Últimas Cartas

No capítulo que ora se inicia coletamos as últimas cartas de Cipriano, alguns textos que falam de seu julgamento e morte, bem como texto de Domingos Lacordaire que nos dá uma perspectiva histórica do cristão.

Após um ano aproximadamente do exílio de Cipriano em Curubis, novo procônsul assumiu a província da África, Gallerius Máximo, no lugar de Paternus.

Concomitantemente o Imperador Valeriano encaminhou mensagem ao senado determinando que “protetores”, “cristão experimentados” e “servidores”, enfim que todos os que tivessem participação ativa nos “grupos cristão” deveriam ser mortos.

O procônsul estando em Utique, cidade localizada perto de Cartago, convoca Cipriano.

Cipriano recusa apresentar-se em Utique, fugindo de Curubis e refugiando-se em local seguro, preferindo que seu martírio se dê em Cartago, onde alcançaria maior repercussão

Desta vez, ao contrário do que havia decidido em 252 na perseguição de Décio, quando sua orientação era essencial para a continuidade do movimento, Cipriano considera que deva subir ao martírio para dar testemunho,

Deste esconderijo escreve sua última carta (carta 81) despedindo-se dos irmãos e dando suas últimas instruções.

Preparo para a luta1

Comentário do Organizador

Do exílio Cipriano envia um mensageiro a Roma para ter mais informações sobre a perseguição que está sendo desencadeada pelo Imperador Valeriano.

Na luta espiritual que se avizinha, a mente deve estar preparada fixando-se no bem e na imortalidade.

Texto de Cipriano

De Cipriano

A Sucessus, seu irmão

Saudações:

Não escrevi mais cedo, caríssimo irmão, porque todos os encarregados das igrejas, por força da luta sustentada, foram obrigados a permanecer aqui, mantendo-se alertas na generosidade de seu coração, para a conquista da corôa celeste.

Eis que regressou agora aquele que eu enviei a Roma para saber ao certo o conteúdo do re-escrito referente a nós, e nos relatar a verdade.

Circulam, de fato, muitos rumores incertos e contraditórios.

Eis o que é certo:

Valeriano em um re-escrito ao Senado ordenou que:

  • Os “protetores”, "cristãos experimentados" e “servidores” sejam executados no campo;

  • Os senadores, pessoas de qualidade, cavalheiros romanos, sejam privados de sua dignidade e de seus bens. E se continuarem, apesar disso, a se dizerem cristãos sejam mortos;

  • As matronas sejam despojadas de seus bens e enviadas ao exílio;

  • Os cesarianos2 que anteriormente confessaram o Cristo ou que o confessem agora tenham seus bens confiscados e sejam levados a ferros aos domínios das possessões de César.

  • Em seu re-escrito o imperador juntou uma cópia da carta que escreveu a nosso respeito aos governadores das províncias.

Esperamos ver esta carta chegar, dia após dia, de cabeça erguida, firmes na fé, prontos a sofrer, esperando da bondade misericordiosa do Senhor a corôa da vida eterna.

Vocês devem saber que Sixto foi executado em um cemitério no dia 6 de agosto e, com ele, quatro diáconos.

Os prefeitos em Roma estendem dia a dia a perseguição, executando os acusados e confiscando seus bens.

Peço a vocês que levem estas notícias ao conhecimento de nossos outros colegas, para que, em toda parte, as exortações possam sustentar nossos irmãos e prepará-los para a luta espiritual.

Que cada um dos nossos

Pense menos na morte

E mais na imortalidade.

Que todos se consagrem a Deus

Com plena fé e toda virtude.

Que tenham mais alegria

Do que temor;

Que saibam,

Na hora da confissão,

Que os soldados de Deus e do Cristo

Não são assassinados,

Mas coroados.

Eu desejo, caríssimos irmãos, que vocês passem sempre bem em Nosso Senhor.

Valei!

Despedidas3

Comentário do Organizador

Esta é a última carta de Cipriano: comunica sua decisão de morrer em Cartago, sua cidade, junto ao seu amado “grupo cristão”; deseja também que sua morte possa servir à maior divulgação do cristianismo. Solicita a todos calma e não se entreguem espontaneamente às autoridades romanas. Ao fim faz breve prece pela segurança de todos que permanecerão na carne.

Texto de Cipriano

De Cipriano

Aos "cristãos experimentados", Servidores e Todo o Povo.

Saudações:

Eu soube, meus caríssimos irmãos, que os frumentários4 foram enviados para conduzir-me a Utique.

Em razão disto, amigos muito queridos deram-me o conselho de afastar-me por algum tempo de meus jardins.

Eu consenti; havia no conselho um motivo legitimo: convinha que fosse na cidade onde está a cabeça dos "grupos cristãos" que um “protetor” confessasse o Senhor5 e assim o clamor da confissão do preposto esclarecesse todo o povo.

Se no momento de sua confissão um “protetor” fala sob inspiração de Deus, fala em nome de todo o povo.

De outro lado, seria motivo de elevada honra para nosso "grupo cristão" tão glorioso, se em Utique, eu, “protetor” de um outro "grupo cristão", recebesse a sentença do martírio e partisse desta cidade em direção ao Senhor.

Porém é junto a vocês que eu devo confessar o Senhor e subir ao martírio.

É junto de vocês que eu devo partir para o Senhor6.

Eu não cesso de pedir ao Senhor por mim e por vocês em minhas preces: é meu dever.

Eu espero o Senhor com todo o meu coração.

Estamos aguardando em um lugar seguro que o procônsul volte a Cartago.

Sabemos que os imperadores romanos o enviaram por causa dos cristãos, tanto “protetores” quanto “participantes”.

Diremos o que o Senhor quiser que seja dito, quando o momento chegar.

Quanto a vocês, caríssimos irmãos, permaneçam calmos e tranquilos, de acordo com a disciplina evangélica e com os ensinamentos que eu tenho dado tantas vezes.

Que nenhum de vocês faça tumultos ou entregue-se, por si mesmo, aos pagãos.

É quando se está detido, entregue aos juízes, que é necessário falar, pois será neste momento que o Senhor falará em nós, pedindo muito mais uma confissão de fé do que declarações.

Quanto ao que convém fazer ainda, antes que o procônsul me sentencie por eu confessar o nome de Deus, decidiremos no momento certo, segundo a inspiração do Senhor.

Que o Senhor Jesus, caríssimos irmãos, permita que vocês permaneçam sãos e salvos no seu "grupo cristão", e que Ele digne-se a conservar a todos.

O julgamento dos homens e a libertação pelo Senhor

Sabendo que o procônsul havia voltado a Cartago, Cipriano retorna a cidade.

A 13 de setembro, dois oficiais e alguns soldados prenderam-no, conduzindo-o num carro ao Campo VI, onde o procônsul compareceu pessoalmente, porém protelando o assunto para o dia seguinte.

Cipriano passou a noite na casa de um dos oficiais.

Alguns cristãos da cidade acorreram ao local e passaram a noite diante da porta.

No dia seguinte foi conduzido ao Átrio Sauciolo, introduzido numa sala de audiências.

Estava coberto de suor. Um soldado ex-cristão lhe ofereceu uma roupa seca, com a intenção de guardar as do mártir como relíquia.

Cipriano recusou, dizendo-lhe:

- Quer cuidar-se de males que sem dúvida desaparecerão antes do fim do dia.

A audiência com o procônsul foi rápida:

Gallerius:

-Você está bem, Tácio Cipriano?

Cipriano:

-Sim, estou.

Galerius:

- É você o “pai” da seita sacrílega?

Cipriano

- Eu sou.

Galerius

- Os santíssimos imperadores ordenam a você que sacrifique aos deuses.

Cipriano:

- Eu não o farei.

Galerius:

- Reflita!

Cipriano:

- Faça o que está prescrito. Em coisa assim tão justa não há o que refletir.

A seguir o procônsul Galério Máximo pronunciou a sentença nestes termos:

- Há longo tempo que você vive em sacrilégio. Você corrompeu muitos do povo para a sua conspiração criminosa, e se fez inimigo dos deuses e da religião de Roma. Os piedosos e santíssimos imperadores Valeriano e Galiano, Augustos e o muito nobre César Valeriano não puderam reconduzi-lo à religião romana. Estando convicto de ser o autor e fautor, em primeiro grau, de grandes crimes, você servirá de exemplo àqueles que se tem associado às suas faltas: o seu sangue ensinará aos outros a respeitarem as leis7.

E assinando a sentença escrita numa tabuinha:

- Tácio Cipriano é condenado a perecer pelo gládio.

Cipriano disse apenas:

- Deus seja bendito.

Após o julgamento, alguns gritaram:

- Que nos decapitem com ele!

Puseram-se então a caminho do lugar da execução.

Na multidão seguiam pagãos e cristãos vigiados por soldados; centuriões e tribunos completavam o cortejo.

O local da execução era rodeado de árvores, curiosos subiram nelas para ver melhor.

Quando chegaram, Cipriano despiu o manto, ajoelhou-se, fez uma prece, despiu a túnica, vendou os próprios olhos.

Alguns irmãos corajosos recolheram suas roupas, amarraram-lhe as mangas e estenderam panos na relva para recolherem seu sangue e despojos.

Vestido apenas com uma túnica de linho, Cipriano recebeu o golpe fatal.

Como era proibido sepultar os cristãos, irmãos caridosos ocultaram seus despojos durante o dia, e à noite o sepultaram num terreno do procurador Macróleo Candidiano, nas imediações da estrada Mapaliense.


1'Íntegra da carta 80

2Partidário de César

3Integra da Carta 81

4 Espiões que o exército romano utilizava para localizar víveres quando se deslocava em suas campanhas e depois foram utilizados para localizar cristãos.

5Assumisse publicamente a condição de cristão.

6Cipriano quer morrer em Cartago,

7Realmente Cipriano serviu de exemplo, e o seu sangue ensinou a muitos respeitarem as leis de Deus.

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