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Confiança em Deus

O melhor a fazer é receber, igualmente e com a mesma submissão, todas as diferentes coisas que Deus nos dá no dia a dia, ao redor de nós e dentro de nós.

Fora de nós há coisas desagradáveis que é preciso suportar corajosamente e coisas agradáveis às quais é necessário não entregar o coração.

Resistimos às coisas contrárias aceitando-as; resistimos às coisas sedutoras recusando-nos a lhes abrir o coração.

Deus nos enviou a doença; é hora de demonstrarmos coragem para lutar contra a adversidade e resignação para recebermos essa provação sem revolta.

Deus nos enviou uma situação financeira excelente; é hora de resistir a tentação e não nos apaixonarmos pelo dinheiro, mantendo-o como meio e não finalidade de nossas vidas.

É como se viajássemos num navio com destino determinado; aproveitaríamos todos os ventos que nos chegassem, mas mantendo sempre o rumo pré-estabelecido.

Para as coisas interiores não devemos proceder do mesmo modo: As que são amargas servem para crucificar e elas operam na alma segundo toda a sua virtude, se nós as recebermos simplesmente com uma aceitação sem limites e sem procurar adoça-las.

As que são doces e que nos são dadas para sustentar nossa fraqueza por uma consolação sensível nos exercícios exteriores devem também ser aceitas, mas de uma outra maneira. É preciso recebe-las, pois é Deus que nô-las dá para nossa necessidade, não por amor a elas, mas conforme os desígnios de Deus. É preciso usa-las no momento, como se usa um remédio, sem complacência, sem apego, sem propriedade.

Esses dons devem ser recebidos em nós, mas não devem possuir-nos, afim de que quando Deus os retire, sua privação nem nos perturbe nem nos desencoraje jamais.

Dentro do nosso coração surgiu uma grande amargura; o nossa filha praticou um aborto depois de uma paixão inconsequente; não devemos adoçar a nossa amargura, no sentido de tornar menos relevante a queda, ou mergulharmos numa fantasia fingindo ignorar o problema. Colhamos forças na amargura para reavaliar os erros de educação que cometemos e conduzir o problema para minimizar danos futuros. Esse adoçar o problema deve ser entendido no sentido de que alguém tendo fortes dores e febre, toma analgésicos e anti-térmicos para aliviar e mascarar os sintomas deixando de procurar o médico. Não adoçar, seria então, não mascarar os sintomas e procurar o médico para diagnosticar a causa da enfermidade e trata-la.

Deus nos envia uma agradável sensação de paz ao coração; vamos usufruí-la e nos fortalecer nela, porém sem apego, pois assim como Ele a deu, é provável que no futuro venhamos a experimentar um período de agudas tribulações interiores. Agradecemos a Deus o oásis que sua misericórdia situou no nosso caminho, e prosseguimos enfrentando a secura e o vento com confiança e determinação.

Lembrando o ditado popular: não há mal que nunca termine, nem bem que sempre dure.

A fonte da presunção está no apego a esses dons passageiros e sensíveis.

A presunção é a principal inimiga da confiança em Deus; presumimos que um bem que temos é consequência matemática de nossas altas virtudes e incrível capacidade; ou seja, não é exatamente em Deus que confiamos, mas em que sua justiça fará jus ao nosso valor; ou melhor dizendo confiamos, na verdade, na nossa excelência.

A vida nos seus movimentos nos demonstra justamente o contrário, somos frágeis, ignorantes, eivados de imperfeições. Chega a queda moral, bate a porta o insucesso, ficam patentes os nossos erros; e reagimos afirmando”Não confio mais em Deus, Ele não me auxiliou, Ele me abandonou”

Na verdade o que nos traiu foi a nossa presunção; presumíamos erroneamente valores que não tínhamos, inchados pelo orgulho, e a presunção estourou feito uma bolha de sabão ao contato com o menor obstáculo. Devemos então, face ao insucesso, agir com serenidade, tirar dele os frutos possíveis e continuar trabalhando.

Imaginamos levar em conta apenas o dom de Deus, mas leva em conta a nós mesmos, porque nos apropriamos do dom de Deus, e o confundimos conosco mesmos.

O pior dessa conduta é que todas as vezes que encontramos algum erro de cálculo caímos no desencorajamento.

Mas, uma alma que se apoia somente em Deus não se surpreende com sua própria miséria. Ela sente prazer em ver que ela não pode nada e que Deus sozinho pode tudo. Eu não me sacio nunca de me ver pobre, sabendo que meu Pai possui bens infinitos que Ele quer me dar. Isto é nutrindo meu coração da pura confiança em Deus, vou me acostumando a abandonar o alimento da confiança em mim mesmo.

Entendendo o trabalho como toda e qualquer ocupação útil, uma atitude que favorece a confiança em Deus é assumir a postura “trabalhar para Deus”. Se assumimos trabalhar para nós mesmos, para essa o aquela causa, para tal ou qual organização, para os nossos familiares, será frequente a frustração: não recebemos o salário que pretendíamos, a causa mostrou-se utópica, a organização seguiu um rumo equivocado, o familiar se perdeu.

De outro lado se ”trabalhamos para Deus” através da atividade profissional, no ambiente dessa ou daquela organização, auxiliando esse ou aquele familiar, se o trabalho se transforma num meio de servir a Deus e não aos homens, subordinando ordens, objetivos e leis à vontade de Deus não haverá frustração: mais que o salário objetivei contribuir para a educação dos filhos de Deus; mais que o ideário político e religioso o objetivo era aproximar a sociedade de Deus; mais que o engrandecimento da família pretendia devolver a Deus seus filhos melhores do que Ele mos deu; trabalhei na fábrica produzindo cadeiras, no partido político divulgando ideias, na agremiação religiosa atendendo a tarefas simples, no seio da família tentando dar bons exemplos. Com os olhos e o coração postos em Deus a minha confiança não será traída pelo Pai.

Trabalhar para Deus, no entanto, não deve ser confundido com proselitismo, trabalhar para Deus se inicia com o respeito pela forma de pensar de todas as criaturas. Jesus trabalhando na carpintaria de José, trabalhava para Deus, exemplificando o cumprimento do dever filial e a humildade. Materialmente fazia móveis, portas e janelas para os aldeões de Nazaré, espiritualmente construía o Reino dos Céus que não vem com aparência exterior.

Isto é porque é preciso calcular menos sobre um fervor sensível e sobre certas medidas de sabedoria que a gente toma consigo mesmo para sua perfeição do que sobre uma simplicidade, uma pequenez, uma renúncia a todo movimento próprio e uma brandura perfeita para se deixar levar em todas as impressões da graça.

Um homem do campo afirma:

–Criei este acre de milho e agora vou colher o fruto dos meus conhecimentos sobre agricultura e do meu trabalho.

A afirmação é uma meia verdade: efetivamente plantou o milho e exerceu algum controle sobre as pragas; no entanto, a semente foi produto da evolução e de outros agricultores que a aperfeiçoaram. Os mecanismos biológicos, a chuva, o solo, o vento, os insetos que atuaram na polinização, a sua própria saúde que permitiu o aprendizado e o trabalho e mais uma infinidade de recursos que ele desconhece, não foram consequência de seu saber ou do seu trabalho. Se algum desse fatores tivesse falhado não haveria a colheita, como comumente acontece.

Não valorizemos, pois em excesso o nosso poder, o nosso saber ou o nosso fervor, que são exíguos se comparados com a totalidade do processo. Apoiem-nos sim no amor e na vontade de Deus, e afirmemos:

–Pela misericórdia de Deus participei do milagre da vida que produziu esse milharal; Se a sua vontade permitir que eu participe da colheita desse cereal, que pertence a Deus, vou me esforçar para que esses grãos possam ser úteis a mim e aos meus irmãos, cumprindo a vontade de Deus.

Trabalhar para Deus é muito mais confiável que trabalhar por conta própria, nos campos da vida.

Todo o resto estabelecendo virtudes brilhantes, não faria senão inspirar em nós, secretamente, mais confiança em seus próprios esforços.

A busca de virtudes que os homens exaltariam, aumentar nossos potenciais etc, nada mais é, na maioria dos casos, que estabelecer em si mesmo a fonte dos benefícios num orgulho velado. Se desejamos aumentar nossa valia, cultivemos as virtudes da caridade em primeiro lugar e em segundo a humildade com seu cortejo de filhas tais como a modéstia, a brandura, a simplicidade, a doçura e a mansidão, eis virtudes eficazes.

Peçamos a Deus que ele tire de nosso coração tudo aquilo que queremos plantar de nós mesmos e que Ele plante com suas próprias mãos a árvore da vida carregada de frutos.

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