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A dissipação e a tristeza

1Parece-me que a senhora está em dificuldade sobre duas coisas: uma de sentir a dissipação e outra de sustentar-se contra a tristeza.

A dissipação tem duas acepções principais: a primeira é a prodigalidade, o gasto exagerado; a segunda é a libertinagem, ou seja a prática do sexo indiscriminado e pelo puro prazer carnal.

Nas duas acepções todavia o que ressalta é a tentativa de “esquecer as mágoas”, desviando a atenção de si mesmo, e fixando-a em objetos materiais que se compram e que logo perdem sua força em tomar nossa atenção e nos dar prazer; ou ainda a distração com o prazer sexual, com o jogo, com a bebida, com as viagens etc. No fundo é uma forma de recusar-se a olhar e sentir a própria vida, matando o tempo e desviando a atenção. Mas esse desvio de atenção consome todo o tipo de recursos: a saúde, o financeiro e a moral, que acabam se esgotando, deixando então apenas a consciência da própria miséria.

Jesus na parábola do filho pródigo, nos apresenta a história de um moço, que pedindo ao pai a parte da herança paterna que lhe cabia, o pai a entregou sem objeções; o filho saiu de casa, foi para uma terra estranha e dissipou todos os seus bens, vivendo de maneira dissoluta.

Aconteceu então que a região sofreu grave crise econômica. O moço já pobre, tornou-se miserável, e passou a trabalhar, cuidando de porcos, e ao pedir a seu patrão que o deixasse partilhar da comida dos porcos dos quais tratava, teve o seu pedido negado. Nesse momento caiu em si, tomou consciência da baixeza em que chegou, lembrou-se da fazenda do pai, onde os empregados eram tratados com benevolência e tinham o pão em abundância, e ele ali a morrer de fome. Resolveu então voltar para a fazenda do pai, procurá-lo e fazer-lhe o seguinte pedido:

–Pai, pequei contra o céu e contra ti, não sou mais digno de ser considerado filho, mas contrata-me como um dos seus empregados.

E partiu em viagem de volta, mas ao penetrar na terra paterna, o pai o avistou ao longe, encheu-se de compaixão, correu ao seu encontro o abraçou e o beijou; vestiu-o com as melhores roupas, deu-lhe uma joia de presente, preparou uma festa com muito alimento e música, e disse:

- Comamos; alegremo-nos; porque este meu filho estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi achado.

Quanto a dissipação, a senhora não se curará por reflexões forçadas. Não espere fazer a tarefa da graça pela energia e sagacidade da natureza. Contente-se em doar sua vontade a Deus sem reserva e sem visar jamais alguma situação dolorosa que a senhora não aceitasse pelo abandono (entrega) à divina providência.

Refletir sobre os erros, esperar que o nosso corpo, ou nossos mecanismos psíquicos, tenham reações de defesa que nos livrem do dilema, não adiantará. Auto culpar-se, punir-se, também são inócuos, apenas comportamentos masoquistas através dos quais se espera que Deus ou a natureza nos castigue, para aliviar as culpas, e atribuir além do preço em dinheiro e em saúde, um preço moral com que possamos comprar esses prazeres ilusórios. Reflita sobre essas cenas:

Cena 1: a criança está ao lado da mãe; dirige sua mãozinha e procura a mão da mãe; sente-se segura , feliz e amada; a mãe a conduz.

Cena 2: a criança perdeu-se da mãe, tropeça, cai, não sabe onde ir; chora; procura distrair-se com um objeto qualquer que encontra no caminho. A distração é vã, ela não sabe como alimentar-se, vestir-se. Não adiantará sua cabecinha infantil tentar solucionar o problema, ou esperar que os mecanismos biológicos ou psicológicos resolvam sua situação;

Cena 3: a criança busca novamente a mãe, que está perto, toma outra vez a sua mão, e obedece a mãe, que lhe dá ordens do tipo:

–Lave a mãozinha; sente-se à mesa; faça sua prece; tome a sopa; cuidado para não sujar o vestido; ...

A criança está novamente segura e feliz.

Deus é a mãe, a senhora deve se ver como a criança.

Guarde-se de levar adiante esses pensamentos cruciantes, mas quando Deus permite que eles venham procurá-la, não os deixe jamais passar sem fruto.

Não procuremos jamais situações desagradáveis, mas se elas chegarem pela vontade de Deus, procuremos colher os seus frutos em amadurecimento e resignação ativa, sabendo sempre que a crise é também oportunidade de mudança para melhor.

Aceite, malgrado as repugnâncias e os horrores da natureza, tudo aquilo que Deus apresenta ao seu espírito, como um meio pelo qual Ele quer provar a sua fé.

Não se proponha a dificuldade de saber de antemão se a senhora terá, na ocasião, a força para executar o que desejará fazer. A ocasião presente terá a sua graça; mas a graça do momento no qual avistará essas cruzes, é aceita-las de bom coração, no tempo em que Deus as der.

Angustiar-se por antecipação tentando imaginar quais provas terá de enfrentar, e com base nessas provas imaginadas torturar-se com a dúvida: “não sei se serei capaz”, é tolice. Deus não porá nos nossos ombros fardos incompatíveis com nossas forças.

Aceito o fundamento do abandono, caminhe tranquilamente e com confiança. De posse dessa disposição da sua vontade e contanto que ela não seja ligada a qualquer coisa contrária a ordem de Deus, ela subsistirá sempre.

À dissipação devemos opor o desprendimento (ou abandono): a dissipação malbarata os recursos, atolhando a vida de quinquilharias e distrações. O desprendimento preserva os recursos, retirando o afeto das quinquilharias e concentrando-o no amor a Deus e ao próximo, e destinando todas as possibilidades materiais e espirituais à vivência desse amor. Enquanto a atitude da dissipação é temporária, terminando num beco sem saída, o desprendimento nos acompanhará, eternidade a fora, aos mais altos estágios de evolução.

A sua imaginação divagará sobre mil objetos vãos; ela será mais ou menos agitada conforme os lugares onde a senhora esteja, e também conforme a sua imaginação seja despertada por objetos mais vivos ou mais inertes. Mas que importa? Como diz Santa Teresa:

–A imaginação é a louca da casa; ela não cessa de fazer barulho e de aturdir.

A imaginação leva continuamente nossa mente às mais diversas situações; mesmo com relação ao sexo é comum surgirem as cenas mais disparatadas, por vezes projetadas por espíritos em desalinho moral ou dementados. De outro lado nos imaginamos, impulsionadas pela publicidade, tendo esse ou aquele eletro-doméstico, morando em tal ou qual imóvel, vestindo essa ou aquela roupa, etc. Isso deve ser entendido como natural

Um espírito como a senhora, cheio de vivacidade, é uma verdadeira fábrica de imagens, que são a matéria prima para a sua criatividade, na solução dos problemas que a vida lhe propõe. Claro está que a maioria dessas imagens será descartada e apenas algumas poucas aproveitadas. Mas essa pequena quantidade justifica o todo, da mesma forma que algumas gramas de ouro justificam as toneladas de rocha aparentemente inútil que são retiradas da mina.

O espírito mesmo está entranhado pela imaginação, ele não pode impedir-se de ver as imagens que ela apresenta. Sua atenção a essas imagens é inevitável, e essa atenção é uma distração verdadeira; mas mantido que ela seja involuntária, ela não separa jamais de Deus; não é senão a distração voluntária (proposital) que faz todo o mal.

Se a imaginação, com seus devaneios, é natural e um dom de Deus, fugir deliberadamente da realidade através da imaginação, é tornar em mal um bem de Deus.

Se a senhora não quer nunca a distração, a senhora jamais estará distraída, e será verdadeiro dizer que a sua oração nunca será enfraquecida. Cada vez que a senhora perceber uma distração, a senhora a deixará tombar sem a combater e retornará docemente ao lado de Deus sem nenhuma contenção de espírito.

A criança se distrai a vista de um objeto qualquer e perde a mãe de vista; percebe a distração e volta para a mãe. O importante é que volte imediatamente e não fique perdendo tempo lutando contra a distração. O filho pródigo não ficou refletindo sobre a crise econômica, ou como havia gasto a herança, ou debatendo com o seu patrão as condições de trabalho, voltou o mais rápido que pode para a casa do pai.

Quando a senhora não perceber sua distração, ela não será uma distração do coração. Desde que a perceba, a senhora elevará seus olhos a Deus.

Peço-lhe, senhora, que tenha essa mesma delicadeza consigo mesma: considere suas faltas e quedas como “distrações”.

A fidelidade que a senhora terá em re-entrar em Sua presença, todas as vezes que a senhora perceber o seu estado, dará o mérito da graça de uma presença mais frequente; e este é, se eu não me engano, o meio de restituir brevemente essa presença familiar.

Adquirindo o hábito de se voltar rapidamente para Deus, a presença de Deus será cada vez mais frequente e mais íntima (familiar). Sentir-se na presença de Deus é estar alegre e desprendida. Apenas Deus encherá o vazio de sua alma.

Essa fidelidade em se afastar prontamente de outros objetos todas as vezes que se registra as distrações não durará muito numa alma sem o dom de um recolhimento frequente e fácil.

O dom de fechar as avenidas dos sentidos, mantendo o mundo interior em silêncio e desatravancado para adentrar no mundo invisível com mais facilidade, é algo que devemos buscar; buscando, acharemos.

Mas não é necessário imaginar-se que se possa entrar nesse estado pelos próprios esforços. Essa contenção a tornaria constrangida, escrupulosa, inquieta nos seus afazeres e nas conversações onde a senhora teria a necessidade de ser livre. A senhora teria sempre medo que a presença de Deus lhe escapasse, sempre correndo para recapturá-la. A senhora se enveloparia dentro de todos os fantasmas da sua imaginação. Assim a presença de Deus, que deve por sua doçura e por sua luz facilitar a dedicação a todos os outros objetos que nós temos de considerar dentro da ordem de Deus, levaria a senhora na direção contrária, sempre agitada e quase incapaz das funções exteriores do seu estado.

Não é “quebrando a cabeça”; constrangendo-se; preocupando-se e examinando nos mínimos detalhes tudo o que faz, fala, pensa, ou sente que a senhora sentirá a presença de Deus. Ao contrário esse auto-policiamento constante impediria que tivesse a desenvoltura e a espontaneidade necessárias ao cumprimento da lei de Deus que é a lei do amor.

Não esteja jamais inquieta de que essa presença sensível de Deus possa lhe escapar.

Quando sentir Deus, ter medo de perdê-lo, é deixar de senti-lo mais rapidamente.

Mas sobretudo guarde-se de querer uma presença de Deus raciocinada e sustentada por reflexões. Contente-se no quotidiano e no detalhe de suas ocupações, de uma visão confusa de Deus, de sorte que se perguntássemos então qual é a disposição de seu coração, seria verdadeiro dizer que ele tende para Deus, ainda que estivesse presentemente atenta a qualquer outro objeto.

A criança, no colo da mãe, embala com a mãozinha o berço do irmão mais novo, nesse momento ela não vê a mãe, atenta a sua importante tarefa, mas está segura, pois, ainda que de forma confusa, sente a presença da mãe e sabe que está fazendo a vontade da mãe, que quer que ela aprenda a amar e cuidar do irmão. Se observássemos o seu coraçãozinho, veríamos que, embora esteja voltado para o irmãozinho no berço, parte do seu sentimento continua direcionado à mãe.

A criança embora responsável na sua tarefa, sabe que o que faz é uma ínfima parte dos cuidados que o irmão necessita; coisas importantes e complexas como alimentação, teto, cuidados médicos, vestuário, são providenciados pela mãe, tarefas que no seu todo, fogem a sua compreensão. Tem consciência também, que caso deixe de embalar o berço do irmãozinho, nem por isso ele perecerá, pois a mãe dará outra solução. O fato da criança ter uma tarefa pequenina e acessória, não a abate, pois ela não se engrandece, nem torna-se irresponsável, pois ela ama a mãe e quer satisfazê-la.

Não se ponha em pena pelos descaminhos do seu espírito que a senhora não pode conter. A gente se distrai muitas vezes pelo medo das distrações, e posteriormente pelo regresso de as haver tido.

Afastar-se de Deus é um erro; manter-se afastada sob pretextos como: sentimentos de culpa, medo de afastar-se novamente, irritações por repetir as quedas, é apenas dilatar o erro. Voltar para Deus sem mais delongas é corrigir o erro.

Que diria a senhora de um homem que numa viagem, em lugar de caminhar sempre, sem parar, passasse seu tempo a prever as quedas que poderia ter, e quando tivesse tido alguma, retornasse para ver o lugar onde caiu. A senhora lhe diria:

–Caminhe, caminhe sempre!

Eu lhe digo a mesma coisa:

– Caminhe sem olhar para traz, e sem se deter.

–Caminhai, diz o apóstolo, afim de que vós sejais sempre em grande abundância.

A abundância do amor de Deus, é verdade, a corrigirá mais que suas inquietações e que seus retornos apressados sobre si mesma.

Essa regra é simples, mas a pessoa naturalmente acostumada a fazer tudo por sentimento e por reflexão a considera simples em excesso. A gente queria se ajudar e se dar mais atividade, mas é nisso que essa regra é boa: é que ela mantém num estado de pura fé, onde a gente não se apoia senão em Deus, a quem a gente se abandona, e onde a gente morre para si mesmo suprimindo tudo aquilo que é de si.

Dessa maneira a gente não multiplica as práticas exteriores, que poderiam gerar pessoas muito ocupadas, ou prejudicar a sua saúde. A gente as torna todas em amar, mas amar simplesmente, não fazendo senão o que o amor faz fazer, assim a gente não é jamais sobrecarregado; porque a gente não carrega senão o que a gente ama.

No “Evangelho Segundo o Espiritismo” Allan Kardec analisa três caminhos para a salvação: a verdade, a igreja e a caridade; a verdade, ou seja o conhecimento, não basta para nos salvar; homens e mulheres, inteligentes e sábios, frequentemente se perdem num mundo de incertezas, dúvidas e frustrações; a igreja, ou seja o culto, também não leva por si só à salvação, mesmo a prece com toda a sua força, isoladamente não redime o homem; e Allan Kardec conclui: apenas a caridade, ou seja o amor, é penhor de salvação, e resume essa ideia de forma radical ao afirmar: “fora da caridade não há salvação”, que é outra maneira de enunciar a regra simples aqui exposta.

Lembro também à senhora, que Nosso Senhor, ao expor os mandamentos, os resumiu em dois: amar a Deus e amar ao próximo; Nosso Senhor não se reporta a auto-condenação, a ocupações diuturnas, à fardos pesadíssimos, o único verbo (expressão da ação) que utiliza é o verbo “amar”; Mais uma vez repetimos: essa regra é simples.

Essa regra, bem seguida, basta também para curar a tristeza.

Quem está na presença de Deus está alegre, está feliz, está seguro.

Na presença de Deus, mesmo maltrapilho, ridicularizado num circo romano, certo do martírio, o homem canta, seus olhos brilham, bendiz a Deus; perdoa os seus algozes.

Frequentemente a tristeza vem de que, procurando Deus, a gente não O sente o suficiente para se contentar.

Não devemos exagerar e ser ambiciosos de Deus.

Querer senti-Lo não é querer possuí-Lo, mas querer assegurar-se, pelo amor de si mesmo, que a gente O possui a fim de consolar-se.

A natureza triste e abatida tem a impaciência de se ver na pura fé. Ela faz todos os esforços para sair-se bem, porque lá todo apoio lhe falta; ela está como no ar; ela queria sentir seu adiantamento.

Preocupada com si mesma a alma indaga constantemente: o quanto estou com Deus? Fiz progressos? Já alcancei uma perfeição aceitável? Ora, todos esses questionamentos angustiantes não condizem com o abandono a Deus, indicam, ao contrário, excessiva preocupação consigo mesma, apego a indicadores que possam elevá-la ou rebaixá-la.

A impaciência, mesmo a impaciência de ter Deus, nos afasta de Deus.

À vista de suas faltas o orgulho se despeita e toma-se esse despeito do orgulho por um sentimento de penitência. Quereríamos, por amor próprio, ter o prazer de ver-nos perfeitos. Nos repreendemos por não o ser. Somos impacientes, arrogantes, mal humorados contra nós e contra os outros.

O sentimento de culpa muita vez tem sua origem no orgulho ferido, na constatação da fragilidade moral para aquele que se considerava moralmente superior aos demais. Como o orgulho é parceiro da mentira, aos invés de admitirmos que a origem do nosso sofrimento é o orgulho, dizemos estar constrangidos por ter agido contra o amor de Deus. Ora aquele que está irritado, mal humorado, arrogante e impaciente face aos seus irmãos e a vida não está, arrependido, buscando de volta Deus, e sim afastando-se, ainda mais, Dele, pois acrescenta novos erros aos anteriores.

Erro deplorável!

Como se a obra de Deus pudesse se realizar pela nossa mágoa!

Como se a gente pudesse se unir ao Deus da paz, perdendo a paz interior!

Nosso Senhor amava muito uma família, constituída de três irmãos: Lázaro, Maria, que havia enxugado os pés de Jesus com os próprios cabelos, e Marta.

Recebendo a notícia que Lázaro estava doente, Jesus ainda se demora três dias no lugar onde estava, depois decide ir a Betânia, cidade de Lázaro. Os discípulos argumentaram:

–Mestre, ainda agora os judeus pretendiam apedrejar-te, e tornas para lá?

Mas após algumas instruções Jesus declara claramente que Lázaro está morto, e que irá até ele. Os discípulos resolvem segui-lo para, se for o caso, morrerem com ele.

Chegando à moradia de Lázaro, Maria estava em casa mas Marta saindo ao encontro de Jesus repreendeu-o:

–Se o Senhor estivesse aqui ele não teria morrido!

Jesus mansamente explicou:

–Seu irmão há de ressuscitar.

Marta insistiu na sua postura, com certa irritação e desalento:

–Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição do último dia.

Jesus docemente a instruiu:

–Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim ainda que morto, viverá e todo aquele que vive e crê em mim não morrerá. Você acredita nisso?

Marta respondeu:

–Sim, eu creio que o Senhor é o Cristo, o filho de Deus, que havia de salvar o mundo.

Mas, embora suas palavras Marta, volta para casa, e escondida de Jesus diz a Maria:

–O Mestre está aqui e chama você.

Marta fica em casa e Maria vai ao encontro de Jesus, lança-se aos seus pés e diz chorando:

–Se o Senhor estivesse aqui ele não teria morrido!

Além de Maria, muitos judeus choravam. Jesus comoveu-se e também chorou.

Os judeus disseram então:

–Vejam como Jesus o amava. Se ele pode abrir os olhos aos cegos, poderia também fazer com que Lázaro não morresse.

Jesus pede então que o levem ao túmulo de Lázaro e retirem a pedra.

Marta que havia chegado contradiz a ordem de Jesus:

–Senhor, ele já cheira mal, morreu há quatro dias!

Mas os judeus retiraram a pedra e Jesus após fazer uma prece, clamou:

–Lázaro, sai para fora!

E Lázaro saiu, vivo e cheio de faixas, com o lenço que haviam posto no seu rosto para sepultá-lo.

Muitos judeus que viram o que Jesus havia feito passaram a acreditar nele, Lázaro passou a ser um testemunho vivo da bondade e do poder de Jesus.

Marta, Marta, porque você se atormenta por tantas coisas pelo serviço de Jesus Cristo? Uma só é necessária, que é amá-lo e conservar-se imóvel a seus pés.

Quando nós nos abandonamos corretamente a Deus, tudo o que fazemos é bem feito, sem fazer muitas coisas

Nós nos abandonamos com confiança no futuro, queremos sem reserva tudo o que Deus quererá, e fechamos os olhos para nada prever do futuro. Entretanto, nos aplicamos no presente a cumprir a Sua vontade. A cada dia são suficientes o seu bem e o seu mal.

Um simples sentimento: amor a Deus e às criaturas.

Uma simples ação: cumprir a vontade de Deus.

Uma simples certeza: Deus é nosso pai.

Essa submissão diária à vontade de Deus é a subida ao Seu reino dentro de nós e em tudo semelhante ao pão nosso de cada dia.

Seríamos infiéis e culpáveis de uma desconfiança pagã se quiséssemos penetrar no futuro que Deus nos oculta:. Deixemos isso para Ele. Compete a Ele fazê-lo doce ou amargo, curto ou longo, que Ele faça o que seja bom aos Seus olhos.

A mais perfeita preparação para esse futuro, qualquer que ele seja, é morrer para toda vontade própria, para liberar-se completamente para a vontade de Deus.

A pergunta realmente importante é: o que Deus quer de mim?

Como o maná2 tinha todos os sabores, esta disposição geral reafirma todas as graças e todos os sentimentos convenientes a todos os estados onde Deus poderá nos introduzir depois.

Embora uma só coisa seja necessária, “cumprir a vontade de Deus”, essa mesma vontade será diferente para cada pessoa: a um caberá manter a família; a outro vencer o vício da cocaína; a um terceiro semear a concórdia no seu ambiente de trabalho; a um quarto alegrar os seus irmãos com sua música etc. Inclusive para a mesma pessoa essa vontade irá variar ao longo do dia: ao levantar-se é a prece, pela manhã é o trabalho profícuo; no refeitório da pequena fábrica é compartilhar a marmita com o colega, que atravessando dura situação financeira trouxe apenas pequena porção de arroz. Conquanto toda essa variedade, no fundo é uma única coisa a ser feita: “amar a Deus e ao próximo”

Quando estamos, desse modo, dispostos a tudo, isto é no fundo do abismo, é que começamos a tomar pé. Ficamos então tranquilos tanto face ao passado quanto ao futuro.

Quando nos exaltamos e nos colocamos num pedestal ridículo e ilusório cremos estar bem. Quando descobrimos nossa pequenez e a aceitamos, aparentemente estamos mal, já que descemos ao fundo do poço; mas nesse momento, com o orgulho reduzido a quase nada, sentido-nos pequenas formigas é que tomamos pé; então há uma importante transformação: estar em cima ou em baixo, considerado ou desconsiderado, já não importa mais, porque nos descobrimos nos braços de Deus.

São João da Cruz expressa essa tranquilidade dada pela humildade nessa estrofe de um poema:

“Nesta desnudez acha o espírito seu descanso

Porque não cobiçando nada,

Nada o afadiga para cima e nada o oprime para baixo Porque está no centro da sua humildade.”

Supomos ser os piores que conseguimos supor; mas, nesse ponto, nos jogamos cegamente nos braços de Deus.

Paulo apóstolo, caído na areia do deserto, cego, vendo a Jesus e consciente que tudo que havia feito, combatendo Jesus era um terrível erro, esquece-se e murmura as inesquecíveis palavras:

- Senhor, o que queres que eu faça.

Nós nos esquecemos, nós nos perdemos. E não há mais perfeita penitência que esse esquecimento de si mesmo, porque toda a conversão não consiste senão em renunciar-se para se ocupar de Deus.

Esse esquecimento é o martírio do amor próprio. Preferiríamos, cem vezes mais, contradizer-nos, condenar-nos, atormentar-nos no corpo e no espírito, que nos esquecer. Esse esquecimento é uma anulação do amor próprio, no qual não se encontra nenhum recurso.

De outro lado o coração se alarga; somos aliviados e descarregados de todo o pó de nós mesmos que nos acabrunhava. Ficamos admirados ao ver o quanto o caminho é reto e simples.

Acreditávamos que necessitaríamos de uma contenção perpétua e sempre alguma nova ação, sem descanso; percebemos, ao contrário, que há pouco a fazer; que é suficiente, sem raciocinar muito sobre o passado e o futuro, olhar Deus com confiança, como a um bom pai, que nos conduz no momento presente como que “pela mão”.

Não há necessidade de inúmeras regras para nos conter, ilimitadas providências a serem feitas, posicionarmo-nos como se tudo ao nosso redor dependesse de nós. Não serão as normas, nem as ações que decidirão o nosso destino, mas o amor que deverá ditar o que nos compete fazer e evitar, ou seja, deixar-nos conduzir pelo amor de Deus no amor a nossos irmãos.

O conhecimento do futuro e do passado pertencem a Deus. Ele levantará o véu apenas sobre um ou outro fato, respeitemos os seus segredos.

Se alguma distração faz perdê-Lo de vista, sem deter-se na distração, a gente retorna em direção a Deus, e Ele nos faz sentir o que Ele quer.

Se cometemos faltas, fazemos disto uma penitência que é uma dor toda de amor. Nós nos encaminhamos para Aquele do qual havíamos nos desencaminhado.

O pecado parece hediondo, mas a humilhação que ele traz e pela qual Deus o permite, parece boa.

Ao passo que as reflexões do orgulho sobre nossas próprias faltas são amargas, inquietantes e magoadas, o retorno da alma para Deus, após suas faltas, é pleno de recolhimento, pacífico e sustentado pela confiança.

A senhora sentirá pela experiência quanto este retorno simples e pacífico lhe facilitará a sua correção, mais que todos os despeitos sobre os defeitos que a dominam. Seja simplesmente fiel em retornar simplesmente em direção a Deus, desde o momento em que a senhora perceber sua falta.

A senhora terá uma bela disputa consigo mesma. Mas não é consigo, porém, que a senhora deverá medir-se. Quando a senhora repreende suas misérias, eu não vejo no seu conselho (tribunal), senão a senhora, solitária consigo mesma. Pobre conselho (tribunal), onde Deus não está!

Quem estenderá a mão para a senhora sair do atoleiro? Será a senhora? Opa! Foi a senhora mesmo quem mergulhou e que não pode sair! Além disso, esse atoleiro é a senhora mesmo; todo o fundo do seu mal é não poder sair de si. A senhora espera sair entretendo-se sempre com si mesma e nutrindo sua sensibilidade com a visão de suas fraquezas?

A senhora não faz mais do que se enternecer com todos os seus regressos.

Mas o menor olhar para Deus acalmaria bem mais o seu coração turvado por essa ocupação de si mesma. Sua presença opera sempre a saída de si mesma, e é disso que a senhora precisa. Saia então de si mesma e a senhora ficará em paz.

Mas como sair? Não é preciso senão que retorne docemente ao lado de Deus, formar, pouco a pouco, o hábito pela fidelidade, e a voltar a Ele todas as vezes que perceba sua distração.

Quanto à tristeza natural que vem da melancolia, ela não vem senão do corpo, assim sendo, os remédios e os regimes a diminuem. É verdade que ela volta sempre, mas ela não é voluntária. Quando Deus a dá a gente a suporta em paz, como a febre e as outras doenças corporais.

Assim como os exercícios físicos produzem as endorfinas que nos dão uma certa euforia, certos quimismos do cérebro podem acarretar alguma depressão. É útil combatê-los com medicamentos, dietas e atividades físicas.

A imaginação está numa escuridão profunda, toda tomada de luto. Mas a vontade que não se nutre senão da pura fé quer bem provar todas essas impressões; estamos em paz porque estamos de acordo conosco mesmos e submissos a Deus. Não é uma questão do que sentimos mas do que queremos. Queremos tudo o que temos, não queremos nada de tudo o que não temos.

Não conseguimos imaginar o futuro, nem prever a solução Deus dará as várias questões. Estamos como um piloto em meio a tempestade, sem visibilidade alguma; porém confiamos na torre que nos dá o melhor rumo e procuramos segui-lo. Voamos em paz pois a torre nos assegura que a rota sugerida é a melhor e que chegaremos a bom termo na nossa viagem. Não é a imaginação do futuro, ou do presente que nos conduz, é a pura fé que nos alinha com a vontade de Deus.

O escultor sente cansaço, a mulher grávida sente dores. Mas essas sensações lhes importam pouco: o escultor quer concluir a escultura onde expressará sua visão estética, a mulher anseia pelo filho que lhe preencherá a lacuna afetiva. Se perguntássemos a um e a outra se suas sensações são relevantes face aos seus ideais, diriam que não. Diriam que o importante é a obra de arte e o filho, que cansaço e dores são secundárias. Assim é para aquele que quer cumprir a vontade de Deus, eventuais pedras do caminho são secundárias, o amor vem em primeiro lugar.

Deus nos deu e dá tudo, se a gente quisesse relacionar tudo o que Deus nos deu, encheríamos folhas e folhas de papel e acabaríamos desistindo tal a quantidade de benesses com que Deus nos agraciou. O Pai amantíssimo nada esqueceu, na sua misericórdia. Em tudo aquilo que nos deu é provável que a nossa ignorância encontre alguma coisa que poderia ser tomada por má, mas de futuro quando a visão se nos aclarar perceberemos que mesmo a enfermidade, a pessoa difícil terá sido uma manifestação da Divina bondade.

De outro lado, se fôssemos listar tudo o que Deus não nos deu, também teríamos uma lista infinita. E não nos deu, porque nos ama, assim como não nos deu essa ou aquela enfermidade para que não sofrêssemos desnecessariamente. Não nos terá dado aquilo que consideramos um bem na nossa ignorância, mas que certamente é um mal dentro da visão infinita de Deus.

A mãe zelosa providenciou tudo para a criança. A filha não gostou de um remédio cujo sabor considerou desagradável, mas a mãe, apesar disso, com um olhar terno, obrigou a criança a tomá-lo, pois a quer saudável. A criança tentou pegar uma flor, a mãe não permitiu pois a flor continha espinhos que poderiam ferir a sua mãozinha. A criança após esses acontecimentos aprendeu que tudo que a mãe faz, faz para o seu bem, e passou a querer bem a tudo o que a mãe lhe dá, e a não desejar nada que ela não queira lhe dar.

A gente não quereria livrar a si mesmo daquilo que a gente sofre, porque não cabe senão a Deus distribuir as cruzes e as consolações. A gente está dentro da alegria no meio das tribulações, como diz o apóstolo; esta não é uma alegria dos sentidos, é uma alegria da pura vontade.

No gabinete da mente onde comparecem os ministros da memória, da inteligência, da imaginação, o lugar de primeiro ministro é o da vontade. Força de vontade é querer com todas as forças o que Deus quer. Saber a vontade de Deus, alinhar nossa vontade com a vontade de Deus é fonte grande alegria. O arquiteto planejou vasto edifício; o pedreiro sabe onde deverá assentar alguns tijolos na sua pequena participação na obra imensa, aplica-se a fazer isso da melhor forma, saber que as suas intenção e ação estão em harmonia com o plano do arquiteto, fazendo o que é para ser feito dá-lhe enorme alegria.

A imaginação quando produz a boa imagem, a inteligência quando identifica a razão correta, a memória quando traz a boa lembrança produzem alegria; A vontade é uma fonte de alegria quando realiza a vontade de Deus.

Os ímpios, no meio dos prazeres, têm uma alegria constrangida, porque eles não estão jamais satisfeitos pelo seu estado, eles querem repelir alguns dissabores e saborear ainda certas doçuras que lhes faltam. Ao contrário, é a alma fiel a uma vontade que não é constrangida em nada; ela aceita livremente tudo o que Deus lhe dá de doloroso; ela O quer, ela O ama, ela O abraça; ela não quer deixá-Lo, mesmo quando Ele não lhe custeia um só desejo, porque esse desejo seria um desejo próprio, e contrário ao seu abandono à providência, que ela não quer jamais antecipar em nada.

Se alguma coisa é capaz de por um coração a larga e em liberdade, essa coisa é o abandono. Ele derrama no coração uma paz mais abundante que os rios e uma justiça que é como os abismos do mar.

Abandonar-se, desprender-se, deixar tudo que é amor próprio, tudo que é pretensão, tudo que é posse, tudo que é disputa, tudo que é interesseiro e evolar-se no azul em direção ao Pai.

Se alguma coisa pode tornar um espírito sereno, dissipar os escrúpulos e os negros temores, adoçar a pena pela unção do amor, dar um certo vigor em todas as ações e espalhar a alegria do Espírito Santo até sobre o rosto e nas palavras é esta conduta simples, livre e infantil, entre os braços de Deus.

Mas raciocinamos demais, nós nos estragamos a força de raciocinar. Há uma tentação de racionalização que temos de temer como a outras tentações.

A finalidade é o amor, o raciocínio é um dos meios de para realizarmos o amor. Elevar o raciocínio a condição de finalidade é desvirtuá-lo e nos perder. Não é o cérebro que nos deve oferecer o fundamento da vida, é o coração.

Há uma ocupação de si mesmo, sensível, inquieta, desconfiada, que é tão sutil que a gente não a vê como uma tentação, e que ao contrário nos afunda mais e mais porque a gente a toma pela vigilância recomendada no Evangelho.

A vigilância recomendada por Jesus é a atenção em manter a rota de nossas vidas apontada para Deus, fonte de nossa felicidade e ponto de encontro com a criação e o Criador. A falsa vigilância assemelha-se ficar frente ao espelho, preocupando-se com os mínimos detalhes da maquiagem, para apresentar-se bem num ambiente fútil.

A vigilância que Jesus ordena é uma fiel atenção em amar sempre e a cumprir a vontade de Deus no momento presente, seguindo os sinais que temos a respeito disso. Mas ela não consiste em perturbar-se, torturar-se, ocupar-se sem cessar de si mesmo, mais que a elevar docemente os olhos a Deus nosso único socorro contra nós mesmos.

Porque a pretexto de vigilância obstinar-se a descobrir o que Deus não quer que nós descubramos enquanto nesta vida? Porque perder por isso o fruto da pura fé e da vida interior? porque se desviar da presença de Deus que quer nos dirigir continuamente?

Ele não disse:

–Seja sempre você mesmo o objeto diante do qual você caminha; Ao contrário, Ele disse:

–Caminhe diante de mim e seja perfeito.

Davi, pleno de Seu espírito, disse:

–Eu vejo sempre Deus diante de mim, e:

–Meus olhos estão sempre elevados ao Senhor, a fim de que eu preserve meus pés dos laços das armadilhas.

O perigo está a seus pés, entretanto seus olhos estão postos no alto: é menos útil considerar o nosso perigo que o socorro de Deus. De mais a mais a gente vê tudo reunido em Deus; a gente vê a miséria humana e a bondade divina; Um único olhar de uma alma correta e pura, tão simples quanto ela seja, percebe tudo nessa luminosidade infinita. Mas o que podemos ver nas nossas próprias trevas, senão as nossas mesmas trevas?

A senhora tem olhos tão profundos e está nesta vida para aperfeiçoar sua visão, porque como disse Nosso Senhor:

–Se seus olhos forem bons, todo o seu corpo será bom.

Olhe tudo pela luz bendita de Deus, veja tudo em Deus, mesmo nos enganos das vontades iludidas, enxergue a vontade poderosa de Deus aproveitando para o bem até aquele que se transvia para o mal, observe a si mesma como filha desse Pai que a ama.

Muita coisa a senhora não compreende e não compreenderá jamais, mas pode compreender a vontade de Deus e cumprindo-a, cantar no imenso coro da criação, numa prece de gratidão, a alegria eterna de viver, irmanada ao vento, aos pássaros, às ondas do mar, e aos seus irmãos.

E com esse canto que ressoará das suas mãos, do seu coração e da sua boca, a senhora estimulará os que lutam, consolará os que sofrem, dará novas forças aos que caíram.

Que a esperança e a fé derramem sempre no coração da senhora a benção do amor e da presença de Deus.

Oh meu Deus! desde que eu não cesse de vê-Lo, eu não cessarei de me ver em todas as minhas misérias, e eu me veria bem melhor em Você do que em mim mesmo.

A verdadeira vigilância é ver em Você, bom Deus, a Sua vontade para cumpri-la, e não raciocinar sobre o estado da minha (vontade) até o infinito. Quando as ocupações exteriores me impedirem de ver Você unicamente, fechando na oração todas as avenidas dos meus sentidos, então eu O verei, Senhor, fazendo tudo em todos. Eu verei, por toda parte, com alegria, a Sua vontade cumprir-se dentro e ao derredor de mim e eu direi sem cessar:

–Amém, como os bem aventurados.

Eu cantarei sempre dentro do meu coração o cântico da Sião celeste.

A Sião celeste, também chamada a Jerusalém celeste, é a visão do reino de Deus que será um dia implantado na terra. João no livro “O Apo­calipse” a descreve mais ou menos nesses ter­mos:

–Eis aqui a habitação onde Deus habitará com os homens, e os homens serão seu povo, e o mes­mo Deus estará com eles e será o seu Deus. E Deus enxugará toda lágrima, e não haverá mais dor, pranto, morte, clamor.... nela não vi nenhum templo, porque o seu tem­plo é o Deus todo poderoso e o Cordeiro... ali nunca mais haverá maldição contra al­guém..

Como nos descrevem os espíritos superiores3, aproxima-se o dia em que a Terra entrará na categoria de “mundo de regeneração”, eis alguns traços, que nos dão uma ideia desse novo mundo, onde o reino de Jesus se desenha nos corações:

A alma penitente encontra neles a calma e o repouso e acaba por depurar-se. ... em todas as frontes, vê-se escrita a palavra amor; perfeita equidade preside às relações sociais, todos reconhecem Deus e tentam caminhar para Ele, cumprindo-lhe as leis...liberta, a alma pairará acima de todos os horizontes. Não mais sentidos materiais e grosseiros; somente os sentidos de um perispírito puro e celeste, a aspirar as emanações do próprio Deus, nos aromas de amor e de caridade que do seu seio emanam.

Eu O bendirei, mesmo entre os maldosos, que pela sua vontade perversa, não deixam de cumprir, malgrado eles, a Sua (vontade) toda justa, toda santa, toda poderosa.

Na casta liberdade de espírito que Você dá às suas crianças, eu agirei e falarei simplesmente, alegremente e com confiança:

–Mesmo quando eu passasse através das sombras da morte eu não temeria nada, porque Você estaria sempre comigo.

Eu não procurarei, jamais, nenhum perigo; eu não assumiria, jamais, nenhum compromisso, senão com os sinais da Sua providência que são minha força e minha consolação. Nas situações mesmo, onde o seu chamado me sustentará, eu darei ao recolhimento, à oração, ao retiro, todos os dias, todas as horas, todos os momentos que Você me deixar livre: eu não deixarei jamais esse estado bem aventurado, a não ser que Você mesmo me chamasse para qualquer função exterior. Então aparentemente eu sairia de Você, mas você sairia comigo, e nessa saída aparente Você me carregaria em Seu seio.

Eu não me procurarei no relacionamento com as criaturas; eu não temerei que o meu recolhimento diminua minha aprovação por elas, e seque minha conversação, porque eu não quero agradar os homens senão no que seja necessário para agradá-Lo.

Se Você quer servir-se de mim, para sua obra sobre eles, eu me disponho; e, sem pensar em mim, eu repartirei com eles tudo o que Você tem gotejado de Você em mim. Eu não andarei tateando, caindo sempre sobre mim mesmo; tão perigosa e dilapidadora quanto seja essa função, eu me comportarei simplesmente diante de Você com uma intenção reta, ciente da bondade do Pai diante do qual eu caminho. Ele não quer sutilezas entre os seus.

Se, ao contrário, você não quiser servir-se de mim para os outros, eu não me oferecerei, eu não irei à frente de nada; eu farei em paz as outras coisas que Você me atribuiu: porque segundo a atração pelo abandono que Você me deu, eu não desejo, nem recuso nada, estou pronto para tudo. E ciente de ser inútil a tudo.

Procurado, rejeitado, conhecido, ignorado, aplaudido, contraditado, que me importa? É Você e não eu. É você, e não seus dons separados do seu amor, que eu procuro. Todos os estados que são bons me são indiferentes.

Amém

1Carta dirigida a Senhora de Maintenon. Nos nossos comentários também nos dirigimos a uma senhora, pela qual sentimos uma mistura de afe­tos filiais e fraternais.

2Maná – alimento que descia do céu todas as noi­tes no deserto e alimentou o povo judeu por 40 anos na sua fuga do Egito, o novo testamento apresenta várias referências ao maná cada vez ca­racterizando-o com um sabor diferente.

31 Kardec - O Evangelho Seg Espiritismo. Cap “Há muitas moradas”

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