Solidariedade e afeto

O cristão deverá ser solidário e afetuoso; Jesus por diversas ocasiões nos recomendou a mansidão e brandura, exemplificando seu carinho nos grandes lances e nas pequenas coisas do dia; Cipriano reforça essa atitude lembrando aos seus companheiros a necessidade de fazer o bem e cultivarmos as afeições nos trechos das cartas a seguir.

Ausência e dever1

Texto de Cipriano

Visto que as circunstâncias não me permitem re encontrá-los, peço com piedade e fé que cumpram suas funções e as minhas também, de maneira que nada falhe, nem do ponto de vista da disciplina, nem do zelo.

Quanto ao socorro a fornecer, tanto aos que estão na prisão por terem gloriosamente confessado o Senhor, quanto aos fieis que permanecem na pobreza e na necessidade, eu peço que velem para que nada lhes falte

Todo o dinheiro que se tem juntado foi repartido entre os membros do "grupo cristão", para coisas assim, para que houvesse um maior número de pessoas em condições de prover as necessidades que surgissem.

Comentário do Organizador

Hoje em dia, para muitos, a atividade profissional ocupa posição central na vida. Ao ganha pão são destinados os horários mais nobres do dia e as melhores energias.

O cristão primitivo também enfrentava rudes trabalhos para sobreviver, mas dava aos deveres espirituais a primazia na sua vida.

A ausência nos trabalhos espirituais era tratada com grande cautela, para que nada viesse perturbar as atividades da caridade, tanto moral, quanto material, preocupação maior do cristão, que tem como a primeiro objetivo a prática do amor a Deus e ao próximo.

O dever igualmente nasce do amor e da compaixão, do cuidado que nos inspiram os necessitados de toda sorte e não de regras frias e regulamentos impostos.

Prudência e afeição2

Texto de Cipriano

Peço também que tenham todo cuidado e habilidade para que nada perturbe a tranquilidade.

Os irmãos desejam visitar na prisão os santos "cristãos confessos" que a divina bondade entregou, ilustres, para a gloriosa iniciação; esse desejo nasce, sem dúvida, da afeição que nutrem por eles.

É preciso, no entanto, que façam as visitas com prudência e em grupos reduzidos para não provocar descontentamento e evitar que lhes recusem a entrada; arriscar-se-ia tudo perder por querer demais; tenham cuidado, agindo com discrição e portanto com mais segurança.

Mesmo os "cristãos experimentados" que vão expor aos "cristãos confessos" na prisão, vão de um em um, com um servidor diferente de cada vez.

A troca de pessoas e a variedade de visitantes são toleradas mais facilmente.

Devemos nos acomodar às circunstâncias, velando para não comprometer a tranquilidade nem os interesses do povo fiel.

Comentário do Organizador

A afeição pura e sincera unia os cristãos, que tinham como norma a recomendação de Jesus: “Nisto conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”.

Vivendo aqueles tempos difíceis, quando os “cristãos confessos”, (aqueles que nos tribunais da época confessavam ser seguidores de Jesus) eram presos, torturados e frequentemente assassinados, era previsível a aflição que poderia levar a atos imprudentes os participantes das comunidades cristãs, donde as orientações de Cipriano.

Sigamos esse sublime exemplo, sentindo uma pura e verdadeira afeição pelos nossos companheiros de atividades espíritas, lutemos contra a nossa indiferença e os maus sentimentos como a inveja e o ciúme, para efetivamente ter no nosso coração aqueles que nos compartilham a atividade espiritual.

Porém, que essa afeição seja prudente sem manifestações exageradas que ponham em risco a pureza dos sentimentos, ou venham perturbar aqueles que não participam da comunidade, gerando ciúmes indevidos ou disputas pelo tempo dos familiares.



Pura afeição3

Texto de Cipriano

Eu vos envio minha saudação, irmãos muito queridos, suspirando de outro lado por desfrutar pessoalmente da sua presença, se as circunstâncias me permitirem ir re-encontrá-los.

O que poderia, com efeito, me ser mais desejável e agradável que estar no meio de vocês, em seus braços, apertando suas mãos tão puras e inocentes, que tem guardado a fidelidade ao Senhor, desprezando um culto sacrílego?

Que alegria poderia ser maior que beijar esses lábios que tem, gloriosamente confessado o Senhor?

Que olhar esses olhos que desprezando o século, tem o mérito de ver a Deus?

Mas, posto que essa felicidade não é possível, eu envio a vocês essa carta que vocês verão, e a entenderão como eu estando presente, para felicitar a todos vocês reunidos e incentivá-los a serem valentes e firmes em preservar a sua confissão gloriosa, e marchar com uma religiosa coragem pelo caminho dos favores divinos onde vocês iniciaram para receber a corôa.

Comentário do Organizador

O amor entre amigos gera a afeição o carinho. Estar na presença de quem amamos é fator de alegria. De coração puro sonha-se com o aperto de mão, com o abraço, com o beijo fraterno.

Esse amor entranhado, essa afinidade, que força não terá no apoio ao aperfeiçoamento moral e no intercâmbio espiritual?

Aprendamos a cultivar a força do sentimento, do coração, sabendo que é aí, no nosso coração fértil e florido que se estabelecerá o reino de Jesus.

Saudade e caridade4

Texto de Cipriano

Eu vou bem, pela graça de Deus, desejando regressar para vocês em breve, satisfazendo um desejo que é tão meu quanto de vocês e de todos os nossos irmãos.

Devemos todavia velar para que a paz não seja turbada, permanecendo provisoriamente afastados, embora com tédio na alma, por ficar longe de vocês.

Isto para que nossa presença não excite o ódio e a violência dos gentios, e sejamos autores do rompimento da paz, justamente nós que devemos procurar a tranquilidade de todos.

Portanto, somente quando vocês escreverem que tudo está calmo é que regressarei.

Ou ainda antes, se Deus quiser prevenir-me, eu irei, assim que receba um aviso.

Onde eu poderia estar melhor e mais agradavelmente, do que nos lugares em que Deus quis que me fosse dado orar e crescer?

Que as viúvas, os enfermos e todos os pobres sejam, peço-lhes, objeto de sua atenção; Podem fornecer o dinheiro do fundo que eu confiei a Rogaciano, nosso colega "cristão experimentado", até mesmo aos viajantes que estejam em necessidade.

No caso desses fundos já haverem sido distribuídos, eu envio ao próprio Rogaciano, pelo “servidor” Narico, uma outra soma, para que possam, trabalhando larga e prontamente, fazer a obra da caridade.

Comentários do Organizador

Muita vez nos é agradável estarmos presentes num lugar; igualmente outros que lá estão consideram com alegria a nossa presença; mas, essa presença não trará perturbação? Gostaria muito de visitar minha amiga; minha amiga também ficaria contente com a minha presença; mas os outros familiares que convivem com a minha amiga, seu esposo e filhos entenderiam do mesmo modo? Se minha presença traz perturbação, devo perguntar-me: É caridoso estar lá?

Neste caso Cipriano preocupa-se, pois é um proscrito, está foragido; se as autoridades o encontram no meio de outros cristãos, poderão arrastar a todos a prisão; ao invés de satisfazer a saudade, estará, talvez, levando-os à prisão e a morte.

O mesmo se repete quando temos de nos afastar de pessoas queridas, ou incentivá-las a partir, tendo em vista objetivos maiores e pagando o preço da saudade.

Mas mesmo a distância podemos demonstrar o nosso amor e tomar providências para levar algum benefício aos que estão distantes; ao enviar dinheiro para que os companheiros façam a caridade Cipriano beneficia tanto aos necessitados de recursos quanto aos companheiros de ideal que tem a oportunidade de praticar o bem.

Amparo mútuo5

Texto de Cipriano

Fortifiquemo-nos pelas exortações mútuas e façamos mais e mais progresso na vida cristã, para que, quando Aquele em quem nós vivemos nos tenha dado a paz na sua misericórdia, regressemos ao nosso "grupo cristão" renovados, quase transformados em outros homens.

Todos, tanto nossos irmãos, quanto os gentios, nos perceberão emendados e corrigidos, e após terem admirado a valentia de nossa conduta, admirarão agora a bela firmeza de nossos costumes.

Se bem que os “responsáveis” tenham recebido de mim instruções detalhadas outrora, quando vocês estavam na prisão, e de novo recentemente, para fornecerem tudo o que for necessário ao seu vestuário e alimentação; mesmo assim, eu tomei dos pequenos bens que tenho comigo, 250 sestércios, que envio agora a vocês (há pouco enviei outros 250)

Vitor, que de leitor foi feito servidor, e que está comigo, envia também a vocês 175 sestércios da sua cota.

Eu me sinto feliz, sabendo do número de irmãos que se rivalizam no devotamento afetuoso a vocês e dão do seu dinheiro para aliviar suas necessidades.

Comentário do Organizador

Amparemos uns aos outros não apenas pela caridade moral mas também pela caridade material.

É prova de grande dedicação, pedirmos, esmolarmos até, pelos nossos irmãos necessitados. O pedido pelos outros traz três benefícios, o auxílio ao necessitado, a oportunidade que damos ao doador da prática da caridade, e o fato enobrecedor de nos sujeitarmos a humilhações para auxiliar nossos irmãos. Que grandeza observei na minha vida, das pobres mães, que residindo em favelas e não tendo condições de trabalho iam pelas ruas esmolando para sustento dos filhinhos, e algumas repartiam até o magro fruto de suas humilhações com aquelas que nem condições de esmolar tinham.

Porém tudo isso se transforma em farsa, se o ato de pedir é motivado apenas para não gastar o próprio dinheiro; neste tipo de motivação não há caridade, apenas egoísmo. Pior ainda se o arrecadador fica com parte do que arrecadou.

Cipriano deu do seu dinheiro, do pouco que lhe restava, Vitor também participou dando do que possuía; nada melhor que dar do que temos para estimular outros a darem também.

Decisão conjunta6

Texto de Cipriano

Quanto aos nossos confrades Donato, Fortunato e Giordano, que me escreveram, eu não posso responder a tudo sozinho.

No começo da minha supervisão foi feita uma regra: nada decidir segundo minha opinião pessoal, sem o conselho de vocês e o voto do povo.

Quando eu retornar então, em comum, como quer a consideração que temos uns pelos outros, trataremos do que tem sido feito e do que está para se fazer.

Comentário do Organizador

Na comunidade cristã, as decisões que afetam todo o grupo, devem ser tomadas ouvido o grupo. Jesus nos ensinou: “Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes, exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; antes aquele de vós que quiser tornar-se grande, seja aquele que vos sirva, e aquele que quiser ser o primeiro, seja o que serve.”

A autoridade, o poder, são ferramentas de serviço e proteção, não honraria a exaltar superioridade; na visão cristã o líder está a serviço do grupo, e não o grupo a serviço do líder.



Alegria7

Texto de Cipriano

Já anteriormente, mui fortes e caríssimos irmãos, escrevi para exaltar sua fé e sua coragem.

Novamente minha carta tem por objetivo principal vir alegremente celebrar, ainda e sem cessar, seu nome glorioso.

O que poderia me parecer maior ou melhor do que ver a glória de vocês, "cristãos confessos", iluminar o exército do Cristo?

Todos os irmãos devem se rejubilar, mas na alegria comum a glória do "protetor" do "grupo cristão" é bem maior.

A glória do preposto de um "grupo cristão" advém da glória do seu "grupo cristão".

Na mesma medida que choramos sobre aqueles que a tempestade inimiga fez tombar, estamos felizes por vocês, a quem o mal não pode vencer.

Comentário do Organizador

A alegria da vitória espiritual, da vitória da serenidade, da resignação, do perdão, da confiança em Deus e na sua justiça, enfim na vitória do amor, é maior que os sofrimentos. Como tão bem coloca A. Kardec

“A ideia clara e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no porvir, fé que acarreta enormes consequências sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estada num país ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-se-lhes um estado mais ditoso. A morte nada mais restará de aterrador; deixa de ser a porta que se abre para o nada e torna-se a que dá para a libertação, pela qual entra o exilado numa mansão de bem-aventurança e de paz. Sabendo temporária e não definitiva a sua estada no lugar onde se encontra, menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma calma de espírito que tira àquela muito do seu amargor.”8

Não ocultar as mensagens do alto9

Texto de Cipriano

Ao menor de seus servidores, carregado de faltas numerosas e indigno de Sua consideração, Ele dignou-se na Sua bondade conosco, a enviar uma mensagem:

"Faça-os saber que estejam seguros de que a paz virá; se há um pouco de demora é porque existem alguns cristãos a serem provados."10

A divina bondade houve por bem nos recomendar ainda a sobriedade no beber e no comer, temendo que nosso coração, que está animado por um sublime vigor celeste, se deixe enfraquecer pelas doçuras do século, ou que nossa mente, embotada pelo excesso de alimentos, não permaneça vigilante para a prece.

Não devo guardar para mim somente a consciência destes fatos, ocultando-os aos demais, pois cada um pode aproveita-los a sua vez.

Vocês mesmos não devem guardar segredo, mas fazer passar os relatos aos irmãos, para que os leiam.

Esconder as advertências com que o Senhor se digna favorecer-nos, é conduta de quem não deseja que seus irmãos sejam advertidos e instruídos.

Comentário do Organizador

Nosso Senhor disse: “Ide e pregai”. A nós cabe divulgar o Evangelho do Senhor; se através de algum canal mediúnico chega até nós, apesar de nossas limitações, a mensagem do Plano Maior, não as guardemos apenas para nós, de forma egoísta; analisemo-la com a razão e com o concurso de outros médiuns sérios e a entreguemos aos seus destinatários.


1Trecho da carta 5

2Trecho da carta 6

3Trecho da carta 6

4Trecho da Carta 6

5Trecho da carta 13

6Trecho da carta 14

7Trecho da carta 13

8Evangelho Segundo o Espiritismo - FEB

9Trecho da carta 11

10A previsão realmente se cumpriu, alguns meses após a perseguição de Décio “esfriaria” e os cristãos de Cartago puderam gozar por cerca de 6 anos uma relativa paz, que seria quebrada pela próxima perseguição sob o novo imperador Valeriano que ocorreria no ano 258

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