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44 A lição do essencial

Discorriam os discípulos, entre si, quanto às coisas essenciais ao bem­estar, quando o  Senhor, assumindo a direção dos pensamentos em dissonância, acrescentou: 
— É indispensável que a criatura entenda a própria felicidade para que se não transforme, ao perdê­la, em triste fantasma da lamentação. Longe das verdades mais simples da Natureza, mergulha­se o  homem na onda pesada de fantasiosos artifícios, exterminando o tempo e a vida, através de inquietações desnecessárias. 
E como quem recordava incidente adequado ao assunto, interrompeu­-se por  alguns instantes e retomou a palavra, comentando:
— Ilustre dama romana, em companhia dum filhinho de cinco anos, dirigia­  se da cidade dos Césares para Esmirna, em luxuosa galera de sua pátria. Ao penetrar  na embarcação, fizera­-se acompanhar  de dois escravos, carregados de volumosa bagagem de joias diferentes: colares e camafeus, braceletes e redes de ouro, adornados com pedrarias, revelavam-­lhe a predileção pelos enfeites raros. Todo o  pessoal de serviço inclinou-­se, com respeito, ao vê­la passar, tão  elevada era a expressão do tesouro que trazia para bordo. Tão logo se fez o barco ao mar alto, a distinta senhora converteu-­se no centro das atenções gerais. Nas festas de cordialidade era o objetivo de todos os interesses pelos adornos brilhantes com que se apresentava. A excursão prosseguia tranquila, quando, em certa manhã ensolarada, apareceu  o imprevisto. O choque em traiçoeiro recife abre extensa brecha na galera e as águas a invadem. Longas horas de luta surgem com a expectativa de refazimento; entretanto, um abalo mais forte leva o navio a posição  irremediável e alguns botes descidos são colocados à disposição dos viajantes para os trabalhos de salvamento possível. A ilustre patrícia é chamada à pressa. O comandante calcula a chegada a porto próximo em dois dias de viagem arriscada, na hipótese de ventos favoráveis. A jovem matrona abraça o filhinho, esperançosa e aflita. Dentro em pouco ela atinge o pequeno barco de socorro, sustentando a criança e pequeno  pacote em que os companheiros julgaram trouxesse as joias mais valiosas. Todavia, apresentando o conteúdo aos poucos irmãos de infortúnio  que seguiriam junto dela, exclamou:
 “—  Meu  filho é o que possuo de mais precioso e aqui tenho o que considero de mais útil.
“O insignificante volume continha dois pães e dez figos maduros, com os quais se alimentou a reduzida comunidade de náufragos, durante as horas aflitivas que os separavam da terra firme”. 
O Mestre repousou, por alguns segundos, e acrescentou: 
— A felicidade real não se fundamenta em riquezas transitórias, porque, um dia sempre chega em que o homem é constrangido a separar-­se dos bens exteriores mais queridos ao coração. Os loucos se apegam a terras e moinhos, moedas e honras, vinhos e prazeres, como se nunca devessem acertar contas com a morte. O espírito prudente, porém, não desconhece que todos os patrimônios do mundo  devem ser usados para nosso enriquecimento na virtude e que as bênçãos mais simples da Natureza são as bases de nossa tranquilidade essencial. Procuremos, pois, o Reino de Deus e sua justiça, tomando à Terra o estritamente necessário à manutenção da vida física e todas as alegrias ser-­nos­-ão acrescentadas.
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