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Reconhecimento

1O esquecimento de si mesmo, do qual a gente fala seguidamente, para as almas que querem procurar Deus generosamente não impede o reconhecimento dos seus benefícios.

Gratidão ou cobiça?

O primeiro passo na direção da gratidão é o reconhecimento; reconhecemos que recebemos um benefício e nesse momento uma alternativa moral se nos apresenta:

  • Atitude amorosa: sentirmo-nos gratos pelo benefício recebido e envolvermos nosso benfeitor com nosso amor, ou

  • Atitude egoísta: calcularmos as vantagens que tivemos e aplicarmos nosso raciocínio em como fazer para obter mais vantagens daquele que se mostra uma fonte de facilidades e lucros.

Para agir corretamente é necessário, portanto, esquecermo-nos, o que não implica em que não sejamos gratos pelo que recebemos e reconheçamos a bondade de Deus para conosco.

Aquele, entretanto, que reconhece os benefícios recebidos, mas adota uma postura de cobiça, onde diariamente computa as vantagens que obtém de Deus, à semelhança de um financista acompanhando os resultados de seus investimentos, denota um egoísmo maior do que um outro que nem sequer reconhece que foi beneficiado.

Examinando mais profundamente o reconhecimento egoísta, percebemos que é um reconhecimento enganoso pois reconhece que houve um benefício, descobre de onde veio o benefício, mas não reconhecendo o “porque” do benefício, que é o amor de Deus, afasta-se de Deus mergulhando no erro.

Uma mãe ama o filho e em virtude do seu amor beneficia-o tecendo-lhe um agasalho; o filho reconhece que foi beneficiado pela mãe e passa a raciocinar em “como tirar mais coisas da velha”. Nesse momento ele desconsidera o bem maior de todos que é o amor filial que deveria sentir, estimulado que foi pela amor de sua mãe; talvez consiga muitas coisas de sua mãe, mas o vazio que instilou no próprio coração é um mal maior. De outro lado, se enchesse o próprio coração de ternura ao receber o gesto de carinho de sua mãe, teria posto no coração a semente de um tesouro maior que todas as vestes do mundo.

Condição inicial: esquecer-se

O reconhecimento não consiste em não ver jamais nada em si, mas somente em não ficar jamais encerrado em si mesmo, ocupado dos seus bens ou de seus males numa visão de propriedade ou interesse.

É essa ocupação de si mesmo que nos distancia do amor puro e simples, que amesquinha nosso coração e que nos distancia da nossa verdadeira perfeição, à força de nos fazer procurá-la com afobação, perturbação e inquietação por amor de nós mesmos.

Mas desde que a gente se esqueça, isto é, que a gente não procure mais voluntariamente o próprio interesse, nós não deixaremos de nos ver no bem em muitas ocasiões.

É preciso sair de si, não pensar em si. Detectado o benefício e o benfeitor direcionar os potenciais da alma em desenvolver o doce amor pelos benfeitores que se chama gratidão; da mesma forma que só vale examinar as faltas passadas para repará-las, só vale reconhecer os benefícios recebidos para que despertem em nós o amor.

O amor precede inclusive o desejo de retribuição. Quando há o impulso de retribuir desligado do alicerce primeiro que é o amor, a retribuição corre o risco de, na verdade, ser apenas um pagamento movido pelo orgulho. As fases desse processo equivocado pode ser assim compreendido:

1. alguém nos beneficiou, deu-nos um pão, por exemplo, quando tínhamos fome;

2. o que registramos foi o nosso orgulho ferido; ficou demonstrada a nossa incapacidade de nos alimentar com nossos recursos;

3. para escaparmos à humilhação pagamos ao nosso benfeitor, prestamos a ele um serviço;

4. Se alguém nos questiona, diremos com o queixo levantado:

– Não devo nada a ele; o serviço que lhe prestei vale mais que esse pãozinho.

Na verdade o que seria correto:

1. alguém nos beneficiou, deu-nos um pão, por exemplo, quando tínhamos fome;

2. Registramos uma grande simpatia e gratidão pelo nosso benfeitor a expressar-se por um sentimento de amor;

3. Percebemos uma necessidade do nosso benfeitor que podia ser resolvida pela prestação de um serviço

4. Se alguém nos questiona, diremos com o alegria:

–Prestei-lhe esse pequeno serviço porque gosto dele, essa simpatia nasceu quando ele aliviou minha fome com um pãozinho.

Porém para que esse amor de gratidão flua, a primeira regra é esquecer-se, no sentido de não pensar; “o que mais eu poderei ganhar com isso”, ou “preciso avaliar até que ponto foi a vantagem desse benefício”

Ver e ver-se através do amor de Deus

A gente não se olha por amor de si mesmo, mas a visão de Deus que a gente procura, nos dá seguidamente, como que por contra-golpe, certa visão de nós mesmos.

É como um homem, que olhando um outro, em torno do qual existe um grande espelho; considerando o outro ele se vê e se encontra sem se procurar. Assim é que na pura luz de Deus é que nós vemos perfeitamente a nós mesmos. A presença de Deus, quando ela é pura, simples e sustentada por uma verdadeira fidelidade da alma e pela mais exata vigilância sobre nós mesmos, é o grande espelho onde nós descobrimos até a menor nódoa de nossa alma.

Ao contemplar o Criador a criatura vê a criação. Observando os inumeráveis seres criados, vemo-nos como um ponto na multidão; somos um dentre os cinco bilhões que povoam a crosta terrestre, submetidos às mesmas dores e com as mesmas oportunidades. Tomamos consciência da nossa pequenez, do ridículo que é a preocupação com o destaque; ao mesmo tempo descobrimos que somos uma das incontáveis “crianças queridas de Deus” e comparamo-nos às formiguinhas andando de lá para cá sobre a proteção do mesmo Deus.

Um camponês encerrado em seu vilarejo, não conhece senão imperfeitamente a miséria; mas façam-no ver ricos palácios, uma corte soberba e ele conceberá toda a pobreza de seu vilarejo e não poderá deixar de sofrer seus farrapos a vista de tanta magnificência. É então que vemos a nossa fealdade e a nossa nulidade diante da beleza e da infinita grandeza de Deus.

Comparados à beleza, ao poder, à sabedoria, ao amor de Deus, tomamos consciência de que nada somos; porém essa descoberta não nos empobrece, ao contrário, nos embeleza.

Voltando a imagem anterior: ao nos considerarmos grandes e elevados parecemos uma formiguinha inchada, arrastando-nos desajeitadamente pelo chão; ao nos conscientizar de nossa pequenez, desinchamos,e magrinhos e ágeis com nossas perninhas que parecem fios de cabelo, passamos a ser formiguinhas ligeiras a trabalhar com desembaraço e graça.

Ver a misericórdia de Deus

Mas se o raio da luz divina o aclara interiormente, ele vê o abismo do bem que é Deus, o abismo do nada e do mal que é a criatura corrompida

Mas mostrem quanto lhes aprouver a vaidade e o nada das criaturas pelos defeitos das criaturas; façam registrar a brevidade e a incerteza da vida, a inconstância da fortuna, a infidelidade dos amigos, a ilusão das grandes praças, as amarguras que são inevitáveis, os erros de cálculo das grandes esperanças, a inconsistência de todos os bens que se possui, a realidade de todos os males morais que se sofre; por mais verdadeiros que sejam, por mais fácil que seja percebê-los e senti-los, não fazem senão boiar no coração; eles não passam da superfície; o fundo do homem não está mudado.

O homem suspira por se ver escravo da vaidade e de não sair dessa escravidão.

Por mais que tenhamos provas e experiências concretas do nada que são as vaidades mundanas, infelizmente continuamos apegados a elas; mesmo quando agredidos e rejeitados pelas ilusões, ainda assim nós as desejamos. O nosso repúdio a vaidade e a ilusão é apenas teórico, superficial, no fundo do nosso coração continuamos a querer as glórias mundanas.

Mas se o raio da luz divina o aclara interiormente, ele vê o abismo do bem que é Deus, o abismo do nada e do mal que é a criatura corrompida; ele se menospreza, ele se odeia, ele se retira, ele se teme, ele renuncia a si mesmo, ele se abandona em Deus, ele se perde Nele. Feliz perda! Porque nesse momento ele se encontra sem procurar-se. Ele não tem mais interesse próprio e tudo lhe beneficia; porque tudo se torna em bem para aqueles que amam a Deus.

Ah, que momento alegre, quando percebemos os nossos erros, a nossa corrupção pelas ilusões mundanas, ao mesmo tempo em que descobrimos a pureza e a grandeza de Deus. Damos um salto abandonando as propinas sórdidas das vantagens do erro e nos abraçamos a riqueza infinita do amor de Deus; deixamos a ilusão e encontramos a realidade; percebemos o quanto temos pois a mais ínfima realidade muito supera em beleza e utilidade a maior das ilusões.

Ele vê as misericórdias que vem a esse abismo de fraqueza, de nulidade e de pecado; ele vê e se compraz nessa visão.

Há dois objetivos que se opõe: os desejos egoístas e o desígnios do amor de Deus: o do desejo egoísta que quer a fortuna amoedada e o do amor de Deus que leva-nos ao desprendimento. O desejo egoísta quer a comodidade, o amor de Deus nos conduz a capacidade de realização; o desejo egoísta quer proteção quanto aos medos descabidos, o amor de Deus incentiva-nos a conquista da coragem.

Na nossa ilusão achamos que Deus se opõe a nós e às outras criaturas, mas descobrimos pelo amor desse mesmo Deus, que Ele se opõe ao que nos destrói e que Ele trabalha por dons cujo valor não seríamos capazes de imaginar: ao líder da nação dá a oportunidade de aprender no que consiste o valor do poder; assim como ensina ao morador da pequena choupana o valor da simplicidade e do desprendimento; passamos a ver Sua misericórdia quando dá a riqueza e a pobreza, a alegria e a tristeza, a saúde e a doença. Observamos Deus repetindo mil vezes e pacientemente cada lição nas vidas sucessivas, e vemos o quanto Sua misericórdia envolve a todos. O prazer dessa visão é imenso.

Notem que aqueles que não são suficientemente avançados na renúncia a si mesmos, olham ainda esse curso de misericórdias divinas em referência a sua própria vantagem espiritual na proporção que elas inclinam-se ainda, mais ou menos, em direção a si mesmos.

Eu amo minha mãe, porém necessito frequentemente “contemplar os benefícios que ela me fez”; essa necessidade de rememorar constantemente o quanto ela foi boa para comigo, apresenta-se como uma espécie de “bengala” para que eu vença a insegurança do meu amor.

Ora como a inteira desapropriação da vontade é muito rara nesta vida, são poucas as almas que não veem ainda, não observam e não tem, sequer, necessidade de observar as misericórdias recebidas nos benefícios dos frutos da sua salvação.

Eu sou grato a minha mãe, reconheço a sua dedicação não só a mim mas aos meus irmãos; esse sentimento brota espontâneo, independente de eu enumerar o que ela fez, quais foram as vantagens e os frutos de cada ação dela etc. Eu não tenho mais necessidade sequer de ficar observando o que ela faz de bom. Eu a reconheço boa e isso me basta; não necessito de uma “contabilidade de benefícios” continua para reconhecer que ela é um presente de Deus.

De sorte que essas almas não tendo mais nenhum interesse próprio, não deixam de ser ainda muito sensíveis a esse grande interesse. Elas estão deslumbradas de ver uma mão todo poderosa que as arrancou delas mesmas, que as livrou de seus próprios desejos, que quebrou suas algemas, enquanto elas não sonhavam senão mergulhar na sua escravidão, que as salvou, por assim dizer, malgrado elas mesmas, e que teve prazer em lhes fazer tanto bem quanto elas faziam de mal.

É interessante essa profunda gratidão a Deus das almas recém saídas do mal, pelas bençãos de Deus que as libertou delas mesmas, salvando-as dos seus próprios desejos nefastos. Agradecem este “não” divino que as amparou libertando-as dos erros e conduzindo-as ao bem e a felicidade.

Degraus do Reconheci­mento

Nossa gratidão tem uma longa escala a percorrer:

1° Degrau: agradecimento pelas coisas agradáveis: aprendamos a observar tudo que Deus nos concede; Leon Tolstoi, o grande escritor russo, convivia com um homem que sempre se queixava da sua pobreza: certa feita Tolstoi chamou -o e disse-lhe:

  • Você gostaria que eu lhe desse tantos milhares de rublos2 ?

  • Oh sim, senhor, seria uma alegria imensa, eu lhe ficaria eternamente grato...

  • Mas há uma condição...

  • Qual senhor?

  • Que você permita que eu lhe arranque os olhos...

  • Ah dessa forma eu prefiro continuar pobre.

  • Posso então lhe dar tantos milhares de rublos ( e falou uma quantia igualmente vultuosa, o que você acha?

  • Seria a minha felicidade...

  • mas há uma condição, que você permita que eu lhe corte o braço direito...

O homem negou-se com veemência, e assim prosseguiu o diálogo. Tolstoi oferecendo-lhe muito dinheiro, mas sempre exigindo um pedaço do corpo do pobre camponês; e o camponês recusando.

Ao fim Tolstoi disse-lhe:

– Na verdade você não é pobre, pois apenas a riqueza do seu corpo, segundo a sua própria avaliação, vale mais que alguns milhões de rublos...

Deus nos oferece infinitas situações que, se bem observadas e vividas, seriam causa das sensações mais agradáveis, e teriam condições de espalhar com grande frequência o sorriso no nosso semblante: demonstrações de afeto de encarnados e desencarnados, oportunidades de crescimento e auxílio ao próximo, espetáculos da natureza etc. Mas o hábito da queixa, a fixação no mal, o pessimismo crônico, preocupações por males que nunca acontecerão, lançam seu véu de sombras sobre estas fontes de luz e ei-nos de cara fechada, com expressões de tédio, cansaço e angústia absolutamente desarrazoadas.

Aprendamos a descobrir o quanto de coisas agradáveis Deus nos dá e cultivemos sempre a esperança, o otimismo e a alegria.

2° Degrau: agradecimento pelas coisas desagradáveis – é certo que nossas vidas têm momentos de justificada tristeza e de dores reais. Jesus afirmava: “quem quiser vir após mim tome a sua cruz e siga-me”; mas o mesmo Jesus acrescentava que “vinde a mim todos que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei”. A cruz se não é agradável, tem, no seu bojo, a força da redenção e da purificação, queimando as nossa misérias.

Um homem é paralítico e sofre com sua imobilidade. A medicina avança e surge a oportunidade da intervenção cirúrgica que lhe devolverá os movimentos; ele sonha esperançoso com o dia que poderá correr pelos campos, galgar com agilidade as escadas do edifício onde trabalha, praticar o seu esporte predileto. Sabe das dificuldades da cirurgia, o quão desagradável será permanecer alguns meses no hospital, enfrentar injeções e curativos, mas que bem estar ele sente, sabendo que ficará livre da enfermidade que o atormenta há muitos anos; e emocionado agradece à equipe médica que fará a importante operação.

Assim são as dores que o Bom Deus nos envia, dores de tratamento e cura.

3° Degrau: exclusão da inveja não adianta, no entanto, alegrarmo-nos pelo bem que nos acontece, se nos entristecemos com os benefícios que os outros recebem. Lutemos com todas as nossas forças contra o sentimento de inveja que nos vitima quando um irmão nosso recebe um dom de Deus: por que ficarmos tristes se o nosso cunhado, ou o nosso vizinho conseguiu um automóvel melhor que o nosso? Por que essa expressão de desagrado ao descobrir que o colega com o qual antipatizamos foi promovido a um posto melhor? Combatamos esses sentimentos ruins que nos trazem a tristeza perversa que nasce quando a bondade de Deus agracia nosso irmão; excluamos igualmente a torpe alegria que possa nos assaltar quando Deus na sua bondade permite ao nosso irmão beber o cálice amargo do remédio do sofrimento.

4° degrau: gratidão pelo que os outros recebem – tudo nesse momento é igual, porque o “para mim” está perdido e anulado, o “para mim” não é mais que o “outro”.

Ampliemos a alegria da gratidão pelo bem que Deus concede aos outros. Nosso Senhor dizia que há mais alegria no Céu por um pecador que se converte do que por noventa e nove justos.

Agradecemos a Deus por ele nos haver tirado do mau caminho e nos aberto perspectiva melhor de vida, através do caminho do bem; mas não basta sermos gratos pela nossa conversão ao bem, devemos ser gratos também pelos nossos irmãos que igualmente deixam o caminho do mal.

Um espírito elevado, habitante de moradas celestiais de beleza indescritível, possuidor de grande poder e vasto cabedal intelectual, dirige seu olhar para a terra, e observa uma prostituta ignorante que vende o corpo numa rua qualquer da grande cidade, abandonar sua atividade, mudar-se para uma cidade do interior, constituir família e trabalhar no campo auxiliando seu marido. O espírito superior sente uma alegria infinita, faz uma prece agradecendo a Deus e seus olhos marejados de lágrimas, envolvem aquela mulher trabalhando naquele município perdido no sertão brasileiro, com imenso amor e no seu coração pronuncia as sublimes palavras:

–Minha irmã querida, abençoada sejas.

Ela sente uma alegria desconhecida, acaricia o próprio ventre que abriga um futuro filho e prossegue com novo ânimo o seu trabalho.

Os espíritos superiores, embora tão distantes de nossa realidade, sentem isso porque amam, e nós que estamos tão perto de tantas dores e tantas misérias, quando iremos abrir os olhos e ver o nosso irmão com fome, com sede, enovelado nas perturbações? Oh bom Deus, abra meus olhos e meu coração para que eu seja solidário!

É verdade que uma alma inteiramente pura e desapropriada, como são os santos do céu, olham com tanto amor as misericórdias derramadas sobre os outros, quanto as misericórdias que elas mesmas recebem; porque não se computando mais em nada, elas amam tanto o que bem apraz a Deus, as riquezas de sua graça, e a glória que ela tira da santificação dos santos, quanto ela tira da sua própria santificação É Deus somente que é tudo em todos. É Ele somente, que a gente ama e que a gente almeja, Quem faz toda alegria do coração nesse amor desinteressado. Nos deslumbramos com sua misericórdia, não por amor de nós mesmos, mas por amor Dele. Agradecemos ter feito a Sua vontade e Ele ser glorificado. Ele mesmo, como nós pedimos no Pai Nosso, que Ele se digne a fazer a sua vontade e dar glória ao Seu nome.

Nesse estado não é mais por nós que agradecemos. Mas esperando tudo por esse estado bem-aventurado, a alma tendo ainda a ela mesma, é esperançada por esse resto de retorno a si mesma. Tudo que existe ainda de retorno sobre si excita um vivo reconhecimento. Esse reconhecimento é ainda um amor mesclado e recoberto sobre si, em lugar do (amor) das almas perdidas em Deus, tais aquelas dos santos que é um amor imenso, um amor sem retorno sobre o interesse próprio, um amor tão transportado pelas misericórdias feitas aos outros quanto a si mesmo; um amor que não recebe os dons de Deus senão pelo puro interesse da glória de Deus mesmo.

Agir de acordo com nossa evolução

Nada é mais perigoso do que ir além das medidas do seu estado, nada seria mais nocivo à uma alma que tendo necessidade de ser sustentada por sentimentos de gratidão, privar-se dessa alimentação que lhe é própria e correr atrás de ideias de uma perfeição mais alta que não lhe convém.

Quando a alma é tocada da lembrança de tudo o que Deus faz por ela, é um sinal certeiro que ela tem necessidade dessa recordação, suponha mesmo que ela tenha nessa recordação uma certa alegria interessada sobre o seu bem estar. Ela precisa deixar esta alegria em liberdade e dentro de toda a sua expansão.

O amor, ainda que interessado, santifica a alma.

Ela precisa aguardar pacientemente que Deus mesmo venha purificá-lo. Isto seria antecipar e empreender aquilo que a Ele somente está reservado qual o de querer eliminar do homem todos os motivos onde o interesse próprio se mistura com aquele de Deus. O homem, ele mesmo, não deve constranger seu coração aqui na terra, nem renunciar, antes do tempo, aos apoios dos quais sua falta de firmeza tem necessidade. A criança que marcha sozinha antes que a gente a deixe cairá pouco tempo depois. Não é ainda o momento de eliminar as fitas com as quais sua governanta a sustém.

A alegria e a esperança devidas a satisfação dos nossos interesses pessoais, embora possam ser consideradas apoios que os espíritos mais adiantados não necessitam, é natural e útil no nosso estágio evolutivo.

O amor, mesmo o de esperança, ou ainda o de concupiscência ou servil são estágios pelo quais teremos que passar se almejamos algo mais elevado. O professor da faculdade de letras não necessita mais correr o dedo sobre as linhas para ler uma cartilha, voltando frequentemente atrás e perguntando o significado das palavras, mas é natural e próprio que uma criança nos primeiros contatos com o alfabeto proceda desse modo. Não devemos esquecer, inclusive, que aquele professor que hoje nos impressiona com o seu saber sobre lingüística, um dia passou por essa experiência nos bancos escolares. Tenhamos a humildade e a sensatez de reconhecer o nosso acanhado estado evolutivo na coisas do amor; tenhamos igualmente o empenho de cumprir os nossos deveres para irmos ao longo das vidas subindo a escala evolutiva sem nos acomodarmos com o pequeno avanço que tenhamos conseguido.

Retomando a analogia da criança e do professor de línguas: se a criança a pretexto de queimar etapas tentasse defender uma tese semelhante a que está sendo apresentada pelo professor, na verdade não estaria acelerando seu progresso e sim conturbando e retardando seu aprendizado; melhor seria que ela fizesse os exercícios da sua cartilha.

Vivamos então de reconhecimento na medida que o reconhecimento, mesmo interessado, servirá para nutrir nosso coração.

A gratidão em qualquer nível é um grande opositor do egoísmo e alimento da alma.

Amemos as misericórdias, não somente por amor a Deus e de Sua glória, mas ainda pelo amor de nós e de nossa felicidade eterna enquanto essa visão for para nós um certo sustentáculo proporcional ao nosso estado. Se a seguir Deus abrir o nosso coração a um amor mais puro e mais generoso, a um amor que se perde Nele sem retorno e que não vise mais que Sua glória, deixemo-nos entranhar sem tardança, nem hesitação por esse amor mais perfeito.

Se, então, nós amamos as misericórdias de Deus, se elas nos arrebatam de alegria e admiração pelo único prazer de ver Deus tão bom e tão grande; se nós somos tocados para o cumprimento de Sua vontade, da Sua glória, da forma como Lhe agrada; se nos sensibiliza a grandeza com que Ele faz um vaso de honra de quem era um vaso de ignomínia, rendamos-Lhe graças ainda, com a maior boa vontade, porque o benefício é maior; o mais puro dos dons de Deus é amar seus dons unicamente por Ele, sem buscar a si mesmo.


1 Carta endereçada a Senhora Maintenon, escrita provavelmente antes de 1690 e publicada em 1704.

2Rublo = moeda russa

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