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Prece

1Tempestades das paixões humanas, abafador de bons sentimentos, dos quais todos os bons Espíritos encarnados têm uma vaga intuição no fundo da consciência, quem acalmará a sua fúria?

A palavra “paixão” é entendida aqui como toda compulsão que submete o homem e o força na direção do mal, mesmo contra sua vontade. O copo de aguardente que se bebe por não se resistir ao alcoolismo; a bofetada que se dá num filho, por não conseguir controlar-se no ataque de cólera ou o desequilíbrio sexual que não se consegue conter.

O homem olha dentro de si e sente-se impotente face aos próprios impulsos e assiste apavorado a ruína de sua vida em virtude dessas forças destruidoras que nascem dentro dele e o dominam. Olha também em torno e observa as mesmas dificuldades assolando entes queridos num círculo mais próximo, e, alongando o olhar, vê os problemas sociais da toxicomania, da cobiça, da cólera, da arrogância, submetendo multidões de todos os povos, e se pergunta: Como conter a fúria desses inimigos da humanidade que nascem na própria alma humana?

É a prece que deve proteger os homens contra o fluxo desse oceano em cujo seio encerra os monstros horríveis do orgulho, da inveja, do ódio, da hipocrisia, da mentira, da impureza, do materialismo e das blasfêmias.

A oração é a resposta.

Santo Agostinho era um homem de grande capacidade intelectual, poderoso na suas argumentações de homem inteligente e culto. Dissoluto, apegado ao lucro, assumia que o mal era eterno, e que as “coisas sempre foram e serão assim...”

Sua mãe, Mônica, discordava; como cristã sincera acreditava na força do bem, na justiça de Deus; porém como mulher simples como argumentar com o filho desencaminhado? Mal começava amorosamente a expor-lhe seus desatinos e Agostinho a fazia calar-se com uma enxurrada de argumentos, raciocínios, citações de filósofos célebres etc.

Porém, Mônica tinha a força da fé, e por trinta anos orou, na solidão de seu quarto, pedindo a Jesus que o filho se modificasse e seguisse o caminho da honradez, da verdade, do bem e do amor.

E após trinta anos de orações a enfermidade moral do filho cedeu. Agostinho descobriu que estava errado, que podemos mudar o curso da coisas, que podemos ser um agente de transformação para o bem, dentro de nós e fora de nós.

Desapareceu o Agostinho interesseiro e libertino, e surgiu o Agostinho, homem de bem, que faria grandes obras nas letras e na alma das pessoas.

O dique que vocês opõe (às paixões) pela prece é construído com a pedra e o cimento mais duro e na sua impotência para o transpor, eles vêm esgotar em vão os esforços contra ele e entram, sangrando e amortecidos, no fundo do abismo.

Diminuindo seu poder sobre a mente humana as más paixões vão se enfraquecendo: de “senhoras absolutas”, passam a “adversárias tenazes”, depois a “sensações incômodas”, a “lembranças desagradáveis” e finalmente caem no esquecimento e desaparecem. A doença moral foi curada, o vício vencido.

Ó prece do coração, incessante invocação da criatura ao criador, se conhecessem a sua força, quantos corações arrastados pela fraqueza teriam recorrido a você no momento da queda! Você é o preciso antídoto que cura as feridas, quase sempre mortais, que a matéria abre nos Espíritos fazendo correr em suas veias o veneno das sensações brutais.

Não é a carne que é fraca; é o Espírito que é fraco e se subordinando a matéria, adoece, capitula diante das sensações enfermiças e se entrega ao vício.

Mas como é restrito o número daqueles que oram bem! Vocês creem que depois de haver consagrado grande parte do seu tempo recitando fórmulas que aprenderam ou lendo os seus livros, terão bastante mérito diante de Deus?

A prece não é movimento labial, mas luz que nasce do sentimento unido a razão numa fé sólida dirigida a Deus.

A prece é sempre produto da mente em busca do Criador; pode apoiar-se numa fórmula verbal, numa imagem, num ato, numa lembrança, para atingir o estado mental chamado prece.

Um pássaro menos ágil necessita de alguns metros de solo, para alçar voo. A corrida desajeitada no solo não é o voo, mas auxilia voar, nem é indispensável ao voo, pois há pássaros que alçam voo sem esse recurso. Assim as fórmulas verbais e outros recursos; auxiliam a orar mas não são a prece. A rigor, mesmo a mais sublime fórmula de prece que é “O Pai Nosso”, não pode ser entendida como uma prece, são apenas palavras. Palavras que, se mentalizadas com entendimento e sentimento, levarão ao estado mental de prece. Palavras que, de outro lado, ditas de forma mecânica e automatizada, serão apenas desperdício de tempo e ingratidão a Deus.

Desiludam-se.

A boa prece é a que parte do coração; não é difusa

A prece não deve apontar para todas as direções, nomear todas as necessidades. Que diríamos de um filho tagarela que passasse o tempo todo pedindo tudo que passasse perto dele, dirigindo-nos sua palavra sem interrupção para pedir, para louvar, para agradecer. Certamente nós o repreenderíamos e procuraríamos educa-lo para perder esse mau hábito.

Com o Pai Celeste é a mesma coisa: falar muito não é falar bem. Na oração sigam a recomendação de Jesus no Sermão da Montanha:

–Quando você orar, entre no seu quarto, feche a porta, e ore a seu Pai que está em segredo; e seu pai que vê o que está em segredo, te recompensará; não use vãs repetições, como fazem os gentios que pensam que falando muito, serão ouvidos. O seu Pai sabe o que lhe é necessário, antes mesmo que você o peça.

A prece apenas de vez em quando deixa escapar seu grito para Deus em aspirações, ou em desgosto, ou em perdão, como para lhe implorar venha em nosso socorro, e os bons Espíritos a levam aos pés do Pai justo e eterno e esse incenso lhe é perfume agradável. Então ele os envia em bandos numerosos para fortificar os que oram bem contra o Espírito do mal; tornam-se fortes como rochedos inamolgáveis; veem quebrar-se contra si as vagas das paixões humanas e, como se comprazem nessa luta que lhes deve cumular de méritos, como a alcíone2, constroem seus ninhos em meio às tempestades.

Na provação a prece é mais poderosa e frutuosa. Nas tempestades da vida a alma cresce, amadurece, descobre Deus e os verdadeiros valores. No meio da confusão exterior encontra a fortaleza interior e com ela a paz.

A alcíone constrói seu abrigo no rochedo assolado pelos temporais. Aproveitemos os vendavais da vida, as circunstâncias duras e difíceis de galgar para fortalecermos nossos músculos morais.

1 Mensagem recebida de Fénelon por via mediú­nica e enviada pelo sr. Sabo, de Bordeaux

2 Alcione também conhecida como martim-pes­cador (Alcedo atthis) encontrado na Europa e na Ásia, com cerca de 16 cm de comprimento, plu­magem dorsal azul iridescente e partes inferiores castanho-avermelhadas;

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