Discernimento

Prefácio

Discernir, separar o joio do trigo, nas mensagem que nos são transmitidas continuamente, por pessoas que nos cercam, oradores e lideres, meios de comunicação, etc, é fundamental para nossas vidas

Nessa atividade constante de discernimento, a mais importante, sem dúvida, é distinguirmos em nós mesmos o que é bom do que é mau, o vício da virtude, aquilo que já é fruto do progresso e que nos arrasta para o futuro, daquilo que, enrosco no passado, retarda nosso progresso.

É necessário para nosso adiantamento moral, que saibamos pesar cada ato nosso para que, mentes imperfeitas que somos, não caiamos em dois excessos que constantemente nos cercam: a tentação de transferir responsabilidades, eximindo-nos dos nossos deveres, ou de outro lado, querermos “carregar o mundo as costas” assumindo tarefas que não nos dizem respeito.

Tendo por base a fé raciocinada, a Doutrina dos Espíritos é uma chave preciosa que nos permite separar a realidade da ilusão, como podemos inferir dessa pequena amostra dos seus ensinamentos.

  1. O discenimento segundo o Evangelho

Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec

9. Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? - Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro ao teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? - Hipócritas, tirai primeiro a trave ao vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão.(S. MATEUS, cap. VII, vv. 3 a 5.).

10.Uma das insensatezes da Humanidade consiste em vermos o mal de outrem, antes de vermos o mal que está em nós. Para julgar-se a si mesmo, fora preciso que o homem pudesse ver seu interior num espelho, pudesse, de certo modo, transportar-se para fora de si próprio, considerar-se como outra pessoa e perguntar: Que pensaria eu, se visse alguém fazer o que faço? Incontestavelmente, é o orgulho que induz o homem a dissimular, para si mesmo, os seus defeitos, tanto morais, quanto físicos. Semelhante insensatez é essencialmente contrária à caridade, porquanto a verdadeira caridade é modesta, simples e indulgente.

Caridade orgulhosa é um contra-senso, visto que esses dois sentimentos se neutralizam um ao outro. Com efeito, como poderá um homem, bastante presunçoso para acreditar na importância da sua personalidade e na supremacia das suas qualidades, possuir ao mesmo tempo abnegação bastante para fazer ressaltar em outrem o bem que o eclipsaria, em vez do mal que o exalçaria? Por isso mesmo, porque é o pai de muitos vícios, o orgulho é também a negação de muitas virtudes. Ele se encontra na base e como móvel de quase todas as ações humanas. Essa a razão por que Jesus se empenhou tanto em combatê-lo, como principal obstáculo ao progresso.

11. Não julgueis, a fim de não serdes julgados; - porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que voz tenhais servido para com os outros. (S. MATEUS, cap. VII, vv. 1 e 2.)

12. Então, os escribas e os fariseus lhe trouxeram uma mulher que fora surpreendida em adultério e, pondo-a de pé no meio do povo, - disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher acaba de ser surpreendida em adultério; - ora, Moisés, pela lei, ordena que se lapidem as adúlteras. Qual sobre isso a tua opinião?” - Diziam isto para o tentarem e terem de que o acusar. Jesus, porém, abaixando-se, entrou a escrever na terra com o dedo. - Como continuassem a interrogá-lo, ele se levantou e disse: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.” - Em seguida, abaixando-se de novo, continuou a escrever no chão. - Quanto aos que o interrogavam, esses, ouvindo-o falar daquele modo, se retiraram, um após outro, afastando-se primeiro os velhos. Ficou, pois, Jesus a sós com a mulher, colocada no meio da praça.

Então, levantando-se, perguntou-lhe Jesus: “Mulher, onde estão os que te acusaram? Ninguém te condenou?” - Ela respondeu: “Não, Senhor.” Disse-lhe Jesus: “Também eu não te condenarei. Vai-te e de futuro não tornes a pecar.” (S. JOÃO, cap. VIII, vv. 3 a 11.)

13. "Atire-lhe a primeira pedra aquele que estiver isento de pecado", disse Jesus. Essa sentença faz da indulgência um dever para nós outros, porque ninguém há que não necessite, para si próprio, de indulgência. Ela nos ensina que não devemos julgar com mais severidade os outros, do que nos julgamos a nós mesmos, nem condenar em outrem aquilo de que nos absolvemos. Antes de profligarmos a alguém uma falta, vejamos se a mesma censura não nos pode ser feita.

O reproche lançado à conduta de outrem pode obedecer a dois móveis: reprimir o mal, ou desacreditar a pessoa cujos atos se criticam. Não tem escusa nunca este último propósito, porquanto, no caso, então, só há maledicência e maldade. O primeiro pode ser louvável e constitui mesmo, em certas ocasiões, um dever, porque um bem deverá daí resultar, e porque, a não ser assim, jamais, na sociedade, se reprimiria o mal. Não cumpre, aliás, ao homem auxiliar o progresso do seu semelhante? Importa, pois, não se tome em sentido absoluto este princípio: "Não julgueis se não quiserdes ser julgado", porquanto a letra mata e o espírito vivifica.

Não é possível que Jesus haja proibido se profligue o mal, uma vez que ele próprio nos deu o exemplo, tendo-o feito, até, em termos enérgicos. O que quis significar é que a autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que censura.

Tornar-se alguém culpado daquilo que condena noutrem é abdicar dessa autoridade, é privarse do direito de repressão. A consciência íntima, ao demais, nega respeito e submissão voluntária àquele que, investido de um poder qualquer, viola as leis e os princípios de cuja aplicação lhe cabe o encargo. Aos olhos de Deus, uma única autoridade legítima existe: a que se apóia no exemplo que dá do bem. E o que, igualmente, ressalta das palavras de Jesus.

      1. Instrução dos Espíritos

A Indulgência

16. Espíritas, queremos falar-vos hoje da indulgência, sentimento doce e fraternal que todo homem deve alimentar para com seus irmãos, mas do qual bem poucos fazem uso.

A indulgência não vê os defeitos de outrem, ou, se os vê, evita falar deles, divulgá-los.

Ao contrário, oculta-os, a fim de que se não tornem conhecidos senão dela unicamente, e, se a malevolência os descobre, tem sempre pronta uma escusa para eles, escusa plausível, séria, não das que, com aparência de atenuar a falta, mais a evidenciam com pérfida intenção.

A indulgência jamais se ocupa com os maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto possível. Não faz observações chocantes, não tem nos lábios censuras; apenas conselhos e, as mais das vezes, velados. Quando criticais, que conseqüência se há de tirar das vossas palavras? A de que não tereis feito o que reprovais, visto que estais a censurar; que valeis mais do que o culpado. O homens! quando será que julgareis os vossos próprios corações, os vossos próprios pensamentos, os vossos próprios atos, sem vos ocupardes com o que fazem vossos irmãos? Quando só tereis olhares severos sobre vós mesmos? Sede, pois, severos para convosco, indulgentes para com os outros. Lembrai-vos daquele que julga em última instância, que vê os pensamentos íntimos de cada coração e que, por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que censurais, ou condena o que relevais, porque conhece o móvel de todos os atos. Lembrai-vos de que vós, que clamais em altas vozes: anátema! tereis, quiçá, cometido faltas mais graves.

Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita. - José, Espírito protetor. (Bordéus, 1863.)

17. Sede indulgentes com as faltas alheias, quaisquer que elas sejam; não julgueis com severidade senão as vossas próprias ações e o Senhor usará de indulgência para convosco, como de indulgência houverdes usado para com os outros.

Sustentai os fortes: animai-os à perseverança. Fortalecei os fracos, mostrando-lhes a bondade de Deus, que leva em conta o menor arrependimento; mostrai a todos o anjo da penitência estendendo suas brancas asas sobre as faltas dos humanos e velando-as assim aos olhares daquele que não pode tolerar o que é impuro. Compreendei todos a misericórdia infinita de vosso Pai e não esqueçais nunca de lhe dizer, pelos pensamentos, mas, sobretudo, pelos atos: "Perdoai as nossas ofensas, como perdoamos aos que nos hão ofendido." Compreendei bem o valor destas sublimes palavras, nas quais não somente a letra é admirável, mas principalmente o ensino que ela veste.

Que é o que pedis ao Senhor, quando implorais para vós o seu perdão? Será unicamente o olvido das vossas ofensas? Olvido que vos deixaria no nada, porquanto, se Deus se limitasse a esquecer as vossas faltas, Ele não puniria, é exato, mas tampouco recompensaria. A recompensa não pode constituir prêmio do bem que não foi feito, nem, ainda menos, do mal que se haja praticado, embora esse mal fosse esquecido. Pedindo-lhe que perdoe os vossos desvios, o que lhe pedis é o favor de suas graças, para não reincidirdes neles, é a força de que necessitais para enveredar por outras sendas, as da submissão e do amor, nas quais podereis juntar ao arrependimento a reparação.

Quando perdoardes aos vossos irmãos, não vos contenteis com o estender o véu do esquecimento sobre suas faltas, porquanto, as mais das vezes, muito transparente é esse véu para os olhares vossos. Levai-lhes simultaneamente, com o perdão, o amor; fazei por eles o que pediríeis fizesse o vosso Pai celestial por vós. Substitui a cólera que conspurca, pelo amor que purifica. Pregai, exemplificando, essa caridade ativa, infatigável, que Jesus vos ensinou; pregai-a, como ele o fez durante todo o tempo em que esteve na Terra, visível aos olhos corporais e como ainda a prega incessantemente, desde que se tornou visível tãosomente aos olhos do Espírito. Segui esse modelo divino; caminhai em suas pegadas; elas vos conduzirão ao refúgio onde encontrareis o repouso após a luta. Como ele, carregai todos vós as vossas cruzes e subi penosamente, mas com coragem, o vosso calvário, em cujo cimo está a glorificação. - João, bispo de Bordéus. (1862.)

18. Caros amigos, sede severos convosco, indulgentes para as fraquezas dos outros. E esta uma prática da santa caridade, que bem poucas pessoas observam. Todos vós tendes maus pendores a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar; todos tendes um fardo mais ou menos pesado a alijar, para poderdes galgar o cume da montanha do progresso. Por que, então, haveis de mostrar-vos tão clarividentes com relação ao próximo e tão cegos com relação a vós mesmos? Quando deixareis de perceber, nos olhos de vossos irmãos, o pequenino argueiro que os incomoda, sem atentardes na trave que, nos vossos olhos, vos cega, fazendovos ir de queda em queda? Crede nos vossos irmãos, os Espíritos. Todo homem, bastante orgulhoso para se julgar superior, em virtude e mérito, aos seus irmãos encarnados, é insensato e culpado: Deus o castigará no dia da sua justiça. O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, que consistem em ver cada um apenas superficialmente os defeitos de outrem e esforçar-se por fazer que prevaleça o que há nele de bom e virtuoso, porquanto, embora o coração humano seja um abismo de corrupção, sempre há, nalgumas de suas dobras mais ocultas, o gérmen de bons sentimentos, centelha vivaz da essência espiritual.

Espiritismo! doutrina consoladora e bendita! felizes dos que te conhecem e tiram proveito dos salutares ensinamentos dos Espíritos do Senhor! Para esses, iluminado está o caminho, ao longo do qual podem ler estas palavras que lhes indicam o meio de chegarem ao termo da jornada: caridade prática, caridade do coração, caridade para com o próximo, como para si mesmo; numa palavra: caridade para com todos e amor a Deus acima de todas as coisas, porque o amor a Deus resume todos os deveres e porque impossível é amar realmente a Deus, sem praticar a caridade, da qual fez ele uma lei para todas as criaturas. -Dufêtre, bispo de Nevers. (Bordéus.)

  1. Estudando a Codificação

Textos de Allan Kardec

      1. Modos de se distinguirem os bons dos maus Espíritos

Livro do Médiuns – Cap. 24

262. Se a identidade absoluta dos Espíritos é, em muitos casos, uma questão acessória e sem importância, o mesmo já não se dá com a distinção a ser feita entre bons e maus Espíritos. Pode ser-nos indiferente a individualidade deles; suas qualidades, nunca. Em todas as comunicações instrutivas, é sobre este ponto, conseguinte-mente, que se deve fixar a atenção, porque só ele nos pode dar a medida da confiança que devemos ter no Espírito que se manifesta, seja qual for o nome sob que o faça. É bom, ou mau, o Espírito que se comunica? Em que grau da escala espírita se encontra? Eis as questões capitais. (Veja-se: "Escala espírita", em O Livro dos Espíritos,n . 100.)

263. Já dissemos que os Espíritos devem ser julgados, como os homens, pela linguagem de que usam. Suponhamos que um homem receba vinte cartas de pessoas que lhe são desconhecidas; pelo estilo, pelas idéias, por uma imensidade de indícios, enfim, verificará se aquelas pessoas são instruídas ou ignorantes, polidas ou mal-educadas, superficiais, profundas, frívolas, orgulhosas, sérias, levianas, Sentimentais, etc. Assim, também, com os Espíritos. Devemos considerá-los correspondentes que nunca vimos e procurar conhecer o que pensaríamos do saber e do caráter de um homem que dissesse ou escrevesse tais coisas. Pode estabelecer-se como regra invariável e sem exceção que - a linguagem dos Espíritos está sempre em relação com o grau de elevação a que já tenham chegado. Os Espíritos realmente superiores não só dizem unicamente coisas boas, como também as dizem em termos isentos, de modo absoluto, de toda trivialidade. Por melhores que sejam essas coisas, se uma única expressão denotando baixeza as macula, isto constitui um sinal indubitável de inferioridade; com mais forte razão, se o conjunto do ditado fere as conveniências pela sua grosseria. A linguagem revela sempre a sua procedência, quer pelos pensamentos que exprime, quer pela forma, e, ainda mesmo que algum Espírito queira iludir-nos sobre a sua pretensa superioridade, bastará conversemos algum tempo com ele para a apreciarmos.

264. A bondade e a afabilidade são atributos essenciais dos Espíritos depurados. Não têm ódio, nem aos homens, nem aos outros Espíritos. Lamentam as fraquezas, criticam os erros, mas sempre com moderação, sem fel e sem animosidade. Admita-se que os Espíritos verdadeiramente bons não podem querer senão o bem e dizer senão coisas boas e se concluirá que tudo o que denote, na linguagem dos Espíritos, falta de bondade e de benignidade não pode provir de um bom Espírito.

265. A inteligência longe está de constituir um indício certo de superioridade, porquanto a inteligência e a moral nem sempre andam emparelhadas. Pode um Espírito ser bom, afável, e ter conhecimentos limitados, ao passo que outro, inteligente e instruído, pode ser muito inferior em moralidade.

É crença bastante generalizada que, interrogando-se o Espírito de um homem que, na Terra, foi sábio em certa especialidade, com mais segurança se obterá a verdade.

Isto é lógico; entretanto, nem sempre é o que se dá. A experiência demonstra que os sábios, tanto quanto os demais homens, sobretudo os desencarnados de pouco tempo, ainda se acham sob o império dos preconceitos da vida corpórea; eles não se despojam imediatamente do espírito de sistema. Pode> pois, acontecer que, sob a influência das idéias que esposaram em vida e das quais fizeram para si um título de glória, vejam com menos clareza do que supomos. Não apresentamos este princípio como regra; longe disso. Dizemos apenas que o fato se dá e que, por conseguinte, a ciência humana que eles possuem não constitui sempre uma prova da sua infalibilidade, como Espíritos.

266. Em se submetendo todas as comunicações a um exame escrupuloso, em se lhes perscrutando e analisando o pensamento e as expressões, como é de uso fazer-se quando se trata de julgar uma obra literária, rejeitando-se, sem hesitação, tudo o que peque contra a lógica e o bom-senso, tudo o que desminta o caráter do Espírito que se supõe ser o que se está manifestando, leva-se o desânimo aos Espíritos mentirosos, que acabam por se retirar, uma vez fiquem bem convencidos de que não lograrão iludir. Repetimos: este meio é único, mas é infalível, porque não há comunicação má que resista a uma crítica ngorosa. Os bons espíritos nunca se ofendem com esta, pois que eles próprios a aconselham e porque nada têm que temer do exame. Apenas os maus se formalizam e procuram evitá-lo, porque tudo têm a perder. Só com isso provam o que são.

Eis aqui o conselho que a tal respeito nos deu São Luís:

"Qualquer que seja a confiança legítima que vos inspirem os Espíritos que presidem aos vossos trabalhos, uma recomendação há que nunca será demais repetir e que deveríeis ter presente sempre na vossa lembrança, quando vos entregais aos vossos estudos: é a de pesar e meditar, é a de submeter ao cadinho da razão mais severa todas as comunicações que receberdes; é a de não deixardes e pedir as explicações necessárias a formardes opinião segura, desde que um ponto vos pareça suspeito, duvidoso ou obscuro."



      1. Resumo dos princípios para se reconhecer a qualidade dos espíritos1

Allan Kardec forneceu alguns princípios para identificar a qualidade de espíritos comunicantes2; acreditamos que muitos desses princípios se aplicam a todo gênero de comunicações através da linguagem. Colocamos a seguir esse texto fazendo alguns comentários3:

Não há outro critério, senão o bom-senso, para se aquilatar do valor dos Espíritos.

Não há uma regra fixa e invariável para analisar um texto; devemos nos valer da sensatez e examinarmos inúmeros pontos.

Apreciam-se os Espíritos pela linguagem de que usam e pelas suas ações. Estas se traduzem pelos sentimentos que eles inspiram e pelos conselhos que dão.

Se um dado texto inspira sentimentos de ódio, raiva, revolta, cupidez, inveja, esse é um texto ruim; se, ao contrário, ao ouvi-lo somos tomados de compaixão, esperança, desejo de nos melhorarmos, amor ao próximo, esse é um texto bom. Se nos aconselha a vingança, o furto, o homicídio ou algo que prejudique a nossos irmãos, certamente vem das trevas; se, ao invés, nos recomenda o perdão, o amor, o trabalho virá de uma boa fonte.

Admitido que os bons Espíritos só podem dizer e fazer o bem, de um bom Espírito não pode provir o que tenda para o mal.

Se a mensagem nos induz, de alguma forma, ao mal, ela esta comprometida com o mal.

Os Espíritos superiores usam sempre de uma linguagem digna, nobre, elevada, sem eiva4 de trivialidade; tudo dizem com simplicidade e modéstia, jamais se vangloriam, nem se jactam de seu saber, ou da posição que ocupam entre os outros. A dos Espíritos inferiores ou vulgares sempre algo refletem das paixões humanas. Toda expressão que denote baixeza, pretensão, arrogância, fanfarronice, acrimônia, é indício característico de inferioridade e de embuste, se o Espírito se apresenta com um nome ou um título respeitável e venerado.

Se a mensagem exalta quem a transmite, é sintoma de falta de elevação, e deverá ser ouvida com reserva não importando se quem a passe seja um chefe de estado, um doutor ou um líder religioso com milhões de seguidores; quanto mais orgulho ela envolver tanto mais de baixo procede; a humildade é sinal de altura moral.

Não se deve julgar da qualidade do Espírito pela forma material (linguagem em desacordo com o dizer erudito), nem pela correção do estilo. É preciso sondar-lhe o íntimo, analisar-lhe as palavras, pesá-las friamente, maduramente e sem prevenção. Qualquer ofensa à lógica, à razão e à ponderação não pode deixar dúvida sobre a sua procedência, seja qual for o nome com que se ostente o Espírito.

A qualidade de linguagem não se refere a estilo nem correção gramatical ou ortográfica. Dois poemas me vêm a memória:

O primeiro de Catulo da Paixão Cearense, que dirige, na década de 1920, uma carta em versos ao Senado do Brasil, que nos emociona muito, onde o poeta vale-se do dizer sertanejo, e vai comendo letras, dispensando concordâncias, mas expõe com rara precisão os problemas políticos que o país enfrentava e que até hoje, passado quase um século, é um texto atual.

O segundo num leprosário, próximo a São Paulo, onde um dos internados, de escassa escolaridade, ao ressaltar de maneira breve e simples a importância da prece “Pai Nosso”, legada por Jesus, punha em suas palavras, sem métrica nem rima, tal poesia, que envolvia a todos numa atmosfera de encantamento e respeito, alegria e esperança.

Os bons Espíritos só dizem o que sabem; calam-se ou confessam a sua ignorância sobre o que não sabem. Os maus falam de tudo com desassombro, sem se preocuparem com a verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choque o bom-senso, aponta a fraude, desde que o Espírito se dê por ser um Espírito esclarecido.

Sócrates se considerava sábio porque pelo menos sabia o que ignorava.

Ter consciência do pouco que sabemos e do muito que desconhecemos e temos para aprender é uma característica dos espíritos elevados.

Reconhecem-se ainda os Espíritos levianos, pela facilidade com que predizem o futuro e precisam fatos materiais de que não nos é dado ter conhecimento. Os bons Espíritos fazem que as coisas futuras sejam pressentidas, quando esse pressentimento convenha; nunca, porém, determinam datas. A previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação.

O próprio Jesus afirmou “isso só o Pai o sabe”, quando interrogado sobre o dia e a hora em que a terra passaria pelas tribulações que ele anunciava.

Quando lemos revistas velhas em locais de espera, como consultórios médicos, por exemplo, ficamos surpresos como jornalistas bem informados, políticos, historiadores e sociólogos erram nas suas previsões.

Há leis de causa e efeito que nos permitem inferir tendências e levantar hipóteses prováveis, precisar datas para acontecimentos futuros que envolvem inúmeras pessoas e circunstâncias é tarefa complicadíssima e freqüentemente inútil a que um espírito sério não se dedicará.

Os Espíritos superiores se exprimem com simplicidade, sem prolixidade. Têm o estilo conciso, sem exclusão da poesia das idéias e das expressões, claro, inteligível a todos, sem demandar esforço para ser compreendido. Têm a arte de dizer muitas coisas em poucas palavras, porque cada palavra é empregada com exatidão. Os Espíritos inferiores, ou falsos sábios, ocultam sob o empolamento, ou a ênfase, o vazio de suas idéias. Usam de uma linguagem pretensiosa, ridícula, ou obscura, à força de quererem pareça profunda.

Dizer muito falando pouco; ter a caridade de falar de maneira que o interlocutor entenda; são características dos bons espíritos.

Os bons Espíritos nunca ordenam; não se impõem, aconselham e, se não são escutados, retiram-se. Os maus são imperiosos; dão ordens, querem ser obedecidos e não se afastam, haja o que houver. Todo Espírito que impõe trai a sua inferioridade. São exclusivistas e absolutos em suas opiniões; pretendem ter o privilégio da verdade. Exigem crença cega e jamais apelam para a razão, por saberem que a razão os desmascararia.

B


iógrafos do grande vulto cristão, Martin Luther King, valoroso combatente pela igualdade, informam que ele jamais dava ordens; expunha as necessidades e os recursos com sua autoridade moral e surgiam voluntários no cumprimento da tarefa.

Pôr-se como dono da verdade, agir de forma autoritária, solicitar apoio e crença sem expor a razão, são indicadores da insegurança de quem determina.

Se um líder religioso é autoritário; não admite que os que não partilham de suas idéias possam estar certos; postula punições para os que não aceitem seu pensamento, saibamos que ele não está unido às forças do bem; Jesus foi claro “aprendei comigo que sou manso e doce de coração”.



Os bons Espíritos não lisonjeiam; aprovam o bem feito, mas sempre com reserva. Os maus prodigalizam exagerados elogios, estimulam o orgulho e a vaidade, embora pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles a quem desejam captar.

Conquistar alguém pela vaidade não é ato moralmente válido. Incentivar o bem, estimular o caído a levantar-se, semear a esperança são tarefas luminosas. Lembremo-nos de Jesus: “quem se eleva será rebaixado”. Dadas as imperfeições humanas, açular a vaidade e o orgulho é falta de caridade com as fraquezas do próximo.

Os Espíritos superiores desprezam, em tudo, as puerilidades da forma. Só os Espíritos vulgares ligam importância a particularidades mesquinhas, incompatíveis com idéias verdadeiramente elevadas. Toda prescrição meticulosa é sinal certo de inferioridade e de fraude, da parte de um Espírito que tome um nome imponente.

Há religiões e religiosos extremamente cuidadosos com a forma, principalmente nos atos de culto; advogam vestimentas especiais dessa ou daquela cor, palavras decoradas, gestos padronizados etc; isso sem dúvida é sinal de inferioridade. Lembremos Jesus: “E porque estais ansiosos pelo que haveis de vestir?”

Deve-se desconfiar dos nomes singulares e ridículos, que alguns Espíritos adotam, quando querem impor-se à credulidade; fora soberanamente absurdo tomar a sério semelhantes nomes.

Deve-se igualmente desconfiar dos Espíritos que com muita facilidade se apresentam, dando nomes extremamente venerados, e não lhes aceitar o que digam, senão com muita reserva. Aí, sobretudo, é que uma verificação severa se faz indispensável, porquanto isso não passa muitas vezes de uma máscara que eles tomam, para dar a crer que se acham em relações íntimas com os Espíritos excelsos. Por esse meio, lisonjeiam a vaidade do médium e dela se aproveitam freqüentemente para induzi-lo a atitudes lamentáveis e ridículas.

Espíritos elevados tem ocupações importantes, enormes responsabilidades e seria improvável deixarem tudo isso de lado para tratar de problemas triviais nossos, que nós mesmos deveríamos resolver.

Os bons Espíritos são muito escrupulosos no tocante às atitudes que hajam aconselhar. Elas, qualquer que seja o caso, nunca deixam de objetivar um fim sério e eminentemente útil. Devem, pois, ter-se por suspeitas todas as que não apresentam este caráter, ou sejam condenáveis perante a razão, e cumpre refletir maduramente antes de tomá-las, a fim de evitarem-se mistificações desagradáveis.

O tempo dos espíritos superiores é extremamente valioso, e eles são muito criteriosos no seu emprego. Certamente não perderão seu tempo atendendo a pedidos pueris ou ocupando-se de coisas tolas.

Isso vale igualmente para títulos pomposos: alguns religiosos usam o título de apóstolo mas falam e fazem coisas que envergonhariam um homem comum; evidentemente merecem nossa compaixão, jamais nossa adesão.

Também se reconhecem os bons Espíritos pela prudente reserva que guardam sobre todos os assuntos que possam trazer comprometimento. Repugna-lhes desvendar o mal, enquanto que aos Espíritos levianos, ou malfazejos apraz pô-lo em evidência. Ao passo que os bons procuram atenuar os erros e pregam a indulgência, os maus os exageram e sopram a cizânia5, por meio de insinuações pérfidas.

Discrição, caridade com as faltas alheias, evitar constrangimento desnecessário é próprio das almas nobres; ressaltar o mal, semear a discórdia é característica de pequenez moral.

Os bons Espíritos só prescrevem o bem. Máxima nenhuma, nenhum conselho, que se não conformem estritamente com a pura caridade evangélica, podem ser obra de bons Espíritos.

Se alguém destoa do amor ao próximo preconizado por Jesus, não está a serviço do bem.

Jamais os bons Espíritos aconselham senão o que seja perfeitamente racional. Qualquer recomendação que se afaste da linha reta do bom-senso, ou das leis imutáveis da Natureza, denuncia um Espírito atrasado e, portanto, pouco merecedor de confiança.

Aconselhar um ato insensato, sugerir algo que contradiz o raciocínio mais elementar é indicativo de irresponsabilidade e ignorância.

Muitas vezes, os Espíritos imperfeitos se aproveitam dos meios de que dispõem, de comunicar-se, para dar conselhos pérfidos. Excitam a desconfiança e a animosidade contra os que lhes são antipáticos. Especialmente os que lhes podem desmascarar as imposturas são objeto da maior animadversão6 da parte deles. Alvejam os homens fracos, para os induzir ao mal. Empregando alternativamente, para melhor convencê-los, os sofismas, os sarcasmos, as injúrias e até demonstrações materiais do poder oculto de que dispõem, se empenham em desviá-los da senda da verdade.

Cada um de nós, espíritos imperfeitos, temos virtudes e vícios, qualidades e defeitos; dia a dia lutamos para que o nosso lado bom cresça e o lado mau diminua.

Se observamos que a mensagem apela ao nosso lado ruim, estimula nossos vícios, nos induz a regredirmos face as modestas conquistas morais que alcançamos, essa mensagem não procede da luz; se além disso vem envolta numa atmosfera negativa de desprezo e engôdo deve ser descartada; Se o seu autor dá demonstrações de poder e inteligência mais devemos fugir dela e suplicar a misericórdia de Deus para o seu autor.

Os Espíritos dos que na Terra tiveram uma única preocupação, material ou moral, se se não desprenderam da influência da matéria, continuam sob o império das idéias terrenas e trazem consigo uma parte dos preconceitos, das predileções e mesmo das manias que tinham neste mundo. Fácil é isso de reconhecer-se pela linguagem de que se servem.

Preconceito, seja racial, político, econômico, social ou religioso, indica inferioridade. Manias também são sintomas de desequilíbrio.

Os conhecimentos de que alguns Espíritos se enfeitam, às vezes, com uma espécie de ostentação, não constituem sinal da superioridade deles. A inalterável pureza dos sentimentos morais é, a esse respeito, a verdadeira pedra de toque.

Ter conhecimento não implica em avanço moral; alguém que use seu conhecimento para o mal pode infelicitar a muitos, tanto quanto usando o seu saber para o bem pode auxiliar multidões. Nesse sentido o conhecimento é como a fortuna financeira: pode financiar o progresso e o trabalho, tanto como apoiar a guerra e o crime.

Já a vaidade intelectual é indício certo de inferioridade.

Não basta se interrogue um Espírito para conhecer-se a verdade. Precisamos, antes de tudo, saber a quem nos dirigimos; porquanto, os Espíritos inferiores, ignorantes que são, tratam frivolamente das questões mais sérias. Também não basta que um Espírito tenha sido na Terra um grande homem, para que, no mundo espírita, se ache de posse da soberana ciência. Só a virtude pode, purificando-o, aproximá-lo de Deus e dilatar-lhe os conhecimentos.

Seria ingênuo supor que um impostor, quando questionado admitisse a sua impostura. É inútil perguntar ao mentiroso se ele está mentindo. Necessário se faz o exame do que ouvimos.

Barrabás foi aclamado pela multidão, Caifaz e Pôncio Pilatos eram muito conceituados no ambiente político da Judéia; Jesus foi ridicularizado, condenado e morreu sob zombarias. O aplauso e a consideração popular freqüentemente são injustos. Francisco de Salles, pensador cristão que detentor de extensa cultura e extremamente brando e doce de trato, afirmava: “a multidão não deve ser levada a sério, nem quando aplaude, nem quando vaia”

Da parte dos Espíritos superiores, o gracejo é muitas vezes fino e vivo, nunca, porém, trivial. Nos Espíritos zombadores, quando não são grosseiros, a sátira mordaz é, não raro, muito apropositada.

O espírito zombador no mais das vezes é grosseiro quando zomba, buscando ridicularizar; quando demonstra sutileza seu humor é cáustico ferino, escarnecendo da pessoa justamente no seu ponto mais sensível, buscando feri-la profundamente.

Os benfeitores fazem o oposto, gracejam desanuviando e alegrando o ambiente em que se encontram. Naturalmente não se valerão de formas já conhecidas de todos; apresentarão algo inusitado, que provoque surpresa e por isso reforce a graça do que se diz.

Estudando-se cuidadosamente o caráter dos Espíritos que se apresentam, sobretudo do ponto de vista moral, reconhecem-se-lhes a natureza e o grau de confiança que devem merecer. O bom-senso não poderia enganar.

Observar, analisar, refletir; a confiança nasce do conhecimento que temos de um ser; como confiar em quem desconhecemos? Mas o que devemos saber a respeito de alguém para determinar o grau de confiança que devemos depositar nele? A sua condição moral. O inteligente, o rico o possuidor de títulos que forem desonestos, mentirosos, invejosos ou cruéis deverão ser tratados com muito mais reserva e cautela que o obscuro que possuir os mesmos defeitos.

Para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é preciso, primeiro, que cada um saiba julgar a si mesmo. Muita gente há, infelizmente, que toma suas próprias opiniões pessoais como paradigma exclusivo do bom e do mau, do verdadeiro e do falso; tudo o que lhes contradiga a maneira de ver, a suas idéias e ao sistema que conceberam, ou adotaram, lhes parece mau. A semelhante gente evidentemente falta a qualidade primacial7 para uma apreciação sã: a retidão do juízo. Disso, porém, nem suspeitam. E o defeito sobre que mais se iludem os homens.

Conhecer a si mesmo é a base de todo conhecimento exterior. Erradicar de nossas mentes o preconceito, a parcialidade, a postura de donos da verdade é o primeiro passo para não sermos enganados. A própria linguagem traduz essa condição: ao dizermos “enganei-me” dizemos de forma inconsciente que fomos o maior responsável pelas mentiras que aceitamos como verdades.

Médium: Francisco Cândido Xavier

      1. A Lição do Discernimento

IRMÃO X – Contos e Apologos - CAP 14

Finda a cena brutal, em que o povo pretendia lapidar a mulher infeliz, na praça pública, Pedro, que seguia o Senhor, de perto, interpelou-o, zelosamente:

- Mestre, desculpando os erros das mulheres que fogem ao ministério do lar, não estaremos oferecendo apoio a devassidão? Abrir os braços no espetáculo deprimente que acabamos de ver não será proteger o pecado?

Jesus meditou, meditou... e respondeu:

  • Simão, seremos sempre julgados pela medida com que julgarmos os semelhantes.

  • Sim – clamou o apóstolo, irritado , compreendo a caridade que nos deve afastar dos juízos errôneos, mas porventura conseguiremos viver sem discernir? Uma pecadora, trazida ao apedrejamento, não perturbará a tranqüilidade das famílias? Não representará um quadro de lama para as crianças e para os jovens? Não sera uma excitação à pratica do mal?

Ante as duras interrogações, o Messias observou, sereno:

  • Quem poderá examinar agora o acontecimento, em toda a extensão dele? Sabemos, acaso, quantas lágrimas terá vertido essa desventurada mulher até a queda fatal no grande infortúnio? Quem terá dado a esse pobre coração feminino o primeiro impulso para o despenhadeiro? E quem sabe, Pedro, essa desditosa irmã terá sido arrastada a loucura, atendendo a desesperadas necessidades?

O discípulo, contudo, no propósito de exalçar a justiça, acrescentou:

  • De qualquer modo, a corrigenda é inadiável imperativo. Se ela nos merece compaixão e bondade, há então, noutros setores, o culpado ou os culpados que precisamos punir. Quem terá provocado a cena desagradável a que assistimos? Geralmente, as mulheres desse naipe são reservadas e fogem à multidão... Que motivos teriam trazido essa infeliz ao clamor da praça?

Jesus sorriu, complacente, e tornou:

  • Quem sabe a pobrezinha andaria à procura de assistência?

O pescador de Cafarnaum acentuou contrariado:

  • O responsável devia expiar semelhante delito. Sou contra a desordem e na gritaria que presenciamos estou convencido de que o cárcere e os açoites deveriam funcionar...

Nesse ponto do entendimento, velha mendiga que ouvia a conversação, caminhando vagarosamente, quase junto deles, exclamou para Simão, surpreendido:

  • Galileu bondoso, herdeiro da fé vitoriosa de nossos pais, graças sejam dadas a Deus, nosso Poderoso Senhor! A mulher apedrejada é filha de minha irmã paralítica e cega. Moramos na s vizinhanças e vínhamos ao mercado em busca de alimento. Abeirávamo-nos daqui, quando fomos assaltadas por um rapaz que, depois de repelido por ela, em luta corpo a corpo, saiu a indicá-la ao povo para a lapidação, simplesmente porque a minha infeliz sobrinha, digna de melhor sorte, não tem tido até hoje uma vida regular... Ambas estamos feridas e, com dificuldade, tornaremos para casa... Se é possível, galileu generoso, restabelece a verdade e faze a justiça!

  • E onde está o miserável? gritou Simão, enérgico, diante do mestre que o seguia, bondoso.

  • Ali!... Ali!... informou a velhinha, com o júbilo de uma criança reconduzida repentinamente a alegria. E apontou uma uma casa de peregrinos, para onde o apóstolo se dirigiu, acompanhado de Jesus que o observava, sereno.

Por trás de antiga porta, escondia-se um homem trêmulo de vergonha.

Pedro avançou de punhos cerrados, mas, a breves segundos, estacou, pálido e abatido.

O autor da cena triste era Efraim, filho de Jafar, pupilo de sua sogra e comensal de sua própria mesa.

Seguira o Mestre com piedosa atitude, mas Pedro bem reconhecia agora que o irmão adotivo de sua mulher guardava intenção diferente.

Angustiado, em lágrimas de cólera e amargura, Simão adiantou-se para o Cristo, à maneira de menino necessitado de proteção, e bradou:

  • Mestre, Mestre!... Que fazer?!...

Jesus, porém, acolheu-o amorosamente nos braços e murmurou:

- Pedro, não julguemos para não sermos julgados. Aprendamos contudo a discernir.

      1. O Irmão

Alma Eros, Parnaso de Além Túmulo, pag 374

Porque ajuízas com ironia,

Sobre as obscuridades do irmão que sobe

dificilmente a montanha?


Quando atravessava a floresta

O pobrezinho julgou que o Amado lhe

falava à mente pela voz do trovão

E lhe erigiu altares

Enfeitados de flexas.


Depois,

Quando penetrou noutros círculos,

Acreditou que o Senhor pertencia somente

ao seu grupo

E que as outras comunidades humanas

eram condenadas...


Lutou, sofreu, feriu-se em dolorosas

experiências.

O Amado, porém, jamais o deserdou por

isso.

Deu-lhe novas forças,

Concedeu-lhe oportunidades diferentes.

Por vezes,

Buscou-o no fundo dos abismos,

Como pai carinhoso,

Em busca da criancinha abandonada.

De tempos a tempos,

Fê-lo dormir no regaço,

Ao influxo do bendito esquecimento,

Para que o sol no trabalho lhe sorrisse

outra vez.


Não observas em seu caminho áspero a 

tua própria história?

Não atormentes com palavras amargas o

irmão que se eleva laboriosamente,

Dando ao mundo o que possui de melhor.

Ama-o, faze-lhe o bem que possas.

Se já atingiste

Algum topo de colina,

Contempla as culminâncias que te

aguardam

Entre as nuvens,

E estende mãos fraternas

Àquele que ainda não pode ver o que já

vês.


      1. Pecado e pecador8

Amado, não sigas o mal, mas o bem. Quem faz o bem, é de Deus; mas quem faz o mal, não tem visto a Deus.” (III João, 11)

A sociedade humana não deveria operar a divisão de si própria, como sendo um campo em que se separam bons e maus, mas sim viver qual grande família em que se integram os espíritos que começam a compreender o Pai e os que ainda não conseguiram presenti-Lo.

Claro que as palavras “bondade”e “perversidade” ainda comparecerão, por vastíssimos anos, no dicionário terrestre, definindo certas atitudes mentais inferiores; todavia, é forçoso convir que a questão do mal vai obtendo novas interpretações na inteligência humana.

O evangelista apresenta conceito justo. João não nos diz que o perverso será exilado de nosso Pai, nem que se conserva ausente da Criação. Apenas afirma “que não tem visto a Deus”.

Isto não significa que devemos cruzar os braços, ante as ervas venenosas e zonas pestilenciais do caminho; todavia, obriga-nos a recordar que um lavrador não retira espinheiros e detritos do solo, a fim de convertê-lo em precipícios.

Muita gente acredita que o “homem caído” é alguém que deva ser aniquilado. Jesus, no entanto, não adotou essa diretriz. Dirigindo-se, amorosamente, ao pecador, sabia-se, antes de tudo, defrontado por enfermo infeliz, a quem não se poderia subtrair as características de eternidade.

Lute-se contra o crime, mas ampare-se a criatura que lhe enredou nas malhas tenebrosas.

O Mestre indicou o combate constante contra o mal, contudo, aguarda a fraternidade legítima entre os homens por marco sublime do reino Celeste.

  1. Pergunte a si mesmo

  1. Você tem meditado sobre a importância do conhercer-se a si mesmo?

  2. O que você tem feito para conhecer-se mais e melhor?

  3. Você tem procurado mascarar os próprios defeitos? Sabe que isto é contra a caridade que é modesta, simples e indulgente?

  4. Antes de reprovar uma falta em alguém, tem considerado se a mesma reprovação não lhe possa ser aplicada?

  5. Você tem lembrado que a única autoridade válida é aquela que se apóia no exemplo?

  6. Você tem procurado reprimir o mal, e por isso sabe que com essa intenção pode ser louvável a censura da conduta alheia? Rememore as vezes em que fez isso:

  • No lar

  • no trabalho

  • com os amigos

  • com desconhecidos

1transcrito do Livro "A Virtude da Fé" - Edison Carneiro

2 Livro dos Médiuns, contidas no capítulo 24, ítem 267– Da Identidade dos Espíritos, conforme tradução de Guillon Ribeiro publicada pela FEB (Federação Espírita Brasileira – www.febnet.org.br)

3Os trechos em tipo normal são as citações de Kardec, os com tipo itálico são do compilador.

4Eiva = Imperfeição física ou moral

5Cizânia = desavença, rixa, discórdia

6Animadversão = forte repulsa

7Primacial = primordial, que vem em primeiro

8- Emmanuel- F. C. Xavier – Pão Nosso Cap. 122



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