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Introdução

Biografia de Fénelon

Infância e juventude

François de Salingnac de la Mothe-Fénelon renasceu na França no castelo de sua família, em Perigord em 1651.

Seu pai Pons de Salingnac era militar, descendia da velha nobreza francesa; sua mãe Louise de La Copte de Saint Abre, segunda mulher de seu pai, era igualmente nobre, aparentada de Gabriel de la Copte, vigário geral do arcebispado de Cambrai, onde Fénelon seria o futuro Arcebispo.

Teve dois tios paternos que influenciariam bastante sua vida: François de Salignac, Bispo de Sarlac, ligado a São Vicente de Paulo, seria quem nomearia Fénelon, cônego de Sarlac, quando seu sobrinho completasse vinte anos dando origem a sua carreira eclesiástica; o outro tio o Marquês de Fénelon-Magnac, seu preceptor e tutor possuía ligações com a corte e com algumas importantes sociedades religiosas da época.

Embora nobres, seus pais tinham uma situação financeira bem modesta, e Fénelon mais de uma vez em sua vida, agradeceu a Deus lhe ter dado a benção da pobreza.

Pouco se sabe de sua juventude e quanto a sua mocidade, são conhecidos os principais fatos de sua carreira eclesiástica: aos 20 anos era cônego; cursou a Universidade Cahors; aos 26 era doutor em teologia e ordenou-se sacerdote católico; aos 30 era deão1.

Até os 36 prossegue a sua vida de eclesiástico atuando principalmente como pregador;

Ascensão social

Aos 36 anos, aproximadamente, Fénelon publica o livro “A Educação das Filhas”, que tem grande repercussão e sucesso, a partir de então Fénelon passa a produzir outras obras literárias.

Nos oito anos seguintes, acumula diversos títulos importantes: como consequência do “Educação das Filhas”: é nomeado preceptor do neto do Rei Luiz XIV ; faz inúmeras amizades na corte inclusive com a Senhora Maintenon, a favorita (ou esposa, pois diz-se que houve um casamento secreto) do Rei. Fénelon é nomeado também preceptor do duque d’Anjou e do duque de Berry; é eleito membro da Academia Francesa; torna-se amigo de Bossuet, considerado na época o maior pregador da França; mais tarde é nomeado abade de Saint Valey sur Sommes e finalmente ao 44 anos é nomeado Arcebispo de Cambrai.

Chegara assim ao topo social, possuía inúmeros títulos e estava inserido na elite política, religiosa e intelectual da França.

Queda rápida

A despeito de suas relações na corte, o encantamento que seu gênio intelectual produzia e a delicadeza com que se expressava face aos desvios morais, a elite francesa descobre, algo tardiamente, que as ideias de Fénelon a condenam. Ele prega o desprezo à pompa, ao interesse próprio, entende o orgulho como enfermidade, a cobiça como loucura, a libertinagem como decadência.

O Rei, o Alto Clero e a Nobreza em geral, no seu orgulho, na sua arrogância, no seu descaso pelos pobres e plebeus, descobrem que as ideias de Fénelon apresentavam o destaque social, a riqueza financeira, os privilégios de nascimento como nada, que na essência ele se abraça a cruz de um carpinteiro pobre e desprezado pelos homens, que não teve nenhum título.

Começa então a ficar claro que ele está do “outro lado”, que levar a sério suas ideias tão bonitas, enunciadas de forma tão encantadora e delicada, será abrir mão dos privilégios, ajoelharem-se no chão, arrependerem-se de suas vidas devassas renunciarem a si mesmos, deixarem os palácios, dar pão aos que têm fome e, sobretudo, levar uma vida simples.

Descobrem que sua pregação não é decorativa, movida pela vaidade intelectual e pela hipocrisia, mas é para valer, não só prega, mas acredita e vive a mensagem cristã do amor a Deus e ao próximo com humildade e desprendimento; percebem também que muitos estão levando a sério as ideias de Fénelon, tentando segui-las; Inconscientemente leem no fundo do pensamento de Fénelon as palavras “liberdade, igualdade e fraternidade”, que seriam o lema da revolução francesa, que destruiria a nobreza, o poder do rei e o alto clero um século mais tarde.

Sentem-se assim ameaçados e traídos pelo nobre, que desprezava a nobreza de sangue, e achava que o que mais importava era ser correto, amar a Deus e praticar a caridade; desconsiderados pelo prelado que afirmava que os apóstolos que não tinham funcionários, nem exércitos, nem ministros de estado haviam feito mil vezes mais pelo Evangelho de Jesus que a “Corte de Roma”; desprezados pelo intelectual que afirmava que o saber humano era “pouco mais que nada” e que “as muitas reflexões obscurecem as decisões do coração que são as mais importantes”; o Rei, a Nobreza e o Alto Clero tomam a decisão que lhes parece mais sensata: desacreditar o homem, despojá-lo de qualquer recurso e com isso fazer murchar a ideia que estava proliferando com beleza e viço.

Assim, dois anos depois de tê-lo nomeado arcebispo, iniciam uma série de ações, que entre 1697 e 1699, tirariam todos os seus privilégios: o Rei proíbe a Fénelon sair de sua diocese, em consequência durante os próximos 17 anos, até sua morte, conseguirá uma única licença para afastar-se da diocese e ainda por breve período; ocorre o incêndio do palácio episcopal de Cambrai; Fénelon é privado do título de preceptor das crianças da França e da correspondente pensão; Bossuet o ataca e ridiculariza; bispos importantes da França reúnem-se e condenam seus livros; o Rei escreve ao Papa solicitando a condenação de algumas de suas obras; o Papa atende, condenando-as; a maioria dos amigos da corte se afasta.

Aos 48 anos, o brilho político, social e intelectual estava apagado.

Produzindo intensamente.

A partir da sua “queda”, recolhido em Cambrai, Fénelon trabalha arduamente, atendendo às suas tarefas eclesiásticas fazendo e recebendo visitas, dando suas orientações também por escrito, seja através de cartas pessoais ou livros destinados ao público em geral.

O seu confinamento é favorável a disseminação de suas ideias, pois impedido de locomover-se, escreve muito. Seus textos se estendem por milhares de páginas abordando variados temas; um seu sobrinho-neto se encarrega de publicá-los; são impressos algumas centenas de milhares de volumes, tiragem muito grande para a época.

Em novembro de 1714, atravessando uma ponte, a carruagem em que viaja sofre um acidente. Fénelon estava com 63 anos e aparentava superar bem as lesões.

Porém em princípio de Janeiro de 1715 surgiu uma febre e na madrugada de 7 de janeiro de 1715 Fénelon entregou sua alma a Deus.

Um depoimento importante

Um século e meio após sua morte, Fénelon volta a escrever, agora na situação de espírito, através de médiuns, contribuindo na codificação da doutrina espírita.

O culto educador Allan Kardec, que com seu interesse amplo pela educação, estudou a obra de Fénelon, debruçando-se não só sobre os seus textos pedagógicos, mas também sobre outros temas, expressou assim sua opinião no “Livro dos Espíritos”:

“Aquele que se dissesse Fénelon, por exemplo, e ainda que acidentalmente ferisse o bom senso e a moral, mostraria nisso mesmo o seu embuste. Se ao contrário os pensamentos que exprime são sempre puros, sem contradições, constantemente a altura do caráter de Fénelon, não haverá motivos para se duvidar da sua identidade. Do contrário teríamos que supor que um espírito que somente prega o bem, pode conscientemente empregar a mentira sem nenhuma utilidade. A experiência nos ensina que os espíritos do mesmo grau, do mesmo caráter e animados dos mesmos sentimentos, reúnem-se em grupos e em famílias. Ora, o número dos espíritos é incalculável, e estamos longe de conhece-los a todos; a maioria, mesmo, não tem nome para nós. Um espírito da categoria de Fénelon pode, portanto, vir em seu lugar, as vezes mesmo com o seu nome, porque é idêntico a ele e pode substitui-lo e porque necessitamos de um nome para fixar as nossas ideias. Mas que importa, na verdade, que um espírito seja realmente o de Fénelon? Desde que não diga senão boas coisas e não fale senão como o faria o próprio Fénelon, é um bom Espírito...”

Prefácio

A caridade é, em todos os mundos, a eterna âncora de salvação; é a mais pura emanação do próprio Criador”1

A tônica de toda a obra de Fénelon é o amor, que tem por base o amor a Deus. Neste volume, entretanto, procuramos abordar alguns textos que falam do amor em si mesmo, procurando distingui-lo do egoísmo, pois é corriqueiro mascararmos o egoísmo com o manto do amor.

Os textos selecionados envolvem trechos da obra de Fénelon enquanto encarnado e também mensagens obtidas através de médiuns e selecionadas por Allan Kardec.

Aos textos específicos sobre o amor acrescentamos capítulos sobre:

O reconhecimento, que atesta a existência do amor, tanto quanto a ingratidão é sintoma de egoísmo;

A tristeza, cuja presença, em última instância, é sintoma da ausência do amor a Deus;

O ódio, pois sendo o oposto do amor ajuda a compreendê-lo por um raciocínio de negação: se negarmos profundamente todo o ódio teremos o amor;

O egoísmo, antítese da caridade e principal inimigo do amor puro.

A confiança em Deus por ser prova de amor;

A prece que, no seu fundamento, é uma declaração de amor a Deus.

Os comentários são abundantes para elucidar melhor alguns trechos de Fénelon, dada a distância cultural entre a França do século 17 e o Brasil do século 21, além do que a Doutrina Espírita contribui decisivamente no esclarecimento de certas questões.

Para diferenciar as várias origens dos textos valemo-nos da seguinte convenção tipográfica:

Textos de Fénelon são escritos em tipo normal

Comentários nossos foram feitos em “itálico” e com margens a esquerda e a direita;

Trechos de Fénelon  foram escritos em negrito e com margens destacadas;

citações bíblicas tem uma margem maior a esquerda e estão em itálico.

Se o leitor quiser enviar-nos seus comentários, críticas, sugestões, perguntas, por e-mail, ficaremos gratos pela contribuição, que certamente enriquecerá este e os próximos volumes da série.


1Evangelho Segundo o Espiritismo

1Superior eclesiástico que preside um grupo de clérigos

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