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41 O incentivo santo

Aberta a sessão de fraternidade em casa de Pedro, Tadeu clamou, irritado, contra as próprias fraquezas, asseverando perante o Mestre: 
— Como ensinar a verdade se ainda me sinto inclinado à mentira? Com que títulos transmitir o bem, quando ainda me reconheço arraigado ao mal? Como  exaltar a espiritualidade divina, se a animalidade grita mais alto em minha própria natureza? 
O companheiro não formulava semelhantes perguntas por espírito de desespero ou  desânimo, mas sim pela enorme paixão do bem que lhe tomava o  íntimo, a observar pela inflexão de amargura com que sublinhava as palavras. 
Entendendo­-lhe a mágoa, Jesus falou, condescendente: 
—  Um santo aprendiz da Lei, desses que se consagram fielmente à Verdade, chamado  pelo Senhor aos trabalhos da profecia entre os homens, mantinha­-se na profissão de mercador  de remédios, transportando ervas e xaropes curativos, da cidade para os campos, utilizando­-se para isso  de um jumento  caprichoso e inconstante, quando, refletindo sobre os defeitos de que se via portador, passou  a entristecer-­se profundamente. Concluiu que não lhe cabia colaborar  nas revelações do Céu, pelo  estado de impureza íntima, e fez-­se mudo. Atendia às obrigações de protetor dos doentes, mas recusava-­se a instruir as criaturas, na Divina Palavra, não obstante as requisições do povo que já lhe conhecia os dotes de inteligência e inspiração. Sentido, porém, que a Celeste Vontade o constrangia ao  desempenho da tarefa e reparando que os seus conflitos mentais se tornavam cada vez mais esmagadores, certa noite, depois de abundantes lágrimas, suplicou  esclarecimento ao Todo­-Poderoso. Sonhou, então, que um anjo vinha encontrá­-lo  em suas lides de mercador. Viu­-se cavalgando o voluntarioso jumento, vergado ao  peso de preciosa carga, em verdejante caminho, quando o emissário divino o  interpelou, com bondade, em seguida às saudações habituais: 
“— Meu amigo, sabes quantos coices desferiu hoje este animal? 
“— Muitíssimos — respondeu sem vacilação. 
“—  Quantas vezes terá mordido os companheiros de estrebaria? —  prosseguiu o enviado, sorridente — quantas vezes terá insultado o asseio de tua casa e orneado despropositadamente? 
“E porque o  discípulo aturdido não conseguisse responder, de pronto, o anjo considerou: 
“—  Entretanto, ele é um auxiliar precioso e deve ser conservado. Transporta medicamentos que salvam muitos enfermos, distribuindo esperança, saúde e alegria. 
“E fitando os olhos lúcidos no pregador desalentado, rematou: 
“—  Se este jumento, a pretexto de ser rude e imperfeito, se negasse a cooperar contigo, que seria dos enfermos a esperarem confiantes em ti? Volta à missão luminosa que abandonaste, e, se te não é possível, por agora, servir a Nosso  Pai Supremo na condição de um homem purificado, atende aos teus deveres, espalhando reconforto e bom ânimo, na posição do animal valioso e útil. nas bênçãos do serviço, serás mais facilmente encontrado pelos mensageiros de Deus, os quais, reconhecendo-­te a boa­-vontade nas realizações do amor, se compadecerão de ti, amparando­-te a natureza e aprimorando­-a, tanto quanto domesticas e valorizas o  teu rústico, mas prestimoso auxiliar!  
“Nesse instante, o pregador viu­-se novamente no corpo, acordado, e agora feliz em razão da resposta do Alto, que lhe reajustaria a errada conduta”. 
Surgindo o silêncio, o  discípulo agradeceu  ao Mestre com um olhar. E Jesus, transcorridos alguns minutos de manifesta consolação no semblante de todos, concluiu:
— O trabalho no bem é o incentivo santo da perfeição. Através dele, a alma de um criminoso pode emergir para o Céu, à maneira do lírio que desabrocha para a Luz, de raízes ainda presas no charco. 
Em seguida, o Mestre pôs­-se a contemplar as estrelas que faiscavam, dentro  da noite, enquanto Tadeu, comovido, se aproximava, de manso, para beijar-­lhe as mãos com doçura reverente.
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