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Filosofia da Dor

É fascinante filosofar sobre a dor. É mais importante bem sofrer e consolar.

A filosofia da dor é um campo vasto, ainda inexplorado.

Lamento que a filosofia, neste século, exceção feita à lógica, continue sendo tão maltratada.

A filosofia, na noite dos mil anos1, foi aprisionada na sacristia. Libertada, na renascença, tiraram-lhe Deus. Sem Deus, vagou por sistemas nocivos, a serviço do pessimismo, da negação. Alguns tentaram subordiná-la as relações comerciais. Em outros termos, a prostituíram.

Acho que muito da desorientação individual vem desse descaso face a filosofia, mãe das ciências. Suas filhas órfãs, funcionárias de academias e universidades, que muita vez nada têm de universais, produzem algumas leis naturais e caminhões de tecnologia, que se distribui de forma tão equitativa entre malefícios e benefícios, que ao final o ganho em felicidade real para a humanidade é baixo.

Embora esse amor grande pela filosofia, este livrinho tem que ser prático, dirigido a atitudes e situações concretas.

Para satisfazer essas necessidades opostas, resolvemos abrir este capítulo, abordando quatro questões da filosofia da dor, que ofereçam um pequeno embasamento teórico e sirvam de estímulo a você.

Moral da História

  • De filósofos, todos temos um pouco.

  • A filosofia está subordinada à vida.

A função da dor

Eu tenho um carinho muito especial por Cruz e Souza.

Cruz e Souza foi um poeta brasileiro que sofreu muito.

Nascido negro na época da escravatura, foi adotado por pais brancos que lhe deram muito carinho e educação esmerada.

Inteligente e sensível, a morte dos pais adotivos o devolveria à condição plena de negro, lançado no mar de tormentos, que foi a escravatura no Brasil. Amando enternecidamente a esposa, viu-a enlouquecer, assistiu à morte dos filhinhos.

Aos 37 anos em 1898, morreria, sendo seu corpo conduzido num vagão de gado até o Rio de Janeiro, onde seria sepultado.

Olhando sua vida vemos um rosário de dores.

Creio que ele pediu uma encarnação tão sofrida para também poder compreender melhor o sofrimento.

Cruz e Souza em muitos sonetos expôs a função da dor com grande beleza e sentimento. Eis um deles:

Sofre

Toda dor que na vida padeceres,

Todo o fel que tragares, todo pranto,

Ser-te-ão como trevas e, entretanto,

Serás pobre de luz se não sofreres.


É que dos sofrimentos nasce o canto

De alegria dos mundos e dos seres,

Pois que a dor é a saúde dos prazeres,

O hino da luz, misterioso e santo.


Doma o teu coração, e, no silêncio,

Foge à revolta, humilha-o, dobra-o, vence-o,

Chorando a mesma dor que o mundo chora;


Abre a tua consciência para as luzes

E, no mundo que o mal encheu de cruzes,

Do Bem encontrarás a eterna aurora.


Ouvindo-o, nossas almas recebem eflúvios de paz, e me sinto como essas aves migratórias, que descansam por algum tempo num lago, matam a sede, e novamente alçam voo, voando sempre, porque o instinto determina a busca do sol e da luz.

Os espíritos, a semelhança das pedras preciosas, para brilharem necessitam ser lapidados.

A lapidação dos espíritos é feita por 3 artesãos: pela dor, pelo trabalho e pelo amor.

Devido a nossas imperfeições, os artesãos trabalho e amor vão deixando muitas arestas para trás, sem lapidar, cabe então à dor completar o trabalho.

Deus quer que sejamos ricos de luz. "Sede Perfeitos", disse Jesus. Aceitemos sem revolta o trabalho complementar desta artesã, a dor, que faz, contra a nossa vontade, aquilo que não conseguimos fazer pelo esforço do coração e das mãos.

Cada um pois tome a sua cruz e siga a Jesus. Como essas aves migratórias que vão de um hemisfério a outro, voando sempre, porque o instinto determina a busca do sol e da luz.

Moral da História

  • Há quem guarde as gotas do teu pranto

No tesouro sublime e sacrossanto

Dos arcanos de luz da Divindade (Cruz e Souza)

  • O Céu é a pátria eterna dos vencidos

Onde aportam ditosos, redimidos,

Como heróis dos prantos e das dores (Cruz e Souza)

A qualidade da dor

A dor varia ao infinito: cada ser humano é uma história diferente e uma dor diferente. No entanto somos todos iguais perante ela. O mesmo pranto, o mesmo fel. Não há privilegiados. No correr das vidas sucessivas, todos temos que beber do seu cálice amargo.



A dor poderá ser própria ou alheia conforme tenha sua origem em nós ou naqueles que nos cercam.

As dores que nascem nos entes queridos podem doer mais do que as nossas próprias dores. É de ver-se como os pais se debatem com os sofrimentos dos filhos, fossem deles esses sofrimentos, seriam suportados mais facilmente.

A dor poderá ser desta vida ou de vidas passadas conforme a antiguidade de suas causas.

Se as causas estão nesta vida, como acontece com a maioria das dores, estará em nós eliminá-las.

Se a causa deriva de delitos cometidos em encarnações passadas, há que resgatá-los pelo amor, pelo trabalho e também pela resignação em sofrer suas consequências enquanto não são resgatados.

A dor poderá ser provocada, num sentido imediato, por:

  • nós mesmos,

  • inimigos encarnados,

  • inimigos desencarnados.

Quando nós mesmos somos nossos algozes, a auto educação é que deverá nos conduzir a uma conduta mais sensata, eliminando o sofrimento.

Quando são nossos inimigos encarnados que a provocam, a situação é mais complexa: precisaremos da terapia do perdão e da universalização da nossa capacidade de amar para desembaraçarmos essas teias de ódio, que fomos tecendo em vidas passadas ou nessa própria vida.

Se há a intervenção de inimigos desencarnados, provavelmente nos enredamos nas complexas tramas da obsessão, que exigirão de nós, o máximo de boa vontade para a necessária libertação, sempre auxiliada por benfeitores encarnados ou desencarnados.

A dor poderá ser física ou moral, conforme seja atingido inicialmente nosso corpo físico ou nosso espírito.

Toda a dor física terá repercussões na nossa individualidade moral, da mesma forma, toda dor moral terá repercussões no corpo físico. As dores morais trazem no geral mais sofrimento que as dores físicas. Entre as dores morais, as mais doloridas são aquelas que atingem nosso coração, nossa estrutura afetiva.

Uma fonte importante de dores são as enfermidades.

Por vezes as doenças, ao trazerem desarmonias no corpo físico, nos auxiliam a harmonizarmos nossa alma.

Há enfermidades que, se não doem fisicamente, trazem impedimentos muito dolorosos, como por exemplo, a paralisia que impede o caminhar, ou a cegueira, que impede a visão, ou as doenças mentais, que nos impedem pensar com clareza.

As necessidades não satisfeitas doem: a sede, a fome, a impossibilidade do sono, do afeto, da luz, da liberdade, ...

Há dores-evolução. Dói progredir, inventar, crescer, descobrir, conhecer-se, ...

Há dores-purificação. O crime foi cometido, o espírito está impuro, a dor, como que, o lava.

Há dores-alerta. Dói por a mão no fogo, para nos livrar de queimaduras.

Há muitas outras dores ainda.

Tantas dores, tantos amores

Havendo tantas dores

há também amores,

vários e infindos

e, portanto,

todo pranto,

será estancado.


Tantos

sofrem tanto

e, no entanto

a alegria,

branca, leve,

doce, harmonia,

será rainha.


Acima

do tormento,

do sofrimento,

vejo a luz

de Deus.



Transportando a humanidade

o veiculo da caridade

vai pela estrada da esperança.

Nos seus sacolejos os homens:

Se empurram,

Se pisam,

Se ajudam,

Se levantam.


Ora lentos,

ora rápidos,

os raios das rodas

do veículo da caridade

são raios de sol,

não param,

giram e giram,

como os grandes

relógios astronômicos,

que marcam o tempo

no universo sem fim.


Ai de mim!

Digo hoje.

Feliz de mim!

Direi amanhã,

pois o meu Deus,

o Deus que ganhei

do meu Pastor,

do meu Mestre,

do meu Senhor,

o Deus,

que Jesus me deu

É bom.


Moral da História

  • A dor tem muitas faces para que a alma tenha muitas luzes.

  • A diversidade dos sofrimentos nos reúne numa única família.

A Quantidade Da Dor

Você acha que sofre muito, alma querida, que sua dor é enorme?

Vou apresentar-lhe dois amigos, que talvez o auxiliem a medir melhor a própria dor: Encio e José

Encio Gaitinha, apelido devido ao instrumento que tocava na mocidade, 50 anos, era leproso, vivia num leprosário nas imediações de São Paulo. A lepra havia levado alguns de seus dedos. Sua esposa também era leprosa, e a lepra a havia deixado cega. Encio trabalhava como eletricista, no próprio leprosário. A sua casa era muito arrumada e limpa. Para escrever valia-se de uma velha máquina, onde ia pressionando o teclado com seus restos de mãos, envoltos em panos. Sempre bem humorado, sempre alegre, sempre falando em Jesus.

José, 30 anos, alto, forte bonito, situação econômica definida pelos imóveis que herdara. A mãe o amava muito, e várias mulheres disputavam sua companhia. Tristonho, problemático, desencontrado.

José procurava frequentemente o Encio, em busca de auxílio. E Encio bondosamente o consolava e o encorajava.

Do ponto de vista objetivo os sofrimentos de Encio eram muito maiores que os sofrimentos de José, alias do ponto de vista objetivo, era difícil identificar focos de dor em José. Tudo para José era fácil, ameno. Para Encio tudo era difícil, contundente. Do ponto de vista da saúde, não havia o que comparar. Do ponto de vista social, Encio era um segregado, para a maioria de seus familiares ele havia "morrido", tais os preconceitos da época. Financeiramente, mal e mal Encio ganhava para a alimentação, enquanto para José, mesmo esbanjando um pouco, e não ganhando nada, o provável é que jamais enfrentasse problemas financeiros.

No entanto, do ponto de vista subjetivo, José vivendo José, e Encio vivendo Encio, José sofria muito mais que Encio. Por que?

José vivia fechado em si mesmo Para José, José era o ser mais importante do mundo. José tentava crescer aos próprios olhos, cheio de orgulho, vaidade, egocentrismo, ao mesmo tempo apequenava a importância da vida.

O egoísmo de José tinha duas consequências opostas: atribuindo importância exagerada aos seus próprios problemas, fazia com que eles crescessem; atribuindo-se valor exagerado, José diminuía como ser humano.

Ao aumentar seus problemas e diminuir a si próprio, José tornara seus problemas insuportáveis.

De outro lado, Encio, ao voltar-se para fora, tendo que resolver, de forma objetiva, situações difíceis que se apresentavam, ao apequenar-se face a vida, procurando trilhar o caminho da humildade, crescera e crescera muito, e os seus problemas tornaram-se muito menores do que ele próprio.

Moral da História:

  • Ser egoísta na dor é multiplicar por mil nossas dores.

  • Sair de si mesmo na dor, é vencê-la.

A Resignação

A virtude básica para bem sofrer e consolar é a resignação. Ela é o alicerce sobre o qual serão edificadas as demais virtudes, as gemas preciosas no sofrimento, que são a paciência, a esperança, a fé ...

Por vezes dá-se uma conotação pejorativa à resignação, atribuindo-lhe o sentido de acomodação, inércia, covardia.

Lázaro, numa mensagem dada em Paris, entretanto, define a resignação de forma precisa, devolvendo-lhe toda a grandeza espiritual: resignação é o consentimento do coração.

Na vida, do ponto de vista exterior, movidos pelo interesse, pelo medo, pela cobiça, pelo orgulho, podemos aceitar uma série de coisas. Mas dentro de nós, no fundo de nosso coração, essas mesmas coisas não foram aceitas. O coração não deu a sua aprovação. Porém, sem forças para lutar, calamos nossas emoções, desconsideramos nossos sentimentos, e prosseguimos nossa vida, como se tudo estivesse bem. Mas a nossa estrutura sentimental não irá digerir esses "sapos" e mais cedo ou mais tarde, surgirão os inevitáveis problemas psicológicos da revolta, da fuga, do mal estar aparentemente sem causa. É forçoso notar que neste caso, acovardados, tentando nos justificar, nos aplicaremos à qualidade de resignados, em completa oposição ao seu sentido original.

Ser resignado, todavia, é pôr as razões do sentimento acima do interesse e do medo, buscando o consentimento do coração, através de um correto posicionamento na vida. Exemplifico:

Antônio Carlos, desde criança, teve muitos problemas de relacionamento com sua mãe viúva, Claudia. Em todas as sua atitudes Claudia espezinhava Antônio Carlos.

Aos catorze de idade, Antônio Carlos saiu de casa, e foi morar com Rogério, um homem bom que terminou de criá-lo.

Antônio Carlos, dotado de tino comercial, jovem ainda, se viu bem na vida. Sua primeira preocupação localizar a mãe e comprar uma casinha que a abrigasse. A mãe revoltada aceitou, porém não permitia que Antônio Carlos entrasse na casa, destruía documentos relativos à casa, pois sabia que isso traria transtornos a Antônio Carlos.

Antônio, de outro lado, perdoava a mãe e, movido pelo dever filial, continuava resignadamente a auxiliá-la.

O coração de Antonio Carlos, valorizando sobremaneira o dever filial consentia em suportar as agressões maternas, que eram acolhidas com gestos de perdão e compaixão, ou seja, a resignação tendo em vista bens maiores, não se importa em sofrer dores momentaneamente inevitáveis.

Um dia, quando esta vida terminar tanto para Antônio Carlos, quanto para a sua mãe, Antonio Carlos descobrirá que as agressões da sua mãe foram manifestações da justiça de Deus por faltas anteriores, e que sua resignação ao recebê-las em clima de perdão foi a manifestação da misericórdia de Deus tanto para com ele quanto para com a sua mãe.

Deus foi misericordioso com Antônio Carlos ao permitir que através desses incômodos menores subisse mais alto no bem inestimável do amor puro.

Deus foi misericordioso com Claudia, a mãe, que não teve seus sofrimentos ampliados pelo revide ou indiferença do filho.

Jesus, mestre divino, deixou o perfeito exemplo de resignação:

No horto, antes dos sofrimentos da paixão, orava assim: "Meu pai, se é possível, afasta de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres."

Se, cheio de poder, Jesus poderia evitar a paixão, por que seu coração consentia naqueles sofrimentos que estavam por vir?

Porque seu coração amava a vontade de nosso Pai que está nos céus, e a vontade de nosso Pai era que, embora Jesus não necessitasse sofrer, era preciso que Jesus ensinasse, com exemplos, os homens a sofrerem. E a vontade de Deus, que é toda amor, se refletia cristalina no seu coração amoroso.

Seu coração não consentia a fuga, nem a violência, nem a tergiversação face a seus princípios. Seu coração consentia apenas o ensino amoroso.

E ele atravessou o mar tormentoso da paixão, como uma brisa suave, ensinando a suavidade e o perfume, a brandura e a misericórdia e fixou no nosso coração palavras como: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem ...", e gestos como: "morreu de pé e com os braços abertos a toda humanidade".

Pelo bem maior que é a redenção eterna da humanidade, Nosso Senhor sofreu por alguns dias, toda a perversidade humana, expressa através dos poderes constituídos e do povo de Jerusalém.

Complementando a lição do Calvário, Jesus nos deu a lição da ressurreição. Pois a verdadeira resignação é consequente, causal. A verdadeira resignação, como a da paixão, provoca por fim a alegria, a paz, a glória expressa na sua contra partida: a ressurreição.

Em termos evangélicos: "Bem aventurados os que choram pois que serão consolados". O pranto resignado tem como consequência o consolo divino. É como se as mãos de Deus enxugassem as lágrimas daquele que as verteu por amor a Deus e aos homens.

Minha boca e meus pensamentos são tão grosseiros para descrever a suavidade das mãos de Deus... Terão certamente a luz e a leveza de um arco-íris, serão tépidas como o mais doce dos afagos maternos, tão delicada será a química divina ao transformar os fluidos de dor em fluidos de alegria, paz e glória.

Moral da História

  • O coração tem que consentir em dores menores se almeja felicidades maiores.

  • A base da resignação é a compaixão ativa, e não a acomodação passiva.

O problema da dor

A dor pode ser encarada como um problema?

Mas o que é um problema?

Formulamos algumas premissas e algumas questões, que julgamos estarem relacionadas. A seguir buscamos a solução do problema, ou seja a resposta às questões que formulamos.

Nisso tudo há uma sutileza de raciocínio que muitas vezes nos escapa. É a questão da autoria do problema. Somos sempre, obviamente, os autores de nossos problemas, a vida determina necessidades, circunstâncias, fenômenos. Porém a construção lógica dos problemas cabe a cada um de nós. Exemplifico:

Joaquim morava na roça. De sua casa saia um trilhozinho que ia até uma nascente. No meio do trilhozinho havia um tronco de  árvore caído. Todos os dias pela manhã, Joaquim ia pelo trilhozinho com um balde, pulava o tronco, lavava o rosto e escovava os dentes na nascente, enchia o balde, voltava pelo mesmo caminho, pulava o tronco e continuava o seu dia. Certo verão veio Antônio, um primo da cidade. Antônio formulou o seguinte problema.

Premissas: Antônio pulava o tronco duas vezes por dia. Este salto, principalmente com o balde cheio d'água, exigia um esforço físico. A gratidão pela hospitalidade de Joaquim exigia um ato gentil.

Questão: como ser gentil com Antônio?

Solução: remover o tronco do caminho.

Formulado e resolvido o problema, Antonio atirou-se ao trabalho. Por toda uma tarde, debaixo do sol, valendo-se de algumas alavancas, removeu o tronco.

No outro dia pela manhã, ainda meio dormindo, Joaquim ao fazer sua excursão matinal, ao pular o tronco, hábito adquirido através dos anos, caiu, pois o tronco não estava mais lá. Na volta outro tombo, pois Joaquim vinha pensando no que ia fazer durante o dia, e esqueceu a gentileza do primo.

Joaquim esperou pacientemente uma semana, até que o primo partisse, para não magoá-lo, e pôs novamente o tronco no lugar.

No exemplo acima fica claro, que o autor do problema foi Antônio. O problema foi mal formulado: a premissa das dificuldades acarretadas pelo tronco era falsa, não tinha nada a ver com a questão de como expressar seu sentimento de gratidão. A solução também foi péssima.

Gastei estas 30 ou 40 linhas para alertar que a maioria de nós é muito desatenta ao formular problemas. Formulamos muitos problemas desnecessários e pomos nosso raciocínio horas, dias e anos a buscar soluções sem sentido, porque o problema onde estão inseridas está mal formulado.

Sejamos mais atentos, propondo a nós mesmos o menor número possível de problemas. Problemas que nasçam de necessidades reais.

Nestes problemas necessários, apliquemos nosso raciocínio a formulá-los corretamente e resolvê-los da melhor forma. Todavia não adianta achar a solução se a vontade não comparece para pô-la em prática.

Mas voltemos a dor e tentemos identificar quais os seus principais problemas.

Duas questões surgem com frequência em nossas vidas:

  • Como suportar adequadamente os sofrimentos, ou seja, sofrer bem?

  • Como consolar o próximo que sofre?


Há uma terceira questão que parece vir antes das 2 acima:

  • Como eliminar a dor?


A resignação, expressando o bem sofrer, diminui os sofrimentos. O consolo como ato de compaixão, provoca reações na justiça divina, através da lei de causa e efeito, minimizando nossas dores. Porém, a solução definitiva da questão do sofrimento, nós a encontraremos na auto-educação, também chamada reforma íntima. Tenho enorme respeito pela palavra "educação", o sentido de esforço que a expressão "reforma íntima" contém é sobremaneira incentivador, mas prefiro utilizar a expressão "evolução espiritual".

O espírito é alado. As almas devem voar leves e diáfanas. E devem voar para o Céu. Por isso gosto de "evolução espiritual".

Elimine seus vícios, aumente suas virtudes, dilate sua capacidade de amar a Deus e aos homens. Passe a ter créditos junto a justiça divina. Pague seus débitos. E eis você na condição de espírito feliz. Doenças, ódios, desarmonias, angústias, tudo isso pertencerão ao passado.

Para sua auto-educação, você precisa de um bom programa, mais que isso, urge um programa completo e perfeito. Para sua reforma tem necessidade de um projeto detalhado, inteligente, que faça do seu ranchinho um belo palácio. Como voar, sem a segurança da torre, que indique nossa posição e rota?

O Evangelho de Jesus é o programa de ensino, o projeto de construção, a torre de controle. Evangelho significa boa nova. Alegria, alegria, Jesus trouxe o mapa da felicidade.

A evolução espiritual exige o auto-conhecimento. O referencial para traçarmos o nosso perfil espiritual é ainda o evangelho de Jesus. Devemos, com sinceridade, nos examinar face a esse código divino. Santo Agostinho propõe que façamos toda noite, antes de dormir, um exame de nosso dia perante o Evangelho de Jesus. Feito esse exame em clima de prece, vamos propor a nós mesmos pequenas metas para que melhoremos dia a a dia.

A evolução espiritual passa necessariamente pela aquisição de virtudes. As virtudes são inúmeras. Devemos nos esforçar por conhecê-las e praticá-las.

Não há evolução espiritual sem o concurso do tempo. Séculos e séculos são necessários ao crescimento do espírito. Jesus referindo-se a necessidade de muitas vidas para o nosso aperfeiçoamento disse: "Vocês não entrarão no Reino do Céus se não nascerem de novo".

Certa feita um espírito instruiu-me num sonho a respeito da evolução espiritual. Um conceito interessante é o de "área de mudança atual". O espírito evoluí, do ponto de vista relativo, um pouquinho em cada encarnação. Esse pouquinho, que é o objetivo de evolução numa encarnação, é a "área de mudança atual". Normalmente, em termos de virtudes, o espírito tem como objetivo aperfeiçoar no máximo 2 ou 3 virtudes numa dada encarnação. Um exercício interessante é tomarmos uma lista de virtudes e verificarmos qual a virtude que mais nos falta.

Encerrando este item, lembre-se:

  • quanto mais esforço na sua evolução espiritual, menos você necessitará da dor para alcançar a felicidade;

  • dadas as nossas imperfeições haverá necessidade, ainda por alguns séculos, de dores buriladoras;

  • bem sofrer é uma virtude necessária a sua evolução espiritual;

  • saber consolar também é uma virtude necessária a sua evolução espiritual.

Moral da História.

  • É você que define seus problemas.

  • O Evangelho é a solução definitiva ao problema da dor.

1Período que corresponde aproximadamente do ano 500 a 1500

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