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Tipos de amor

E um fariseu que era doutor da lei, interrogou Jesus, para o experimentar:

Mestre qual é o grande mandamento da lei?

Jesus disse-lhe:

Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo semelhante a este é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (Jesus Mateus Cap. 22).

1O amor é o tema central da vida, compreendê-lo é compreender a vida; vivencia-lo é ser feliz.

Uma forma de compreender um assunto qualquer é categoriza-lo, ou seja dividi-lo em tipos e espécies; ciências como a botânica e a química utilizam frequentemente esse método.

O amor a Deus e ao próximo pode ser classificado em cinco tipos, conforme a sua pureza: “servil”, “de concupiscência”, “de esperança”, “mesclado” e “puro” .

O egoísmo é o maior adversário do amor, à medida que ele diminui o amor cresce.

Ao longo das vidas sucessivas vamos nos afastando do amor servil, que é o primeiro degrau, onde o egoísmo domina completamente o sentimento e subindo a escala da evolução vamos nos aproximando do amor puro, despido de qualquer influência egoísta.

A compreensão dos cinco tipos de amor nos ajuda a separar com mais clareza amor de egoísmo posto que muita coisa que é entendida como amor, não passa de egoísmo.

A construção do amor puro é obra de milênios, no entanto ter uma noção do que ele significa já é um precioso auxiliar para nós que estamos nos primeiros degraus da evolução, servindo-nos como incentivo e orientação para buscá-lo.

Essa conceituação nos lembra um garimpeiro: à sua frente toneladas de areia nas quais há algumas gramas de ouro; aplicando seus braços na bateia derramando seu suor, que se mistura a água do rio, trabalha dia após dia... Com o passar do tempo a areia se foi e ficou o ouro precioso; nessa imagem a areia é o egoísmo e o ouro é o amor.

1º Degrau: O amor Servil

A gente pode amar a Deus, não por Ele, mas pelos bens distintos Dele, que dependem do Seu poder e que a gente espera obter. Falando francamente, não é amar a Deus, é amar a si mesmo e procurar unicamente por si, e não por Deus, mas o que vem Dele.

O empregado afirma:

–Eu gosto do meu patrão.

Perguntado qual o motivo porque ama o patrão, o empregado responde:

–Porque ele me paga o salário todo fim de mês. Não fosse ele eu não seria capaz de ganhar o meu dinheiro.

Então, questionaríamos:

–Você gosta do salário que o patrão lhe paga e não dele? E ele responderia:

–Sim, se por algum motivo deixar de pagar-me, provavelmente lhe terei rancor e procurarei outro.

E ainda insistiríamos, mas porque você gosta do salário?

–Porque é o meio de sobreviver, se pudesse sobreviver de outra forma, como por exemplo de rendimentos, eu o faria.

–Então em quem você pensa e a quem você quer? Diríamos por fim; ao que ele concluiria:

–Penso em mim e procuro exclusivamente o meu bem...

Tal é o amor servil, o amor do empregado (servo) pelo patrão (senhor).

Esse é o amor relatado muitas vezes no antigo testamento, onde alguns judeus amavam a Deus, para que Ele os protegesse nas guerras, os livrasse da fome e da escravidão, ou seja, amavam as vitórias e os mantimentos, não a Deus.

Embora chamando esse sentimento de amor servil, poderíamos talvez expressa-lo com mais clareza usando a palavras “temor servil”.

O empregado teme perder o salário, procura ser prudente e não maltratar o patrão. É já algum fruto, melhor que nada, mas ainda insuficiente. É ainda um resultado que nasce do egoísmo e do medo, com todo o veneno do egoísmo e do medo, mas já com algum antídoto de quem reconhece um poder superior e suas próprias limitações. Não poderíamos usar palavras como “humildade” ou “modéstia”, mas podemos dizer um “enfraquecimento do orgulho”.

Tal é o caso, por exemplo, da mulher que trata bem o marido, dependente que é da condição financeira do esposo e sem ânimo para enfrentar o mercado de trabalho; ou do homem que diz ser amigo do médium ou dos benfeitores espirituais, mas se interessa no fundo apenas pelas orientações que não seria capaz de obter por si mesmo.

Em certos casos onde a alma está completamente perdida, atolada no mal, esse temor servil pode ser de valia ao afastar perturbações maiores e criar um clima mais favorável, para que se semeie algum amor. Seria o caso de um perigoso assaltante de residências que resolvesse ganhar a vida “batendo carteiras”, abandonando os riscos dos crimes maiores. Talvez essa atitude fosse um primeiro passo, não se pode dizer “em direção da honestidade”, mas pelo menos “no afastamento do crime”.

No entanto, uma alma já esclarecida, com algum equilíbrio, deve procurar afastar-se dessa manifestação de egoísmo, que é como uma espécie de prostituição.

Teremos na vida muitas dependências; dependeremos de instituições, de pessoas, da própria natureza; devemos por ordem de Deus amar a tudo o que nos cerca, ordem que às vezes cumprimos e às vezes não; porém tentar ludibriar Deus, os outros, e nós mesmos, mascarando dependência como amor, é acrescentar à falta de caridade, a mentira; à indiferença somar o engôdo . Mais útil é, na dependência, buscar o fruto da humildade e da gratidão.

Voltando à imagem do patrão e do empregado, melhor seria o empregado dizer:

–Eu dependo do meu patrão para a minha sobrevivência; isto me obriga a todos os dias estar na sua empresa e cumprir as suas ordens; agradeço a Deus a oportunidade de um ganha-pão, conquanto esteja lutando por um emprego melhor.

Relembrando a parábola do garimpeiro: a areia (egoísmo) é tanta nesse primeiro tipo de amor, que é praticamente impossível visualizar o ouro (amor).

O garimpeiro trabalha de forma lenta e muito intermitente, pois a montanha de areia e a ausência dos sinais da presença do ouro são fatores que o desanimam na sua frágil motivação

2º Degrau: Amor de Concupiscência

Se amássemos a Deus como o único instrumento apropriado a nossa ventura e, pela incapacidade de encontrarmos nossa ventura em algum outro objeto.

Se olhássemos Deus como um meio de felicidade, que relacionássemos unicamente a nós como fim último, esse amor seria mais um amor a si próprio do que um amor a Deus: ao menos ele seria contrario à ordem, porque ele remeteria Deus, considerando-O como objeto ou instrumento de nossa felicidade, a nós e à nossa própria felicidade.

A vida nos proporciona objetos que indiscutivelmente nos trazem bem estar: um automóvel, uma casa, um simples pedaço de pão quando temos fome; consumimos esses objetos e nisso não há nada de mal. Transformar Deus ou as pessoas que nos cercam em simples objetos de prazer, descartáveis, é um mal.

A palavra concupiscência para designar esse tipo de amor é muito adequada ao significar numa primeira acepção “desejo libidinoso”, e “cobiça” num sentido figurado.

A alma que ama a Deus apenas por amor dela mesma, ama a si mesma como deveria amar a Deus, e ama a Deus como deveria amar a ela mesma.

Reflitamos sobre esta história tão comum:

Há uma mulher bonita, de modos e voz agradáveis. Um homem a quer, deseja-a; luta por ela; Afirma que sem ela sua vida não valerá nada, proclama sentir um amor infinito e dedica todas a sua inteligência e vontade a tê-la; todavia não se interessa pelo que ela pensa, sente, seus ideais e necessidades ou se ela está alegre ou triste; a não ser na medida em que conhecê-la, facilite conquistá-la.

Finalmente a têm. Zela pela saúde e pela beleza da “sua” mulher movido pelo prazer que ela proporciona, como zela pelo seu automóvel assegurando sua manutenção; porém o tempo passa, ela envelhece e decai fisicamente; problemas diversos a acabrunham e sua presença já não é tão agradável; E agora ao invés de auxiliá-la ele a dispensa friamente, como alguém que pusesse no lixo um eletrodoméstico que não tivesse mais conserto, e novamente passa a buscar “um amor eterno”.

Na verdade, o homem do nosso exemplo ama somente a si e considera Deus e o próximo como simples objetos para a realização dos seus desejos.

A alma que não amasse a Deus senão por Ele mesmo, estabeleceria a finalidade desse amor na sua própria comodidade

Todavia esse segundo degrau, “o amor de concupiscência”, é menos mau do que o primeiro, o “amor servil”, porque mesmo tendo o egoísmo por base, acrescentará à prudência e ao enfraquecimento do orgulho, algum serviço, no sentido de preservar o seu bem.

Pleno do medo da perda da ilusão da posse ainda, com sua atenção concentrada em si mesmo, tem uma proximidade maior do ser pretensamente amado, na medida em que não visa um bem distinto do ser amado, mas o ser amado como um todo. No exemplo dado acima, é menos mau, desejar a mulher como um simples objeto, do que desejar apenas o dinheiro da mulher, ignorando-a completamente.

Obviamente a decadência que apresentou a mulher do nosso exemplo é impossível em Deus. Deus nunca deixará de ser perfeito ou de nos amar, mas a provação será uma constante nas nossas vidas por séculos ainda, e a provação tornará claro o engôdo do amor de concupiscência; vindo a provação o suposto amor a Deus transforma-se em revolta e insubordinação.

Aqueles que amam a Deus visando os prazeres espirituais, ao experimentar as amarguras da prova interpretam essa reversão de expectativa como uma decadência de Deus, no entanto as dores que sofremos demonstram a perfeição da justiça de Deus ao nos responsabilizar pelos nossos atos, e também o seu amor ao zelar pela nossa educação.

Alguém ama a Deus com um amor de concupiscência e esse amor traz alegria e consolação, mas num determinado momento esse amor deve ser testemunhado na miséria, na doença e na solidão; a fé e a caridade exigem de nós o sacrifício dos áridos caminhos pedregosos e das portas estreitas, e o falso amor responderá apenas com o desalento,com a frustração. E provavelmente aquilo que chamávamos de amor desertará e a paixão se voltará para outra fonte de fuga.

Aplicando o conceito do amor de concupiscência à analogia do garimpeiro: a areia (egoísmo) é preponderante, mas já diminuiu ao ponto de vez por outra escapar um reflexo amarelo que indica a presença do ouro (amor).

Esses reflexos, ainda que breves, já são uma fonte de estímulo para o nosso garimpeiro, que passa a trabalhar de forma mais constante e empenhada.

3º Degrau: Amor de Esperança

A gente pode amar a Deus com um amor que a gente nomeia “de esperança”. Ele não é inteiramente interessado, porque ele é mesclado com um começo do amor de Deus por Ele mesmo.

Há muita diferença entre essas palavras:

–Eu amo a Deus pelo bem que eu espero Dele, e:

–Eu amo a Deus apenas pelo bem que eu espero Dele.

Uma coisa é amar exclusivamente pelas vantagens, ou seja, amar a Deus somente pelas vantagens que possamos auferir, sem considerar absolutamente nada além do ganho; outra bem diferente é amar principalmente pelas vantagens, ou seja: amamos a Deus por Ele mesmo e também o amamos pelas vantagens que esperamos ter com esse amor. Infelizmente no entanto a motivação advinda do “o que eu vou ganhar com isso” supera a motivação do amor puramente considerado.

No primeiro caso o ser amado em si mesmo é absolutamente ignorado e no segundo o ser amado é considerado, mas preterido face ao interesse próprio.

Esse amor de esperança é nomeado desse modo, porque a motivação do interesse próprio é ainda dominante: é um começo de conversão a Deus; mas não é ainda a verdadeira justiça.

O soberano amor não está senão na caridade .

Para nos aproximarmos da bondade infinita, temos que querê-la por ela mesma, porque para nós, ela, sendo a bondade infinita, nos enche de amor; e não pelas vantagens pessoais que possamos auferir dessa bondade.

O amor imperfeito não nos leva a Deus, entendido como bondade infinita, porque a esperança de tirar vantagens dessa bondade nos devolve à realidade dura do próprio egoísmo.

Seria como que, depois de declarar uma amizade sincera a um irmão que fosse rico, protestarmos nosso afeto, nossa sinceridade, nosso apreço e nossa admiração, perguntássemos:

–Mas qual é mesmo a importância que você me dará de presente no natal?

Esse amor apenas de esperança, não pode nem observar os mandamentos de Deus, nem ter a vida eterna.

Toda a esperança que acompanha esse amor, não impede, em virtude da fraqueza que predomina, que a alma deixe de cumprir os mandamentos, e consequentemente fracasse face às oportunidades da encarnação.

Nesse terceiro degrau, já nasce um começo do amor de caridade. Lembra a semente da parábola evangélica que lançada em meio aos espinhos nasce, cresce mas não dá frutos porque os espinhos preponderam e a sufocam.

Há o desejo sincero de servir a Deus, mas junto a esse desejo está a planta espinhosa da fraqueza, e tendo de escolher entre o amor de Deus e de si mesmo, escolhemos na maioria das vezes a si próprio. A postura teórica é clara, proclamamos aos quatro ventos a excelência da sabedoria e da providência divina, mas na hora do testemunho trilhamos com mais frequência o caminho da própria ignorância e da conveniência.

Face ao próximo nos encantamos com os atos heroicos do devotamento; mas na hora de escolher entre renunciar a si mesmo e salvar o outro, preferimos salvar a nós mesmos e entregar o outro à própria sorte.

O apóstolo Paulo traduz essa situação do amor de esperança com muita propriedade quando afirma: “não faço o bem que quero, mas o mal que eu não quero, esse eu o faço”.2

São Francisco de Sales caracteriza isso como o desejo imperfeito. Há a vontade de amar mas sempre precedida de um condicional. Pilatos queria salvar Jesus, mas o desejo de se afirmar politicamente junto aos judeus é maior. Faz a triste escolha: lava as mãos, entrega Jesus ao martírio, e fatura as vantagens políticas.

Emmanuel também faz um interessante estudo sobre esse tema: é com relação a colocar a conjunção “mas” antes ou depois da palavra “Jesus”.

O amor de esperança põe o “mas” depois de Jesus, dizendo:

–Não descreio da bondade de Jesus, mas não tenho forças para o trabalho cristão.

–Sei que o caminho permanece em Jesus, mas o mundo não me permite segui-lo.

Já o amor verdadeiro situa o “mas” antes de Jesus, afirmando:

–De mim mesmo nada possuo de bom, mas Jesus me suprirá de recursos, segundo minhas necessidades.

Não disponho de perfeito conhecimento do caminho, mas Jesus me conduzirá.

Em todo o caso quando o interesse próprio não é duramente afetado, em situações de menor importância, o amor de esperança escolhe Deus ou o próximo, preterindo a nós mesmos.

Ao fim, o balanço nos é desfavorável no amor de esperança: posto na balança o amor próprio supera o amor a Deus e ao próximo.

Mas ao contrário do amor servil ou de concupiscência, nos quais o amor próprio domina inteiramente, nesse amor, a esperança lança seu perfume:

O terceiro tipo de amor que é o amor de esperança pode ser chamado de purgatorial ou de escravidão, porque a alma se submete a fraquezas que não quer e sofre muito por não ser capaz de fazer o que, em tese, considera correto.

É noite ainda, as estrelas brilham no céu escuro, mas um clarão no ocidente anuncia que a madrugada não está distante; surge a esperança.

O egoísmo ainda reina, detém o poder; mas forças do bem, nas profundezas da alma em evolução principiam, ainda que timidamente, a levantar-se; sinalizam que o poder do amor próprio na nossa alma não é mais absoluto, surgem forças a se contraporem ao egoísmo e se não conseguem derrubá-lo, pelo menos já o ameaçam. Surge a esperança.

O náufrago está em pleno mar, sedento e cansado; porém as aves do céu, as folhas na água atestam que existe uma terra para sua salvação que não está longe. Surge a esperança.

A alma já imagina o gosto do amor e sente-se atraída para ele, porém por fraqueza na maioria das vezes opta pelo egoísmo e sofre com isso, mas o gosto do amor a faz tentar novamente.

Lembrando-nos do garimpeiro: a presença do ouro (amor) é plenamente visível porém a quantidade de areia ainda é maior.

O ouro que já é visível, no entanto, o estimula a um trabalho quase constante, pontilhado pelas crises de desânimo que suas fraquezas provocam.

–Oh, alma minha, quando deixarei de imaginar o Reino Celeste em livros e a senti-lo em intenções fugazes, e passarei a ver seus alicerces firmados em meu coração e a sentir sua beleza em ações concretas?

Degrau: O amor Mesclado

Existe um amor de caridade, que é ainda mesclado de qualquer resto de interesse próprio, mas que é o verdadeiro amor que justifica; porque é a motivação desinteressada que o domina.

Este amor procura Deus por Ele mesmo, e o prefere, a tudo, sem nenhuma exceção.

Não é por essa preferência que ele é capaz de se justificar. Ele não prefere menos Deus e sua glória, a nós e nossos interesses, que todas as criaturas que estão a nosso redor.

Condição prévia para atin­gir o Amor Mesclado – Vencer a Afeição Posses­siva

Eis a razão:

Deus não nos fez para as outras criaturas, nem nos fez para nós mesmos, mas para Ele unicamente.

Há uma única razão, um único “porque” em que podemos apoiar nossa existência: Deus.

Ele é a base.

Devemos amar as criaturas, por amor de seu criador, sabendo que são falíveis, e que sua dignidade advém do fato de serem criadas por Ele, assim como nós.

A única coisa da qual Deus é ciumento em nós é de nós mesmos;

Pode parecer blasfêmia afirmar que Deus, suprema pureza, santidade e perfeição, é “ciumento”; mas neste contexto “ciúme” identifica: “Alguém que ama e que não quer que o ser amado tenha um determinado amor por outro ser”.

Deus nos ama e quer que amemos a tudo e a todos, estabelecendo uma única exceção: o amor próprio, sinônimo de egoísmo. Amar no geral é cumprir os mandamentos de Deus; amar a si próprio egoisticamente é contrariar a ordem estabelecida por Deus.

Nós não somos menos criaturas abjetas, e indignas de entrar em concorrência com Deus, que o restante dos seres criados.

Disputar a primazia com Deus não é apenas uma atitude insensata, tem também um componente de indignidade e vilania; Exemplifiquemos a mãe amorosa dirige a casa com sabedoria e dedicação, distribui os recursos com equidade atendendo às necessidades de cada uma das filhas; mantém a casa com justiça que alia ao amor e à misericórdia. Uma das filhas, ignorante e imperfeita, quer assumir o seu lugar, assenhorear-se dos bens, distribuir a justiça, decidir o que é melhor para os seus irmãos; examinando o caso identificaríamos na filha desencaminhada, não apenas a insensatez, mas igualmente o desejo desonesto de apropriar-se do poder doméstico para se beneficiar.

Deus deve ter a primazia em tudo, principalmente na nossa alma e no nosso amor, e não devemos igualmente disputar o papel de Deus na vida das outras pessoas

É esse amor de nós mesmos ao qual se reduzem todas as afeições possessivas. Como diz Santo Agostinho seguidamente:

–Tudo que não vem do princípio da caridade, vem da cupidez.

A afirmação de Santo Agostinho guarda semelhança com outra de Jesus:

–Quem não é por mim é contra mim.

Toda afeição possessiva é uma tentativa de desempenhar o papel de Deus na vida do outro, e não tem como motivação o bem do outro, mas o nosso próprio egoísmo.

Por consequência é esse falso amor egoísta, única raiz de todos os vícios, que o ciúme de Deus ataca precisamente em nós. Enquanto nós temos apenas um amor de esperança, onde o interesse próprio domina sobre o interesse da glória de Deus, uma alma não é ainda justa.



Voltando ao conceito de amor mesclado

O amor já não é uma farsa (amor servil e de concupiscência) e não é apenas uma esperança, uma intenção; é uma realidade.

É um momento decisivo para a alma quando a balança se inverte: o amor de esperança vai aumentando progressivamente com a evolução, numa visão aritmética poderíamos nos expressar assim: num primeiro momento o amor é 10% e o egoísmo é 90%; passa-se o tempo, o espírito evolui, o amor já é 40% mas o egoísmo ainda obtém a vitória com 60%; a alma sofre muito e se angustia com sua derrota estando perto da vitória.

Num determinado estágio, há quase um empate: o amor atinge 49% mas o egoísmo triunfa com 51%. A alma já tem uma consciência suficientemente esclarecida para entender e pressentir todo o valor do bem, e o fato que dentro dela mesma o mal ainda seja vitorioso, em virtude de sua fraqueza, é um tormento moral sem par.

Porém, a química da alma, em virtude da inviolável lei da evolução, dá mais um passo e a situação se inverte: o egoísmo foi reduzido a 49% e o amor detém 51%. Pela primeira vez a alma sente o gosto da vitória, surpresa, vê repentinamente o prato do mal descer e o prato do bem subir. É um momento mágico de ruptura, ela atravessou a fronteira, seus pés pisam a terra prometida; às suas costas ouve os gritos dos adversários e está sujeita ainda a alguma pedrada vinda do outro lado, mas sente a alegria e o gosto da segurança. Ajoelha-se e em prece agradece a Deus.

O egoísmo não está destruído de todo, faz incursões em províncias distantes e por vezes desafia o poder constituído; mas perdeu o governo da alma.

Na capital do mundo interior, o amor de Deus toma as principais decisões, que são cumpridas nas diversas províncias da alma.

A alma ama ainda a Deus por Ele e por si; mas de sorte que ela ama principalmente a glória de Deus e que ela não procura o bem estar próprio senão como um meio que ela relaciona e subordina ao fim último que é a glória de Seu criador.

Não é necessário que essa preferência de Deus e de sua glória a nós e a nossos interesses seja sempre explicito na alma justa. A fé nos assegura que a glória de Deus e nossa felicidade são inseparáveis. É suficiente que esta preferência tão justa e tão necessária seja real, porém implícita, para as ocasiões comuns da vida. Não é necessário que ela torne-se explicita, senão nas ocasiões extraordinárias onde Deus queira nos provar para nos purificar.

O ato de proclamar o amor a Deus não significa que o amemos efetivamente, é frequente que essa necessidade de proclamar o amor seguidamente nasça inclusive da necessidade de nos convencermos de algo que no fundo temos dúvida. O que mais importa é sentir e não convencer ou convencer-se.

Amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo entendimento é atitude íntima, que não necessita ser proclamada a cada hora. Lembremos Jesus:

–E quando orares não seja como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e as esquinas das ruas para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam seu galardão. Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e fechando a porta ora a teu Pai que está em oculto; e teu Pai, que vê secretamente, te recompensará.

Manteremos portanto nossa dedicação ao amor divino com modéstia e discrição, exceção feita aos momentos excepcionais de provação quando devemos testemunhar, mesmo a custa da própria vida, nosso amor e confiança em Deus.

A preferência pelo amor divino é um dom de Deus que virá, naturalmente, em compreensão e coragem, proporcionais às provas que tenhamos de suportar.

O quarto tipo de amor que é o amor interessado pode ser chamado de mercenário ou iluminativo porque nele a alma tem um resto de intenção de lucro no relacionamento com Deus, porém já supera o egoísmo, e trabalha firmemente na conquista das virtudes.

O hábito de vasculhar o coração para verificar se estamos numa posição de crédito ou de débito face à escolha entre o amor verdadeiro e o egoísmo é perigoso, por açular o orgulho ou o desânimo, deixemos todo julgamento para Deus.

Um exemplo de amor ao próximo, com essa motivação de caridade mesclada é um pai que se sacrifica pelo filho em inúmeras ocasiões, exceto numa: sabendo ser melhor para o filho uma viagem a uma terra distante, não favorece o empreendimento para mantê-lo ao seu lado. Esse único deslize não retira o seu mérito de anos de dedicação, mas certamente o empobrece.

Voltando ao nosso garimpeiro: feliz olha o produto de seu trabalho, já possui ouro (amor), ouro impuro pela presença de areia (egoísmo), mas ouro.

Com a sua motivação elevada pela certeza, dedica-se de forma redobrada ao trabalho.



5º Degrau: O puro amor

Nós podemos amar a Deus com um amor que é uma caridade pura e sem nenhuma mescla da motivação do interesse próprio. Assim ama-se a Deus no meio das penas, da maneira que não O amaríamos menos do que se Ele nos cumulasse a alma de consolações.

Nem o temor de punições, nem o desejo de recompensas tomam parte no puro amor.

Não se sentiria maior amor a Deus, nem pelo mérito, nem pela perfeição, nem pela ventura que a gente deve encontrar amando-0.

O amaríamos então, quando por suposição impossível, Ele devesse ignorar que nós O amamos, e que Ele quisesse deixar eternamente infelizes aqueles que O amassem.

A gente O ama, contudo, como soberana e infalível beatitude daqueles que lhe são fiéis.

A gente O ama como nosso bem pessoal, como nossa recompensa prometida, como nosso tudo.

Coisa bem diversa é um amor que nasce no íntimo de nós mesmos, no fundo de nosso coração e que jorra para fora, de um amor que nasce do amor próprio, voltado para dentro.

A pureza do amor consiste em não querer nada para si, a não visar senão o que bem apraz a Deus, pelo que a gente estaria pronto a preferir as penas eternas à glória.

Mesmo na vida comum, todos nós já assistimos essas cenas de abnegação: eu registro na memória uma senhora que adotou uma menina com processo grave de paralisia de origem cerebral.

A menina não se movia, não falava, tomava todas as horas de lazer da mãe, que por sinal era simples telefonista, que dependia de modesto salário. A menina tudo exigia e nada dava em troca, mas a senhora prosseguia com o mesmo desvelado amor.

A única recompensa que teve da menina por todos os anos de dedicação foi certa vez o ensaio de um beijinho; mas a mãe se dava por satisfeita e recompensada.

O quinto tipo de amor que é o puro amor merece também ser chamado de o amor das crianças ou unificador, porque se dirige ao Pai com toda confiança e sem nenhum interesse próprio, e que fazendo-nos renunciar a própria vida e a tudo, nos une a Deus.

A alma, desinteressada na pura caridade, aguarda, deseja, espera Deus como seu bem, sua recompensa, como aquele que lhe está prometido e que é tudo para ela.

Ela O quer para si, mas não por amor de si.

Ela O quer para si a fim de se conformar ao que bem apraz a Deus que o quer para ela.

Mas ela não O quer por amor de si, porque não é a motivação do interesse próprio que a excita.

Tal é o puro e perfeito amor, que faz os mesmos atos de todas as mesmas virtudes que o amor mesclado; com a única diferença que ele “caça” (persegue e destrói) o medo, bem como todas as inquietações. Ele é inclusive isento de toda a afobação do amor mesclado.

No estágio anterior, caridade mesclada, a provação leva à resignação. A vontade de Deus diverge da nossa, mas com lágrimas e sofrimento abrimos mão da nossa vontade e nos submetemos à vontade de Deus. A resignação ainda embrionária, conquanto já virtude, supõe uma certa tristeza, uma certa pena em cumprir a vontade de Deus.

Nos estágios mais adiantados a resignação já se apresentará como o consentimento do coração; o coração consente em cumprir a vontade de Deus com alegria, abdicando das vantagens e lucros materiais e imediatos pois sabe que a vontade de Deus sempre plantará bens infinitos e eternos.

Exemplo dessa vontade que não mais possui a resignação entristecida, porque se glorifica na prova, é a oração de Jesus antes da paixão, quando ao invés de se entristecer, proclama:

–Pai é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho glorifique a Ti assim como lhe deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste. E a vida eterna é esta; que te conheçam, a Ti somente, como único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu Te glorifiquei na Terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer e agora glorifica-me Oh Pai, junto de Ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.

No quinto estado (caridade pura) a provação é vista com indiferença, no sentido que não diferenciamos a vontade de Deus da nossa, e portanto tudo é aceito com alegria, já que queremos tudo que Deus quer e não queremos nada que Ele não queira.

Essa santa indiferença, que é a retirada do interesse do amor, longe de excluir os desejos desinteressados, é o princípio real e positivo de todos os desejos desinteressados que a lei nos prescreve e todos aqueles que a graça nos inspira.

A alma indiferente, não somente deseja plenamente a sua salvação no tanto que ela apraz a Deus, mas ainda a perseverança, a correção de seus defeitos, o crescimento do amor por estas graças, e geralmente sem nenhuma exceção, por todos os bens espirituais e mesmo temporais que são a ordem da providência, uma preparação de meios para a nossa salvação e de nosso próximo.

A santa indiferença admite, não somente, desejos distintos e solicitações expressas para o cumprimento de todas as vontades de Deus que nos são conhecidas como também os desejos gerais de todas as vontades de Deus que nos são desconhecidas.

Um pai ama seu filho; o filho adoece, para salvá-lo o pai necessita abrir mão das economias que acumulou durante anos e que garantiriam sua velhice, visto o tratamento ser muito caro; o pai tem que tomar uma decisão rápida; abre mão das suas economias; o tratamento é feito; o filho fica curado; o pai não consegue conter o seu contentamento. As pessoas que acompanham o fato se admiram da indiferença que o pai manifesta pela perda da velhice tranquila e por vinte anos de privações e contenção de gastos que se evaporaram; a esposa, no entanto, agradece a Deus a santa indiferença do marido face aos seus bens perante as necessidades do filho, pois foi essa indiferença que permitiu a cura.

O garimpeiro percebe que terminou uma fase de sua vida, possui ouro puro em quantidade suficiente, é livre e rico. Procura seu Pai e Senhor que lhe indicará novas atividades e grandes realizações.

Resumo

Nos três primeiros estágios de amor (servil, concupiscência e esperança) a provação provoca a revolta. Nossos desejos não foram atendidos e no fundo sentimos raiva de Deus, por sua vontade ser diversa da nossa.

No entanto devemos ser pacientes, não forçando situações ao tentar retirar de forma atabalhoada o interesse do coração humano. Voltando ao exemplo do garimpeiro, seria como se ele sendo pressionado pela sua precipitação, começasse a jogar fora grande quantidade de areia para chegar mais rápido ao seu objetivo. Ora jogando a areia fora estava também abrindo mão da pequena porcentagem de ouro que a acompanhava. Essa atitude somente levaria a um retrabalho futuro e a dilatação do prazo para a conclusão da tarefa.

Há que se aguardar os acontecimentos deixando que os desígnios de Deus conduzam cada um.

A motivação interesseira dá frutos que são preciosos conforme a posição evolutiva do espírito, tais sejam o temor do erro e o zelo, ainda que egoísta.

O que é essencial no direcionamento das almas que possuem um amor ainda mesclado é de não fazer senão seguir passo a passo a graça de Deus com uma paciência, uma precaução e uma delicadeza infinitas.

E por fim lembremos o bem aventurado apóstolo Paulo:

Ainda que eu fale a língua dos homens e até mesmo a língua dos anjos, se não tiver caridade, sou apenas um metal que soa e um sino que tine; e ainda que tivesse o dom da profecia, e penetrasse em todos os mistérios, e tivesse uma perfeita ciência de todas as coisas; e se tivesse toda fé possível, capaz de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada serei. E quando tivesse distribuído meus bens para alimentar os pobres e houvesse entregado o meu corpo para ser queimado, se não tivesse caridade, nada disso me serviria.

A caridade é paciente, é doce e benigna; a caridade não é invejosa, não é temerária e precipitada; não se enche de orgulho; não é desdenhosa; não procura seus próprios interesses; não se vangloria e não se irrita com nada; não suspeita mal, não se alegra com a injustiça, e sim com a verdade; tudo suporta, tudo crê,tudo espera e tudo sofre.

Agora estas três virtudes: a fé, a esperança e a caridade permanecem; mas entre elas a mais excelente é a caridade.

1 Ideias apoiadas no livro de Canelone “Máximas dos Santos”

2Carta aos Romanos, capítulo 7

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