Velhice

Visão Prática

A Cícero, romano ilustre.



Entre as figuras do império romano, tenho um carinho muito especial por Marco Túlio Cícero.

Cícero nasceu em 106 A.C. e foi assassinado em 43 A.C. a mando de Marco Antônio, o mesmo general romano que se envolveria com Cleópatra. Alguns historiadores afirmam Cícero covarde e interesseiro. Eu o afirmo um dos precursores de Jesus.

Cícero escreveu inúmeros tratados, entre eles destacam-se 2: "O Tratado da Amizade" e o "Tratado da Velhice". No "Tratado da Amizade" Cícero propõe como valor máximo a amizade, que estende a tudo o que foi criado, propondo amizade pelas plantas, pelos animais e, naturalmente, pelas pessoas. Usou o termo amizade, para tornar claro que o amor de que falava não implicava necessariamente o sexo.

Cícero admitia, seguindo a linha de Sócrates e Platão, a re-encarnação, a sobrevivência da alma, e que, a vida após a morte será boa ou má conforme tenhamos sido bons ou maus nesta vida.

Este item do nosso livrinho será escrito, tomando como base o "Tratado da Velhice", escrito por Cícero, um ano antes de morrer, aos 62 anos de idade.

Muitos consideram a velhice um mal. Alguns, tolamente, fogem aos anos mentindo sobre a própria idade.

Como muitas vezes dissemos neste livrinho: A velhice será má para quem está aferrado às coisas da matéria, sem condições de amar. A velhice será prazerosa para quem preza os valores do espírito.

Cícero viveu plenamente sua velhice.

Eis suas respostas a algumas perguntas comuns.

A velhice é uma idade inferior?

O ano possui quatro estações: inverno, primavera, verão e outono.

Cada estação do ano tem seu encanto: o inverno, o aconchego; a primavera, a beleza; o verão, a força; o outono, os frutos. Tem também o seu desencanto: o inverno é frio; a primavera é passageira; o verão é violento; o outono é trabalhoso.

O homem, à semelhança do ano, possui quatro idades; infância, juventude, madureza e velhice.

A infância corresponde ao inverno, o aconchego do lar é preponderante, mas há, pela própria ignorância infantil, uma certa indiferença pelos destinos do mundo e daqueles que nos cercam, uma certa frieza.

A juventude, primavera da alma, é florida pelos sonhos e pelo romance, mas é passageira, inconsistente.

A madureza é o verão, com o sol forte contrastando com as tempestades rápidas, a idade da força, do impor-se; mas pelo próprio atropelo do tempo, das experiências que se sucedem rápidas, das necessidades próprias e da família, avançamos, por vezes pisando nos outros, sendo violentos.

A velhice é a estação dos frutos, quando finalmente vamos colher o que semeamos durante a vida. Poucos cuidam de semear o bem, portanto, muitos colhem amarguras e tempestades. Mesmo para esses que semearam o amor, a velhice será trabalhosa, pois o tempo todos os dias dirá ao velho que aproveitou bem o seu tempo na infância, juventude e madureza:

- Procure ser mais rápido. Estou acabando.

Assim sendo, não há idade inferior. Cada época da vida está igualmente plena de oportunidades. O que não devemos esquecer é que o que é oportuno em uma dada idade será inoportuno em outra.

As faculdades mentais são decadentes na velhice?

Cada idade tem seu perfil intelectual: na infância é assombrosa a capacidade de aprender, porém o acervo cultural (posse de significados é pequeno.

A mocidade caracteriza-se pelo encantamento por tudo que é novo, mas com dificuldade em tomar decisões.

A maturidade é capacitada em ações, mas pobre em reflexões.

A velhice é rica em reflexões e experiência mas apresenta dificuldades no aprendizado.

Em todas as idades encontramos pensamentos arrazoados e ideias absolutamente sem fundamento.

A velhice goza, no geral, a vantagem de ser mais sensata



A proximidade da morte torna a velhice atormentada?

Um primeiro engano é achar que velhice significa proximidade da morte. A morte sempre está próxima, em qualquer etapa da vida.

Um segundo engano é considerar a morte má. Dedicamos um capítulo deste livrinho à morte, mas aqui reafirmamos: como é bela a morte do velho que viveu bem, do velho que aprendeu a vida e consequentemente não teme a morte.

Encerra sua peregrinação em paz, e parte para a vida maior, como o trabalhador que deixa a oficina com a consciência em paz, e volta ao lar com o coração cheio de amor.

A velhice é parada?

A temeridade é atabalhoada, sai fazendo sem pensar, cheia de fantasias. Essa agitação inócua e inconsequente é frequentemente confundida com dinamismo. Só o tempo, ao demonstrar a ausência de bons frutos, tornará claro que toda essa movimentação foi tolice. O navio levantou âncoras, enfunou as velas, movimentou a marujada, aguardou a maré, deixou o porto e ... encalhou na praia ao lado.

A vida ensina ao velho a prudência. Prudência que por vezes impõe ações drásticas. Cícero cita o exemplo do velho Ápio Cláudio que, no senado romano, quando estava a ponto de ser concluído um tratado de paz com Pirro, levantou-se e bradou:

Para onde se desgarraram vossas mentes que outrora costumavam permanecer retas, agora tombadas em demência?

No caso, a prudência determinava a guerra e não a paz.

Faltam forças à velhice?

Se falamos de força física, é evidente que sim. Se falamos de força moral, não. A velhice consciente, indiscutivelmente aumenta a força moral.

Se o velho muito errou, seus erros lhe terão ensinado o que não deve ser feito, e isso lhe dá peso para evitar novos erros. Se acertou algumas vezes, isso lhe dá peso para indicar a direção correta.

O próprio desinteresse, que a velhice favorece, torna o velho isento e desapaixonado. Isenção e equilíbrio são fontes de autoridade moral.

A velhice diminui o prazer?

A velhice explicita o contraste entre o corpo e o espírito: o corpo entra em decadência, de outro lado o espírito está pleno de experiência.

Os prazeres que exigem muito do corpo estarão proibidos na velhice. Os prazeres que exijam muito do espírito, só poderão ser gozados na velhice.

A experiência, a sabedoria, os bons conselhos permitem à velhice, segurar o timão e dirigir o leme. Conduzir o navio da vida enseja muita emoção e muita realização. Seja na função pública, nas diversas esferas e poderes constituídos, seja na condução de empresas, seja na condução da família, seja na orientação religiosa, seja no apoio aos amigos mais jovens, quantas coisas boas pode o velho oferecer, pela sua experiência no mar da vida. Pois o mar não é lógico e só convivendo longamente com ele é que passamos a conhecê-lo. Para saber navegar é preciso navegar muitas milhas.

A velhice favorece o prazer do estudo. Cícero, aos 61 anos teve grande prazer em aprender a língua dos gregos e poder adentrar na sua cultura sem os empecilhos de interpretes e traduções.

Ouçamos Cícero sobre o prazer da agricultura:

Venho agora aos prazeres da agricultura, nos quais encontro incrível encanto, pois a idade, a eles, não pode trazer nenhum obstáculo e me parecem ser os que melhor concordam com a vida do sábio.
Têm sua razão de ser na terra, sempre dócil, e que não torna a dar sem usura o que recebeu, às vezes com menor, mas frequentemente com maior proveito. Todavia, encantam-me não tanto os frutos mas a natureza e a virtude da própria terra. Logo que, no seu seio, amolecido e aberto pela gradagem1, recebe a semente que a mão do lavrador espalhou, esta semente, primeiro encoberta e que depois fende o solo, uma vez aquecida pelo calor e pela compressão, faz sair dela a verdura, que, apoiando-se sobre os filamentos da raiz cresce insensivelmente, elevando-se em colmos2 nodosos, já quase pubescentes3, mas fechados, ainda, numa bainha; quando sai dessa bainha, espalha o fruto da espiga, disposto em ordem, e se mune com uma trincheira de barbas de espiga contra o ataque dos pequenos pássaros.
Não me posso saciar com o encanto desse espetáculo, e quisera que conhecêsseis o descanso e as delícias da minha velhice.

Moral da História

  • A velhice pode ser muito prazerosa.

  • A velhice é a idade do espírito.









Visão Poética



Velai!

Nem uma hora pudestes velar comigo?
Jesus (no Horto).


I - O velho enfermo

Vela de parafina,

pequenina e fina,

que fazes nesse caixote,

nessa tampa de lata,

ao lado do doente pobre?


Trêmula, afastas as trevas

mas projetas sombras,

que balançam inseguras,

escuras imagens duras

nas paredes de papelão...


O doente é terminal,

o barraco é pobre,

a doença é tenaz,

a vizinhança é erma...


O doente murmura:

-Nossa Senhora, valei-me...

A voz não sai...


Mais alguns ais...


De novo sussurra:

-Jesus...



É um sopro a respiração...

O velho e cansado coração

bate desgovernado...





II - Alguém está ouvindo?


Quem te ouvirá

velho pobre?


A multidão na praça

ouve boquiaberta

a voz do demagogo

no alto-falante

possante,

mas, que ilusão

projetarão

teus gemidos,

velho caído?


A multidão no estádio

ouve gingando

em alta temperatura

a banda de rock,

mas, que sensação

despertarão

tuas dores,

velho febril?


A multidão de soldados

ouve preocupada

as instruções do general

antes da batalha brutal,

mas, que rebelião

levantarão

tuas lágrimas,

velho resignado?




A quem falas

velho doente?


Ao chão batido,

que há um mês

não é varrido?


Ao teu cão,

cujo último latido

há três dias se calou?


Falas às estrelas

à lua, aos planetas?

Onde está tua ciência,

tua tecnologia,

teu ônibus espacial,

velho terminal?


Talvez fales

a vela de parafina,

tão fina,

tão pequenina,

com momentos

tão contados

quanto os teus?



III - O castiçal


Desce do céu,

um castiçal

de luz imortal.


Seis braços,

tem o castiçal.


Seis almas puras

formam o castiçal.



Seis espíritos de luz

iluminam o castiçal.


Seis anjos do Senhor

sustentam o castiçal.


Desce do céu

um castiçal

de luz imortal.


IV - O que fazeis?


Seis almas em luz,

seis almas em prece,

ondulam suas emoções,

sublimes, compassivas...


São seis velas acesas

no velador.

Velam a dor,

velam a dor

com véus de lágrimas

nos olhos velados.

Velam a dor,

velam a dor...




V - Por que viestes?


Almas invisíveis

que formais este castiçal,

amplo, vivo, imortal,

trazido dos templos da luz,

que fazeis aqui

nesta choça

ao lado desta vela de parafina

tão fina e pequenina?


Este velho é pobre,

este barraco é sujo,

esta doença é final,

este doente está só.


Por que os anjos

dispensam seu tempo

na noite infinita,

e, solícitos,

derramam sua luz,

se ao centro

apenas há este velho esquecido

em rude sofrimento?


Por que a angélica ciranda,

por que a florida guirlanda,

se ao centro

apenas há um velho moribundo

dando adeus ao mundo?


Que fazeis aqui

com vossos mantos brancos,

com vossas feições belas

com vossas mãos estendidas,

com vossas mentes profundas,

com vossos corações plenos de amor,

se ao centro, imóvel e arquejante,

há apenas um velho sofredor?


Será que os espíritos da luz

aqui vieram

só porque este velho

sussurrou:

"-Jesus..."?


Só porque este velho

pediu a valia

de Maria?


Só porque este velho,

no último adeus,

pensa em Deus?


VI - A morte


É o fim;

um ultimo aí,

o desprendimento

completa-se.


Uma chuva de centelhas,

miríades de fagulhas,

mil estrelas,

deixam o corpo exausto.


Acende-se a sétima

chama-alma do castiçal,

luminosa como as demais,

É uma de suas iguais...


Em cintilantes reflexos,

indescritíveis,

os seis olhares

se refletem no sétimo.


Seis abraços,

seis beijos,

sete sorrisos...


É o viajor que chega

percorrida a estrada.


É o operário que volta ao lar

concluído o trabalho.


É o soldado que abraça a família

vencida a batalha.


É o cristão vitorioso em prece de gratidão

ao término da re-encarnação.


VII - Rumo ao infinito


A vela de parafina apaga-se,

mas a vida evola-se

em gigantesco clarão.


O castiçal agora com sete chamas

alteia-se clareando a noite terrestre.


Sete luzes iluminando

a noite estrelada.


Sete raios cruzando

a noite infinita.


Sete almas subindo

na noite bendita.


Benditas,

benditas...




1Gradagem = esfacelar os torrões da terra

2Colmo = tipo de caule

3Pubescente = pelos curtos e macios que cobrem certos frutos (pêssego, por exemplo)

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