa sem resposta, e pelos mecanismos da prece, Ele os intuirá quanto à melhor atitude, e lhes dará forças necessárias para fazer tudo o que for conveniente.

Como não existe moléstia interminável, também não existe vício interminável. Se a prece não interrompe o vício de pronto, certamente diminuirá a sua duração. Somos seres eternos, temos no tempo nossa força, mas por isso mesmo somos obrigados a valorizá-lo. Um mês que se ganhe na diminuição do processo enfermiço já é grande ganho.

Lembre-se, também que acima das suas responsabilidades relativas e precariamente atendidas, paira a infinita e perfeita responsabilidade de Deus.

Moral da História.

  • O vício se combate com a virtude.

  • Os vícios são inimigos que venceremos. Fatalmente.

Tristeza

Você que nesta hora está triste, examine sua tristeza.

Se sua tristeza tem uma origem objetiva que você identifica prontamente, como por exemplo, itens mencionados neste livrinho: enfermidades, problemas morais, afetivos, etc.., você deve ser consolado com carinho e doçura.

Mas se você sofre, por ser triste. Se o motivo dessa tristeza é um tanto obscuro. Se vem aquela amargura subindo do coração, e por mais que busque, não acha qual a fonte que está enchendo de fel o cálice de sua vida, perdoe-me, mas a prudência exige que eu trate você com energia.

Este livrinho não tem propósitos proselitistas, não buscamos adeptos para esta ou aquela corrente de pensamento. É melhor que a maneira de pensar de cada um seja o fruto do próprio amadurecimento, e não da persuasão de algum líder de seita.

Primeiro alerta enérgico para as tristezas sem causa definida:

Atenção! Espíritos desencarnados, amargurados com seus fracassos na ultima encarnação, podem estar derramando, em processos obsessivos velados, sua melancolia sobre você.

Nesse caso, não identificamos a causa da tristeza, porque a causa não está em nós e sim, nos espíritos sofredores. Devemo-nos valer da terapêutica desobsessiva, e nos libertarmos dessa melancolia que a nada aproveita.

Terapêutica desobsessiva: reforma íntima, prece, higiene mental, passes, reuniões de desobsessão realizadas em grupos espíritas confiáveis.

Posta de lado essa tristeza semeada em nós pelos espíritos sofredores, vamos agora refletir sobre a tristeza própria, apoiando-nos em ideias de São Francisco de Sales.

Há a boa e a má tristeza.
A tristeza que vem de Deus, diz São Paulo, opera a penitência para a salvação; e a tristeza do mundo opera a morte. A tristeza pode pois ser boa ou má segundo os efeitos que nos pode causar. É verdade que produz mais maus efeitos do que bons, porque só há dois efeitos bons a misericórdia e a penitência, ao passo que há seis maus: a angústia, a preguiça, a indignação, a inveja, o ciúme e a impaciência. É por isso que diz o sábio que a tristeza mata muitas pessoas e que nada ganhamos com ela, porque se há dois bons regatos que provem da fonte da tristeza, há seis maus.
A boa tristeza reflete assim: Eu sou uma criatura miserável, vil e abjeta e portanto Deus exercerá em mim a sua misericórdia
A má tristeza reflete assim: Deus é severo e injusto comigo, pois os outros são mais felizes que eu. Esse pensamento vem de um secreto orgulho, que os convence que ninguém deveria ser mais perfeito do que eles.
A má tristeza perde o coração e o adormece, torna-o inútil, fazendo-o abandonar as boas obras. A boa tristeza dá força e coragem, não deixa, não abandona uma boa resolução; foi essa a tristeza de Nosso Senhor, que apesar de tão grande e a maior que existiu, não lhe impediu a oração e o cuidado de seus apóstolos. E Nossa Senhora tendo perdido seu filho, ficou muito triste; mas não deixou de procurá-lo apressadamente, como também fez Madalena, sem ficar a lamentar-se e a chorar inutilmente.

Ontem, conversava com alguns espíritos em sofrimento através de médiuns amigos. Os médiuns passavam por dificuldades para transmitir os pensamentos dos espíritos perturbados, os espíritos tinham dificuldades para compreender onde estavam, no meio dessas dificuldades estava a minha dificuldade em ajudar moralmente aos outros. Felizmente, eu tive uma boa tristeza, e a expressei numa prece:

- Mãe Santíssima, eu sou um verme, valho muito pouco, mas eu sei que a Senhora existe, e sei que seus ouvidos sensíveis e onipresentes ouvem até os vermes mudos. Ajuda esses médiuns que se esforçam, embora suas limitações, para fazer o bem. Ajuda a esses espíritos atormentados. Sei que fizeram muitas coisas erradas, mas pelo menos eles conseguiram chegar até aqui e há um anseio de felicidade nos seus corações.

Nesta tristeza ouve misericórdia com aqueles que me cercavam, e houve um sincero arrependimento por eu ser como sou.

Ontem também tive várias más tristezas: tristeza por não me darem mais atenção; tristeza por não me terem mais consideração; tristeza por aborrecerem meu repouso; tristeza porque as outras pessoas não são como eu quero que sejam. Em todas essas tristezas estiveram presentes o orgulho e o egoísmo, encapuzados pela auto-estima, e pelo fazer-me de vítima.

Segundo alerta para as tristezas com causas obscuras:

Caim é o grande exemplo da má tristeza, como nos narra a bíblia:

Havia dois irmãos, filhos de Adão: Caim, o mais velho, era agricultor, Abel o mais jovem, era pastor. As ofertas que Abel fazia a Deus eram aceitas, as de Caim, não. Caim encheu-se de inveja e de ciúmes, ficou com um semblante descaído, como se dizia antigamente.

Deus manifestou-se a Caim, dizendo que suas ofertas não eram aceitas porque o "pecado jazia a sua porta". Que se ele praticasse o bem, suas ofertas seriam aceitas.

Ao invés de emendar-se, Caim, mais despeitado ainda e, estando a sós com Abel, matou-o.

Deus perguntou a Caim:

- Onde está Abel o seu irmão.

Caim, hipócrita, respondeu:

- Sou eu guarda do meu irmão?

Deus o repreendeu:

- O sangue do teu irmão grita por Mim.

Caim, orgulhoso do seu crime:

- A minha maldade é maior que a Sua misericórdia.

O egoísmo de Caim prosseguiu:

- Não mais trabalharei, viverei como um vagabundo e fugirei das pessoas, pois todas quererão matar-me.

Se encontrássemos Caim, com seu semblante tristonho, sua aparência de vítima, sua invencível tristeza, e o ouvíssemos, que quadro teríamos:

O devoto que orava a Deus e foi injustiçado nas suas preces.

O inocente que foi responsabilizado pelo assassinato do próprio irmão, simplesmente por não servir-lhe de guarda.

O pobre homem que, num momento de loucura, cometeu uma falta, e não pode obter perdão de Deus.

A personagem de uma tragédia que não mais teve condições de trabalho.

A vítima indefesa que todos queriam assassinar.

Mas, conhecendo toda a história e analisando-a, quanta maldade encontramos sob a capa da má tristeza.

O hipócrita, cheio de erros que, por serem tantos, não cabiam na sua casa e "jaziam a sua porta", encobrindo seus crimes com uma falsa devoção a Deus.

O invejoso, que disfarça seus ciúmes do irmão, acusando Deus de injusto.

O malvado, que mata o próprio irmão, usando o isolamento da intimidade para livrar-se de testemunhas.

O criminoso, que oculta o crime, invertendo a situação, dizendo que não tinha obrigação de guardar o irmão.

O orgulhoso, que acha o seu crime maior que a misericórdia de Deus, escondendo o orgulho numa atitude falsa de auto-condenação extremada.

O preguiçoso, que decide não mais trabalhar, pretextando a tragédia familiar que ele mesmo provocara.

O assassino irresponsável, transferindo à sociedade os seus pendores homicidas, afirmando que todos tentarão matá-lo.

Toda vez que, num esforço de conscientização, acharmos em nós uma melancolia aparentada com a melancolia de Caim, fora com ela! Fronte elevada ao céu, um sorriso bonito afivelado ao semblante, mãos ocupados no trabalho, responsabilidade moral, solidariedade, fé em Deus.

Se de outro lado, o sorriso nos foge, num momento de seriedade, conscientes do nosso desvalor e grandeza do poder de Deus, vivamos com dignidade esse momento, porém não o prolonguemos muito, que a virtude está na alegria.

Moral da História:

  • Mesmo a tristeza justificada não merece mais que alguns momentos.

  • Tristeza não paga dividas materiais ou morais.

Tédio

Algumas linhas de raciocínio expostas para a tristeza se aplicam ao tédio:

Por vezes o tédio deriva de uma vida vazia. Neste caso elimine o tédio o mais rapidamente possível, enchendo de amor o vazio de sua vida.

O uso de viagens, vida social intensa, clubes de entretenimento para encher a vida são inócuos. Pelo seu caráter superficial, são adequados para estabelecerem alguns vazios necessários numa vida ocupada. Se a vida está vazia, providências desse tipo só a tornarão mais vazia.

Há muitos carentes de amor: crianças órfãs de pais vivos, velhinhos estéreis de filhos vivos, mães abandonadas, doentes, ... Auxiliando todos esses carentes de amor, suas carências serão supridas, sua vida se encherá do colorido de tantas outras vidas.

Um reparo. O auxílio que vem de cima para baixo, a doação embalada na esmola, o orgulho que vende o favor exigindo paga imediata em submissão e gratidão, o preconceito social que traça divisões entre os que tem (classe alta) e os que não tem (classe baixa)... Nenhuma dessas atitudes tem algo a ver com o amor exemplificado por Jesus.

Não nos esqueçamos de que a prática da autêntica beneficência, é uma das fontes de felicidade aqui na terra.

Há um tédio real, que surge em algumas vidas como autêntica expiação. Pais de família que são forçados a trabalhar em atividades repetitivas, totalmente em desacordo com o seu perfil psicológico...

Certa feita, conheci um homem muito culto, inteligente e criativo. O único emprego que conseguiu foi o de revisor de jornal. O pior: revisava os anúncios classificados. A atividade judiava muito dele, pois o sono, o tédio, tudo levava a desviar sua atenção da leitura daqueles anúncios, mas ele tinha que se manter atento, para não deixar escapar erros e não vir a perder o "bico". Aquilo era um verdadeiro suplício psicológico, repetindo-se noite após noite.

O trato de doentes em família também pode ser muito tedioso.

Vera, há 14 anos, não ia ao cinema ou qualquer outro tipo de diversão. Adotara Lúcia, um bebê que tinha problemas cerebrais e ósseos, muito graves. Vera sabia disso mas movida por um forte impulso interior adotara Lúcia e se justificava assim: "Se todos quisessem apenas os perfeitos, a quem Deus confiaria os doentinhos?".

A sua condição financeiras permitia que pagasse apenas uma enfermeira que tratasse de Lúcia, no horário comercial. Esse horário Vera aproveitava para suas atividades profissionais. Como Lúcia exigisse dedicação constante, o restante das horas de Vera era para a sua filhinha adotiva.

Quando a visitei, Vera estava exultante, porque após 14 anos, Lúcia aprendera a dar beijinhos. Uns beijinhos um tanto descoordenados, cheios de saliva (eu também ganhei um), mas que, para a mãe extremosa, valiam mais que um diploma universitário.

Embora todo esse amor, era dura a vida de Vera: uma monotonia aliada a uma disciplina férrea de horários e tarefas. Tudo isso se estendendo por 14 anos, dia após dia, mês após mês, ano após ano, e sem perspectivas de solução, a não ser pela morte de Lúcia, pois creio que se Vera fosse libertada pela morte, o amor extremo a Lúcia a manteria fiel a sua filhinha querida.

E o que eu direi a esses heróis, que por amor ou necessidade enfrentam, anos a fio, tarefas tão tediosas?

Anotarei aqui uma história vivida por Selena:

Não sei o nome dele. É um negro forte, apesar dos anos vividos, cativos, no serviço escravo. Mantém o corpo ereto, tendo sobre os ombros um pedaço de pau, onde amarra poucas e pobres vestimentas.

Caminha em direção à mata cerrada, busca um lugar para morar.

Após muito caminhar, detém-se num riacho.

Ele olha o riacho, onde as  águas cristalinas correm soltas sobre as pedras, transparecendo liberdade.

A seguir, seu olhar dirige-se para as suas mãos, grossas como cascas de  árvores, ele mal pode flexionar os dedos.

Relembra seus dias de trabalho duro: a rotina dura de todos os dias; o cama dura abandonada antes do sol raiar; o chicote duro para superar o cansaço; a alimentação parca; a plantação de cana de açúcar...

A cana de açúcar era doce. Doce no sabor e nos muitos contos de reis que trazia para o seu senhor. Para ele, que não recebia nenhum real, era  áspera, cheia de farpas, enchendo de crostas suas mãos.

Os dias eram sempre iguais. Percebia que era domingo pela obrigação de assistir à missa, e rezar a um Deus que se era pai, era pai apenas dos brancos.

No seu interior havia um entendimento, ele tinha que ser resignado, não devia revoltar-se, um dia tudo aquilo terminaria.

A resignação, aliada ao trabalho perseverante acabaram conquistando a simpatia do seu senhor, que finalmente lhe dera a carta de alforria.


Volta ao riacho que serpenteia pela mata cerrada.

Com as mãos unidas em concha apanha um pouco d'água que vai vazando pelos dedos. Bebe alguns goles e joga o resto no rosto. Mistura  água às lágrimas com que chora.

Sente na  água o gosto da liberdade.

A encarnação passada brota em quadros de seu inconsciente.

Nobre na corte francesa. A posição lhe possibilitava trabalho importante no bem estar dos pobres, mas o fausto, as festas, a vida dissoluta, o ócio dourado, consumiram-lhe o tempo.

De outro lado, o orgulho do nascimento e da posição o levavam a desprezar os pobres, tidos como seus inferiores.

A sua falta de consideração causou inúmeros sofrimentos a muitas famílias, em completa contraposição ao seu encargo, que era justamente de minorar suas dores.

A resignação nascera dessas lembranças, guardadas no seu inconsciente, mas que norteavam sua consciência, no acatamento da justiça divina.

Vendo aqueles quadros que não saberia explicar, ele compreende haver se libertado do pior de todos os senhores: o orgulho.

Seu corpo e seu espírito se vergaram no trabalho  árduo e humilhante, libertando-o de um passado sombrio.

Essa foi a visão acompanhada pela psicofonia, que Selena, médium, transmitiu no pequeno grupo espírita, que funcionava na cozinha do pequeno sobrado.

A lição de vida que o preto velho transmitira fez com que Selena chorasse e também emocionou os presentes à singela reunião.

Compreenderam que aquele espírito estava ali, dando prosseguimento a tarefa que deixara de cumprir na corte francesa, e os encarnados de agora eram os pobres que ele não auxiliara.

Moral da História:

  • Encha de amor o vazio de sua alma.

  • A pior monotonia é a do erro repetido.

1Dracma = moeda de prata no valor de seis “óbolos”

2Candeia = equipamento de iluminação feito de um recipiente de barro cheio de óleo com uma mecha

3Alfarroba = fruta da alfarrobeira,

4Onça = aproximadamente 28 gramas

5Libra = 453 gramas

Comments