Conduta

Como nos conduzir? Que atitude tomar? A moral não é algo teórico, é regra a aplicarmos em todas as circunstâncias de nossa vida. Nos trechos de cartas a seguir Cipriano nos oferece algumas regras de conduta extremamente afinadas com o pensamento cristão.

Não apenas iniciar, sobretudo prosseguir1

Texto de Cipriano

Exortamos vocês, entretanto, por nossa fé comum, pela caridade verdadeira, que está em nosso coração, a terem cuidado.

Vocês, que venceram o inimigo neste primeiro embate, sustentem sua glória com uma coragem firme e perseverante.

Ainda estamos no século;

Ainda sob as armas;

Ainda combatendo por nossas vidas.

É preciso ter cuidado para que este começo seja seguido de progresso, e tão honroso inicio tenha consumação.

É pouco ter sabido adquirir alguma coisa: é mais importante saber conservar o que se adquiriu.

Não é um resultado obtido que salva imediatamente o homem, mas o sucesso final.

O Senhor nos diz com a autoridade de seu ensinamento:

"Eis que és tornado são, não caias mais, para que não te aconteça algo ruim."

Guardem isto, tomando a mesma mensagem para aquele que o confessou:

Eis que és tornado "cristão confesso", não caias mais, para que não te aconteça algo ruim.

Salomão, Saul e muitos outros quando não souberam manter-se nos caminhos do Senhor, não puderam conservar a graça que lhes tinha sido dada.

Como se afastaram dos ensinamentos do Senhor, a graça do Senhor afastou-se deles.

Comentário do Organizador

Não basta iniciar, constância e sobretudo perseverança são ingredientes fundamentais da atividade cristã. O serviço com Jesus não se resume em brilho de um minuto, a semelhança de fogo de artifício mas trabalho do dia a dia, mês após mês, ano após ano, vida após vida.

Como dizia Paulo apóstolo: Aquele que perseverar até o fim será salvo”.

O caminho estreito da honra2

Texto de Cipriano

Devemos perseverar no caminho estreito da honra.

Todos os cristãos devem mostrar-se irrepreensíveis, vivendo a humildade e a tranquilidade dos bons costumes, conforme a voz de Deus, que vela por aqueles que são humildes e pacíficos, tendo fé em seus ensinamentos.

Com mais forte razão a prática dessas virtudes impõe-se aos "cristãos confessos" que, como vocês, tornam-se um exemplo para seus irmãos, estimulando a todos com seu modo de vida.

Na escritura está o Senhor dizendo e advertindo:

"Que vossa luz brilhe diante dos homens, para que vejam que as vossas obras são boas, e seja tornado evidente o vosso Pai que está nos céus."

O apóstolo Paulo disse:

"Brilhem como luminárias no mundo".

Pedro de forma semelhante exortou:

"Como hóspedes e peregrinos, abstei-vos de desejos carnais, que lutam contra a alma, mantendo um bom relacionamento entre os gentios, porque se forem tentados a vos censurar, vendo as vossas boas obras, engrandecerão ao Senhor."

É isto que a maior parte de vocês pratica, para minha grande alegria.

Tornados melhores pela confissão honrada do Senhor, guardam e servem sua glória pelos bons costumes, fazendo tremulamente o melhor.

Comentário do Organizador

Jesus dizia “entrai pela porta estreita que conduz à vida”; a queda muitas vezes se dará não pelo crime espetacular, mas pelo pequeno vício que se repete dia a dia, pela adesão dada ao costume dissoluto, aceito socialmente e legalmente, mas nem por isso menos nocivo.

Vivamos em meio da sociedade, convivendo com ela nos seus acertos e desacertos, mas preservando um coração puro, mesmo que sejamos objeto de ironia e sarcasmo.

Não sejamos promíscuos3

Texto de Cipriano

Há ainda este outro mal, também detestável, que nossa alma gemeu ao dolorosamente saber.

É que entre vocês existem os que sujam, por uma promiscuidade infamante, um corpo que era o templo de Deus e os membros que a confissão do Senhor havia santificado e iluminado novamente.

Não hesitam em partilhar continuamente o leito com mulheres promíscuas.

Mesmo que não tenham na consciência o estupro, é um grande crime escandalizar e dar exemplos perniciosos.

Comentário do Organizador

Ainda o sexo desregrado é causa de muito sofrimento aqui na terra; Se de um lado na vida pública engrandecemos ao Senhor e na vida pessoal, entregamos nosso corpo a atitudes deploráveis, que certamente estabelecerão ligações com as trevas, estamos destruindo em oculto o que construímos as claras.

Como nos instrui o apóstolo Paulo:

“Tenha cada homem sua própria mulher, e cada mulher seu próprio marido”.

Não sejamos orgulhosos4

Texto de Cipriano

Ouço que alguns entre vocês maculam a massa e rebaixam a honra da maioria, por sua conduta destrutiva.

Vocês que amam e conservam a sua honra, vocês devem pessoalmente exortá-los e corrigi-los.

A vergonha para seu nome liga-se às faltas cometidas: porque alguém se apresenta aos outros embriagado ou devasso em sua própria terra, ou ainda, um outro que banido de sua pátria, ao voltar é preso, não por ser cristão, mas por ser nocivo.

Ouço que outros se inflam e se entumecem, quando está escrito:

"Não te ensoberbeças, mas teme. Porque se o Senhor não poupou os ramos naturais, teme que não poupe a ti também."

Nosso Senhor

"deixou-se conduzir como uma ovelha para o matadouro e como um cordeiro que se deixa tosquiar sem balir. Ele não abriu a boca."

"Não sou, disse, contumaz e nada contradigo. Tenho apresentado minhas costas ao chicote e meu rosto 'as bofetadas. Não afasto minha face aos ultrajes e escarros."

Quem portanto, vivendo Nele e para Ele, ousa elevar-se e orgulhar-se, esquecendo os atos que Ele praticou e os preceitos que nos deu de si mesmo e de seus apóstolos?

Porque se o

"servidor não é maior que o Senhor"

aqueles que seguem o Senhor marchem sobre suas pegadas com humildade, calma e silêncio.

Porque:

"o que for rebaixado será elevado".

Disse o Senhor:

"Quem for o menor entre vós, este será grande."

Comentário do Organizador

O orgulho e o egoísmo são nossos principais inimigos; orgulho advindo de boas obras ou elevação moral é contra-senso, pois o orgulho é vício dos mais destrutivos e fonte de rebaixamento moral.

Se estamos no bom caminho, busquemos com toda as nossas forças a humildade.

De outro lado por vezes nos colocamos na posição de vítimas: meu chefe me persegue, meu marido me contraria em tudo, meus filhos não me respeitam, e eu procuro fazer sempre o melhor.

Talvez tenhamos essas oposições não pelas coisas boas que fazemos, mas justamente pelo nosso mau comportamento que teimamos em não reconhecer. Examinemos nossos passos ainda com humildade e nos esforcemos por abandonar o mau caminho, seguindo Jesus.

Sejamos pacíficos5

Texto de Cipriano

Não devem existir entre vocês contendas e rivalidades, porque o Senhor

"nos deixou a sua paz"

e está escrito:

"Amai vosso próximo como a vós mesmos, se ao contrário vos devorais com acusações mútuas, tomai cuidado para que não sejais destruídos uns pelos outros."

Abstenham-se de ultrajes e de injúrias, porque:

"Os que falam injúrias não entrarão no Reino de Deus".

Uma língua que confessou o Cristo deve guardar-se pura e incorruptível, conservando sua honra.

Quem tem palavras de paz, bondade e justiça, segundo os preceitos do Cristo, confessa o Cristo todos os dias.

Comentário do Organizador

Cuidemos de nossa boca, evitemos blasfemar, injuriar, caluniar; quando injuriamos alguém, injuriamos a Deus, pois é Deus que permite que aconteça uma dada situação que nos desagrada. Aceitemos confiantes a justiça divina, lembrando-nos sempre da eficácia do perdão e da oração, ao invés da agressão verbal façamos mentalmente a prece que Jesus nos ensinou:

“perdoai as nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores.”

Se a nossa responsabilidade impõe o dever da negativa, repreensão ou denúncia, façamo-la com moderação e serenidade, sem irritação ou temor, fraternalmente, sabendo que um dia poderemos incidir na mesma falta.

Renúncia6

Texto de Cipriano

Nós renunciamos ao século no momento de nosso: batismo, mas ...

É agora que renunciamos verdadeiramente;

É agora, na provação;

É agora, abandonando tudo aquilo a que pertencíamos.

Pela fé e até pelo temor

Somos seguidores do Senhor,

por Ele ficando,

por Ele vivendo.


Comentário do Organizador

Na vida surgem alternativas, a estrada se bifurca, e dois caminhos nos apresentam; a escolha se impõe, optar por um é necessariamente abandonar o outro. A alma se angustia, gostaria de trilhar ambos, mas isto é impossível. Assim acontece quando nos é dado escolher entre servir a Deus e a Mamon; optar pelo testemunho doloroso ou pela mentira prazerosa. Neste momento a renúncia é a chave; renuncia pacífica, serena, esperançosa no futuro e na justiça de Deus.

A verdadeira renúncia ensinada por Jesus quando disse “Aquele que quiser vir após mim, renuncie a si mesmo” será testemunhada, não em atitudes exteriores, mas na hora da provação.

Bem aventurados os que renunciaram ao conforto e ficaram com Jesus porque ficaram com a mais sublime criatura com que Deus presenteou nossos espíritos.

Exortação ao perdão7

Texto de Cipriano

Nós , na medida em que nos é dado ver e julgar, nós vemos o exterior de cada um; quanto a sondar o coração, e a penetrar na alma, nós não podemos. Isto julga Aquele que examina as coisas ocultas e que as conhece. Ele deverá em breve vir e julgar os segredos e os mistérios do coração.

Os maldosos não devem fazer mal aos bons, mas, mais importante que isso, é os bons auxiliarem aos maldosos.

Recusando aceitar de volta nossos irmãos8, mostramos muito mais o rigor de uma crueldade humana, do que a bondade que vem da paternidade divina.

Para que as ovelhas a nós confiadas não nos sejam arrancadas pelo Senhor, tomamos certas resoluções sob a inspiração do Espírito Santo.

Após as advertências feitas a nós pelo Senhor, através de repetidas e muito claras visões, em razão do ataque do inimigo que nos foi anunciado e mostrado como eminente, nós decidimos:

Tornar a juntar os soldados do Cristo;

Examinar cada caso em particular;

Dar bem depressa a paz aos caídos em combate;

Fornecer armas aos que vão combater.

Esperamos que vocês, pensando na bondade do Pai Celeste, aprovem nossa decisão.

Se entre nossos companheiros houver quem pense não ser preciso receber em paz os nossos irmãos às vésperas da luta, prestará contas ao Senhor por sua severidade inoportuna ou dureza desumana.

De nossa parte de acordo com a fé, a caridade e a solicitude da hora, damos a conhecer o que sabemos:

Que se aproxima o dia da luta;

Que um inimigo violento

Vai erguer-se contra nós;


Que um combate virá,

Mais violento e encarniçado

Que os que o precederam.


Que este anúncio nos é feito

Da parte de Deus.

Que é a providência,

A bondade de Deus,

Que nos dá o reiterado aviso.


Que podemos estar seguros

Do socorro e da benevolência do Senhor.


Nós que confiamos em Deus,

Saibamos que:

Se Deus anuncia .

A batalha aos seus soldados,

Deus lhes dará a vitória

Quando combaterem.


Comentário do Organizador

Novas perseguições e as lutas dai decorrentes se aproximam e são reveladas em frequentes visões; O “grupo cristão” deverá estar coeso para enfrentar esse novos combates. Quanto àqueles que negaram a Deus, devem ter seus casos examinados um a um: os que abandonaram o cristianismo e voltaram às suas crenças anteriores; os que resolveram introduzir modificações nos ensinos do Cristo tentando compatibiliza-los com os erros romanos; e finalmente os que negaram ou cometeram atos condenáveis e se arrependeram, e estão dispostos a continuar a luta pelo aperfeiçoamento após suas quedas morais.

Esses últimos devem ser aceitos novamente no seio do “grupo cristão”, os demais fizeram suas escolhas e devem ser respeitados.

Mas como saber se os arrependidos o estão de fato? Acolher os que foram maus segundo o nosso julgamento exterior envolve o risco de permitir que eles façam novamente o mal aos bons, mas mais importante que isso é auxiliar os maldosos.

Humildade no sofrimento9

Texto de Cipriano

Está escrito:

"Não louveis ninguém antes da morte."

"Sejais fiéis até a morte e eu vos darei a corôa da vida."

"Aquele que perseverar até o fim, será salvo."

Imitem o Senhor, que quando chegou sua paixão, não se mostrou mais orgulhoso, porém mais humilde.

É então que Ele lava os pés dos discípulos dizendo:

"Se eu vos lavei os pés, eu que sou vosso Mestre e Senhor, vós deveis lavar os pés uns dos outros. Eu vos dou o exemplo para que aquilo que eu faço por vós, façais pelos outros."

Imitem o apóstolo Paulo, que após suportar diversas vezes a prisão, após os flagelos, após as feras, após mesmo o terceiro céu e o paraíso, não mostrou nenhuma arrogância. Dizia ele:

"Eu não tenho comido gratuitamente o pão de ninguém, mas tenho trabalhado e estou fatigado, penando dia e noite para não ser um fardo para nenhum de vós."

Comentário do Organizador

Por vezes face ao sofrimento suportado, nos enchemos de vaidade e orgulho, atribuindo a nós mesmos a vitória sobre a dor. O sofrimento que tinha como objetivo purificar-nos, pela resignação e humildade, transforma-se por nossa invigilância em motivo de orgulho e arrogância. Busquemos sempre a humildade, tanto quando o caminho nos sorri em flores perfumadas, como também quando os espinhos ferem nosso rosto e as pedras fazem sangrar nossos pés.

Consciência e sofrimento10

Texto de Cipriano

Nosso Senhor fez a vontade de seu Pai,

Nós não fazemos a vontade de Deus:

Amantes do patrimônio e do lucro;

Sectários do orgulho;

Vazios;

Rivais;

Discordantes;

Negligenciando a fé e a simplicidade;

Renunciando ao século em palavras e não em atos;

Complacentes conosco mesmos;

Severos com os outros.

Eis porque recebemos os golpes que merecemos.


Está escrito:

"O servidor que conhece a vontade do seu Senhor e não a obedece receberá muitos golpes."

Nós sofremos por nossas faltas e segundo os nossos méritos.

Comentários do Organizador

Confiemos sempre na justiça do Senhor; se sofremos é porque merecemos, se não cometemos nesta vida erros que justifiquem as provações, os teremos cometido em outras.

E por confiarmos nessa mesma justiça procuremos hoje, modificarmo-nos para melhor, confiantes na alegria e na paz que nos aguardarão no futuro.

Clemência e acomodação11

Texto de Cipriano

Pensando na bondade e na clemência do Cristo, nós não devemos ser severos, nem duros, nem desumanos, quando se trata de encorajar nossos irmãos, mas sobretudo:

Sofrer com os que sofrem.

Chorar com os que choram.

Reergue-los tanto quanto nos seja possível.

Prestar-lhes os recursos e as consolações de nossa afeição.


Não é preciso nos mostrarmos nem de tal modo implacáveis e opiniáticos a repelir sua penitência, nem relaxados e excessivamente acomodados, ao aceitá-los em nossa comunhão.

Comentário do Organizador

Nesta carta Cipriano dá algumas orientações face aos que fraquejaram no testemunho, negando a Deus por temor dos sofrimentos. Sermos solidários, afetuosos, sem contudo compactuar com seus erros


1Trecho da carta 13

2Trecho da carta 13

3 Trecho da carta 13

4Trecho da Carta 13

5Trecho da carta 13

6Trecho da carta 13

7Trecho da carta 57

8Os irmãos aqui referidos são os lapsi - cristãos que negaram a fé na hora do testemunho e depois se arrependeram.

9Trecho da carta 14

10Trecho da carta 11

11Trecho da carta 55

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